Doces Palavras
3 Capítulo 3 ஃ “Eu não sou o seu querido”
Notas iniciais
Capítulo 3 — Eu não sou o seu querido
Leonel Adamo suspirou pela milésima vez ao ouvir o quanto o escritor favorito e amor platônico de Dionísio, era cheiroso e tinha uma barba macia. Aquelas informações não serviam mais, não depois de ouvi-lo repetir pela manhã toda sobre o tal encontro inesperado com o bonitão. É claro que estava radiante pelo acontecido, afinal, era de seu conhecimento o quanto aquilo era importante para o melhor amigo, mas Dio beirava o insuportável quando começava a falar sobre Nicolai e suas mil e uma qualidades.
E não era possível que alguém fosse tão perfeito quanto o amigo pintava em cada palavra que dedicava ao escritor. Ele claramente exibiu surpresa ao saber do acontecido; Dionísio, salvando um garotinho de um atropelamento, era algo completamente impensável e valia uma manchete no jornal local. Uma pena que não havia nada no jornal da manhã, mas em contrapartida, os vídeos pela internet provavam a bravura do amigo. Que orgulho!
— Um macchiato e um expresso na mesa 9, senhor celebridade por um dia. — Passou o pedido a um Dionísio que parecia pisar em nuvens. Se duvidasse, ele sequer estava na Terra naquele momento. Não, ele não duvidava.
— Mesa 9... — Dionísio repetiu ao pegar a bandeja. Mesmo que estivesse longe e com aquele calorzinho gostoso no peito, não podia se dar ao luxo de ficar suspirando e se esquecer do trabalho bem-feito. O fato é que, mesmo querendo deixar um pouco de lado a euforia que quase o fez tropeçar no tapete, era difícil quando se tinha um compromisso daquela magnitude. Uma magnitude magnânima de extrema importância. — Um macchiato e um— Ele teria completado a frase e o pedido teria alcançado êxito se, de repente, do além, uma luz não o tivesse cegado por uns momentos.
A xícara com o café foi ao chão antes que levasse a mão ao rosto. Seria aquilo uma abdução? Esperava muito que não, porque com tantos dias livres e de tédio, que os alienígenas não o tivessem notado justamente naquele dia ou cabeças espaciais iam rolar.
— Porcaria! — Praguejou ao se abaixar, mas suspirou e pediu desculpas aos clientes, exibindo um sorriso amarelo. Teria que pagar pelo café e pela louça também. Ótimo.
— A culpa foi minha.
A voz masculina chamou a atenção antes mesmo que a figura de roupas excêntricas se abaixasse e o ajudasse com a bagunça, e antes mesmo que Leonel viesse em seu auxílio.
Dionísio notou uma câmera profissional nas mãos do estranho e o fuzilou com os olhos. Que ideia estúpida era aquela? Claro que agora era uma celebridade, mas não podia exagerar.
— Vou providenciar outro pedido agora mesmo. — Falou aos clientes e caminhou apressado até o balcão. Tinha que respirar fundo, mesmo sendo mais que paciente. Já era um desastre ambulante, e vinha gente do fim do mundo para ajudá-lo a se atrapalhar. Claro, pois ele precisava de ajuda para estatelar os utensílios da cafeteria no chão.
— O idiota tirou uma foto sua? — Leonel entregou um novo expresso ao amigo, mas os olhos se atentaram a figura sorridente que parecia esperar Dionísio para dizer alguma coisa.
— É o que parece. — Respondeu ao pegar o novo café e seguir até a mesa 9. — Perdão pelo inconveniente, senhor. — Desculpou-se uma vez mais ao limpar com um pano o chão melado. — Eu gostaria mesmo de saber o que raios você acabou de fazer. — Dirigiu-se ao homem bonito e... Oh! Certo. Bonito era eufemismo, mas... Foco, Dio.
— Ficou ótima. — O fotógrafo mostrou a foto que havia tirado ao vê-lo franzir o cenho.
Dionísio torceu os lábios, observando a imagem na tela. Não estava ruim. Não tão ruim para quem estava distraído e com um lenço colorido na cabeça.
— Apaga. Não sou uma pessoa pública pra ter paparazzi atrás de mim. — Demandou. Era só o que faltava! Daqui a pouco não poderia nem mesmo sair na rua. Sonhar ainda era grátis.
— Eu sou só um fotógrafo. — Ele sorriu. — Achei o seu sorriso bonito e quis fotografar.
Simples assim. Dionísio não sabia se ria ou se enxotava aquele homem dali. Sorriso bonito uma ova! Seus dentes eram até tortos e nada muito estéticos para um sorriso charmoso de propaganda de creme dental. Não era o tipo de sorriso que estamparia as capas ou páginas de alguma revista.
— Olha, se não quiser nada, por favor, retire-se. — Educação em primeiro lugar, apesar dos pesares.
— Eu vou pagar pelo prejuízo. — Ele se sentou em um dos bancos. — E quero o especial da casa... — Os olhos recaíram sobre o bordado na camisa branca do atendente. — Dionísio. — O sorriso surgiu novamente, mostrando dentes brancos e perfeitos. Uma invejinha branca surgindo em Dio no momento.
Mas era impressão sua ou havia acabado de levar uma cantada?
— E será que o seu amigo pode me atender? — O olhar recaiu sobre o loiro no balcão e Dionísio pareceu murchar.
Certo, Leonel era o especial da casa.
— O meu amigo vai adorar atendê-lo. — Devolveu o sorriso antes de se afastar. Tanto melhor que ele não estivesse jogando charme para cima de si. O cara era gato, mas exalava a palavra “canalha” em letras neon. E ele era muito mais fã dos moços bonzinhos, mas a tendência era querer quem não prestava. — Ele quer o especial da casa. — Anunciou.
— Você coberto de chantilly e sem todas essas roupas. — Leonel cantarolou, implicante.
— Ele pode até querer alguém coberto de chantilly, mas esse alguém não sou eu. — A malícia surgiu nas palavras quando o loiro franziu o cenho, sem entender. — Vai lá atender o bonitão. Ele quer você. Clientes satisfeitos em primeiro lugar. — Piscou um dos olhos.
— Satisfeito, claro, se ele manter a boca fechada e as mãos comportadas, pode ser que saia sem maiores lesões. — O olhar se estreitou para o homem da mesa 12. Lá estava ele, sendo descaradamente “secado” por um desconhecido com ares cafajestes.
— Você podia fazer um coração com a calda de chocolate, só pra ilustrar mesmo e mostrar as suas habilidades de barista. — Dio continuou a provocar, mas entendeu que era melhor não cutucar a dona onça com vara curta. E mudando repentinamente de assunto... — Escuta, você podia ir comigo nesse jantar.
— Naquele restaurante onde todo mundo tem o nariz empinado e olha torto pra gente? — Leonel pareceu até mesmo ofendido. Imagina, o que raios ele ia fazer em um lugar de granfinos como aquele? Provavelmente socaria o primeiro que o olhasse com desdém, não era paciente como Dio. — Além disso, eu não fui convidado. Só você.
Uma pena.
— É que assim você me impediria de passar vergonha. — Comentou, levemente acanhado. Qual é? Ele era um desastre ambulante, mas não queria fazer feio e estragar a noite do Werner.
— Isso aí é impossível! — O loiro precisou debochar. — Você não pode ver uma vergonha que já quer passar. É a lei da sua natureza.
— Amigo da onça! — Dio resmungou, dramático. — Vai lá servir o seu fotógrafo, vai. — Empurrou a bandeja com o pedido do cliente, antes que a amizade terminasse para sempre.
E para sempre duraria até o fim do expediente.
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A água morna levou parte do cansaço para longe, mesmo que em um banho rápido. Ele não queria se atrasar mais do que já havia se atrasado ao passar as roupas que usaria. Claro, se ele não deixasse tudo para a última hora, não seria o famoso Dionísio. Não, ele não era famoso, só procrastinador mesmo. Infelizmente.
E não era como se tivesse várias peças usáveis para um jantar de gala, mas a camisa que usara na formatura de um ex-namorado, serviria bem. Tentou se arrumar o mais depressa que conseguiu, finalizando o look com um blazer na cor cinza. Aquilo era mais velho que sua avó, mas daria para o gasto. Werner não parecia ser do tipo de gente rica que olhava torto para a maneira como os outros se vestiam.
— Todo esse perfume... — Yuri surgiu no corredor. Estava comendo uma maçã depois de uma refeição ruim e congelada. Era um desastre quando a mãe ficava para trabalhar até tarde.
E o perfume havia sido caro. E Dionísio usufruía de apenas uma borrifada, para que o produto durasse mais. Oras, dinheiro não nascia em árvore, mas se nascesse, provavelmente nem teriam uma árvore.
— E então? — Virou-se para o irmão, expectante. — Como é que 'tá o conjunto todo? — Sorriu de maneira ansiosa, esperando o veredito.
— 'Tá parecendo um desses engomadinhos nojentos que eu tenho vontade de quebrar a cara. — Yuri deu de ombros e mordeu novamente a maçã.
Yuri elogiando...
— E isso é algo positivo? — Porque ainda não havia chegado a uma conclusão sobre essa parte.
— É o máximo que eu consigo pensar.
Certo, parecia algo bom, na medida do possível. E precisava sair antes que ficasse tarde e acabasse desistindo por não querer chegar depois de todo mundo já estar em seus devidos lugares. Será que teria uma cadeira ao lado de Werner? Bem, sonhar um pouquinho mais, não faria mal algum. Suas expectativas já estavam elevadíssimas por sinal.
— Cuida dos seus irmãos. — Falou pela milésima vez ao encarar o irmão. Aquela não era uma tarefa tão complicada assim, visto que Yuri era o mais problemático e difícil de lidar.
— A Akane vai vir pra cá me dar uma mão. — O adolescente pareceu reforçar a ideia de que seria fácil tomar conta dos caçulas, claro, com uma leve ajuda, o que deixou o irmão desconfiado. — Quê?
— Eu espero que seja a única coisa que ela dê: a mão. — Porque quando aqueles dois estavam juntos... — E nada de ficar agarrando a garota na frente das crianças.
— Quantos anos você acha que eu tenho? — Yuri se ofendeu com as acusações. Já estava fazendo muito de ficar em casa naquela noite quando a galera toda estava por aí, curtindo a vida noturna. E é claro que saberia como cuidar dos pirralhos. Caso fizessem algo que o desagradasse, era só ameaçá-los e mostrar quem é que mandava por ali.
— Idade de menos pra ter algum juízo. — Foi a resposta de Dionísio, implicante e preocupado como qualquer irmão mais velho. — Se acontecer alguma coisa, me liga. — E era também a milésima vez que fazia aquela recomendação. Ficaria com um pé naquele restaurante e o outro em casa.
— Cara, só vai. — Yuri o segurou pelos ombros quando ele dispensaria mais um daqueles avisos que já estavam mais que decorados. Inclusive, estavam colados com um imã bem bonitinho lá na geladeira. — 'Tá ficando tarde.
— Eu sei bem o motivo pra me querer fora de casa, mas— A frase se perdeu quando foi praticamente expulso e teve a porta fechada nas fuças. Era esse o respeito para com os irmãos mais velhos?
Não, ainda não havia terminado. O coração ficava apertado por deixá-los sós, mas nem sequer pensaria em adiar aquele compromisso. Quando teria outra chance daquelas? Já era demais que tivesse trocado umas palavras com o escritor para cogitar algo assim.
E o fusca vermelho o esperava, tão vermelho quanto o restaurante mais caro da cidade.
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Palazzo Rosso [1] era uma construção de portas de vidro blindado e um belo letreiro em tons de dourado. O vermelho camurça era de bom gosto, embora um tanto escandaloso. Era caminho para o trabalho e, quando voltava, Dionísio sempre via o lugar cheio com a classe mais abastada da cidade ou região. E sonhava em ter grana sobrando para levar a mãe a um almoço ou jantar despretensioso, pois segundo ela, eram aqueles restaurantes de filmes e novelas. Na verdade, tinha tantos sonhos, que não caberiam mais em uma única pessoa e logo precisaria transformar-se em dois e iniciar os sonhos do zero.
Um suspiro de ansiedade deixou os lábios quando estacionou e se deparou com as pessoas na calçada: fãs. Bem, ele também era e, segundo o próprio Werner, o maior fã. O restaurante estava fechado para que somente os convidados do escritor desfrutassem da noite, e foi impossível não sentir-se importante.
Agora ele só precisaria entrar e passar pelos seguranças.
Só.
Eles pareciam muito com dois gorilas ou aqueles dublês de filmes de ação, que no final, também eram como gorilas. Eles estavam trancando a passagem, com aqueles comunicadores legais de espionagem.
E Dionísio seria só mais um se não tivesse caminhado até a porta de vidro onde os dois homens faziam a segurança. Era o primeiro passo para a noite dos sonhos. Bem, não exatamente, já que em seus sonhos, as coisas eram muito mais envolventes e não tinham nada a ver com jantares cheios de frescura.
— Boa noite, adorei o terno. — Comentou despretensioso, simpático e sincero. Não que sua simpatia natural fosse adiantar para alguma coisa. — Olha, eu tenho isso aqui. — Pegou o cartão no bolso e o exibiu com um sorriso genuíno. — O Nicolai Werner mesmo quem me deu.
Os seguranças mal se moveram e, quando ele tentou passar, foi impedido e voltou alguns passos ao trombar nos corpos que mais pareciam dois armários.
— Meu nome é Dionísio, pode ir lá perguntar pro Werner! — Passou a mão pelos cabelos e respirou fundo quando os que estavam na calçada, começaram a rir de sua frustrante tentativa de entrada. — Moça?! — Chamou e acenou quando uma loira parou para o observar o que acontecia.
A mulher alta e de vestido negro e longo, carregava uma prancheta com os nomes dos convidados.
Dionísio a achou tão bonita e bem-vestida, que sentiu-se momentaneamente ainda mais deslocado do que já se sentia. Ela exalava luxo e elegância, mas tinha aquele olhar de superioridade com o qual ele já havia se deparado inúmeras vezes.
— E quem é você, querido? — Um olhar repleto de desdém foi direcionado ao rapaz. Via-se claramente que ele não era de seu meio social. As roupas, mas não somente esse detalhe, o garoto era uma confusão de modos e aparência.
Que os céus dessem paciência a Dionísio! Não era a primeira e nem seria a última vez que receberia olhares como aquele. Olhares que o diminuíam tal qual a um tapete da pior qualidade, mas nem por isso ele deixaria passar aquela ofensa velada.
A mulher a frente era alta e tinha o corpo e porte de uma modelo internacional. Ela poderia facilmente fazer parte de uma das novelas que a dona Regina amava, mas ainda assim, não existiam motivos para que o diminuísse simplesmente por ser humilde.
— Meu nome é Dionísio Barelli e eu não sou o seu querido. — Deixou claro, a resposta afiada e o olhar de desafio.
— E o que você faz aqui, Dionísio? — As sobrancelhas perfeitas se arquearam com a resposta ousada.
— Eu fui convidado pelo Werner. — Apressou-se em dizer e tateou o bolso do blazer. — Ele me deu esse cartão.
— Deu? — Ela parecia prestes a rir por um motivo que Dionísio não entendeu. — Não me surpreenderia se tivesse roubado. Conheço tipinhos iguais a você.
— Tipos iguais a mim? E de que tipo eu sou? — Indignou-se com a resposta ridícula e preconceituosa. Ele nem deveria dispensar alguma atenção para aquele tipo de gente, mas sentiu uma veia pulsar no pescoço e a língua coçar para dar uma resposta mais que atravessada.
— Do tipo ladrão. E da pior espécie.
Ladrão... Logo ele que trabalhava desde os quinze anos e de maneira honesta. E por mais que passasse por dificuldades, jamais usaria de tais meios para conseguir qualquer coisa que fosse. E mesmo assim, ofendê-la ainda não era uma opção.
— Se perguntar ao Werner—
Tentou novamente, mas a mulher se afastou, não dando mais que a mínima importância para o que ele dizia. Como esperado.
Se ao menos pudesse ver o escritor pelos vidros, não se importaria de acenar e se jogar de cabeça na vergonha que passaria mas ele devia estar ocupado...
E mesmo assim, não podia acreditar que tinha ido até ali, naquele lugar chique e com a promessa de uma noite agradável, e que agora não poderia entrar, pois simplesmente “não combinava” com os convidados e com a aura refinada de um restaurante caro no centro da cidade.
O rosto ardeu em vergonha e humilhação. Desde o começo tinha sido uma péssima ideia ir até ali.
— Alegria de pobre dura tão pouco... — Queixou-se consigo mesmo, deixando mais um suspiro surgir.
Expectativas altas, tombos maiores.
E talvez, Werner nem sequer se lembrasse de tê-lo convidado. Oras! Por que ele lembraria? O homem tinha vários compromissos e pessoas para dedicar a atenção. E embora o pensamento e desejo de querer explodir aquela mulher metida e preconceituosa fosse forte, ele decidiu concentrar os pensamentos em recolher os caquinhos do orgulho destroçado, e voltar para casa. Claro, depois de dar uma volta pela cidade e fingir para a família que tudo havia ocorrido bem, afinal, não queria enchê-los com seu drama particular. A mãe ficaria péssima com aquele destrato.
Isso, era melhor ir passear.
Um carro luxuoso estacionou ao lado do seu, mas ele não deu importância. O cartão foi novamente observado com pesar e um sorriso amargo surgiu antes de abrir a porta do fusca e não concluir a ação de jogar-se no banco do motorista.
O braço foi segurado na altura do cotovelo e, não, não faltava mais nada naquela fatídica noite cheia de dramas.
Os olhos azuis se depararam com um rapaz alto e de pele negra. Dionísio sentiu um lampejo de inveja pelos cabelos cheios do outro, mas a a curiosidade aplacou qualquer outro sentimento.
Já havia sido acusado de ser ladrão.
O que viria agora?
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