Doces Palavras
11 Capítulo 11 ஃ "Que homem, meus amigos!"
Notas iniciais
Capítulo 11 — Que homem, meus amigos!
— Não acredito que aceitei essa porcaria de sugestão.
O desgosto era palpável na fala do ruivo, mas veio acompanhado de um torcer de lábios e uma inspeção na taça com o cappuccino de chocolate. Ele não tinha o hábito de ir a lugares… Assim.
Estavam na Doce Aroma, o lugar onde o irmão de Yuri trabalhava. Uma cafeteria sem graça no centro da cidade. Ainda se perguntava o motivo de ter aceitado aquela ideia ridícula. Na noite anterior, ele havia cancelado o encontro da “dupla”, mas ainda preferia que fosse em sua casa e não ali. Bem, se pudesse escolher, era óbvio que não faria dupla com aquele garoto.
— Isso aqui parece tão americano. Igual a gente vê nos filmes. — Yuri deu de ombros. Estava na terceira xícara de macchiato e contando. Era viciado em café.
— Você nem 'tá estudando. — Anthony acusou. Sua pouca paciência sequer existia quando estava perto do Topete Boy. — Papinho mais furado esse.
— Cara, a gente vai tirar 10! — Os dedos agora batucavam na mesa, seguindo o ritmo da música que tocava por ali.
Tony respirou fundo e digitou algumas linhas do trabalho no notebook. Faltava a metade, mas se fosse esperar pelo idiota do Barelli, nem nota ele teria. Imagina se ia comprometer o boletim e ferrar as coisas com o pai por culpa do rebelde sem causa que se embriagava de café. Foi então que, enquanto digitava, os olhos se desviaram para o garoto de cabelos castanhos e olhos cinzentos. Não sabia direito se eram cinzas ou azuis. Não, azul era uma cor muito bonita para ele. Eram cinzentos mesmo. Como um dia nublado e feio.
— Aquela foto… — Começou, atraindo a atenção do colega de classe. Havia fechado mais um parágrafo do trabalho.
— Que foto? — Yuri afastou a xícara vazia e surrupiou a bebida do ruivo. Gente rica tinha frescura com comida e bebida e ele não dispensava nada. — Vai falar ou eu vou ter que adivinhar? Já aviso que odeio esses joguinhos.
— A foto do seu irmão com o escritor.
Agora Yuri quem torceu os lábios. Ô assunto mais chato aquele. Zoar Dionísio era válido sim – no caso, só valia para ele –, mas se aquele garoto viesse com o papinho preconceituoso de sempre, que estivesse preparado para também virar notícia por apanhar em um estabelecimento e perder um ou dois dentes.
— E o que tem essa foto? — Apoiou os cotovelos sobre a mesa e estreitou os olhos. Será que devia estralar os dedos?
— Como assim o que tem essa foto? — Por acaso o Topete Boy era cego? — Seu irmão 'tá no colo do Werner! — Não era o colo de qualquer pessoa na terra. Era o colo do Werner! W-E-R-N-E-R.
— E daí? — Yuri pegou um palito no frasco de plástico, usando-o como um cigarro no canto dos lábios. Se fumasse ali dentro, seria enxotado a vassouradas e nem seria por Dionísio. O loiro chato com cara de vela derretida era a criatura mais implicante do universo.
— Cara… — Era sério aquilo? Yuri só podia ser tapado. — Nicolai Werner é um escritor do caralho! — Será que assim ele entenderia?
— Legal. Ele escreveu o quê?
...
— Perfeita Simetria, A Montanha, Duas Noites no Deserto, Quando Não houver Mais Amanhã e muitos outros. — Poderia passar a tarde enumerando os títulos, mas tinha os favoritos. — Ah! Tem Borboletas no Aquário, também. Muito famoso, por sinal. E existem filmes inspirados nos livros.
— Nunca ouvi falar. — Yuri bem que tentou se lembrar de algum livro assinado pelo velho babaca, mas não conseguiu, ou não se esforçou o suficiente. E parecia tudo muito brega e sem graça. Só de ouvir os nomes já sentiu preguiça. Nem mesmo os filmes ele pararia para ver. — Ele nem deve ser tão famoso assim.
— Cara, em que mundo você vive? — Eis a questão. Tony estava desacreditado. — Você sabe ler?
— Só porque eu não li nada desse escritorzinho aí, não quer dizer que eu não leia outras coisas. — Que ficasse claro aquele detalhe. Ele era uma pessoa muito… Interessada em ler. Sempre lia as latas de cerveja e os escritos nos maços de cigarro.
— Imagino como a sua biblioteca é interessante. — O ruivo desdenhou. — Agora termina a porcaria do trabalho e prova que você tem um cérebro. — Empurrou o notebook. Seus dedos já estavam cansados de digitar, obrigado.
— Não sei o que seria desse trabalho sem a minha determinação e foco. — Yuri suspirou.
Anthony estava prestes a retrucar sobre ele ser a parte fundamental para a dupla, quando a porta se abriu e o sino soou, indicando um novo cliente.
Um cliente que fez seu queixo cair e se espatifar no azulejo do chão.
— 'Cê 'tá com a maior cara de idiota… — Yuri fez a observação ao erguer os olhos para o rosto do ruivo, já que ele passado pelo menos dois segundos sem dizer nada. Anthony já era naturalmente um idiota, mas a expressão sempre tentava camuflar a real identidade. — É dor de barriga? Porque parece.
— É o Werner!
Mas eles não tinham parado com aquele assunto chato? Cara mais repetitivo. Yuri apostava que ele era tão desinteressante, que não saberia conversar sobre coisas realmente legais, mas deixou a opinião para usar em outro momento e voltou a digitar. O ferrugem que ficasse ali imaginando o tal do escritor velhote.
Os olhos verdes estavam com o dobro do tamanho normal, mirando para onde um homem conversava com um dos baristas. A vida andava tão sem emoções, que não conseguiu acreditar que em um momento falava sobre o escritor e no outro ele estivesse mesmo ali, em carne e osso! Quis se beliscar, mas levantou-se de maneira abrupta e espalmou as mãos na mesa, respirando fundo. Não era a pessoa mais extrovertida a qual se tinha notícia, mas precisava ir até lá.
— Continua digitando. — E sim, era uma ordem. E ela foi pronunciada logo após um livro de capa amarela ser retirado de dentro da mochila. Era só um autógrafo e voltaria para a mesa com o garoto do topete.
Ah, pronto! Agora sua mãe era um cara ruivo de dezessete anos, pois sim. Yuri franziu as sobrancelhas e virou o rosto para ver o que o colega idiota tinha ido fazer, mas sequer ficou surpreso quando viu o tal do Nicolai no balcão, conversando com o Dionísio Atrapalhado Barelli. Parecia que o maninho ia disputar a atenção com o Cooper. O estranho foi continuar observando a cena patética em vez de retomar a atenção a tela do computador.
Anthony parecia até gente decente ao se aproximar do escritor, mas o sorriso era como o de uma criança que acaba de se deparar com a casa de doces de João e Maria. Yuri nunca o tinha visto sorrir assim e rolou os olhos para toda aquela afobação. Já não bastava o irmão, agora o ruivo também ia lamber os sapatos caros daquele homem.
E para completar, ainda o viu tirar uma foto e agradecer de maneira atrapalhada a simpatia de Werner.
Yuri só teria o trabalho de se levantar da cadeira se o famoso em questão fosse o Scooby-Doo.
— Que é? — Tony perguntou, mudando de humor como quem troca de meias. — Eu disse que o cara é foda, mas não é pra você parar com a porcaria do trabalho. — Ele agora segurava o livro como se fosse uma relíquia.
Lá vinha o ditador. Yuri leu o título e novamente a preguiça o tomou. Aquilo devia ter umas quinhentas fucking páginas!
— Esse livro é sobre o quê? — Oras, estava um pouquinho curioso. — Eu posso ver?
Anthony desviou os olhos para o objeto em questão e ponderou. Não era apenas um livro, era o livro, mas também não era somente isso. Yuri não podia ver. Isso, ele não podia ver.
— Não tem nada a ver com o tipo de coisa que você lê. — Ao menos se preocupou em responder, antes de guardar o livro novamente na mochila.
— Você disse que eu nem sei ler. — Yuri o lembrou. Agora estava ainda mais curioso. — Eu só queria ver a sinopse. — Não, não queria, e deixou isso bem claro com o sorrisinho que deu ao ruivo.
— Você é intragável. — Tony resmungou, mas ao ter noção do belo adjetivo usado, sentiu o rosto esquentar. — Se disser o que eu tenho certeza que pensou, eu não respondo por mim. — Céus! Ele era absurdamente infantil e com pouco tempo de convivência, percebia o quanto ele gostava de constrangê-lo.
— Eu jamais diria algo assim. — Nunquinha mesmo. — É você que 'tá aí pensando besteira. — Mas então, olhou para onde o irmão e a celebridade do dia estavam e estreitou os olhos para a cena, principalmente ao vê-los seguir para a cozinha. — Eu devia socar a cara dele.
Anthony observou o rosto do moreno por alguns momentos, constatando que os olhos dele eram azuis acinzentados e, talvez os mais bonitos que… Apertou os lábios em uma linha fina de puro desgosto com a confusão dos pensamentos. Estava certo que o sol havia contribuído para seu estado deturpado de consciência e se ateve a frase estúpida sobre agredir um de seus escritores favoritos da vida.
— Parece promissor; socar a cara de uma figura pública. — Parecia, mas era óbvio que não permitiria aquela sandice. — Mas o Werner não é gay. Sei lá o motivo de ele dar atenção pro seu irmão, mas é só isso o que ele vai dar mesmo.
— Depois daquela foto, eu não teria toda essa certeza. — Yuri comentou em tom claro de provocação. — Vai deixar de ser fã se ele for gay?
Aquela pergunta ridícula irritou o Cooper. Era óbvio que um de seus escritores favoritos não era gay! Aquela ideia era tão descabida, que quando tentou pensar no Werner com o irmão sem graça do Barelli, deu erro de tela azul.
— Seu irmão não vai ter um caso com o Nicolai. — E que aquela parte ficasse clara, obrigado. — E você não vai ter nota se não escrever.
Werner gay… Impossível.
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Logo que chegou a Doce Aroma, após ter passado parte da manhã fora, Leonel ficou cheio de risinhos e olhares significativos para Dionísio. O loiro já era debochado in natura quando não mergulhava de cabeça no mau humor, mas parecia um tanto pior naquele dia.
— Você é uma celebridade agora. — Leo comentou enquanto limpava o balcão com um pano úmido. — Como está se sentindo, meu caro amigo famoso?
Dio considerou aquela parte sobre ser famoso. Pois bem, havia conseguido seus quinze minutos de fama e uma hashtag com seu nome e o do escritor, mas era somente isso. Famoso por sentar no colo de Nicolai Werner. Ou melhor, por cair no colo do homem bonitão. Até mesmo suas redes sociais estavam movimentadas com o acontecido, mas ele apenas sentia vergonha de ser tão desastrado e de ter constrangido o escritor com seus desajustes.
Acabou suspirando e mordeu um pãozinho doce com nozes e geleia.
— Eu devia me sentir bem? — Respondeu com uma pergunta, mastigando o doce sem muita vontade. — Niconísio só existe na internet. As pessoas podem shippar e fazer fanfics sobre a gente. — E ele leria todas com muito gosto. — Mas é só isso. — Outro suspiro.
— É… 'Cê 'tá nada bem. — Leonel comentou com preocupação. — O que a sua família disse sobre isso tudo?
— Yuri acha tudo uma aventura, mas a dona Regina me passou um sermão de uma meia hora e sem pausa pra respirar. — Mas no fim, tinham conseguido se entender, afinal, a mãe sabia o quanto era desastrado. Tudo não passava de um mal entendido e ele não estava se aproveitando da situação como pareceu que estava. — Eu só fico chateado com essa exposição. Pobre, Nico.
Pobre e Nico, não compunham uma mesma frase, mas Leonel deixou aquele detalhe passar. O amigo parecia muito mais que chateado e ele era pior que uma pedra para confortar alguém, mesmo que tivesse pensado em uma ou duas coisas para dizer, perdeu qualquer vontade quando viu os novos clientes chegarem.
— Fala sério. — Foi ele quem suspirou agora. — Se eles arrumarem confusão, eu vou descer… — Disfarçou qualquer intenção assassina ao receber um olhar estreito dos olhos azuis de Dio. — Descer as regras na cabeça dos dois.
— Eles estão fazendo um trabalho importante, como garotos normais.
— O caso é que eles não são garotos normais. — Leonel resolveu esclarecer, já que o amigo não parecia enxergar o óbvio. — São adolescentes de índole duvidosa que são bem capazes de explodir o café.
— Que exagero. Não se esqueça que é do meu irmão que está falando. — Oras, seu doce irmãozinho que não fazia mal a uma mosca que dirá a um estabelecimento.
— E é por isso mesmo que eu me preocupo. — O loiro rebateu, mas tinha um arzinho debochado escondido em algum lugar. — Porque é o seu irmão.
Que acusação mais infundada aquela! Dionísio se ocupou em continuar ajeitando os docinhos recém-preparados na vitrine. Pensava que o glacê de um dos cupcakes se parecia com a saia de uma bailarina, quando o sino na porta soou. Que bom que teriam mais clientes naquele dia.
Os olhos se ergueram, mas um praguejo antecedeu a surpresa quando a bandeja com os doces foram desastrosamente para o chão. Céus! Alguns docinhos rolaram pelo azulejo e ele somente constatou o quanto tinha sorte por tudo sempre dar certo. Nem mesmo quis olhar em direção ao amigo no balcão, tratou apenas de recolher tudo o que foi para o chão e sujou as mãos com o glacê e os confeitos. Certo, não desperdiçaria comida com tanta gente passando fome no mundo. Os dedos sujos foram parar na boca, mas ele não se certificou se havia limpado todo o glacê, o que acabou sujando os fios que escapavam da touca quando passou as mãos pelos cabelos.
Agora ele era como a Cinderella, de quatro no chão e limpando o estabelecimento, sendo humilhado pelas filhas feiosas – Yuri e Tony – da madrasta – Leonel. Que vida difícil aquela, mas ao menos ele teria um sapatinho de cristal mais tarde e… Por falar em sapatos… A atenção foi para um par de sapatos muito lustrados e o olhar foi subindo. Calças jeans e que belo par de pernas, meus amigos! Suéter vermelho, punhos de uma camisa branca aparecendo e ele resolveu dizer qualquer coisa inteligente:
— Dizem que pés grandes são sinônimo de p…
— Sinônimo de…?
Aquela voz e aquele rosto! Tão veloz quanto sua falta de noção, as faces empalideceram e ele se atrapalhou como de costume ao tentar se erguer com a bandeja. Nada seria pior que aquilo! Que raios ele ia dizer? Céus! Quis enterrar a cabeça em um balde de chantilly e não sair por horas.
— Nico?! — A exclamação veio de forma exasperada e um sorriso enorme que não servia para disfarçar seu talento nato para passar vergonha surgiu.
— Eu. — Nicolai pareceu se divertir com a recepção inesperada, mas estava curioso quanto a um detalhe. — Você disse que pés grandes são sinônimo de alguma coisa.
E eram mesmo! Mas ele não seria estúpido de completar aquela frase.
— De inteligência, claro! Você tem muita inteligência, o que comprova a minha tese.
— Não era uma palavra com P? — Werner insistiu.
— Não mesmo! — Dio colocou a bandeja sobre o balcão e passou a mão pelo rosto, piorando o estado catastrófico e lambuzado. Era melhor tirar o foco daquele assunto. — E então? Você veio em um cavalo-branco?
Cavalo branco? Nicolai franziu o cenho e sorriu, algo um tanto estranho, mas era a única expressão que combinava com o momento. Bem, ele não tinha cavalgado até ali, mas Dionísio parecia esperar por alguma resposta satisfatória.
— Meu cavalo está parado do outro lado da rua. — Branco como a neve. Branco como o glacê que manchava o rosto do barista.
Dionísio sorriu de maneira menos exagerada e relaxou os ombros. Acabou suspirando logo depois, desconsertado com outro assunto que não comparava tamanho de pés com partes íntimas.
— Eu só estava descontraindo. — Mordeu o lábio inferior e desviou os olhos para a parede cheia de quadrinhos ao lado do balcão. — Me desculpe… Por aquela cena patética. — Ainda mais patético foi o rosto esquentar com a menção do maravilhoso episódio onde ele estava sentado naquele colo ainda mais maravilhoso. — Toda aquela repercussão foi desnecessária, mas a culpa foi minha, como sempre e… — Buscou o olhar atento do escritor e pareceu chocado com o fato de ele estar ali. — Vão achar que você veio visitar o barista atraente da foto porque está de caso com ele! Você nem devia estar aqui, mocinho. — Oh, sim, estava reprovando aquela atitude.
— Quer que eu vá embora? — Nada parecia mais maluco que uma conversa em vários tons de humores e expressões com o garoto de covinhas e olhos azuis como a capa de seu último livro. Era sua cor favorita.
Que ideia mais vil aquela, porém, parecia o certo a se fazer.
— Eu só não quero que se prejudique por minha causa. — Os dedos se apertaram no avental e então olhou para o amigo que parecia muito interessado naquela conversa. — Nós podemos ir lá pra cozinha?
Antes que o escritor dissesse qualquer coisa, uma nova figura chegou à cena. Dionísio olhou o garoto com certa curiosidade e notou que ele segurava um de seus livros favoritos. Anthony nem parecia aquele ruivo irritante e desnecessário naquele momento. Acabava de descobrir que tinham algo em comum.
— Eu sou um grande fã. — Ele soou exasperado e pediu por um autógrafo e uma foto, comentando qualquer coisa sobre não ter ido ao lançamento do último livro do Werner por algum motivo que não entendeu.
— Eu e o seu irmão somos os únicos que parecem não ligar. — Leonel cochichou com Dionísio e recebeu um dar de ombros do amigo. — E eu concordo, ele é um velhote.
Que irritante! Dio estava prestes a ressaltar toda a jovialidade de Nicolai e prestes a iniciar o apocalipse, quando o ruivo se afastou e a atenção do escritor retornou para ele.
— A cozinha é mesmo o melhor lugar pra fugir dos paparazzi… — Leonel cantarolou, não dando tempo para que o moreno se pronunciasse. Ele não podia perder a chance de soltar aquela implicância. — Eu cuido de tudo por aqui. Demorem o tempo que precisarem.
Que engraçado ele era! Dionísio quis socar a cara pálida daquele loiro, mas estava saltitante como um unicórnio por dentro. Estava indo para a cozinha com aquele homem divino e cheiroso. Nicolai era mais cheiroso que uma fornada de biscoitos de chocolate e secretamente desejou mordê-lo para testar o sabor.
Com certeza era gostoso.
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A cozinha, ao menos naquela tarde, estava mais decente, mais organizada que nos outros dias e parecia um lugar decente para conversas entre um fã e se ídolo. E uma ideia incrível se passou ao pensar que poderia prender o escritor na dispensa e alimentá-lo com doces e café e… Não. Aquilo só funcionava na ficção. Ele não podia prender o Nicolai Werner, infelizmente.
— Deve ser a primeira vez que alguém te chama pra uma conversa na cozinha de um café. — Novamente o sorriso de constrangimento quando fechou a porta e apoiou as costas na madeira branca.
Enfim sós!
— Parece com uma cena de—
— Perfeita Simetria. — Dio completou. Novamente os dedos amassaram o tecido do avental. — A singela diferença é que você não vai me seduzir e escapar pela janela. — Ou… — Você vai? — Estreitou os olhos em suspeita.
— Não faz parte do que eu pretendo fazer com você. — Nico se apoiou no balcão de aço e encarou o rosto do mais novo passar da expectativa para a decepção. Ele era mesmo uma figura.
— Bem, de qualquer forma, eu não seria seduzido facilmente como a protagonista do livro. — É claro que não. Nicolai teria que fazer muito mais que soltar algumas palavras bonitinhas ao pé de seu ouvido se quisesse seduzi-lo. — Veio aqui pra falar sobre Niconísio?
Niconísio era um máximo! Lillian havia enchido seus ouvidos junto ao seu querido cunhado e ele conseguiu rir e se distrair daquele assunto.
— Tudo bem não me querer como guia turístico. — Dio não esperou que o escritor comentasse qualquer motivo óbvio para cancelar o passeio. — Eu só sugeri porque não consigo ficar de boca fechada e… Quando é que um fã consegue esses momentos com o ídolo? Eu sentei no seu colo, eu te abracei, você autografou o meu livro e me convidou pra um jantar todo requintado. É tipo aqueles filmes de comédia romântica, mas sem o romance.
A falta de romance era mesmo uma lástima, mas ele deixaria a frustração em segredo antes que dissesse mais besteiras e acabasse de vez com a bela visão que Nicolai tinha sobre ele.
— Eu estou extasiado com os últimos acontecimentos! — Um novo e iluminado sorriso voltou aos lábios com a sinceridade, embora estivesse sim menos serelepe que antes. — Eu só fico com peninha por você não conhecer meus talentos de guia turístico e todos os outros que eu possuo. Mas tudo bem!
— Eu não quero te expor. — Nico suspirou, começando o assunto que o levou até ali. Pareceu muito frio de sua parte apenas ligar e desmarcar. E a verdade é que se importava demais com as pessoas e sentia pavor de magoar alguém próximo. Dionísio era um fã e automaticamente se importava com o que o faria sentir, não somente nas páginas dos livros, mas pessoalmente também. — Existem pessoas realmente ruins e com comentários maldosos e depreciativos. Eu quero te poupar dessa parte.
Dionísio prendeu a respiração logo após constatar a preocupação do escritor e o cuidado daquelas palavras. Nico era alguém realmente fofo por se preocupar. Ele também se preocupara com o que estavam dizendo na internet, afinal, acabara com parte do sossego de Nicolai, mas não esperava que ele fosse até ali e muito menos que ouviria o tom preocupado e o cuidado o qual ele tinha pelos fãs.
Que homem, meus amigos!
— Nós formamos um casal bonito. — Soltou a pérola ao se aproximar. — Eu não me importo com a exposição, mas claro, me importo com você e sei o quanto isso é ruim pra sua vida pessoal e carreira. Mas realmente formamos um casal bonito.
Só faltava toda a parte boa de serem um casal, claro, mas sua imaginação estava ali para isso.
— Isso eu não posso negar.
Agora era como uma cena de Borboletas no Aquário, quando Juliet concordava com as sandices de Clive e acabavam rindo e percebendo certas coisas em comum. Na verdade, não era muito parecido com a passagem do livro, mas sua cabeça meio que parava de funcionar enquanto digeria a confirmação que chegou como seda aos ouvidos ou o olhar que não sabia identificar como sendo sincero ou divertido.
E na falta de qualquer coisa para dizer, esperou que Nicolai perguntasse se ele estava bem, porque ele não estava, mas o silêncio perdurou e, então...
O corpo enrijeceu quando o toque dos dedos do escritor passeou por seu rosto, bem no canto de seus lábios. Eram os dedos de Nicolai Werner roçando por sua pele e roubando um pouco da confusão de glacê que era seu rosto. E mesmo que estivesse atordoado com o contato e prestes a pular sobre o escritor, notou que os olhos dele, castanhos esverdeados, pareciam bem atentos a sua boca.
Era agora que ele caía estatelado no chão da cozinha e sua alma abandonaria o corpo? Ele tinha certeza que esse era o momento.
E os seus olhos, arregalados e vidrados na cena, acompanharam minuciosos o momento em que os dedos envolvidos no glacê foram parar na boca do escritor. Ele queria muito ser aqueles dedos! Mas então, como se já não estivesse suficientemente chocado, a ideia de que compartilharam um beijo indiretamente, fez com que tudo explodisse em sua mente.
Dionísio. Estava. Morto.
Era oficial.
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