Era noite de Halloween, as crianças fantasiadas estavam nas ruas, pedindo “doce ou travessuras”. Uma noite horrível para uma caçada, ainda mais com a lua cheia brilhando no céu. Mas o meu estômago pedia por sangue, as veias pulavam e a minha visão começou a ficar turva. Como eu odiava sentir aquilo.

A campainha soou e eu a ignorei. Eu sabia que era uma criança estúpida pedindo por doces e se eu abrisse, com certeza a mataria. Mas ela continuava insistindo. Ignorei-a novamente colocando uma boa quantidade de uísque para baixo, pois o álcool ajuda a tapear a fome. Alguém havia me dito isso antes, mas não me recordo quem.

Caminhei até as portas dos fundos e sai caminhando pelo quintal a fora. Atrás da casa havia uma floresta grande. Pensei em correr por ali, apenas com a garrafa de uísque na mão. A noite estava realmente clara. Ouvi risos de crianças próximo de mim e desviei o caminho. E em um piscar de olhos, eu estava no meio da rua em frente de uma casa qualquer e não havia uma alma por ali. A construção era de madeira e da cor amarela, aproximei-me da porta sem pensar e toquei a campainha. Uma moça de olhos castanhos e cabelos louros, abriu a porta com um sorriso no rosto e um punhado de doces na mão. Ao perceber que não era uma criança do outro lado, ela se assustou. Olhei no fundo dos seus olhos e disse:

- Convide-me para entrar.

E ela o fez. Ao entrar, certifiquei que não havia ninguém na casa. A mulher ficou apavorada e resolveu correr para a porta dos fundos. Corri atrás e novamente dei uma ordem.

- Não saia da casa.

Eu sabia que quando a moça decidiu me deixar entrar, ela havia tomado sua decisão. Ou talvez eu houvesse a tomado. Percorri o ambiente e pedi um copo d’água. Péssima ideia, eu não queria me tornar amiga da moça, mas degolar o seu pescoço.

A loira caminhou até a cozinha para pegar o copo com a substância pedida e eu segui seus passos. Ao se virar com o conteúdo na mão. Eu estava preparada para o golpe, mas ela apenas ficou encarando o meu rosto repleto de veias roxas, os olhos tingidos de vermelho e os logos caninos afiados. Ela não sentia medo de mim. Ela sabia que iria morrer, porém não se arrependia de aceitar a morte. Depois, algo em sua mente dizia que isso era certo, que não deveria ter medo. Era isso que eu pensava. O copo nem sequer caiu de suas mãos.

Eu estava na frente dela mostrando minha verdadeira face, uma máscara de terror. Então, a escondi por alguns segundos e perguntei, após analisar suas expressões:

– Não vai ficar com medo? Gritar, fugir?

– Não – ela engoliu a seco.

– Realmente, e agora eu me arrependo. – dei um pequeno sorriso que revelava todo o meu lado maligno – Uma das partes mais divertidas é a caçada.

– E... Porque eu? – ela gaguejou, enquanto eu apoiava o queixo em seu ombro, segurando-a por trás.

– Na verdade, qualquer um bastava – rocei os lábios no pescoço dela – Todos tem o que eu quero: sangue.

Mesmo não mostrando nenhuma reação, por dentro ela se perguntava como alguém poderia ser capaz de tal crueldade. Ter tanto sangue frio para matar alguém.

– Como você consegue? – ela finalmente tomou coragem de perguntar – Matar as pessoas assim, tão friamente.

– Eu não consigo, e é exatamente por isso que faço.

– Como? Não faz sentido... – o medo em sua voz tinha ido embora.

– Faz... O sangue ajuda a esquecer... A não sentir – dei um sorriso irônico – O curioso mesmo é como você está tendo tanta coragem de me fazer esses questionamento.

– Eu perdi o medo de morrer. Não só pela hipnose, mas sei que não há mais saída – ela suspirou audivelmente.

– Essa sua coragem está acabando com a diversão...

– Espera... – disse – Tenho mais uma pergunta...

Deixei que a fizesse com um aceno de cabeça.

– Você tem algum tipo de sentimento? – essa era a impressão que eu a passava: um coração gelado?!

E aquela pergunta desencadeou uma série de lembranças. Lembrei-me de todo amor que eu tinha por Stefan, por Damon. Do ódio pelo Klaus. Da minha vontade de voltar a ser quem eu era, e como isso estava longe de voltar agora. Era óbvio que eu tinha sentimentos, mas eu desejava que todos fossem embora agora mesmo para eu que eu a matasse... Matasse a menina curiosa.

– Tenho, e como eu gostaria de não os ter! Eles são conflitantes demais, e não me ajudam nada nos meus atuais objetivos. Mas é difícil desligar. – respondi, enquanto a empurrava contra a parede da cozinha — Essa é uma das razões de eu continuar com a caçada...

Então eu olhei no fundo dos olhos dela, e ordenei que sentisse medo, que a abominasse... Que fugisse.

Quando a razão voltou à garota, seus pés quiseram correr, algo dentro dela mandava-a fugir. Mas ela não o fez. Estranhamente, a moça tinha se afeiçoado aquela criatura das sombras, que parecia sofrer tanto. Queria ajudá-me, e a única forma de fazer isso agora era morrer, o deixar beber o seu sangue.

– Não vai fugir? – perguntei confusa.

– Não mais... – ela respondeu, esticando a cabeça para o lado, evidenciando mais o seu pescoço – Vamos, beba. Mate-me.

Eu não entendia os sentimentos da garota. Aliás, ela queria mesmo morrer?

– Ainda não entendi muito bem, mas quero te ajudar. Acho que me identifico com você, sem um lugar no mundo, buscando uma saída. Eu já me conformei que não tenho mais aonde ir, mas talvez você tenha. Inexplicavelmente, quero te ajudar. E a única forma de fazer isso é morrendo – ela suspirou – Vamos, me mate! – Insistiu.

E numa fração de segundos, mordi o pescoço da loura, deliciando-me com o sangue doce e quente. Tudo pareceu tão fácil naquele momento, como se todas as barreiras fossem feitas da pele macia da garota, tão fácil de romper. Mas foi o sangue acabar, e eu segurar o corpo já sem vida, que todos os problemas voltaram, e a culpa começou. Eu tinha matado alguém que se importou comigo, mesmo sabendo o que aconteceria. E se fosse Damon o próximo?

Mas eu não tinha tempo para pensar nisso. Largando o corpo de qualquer jeito no chão, sem nem se preocupar em cobrir os rastros. Então, fui atrás da próxima vítima.

FIM

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