Doce obsessão
16 Capítulo 16: Nada de anormal.
Notas iniciais
Brittany P.:
No sábado quando voltei para casa, estava tudo silencioso e calmo e eu apenas ouvia o som da geladeira na cozinha e de algo batendo no chão do andar de cima. Provavelmente Rose brincando. Suspirei e fui procurar algo para comer.
Fiz uma pipoca de microondas e subi para meu quarto, me trancando lá dentro. O resto da noite não se passou com mais animação. Eu apenas me mantive aquecida sob os pesados cobertores. A noite estava ainda mais fria.
Não foi muito tarde quando decidi apagar a luz e tentar dormir. Virei de costas para a porta e me cobri, me encolhendo um pouco. Ouvi quando minha mãe abriu levemente a porta. Ela me chamou baixinho, mas decidi agir como se estivesse mesmo dormindo. Ela ficou algum tempo na porta e logo a fechou, impossibilitando que a luz do corredor adentrasse meu quarto.
Suspirei agoniada e passei a pensar em coisas realmente agradáveis, como Santana, por exemplo.
Não se passou muito tempo e eu finalmente consigo dormir.
Acordo na manhã seguinte e fico encarando o teto branco do meu quarto, totalmente indisposta para enfrentar um terrível domingo. Como o previsto, o dia se passa um tanto quanto enfadonho e, apesar disso, logo anoitece novamente e sem muita demora eu já estou dormindo.
Acordo no novo dia que se inicia e vejo que dormi mais que o esperado. Levanto-me apressada e coloco qualquer roupa quente o suficiente para não me deixar passar frio. Lembro que emprestei minha touca para Santana e sorrio, me lembrando de seu rosto. Pego uma outra touca e saio do quarto apressada, descendo as escadas pulando alguns degraus.
Passo pela cozinha, vendo mamãe e Rose tomando café. Dou um rápido bom dia, saindo de casa logo após de pegar um pacote de biscoito/bolacha e me encaminhando para a escola.
Chego lá exatamente no horário em que o sinal toca, indicando o início das aulas. Corro até meu armário para pegar o necessário e me dirijo para a sala de aula.
O professor permite minha entrada e inicia sua matéria, prendendo a atenção de alguns alunos. Alguns outros ainda estão sob o efeito de um grande sono e parecem totalmente exaustos. Isso me faz ficar com sono também. Muito desagradável.
As aulas anteriores ao intervalo se passam normalmente e quando o sinal indicando a pausa nas aulas soa, eu me mantenho sentada enquanto todos os outros se levantam, conversando entre si. Bocejo, sentindo o sono se apoderar do meu ser. Apoio meus braços sobre a mesa e deito minha cabeça em cima deles, fechando os olhos levemente.
Sinto alguém me cutucando levemente e levanto a cabeça, assustada. Sinto que eu definitivamente apaguei e olho em volta, conferindo o local em que estou. Certo, na sala de aula. Tudo bem, nada de anormal.
Olho para a pessoa que me cutucou e encontro o lindo sorriso de Santana. Ela me olha divertida e eu automaticamente me sinto sorrir também. Esfrego meus olhos, ainda sonolenta.
– O que está fazendo aqui, San? – Pergunto curiosa.
– Minha próxima aula é aqui, Britt. Eu perguntaria o que você está fazendo aqui, mas na verdade eu acho que já entendi. – Ela comenta, apontando para minha cara de sono e rindo em seguida.
Fico observando seu sorriso e contenho um suspiro apaixonado. Ela de repente deixa de sorrir e faz um cara de como se lembrasse de algo.
– Ah sim, quase estava esquecendo. – Diz, enquanto mexe em sua bolsa. – Sua touca. Obrigada, ela me serviu muito.
Balanço a cabela, entendendo e pegando a touca de sua mão estendida. Levanto e pego minha bolsa, guardando meu material dentro dela.
Santana fica me encarando, analisando minhas ações e me deixando sem graça.
– Está tudo bem? Tem baba no meu rosto? – Questiono, já sentindo a vergonha me tomar. Droga, isso sempre me acontece. Quanta estupidez!
Santana continua me analisando e logo parece despertar de dos próprios pensamentos. Ela ainda um pouco pensativa começa a sacudir a cabeça, negando.
– Está tudo certo aí, Britt. Não se preocupe.
– Certo... Bom, acho melhor eu ir indo. Daqui a pouco o pessoal chega e eu ainda estarei aqui. – Comento, já acenando e andando para a porta da sala.
– Tem razão. Mas ei, Britt. Espera. Podemos nos encontrar no auditório durante o almoço? Preciso conversar com você.
– Claro, San. Estarei lá. – Confirmo, finalmente saindo da sala e caminhando até minha próxima aula.
Santana querer conversar comigo não é necessariamente algo bom. Não fazemos isso. Nossas conversas simplesmente acontecem e sempre fluem naturalmente. Dessa vez Santana parecia um pouco mais séria e isso está me deixando agoniada. Não sei o que pensar, apenas decido não me preocupar com isso. Quanto menos problemas eu arrumar, melhor.
Assim que me retiro da sala, encontro Rachel passando pelo corredor. Coloco-me ao seu lado e dou lhe dou um empurrãozinho com meu ombro. Ela me olha um pouco surpresa e logo sorri.
– Olá, B.
– Olá, Rach. Como tem passado? – Pergunto, interessada. Não nos falamos durante todo o final de semana.
Seguimos conversando até o momento em que precisamos nos separar para cada uma ir para sua respectiva aula.
– Certo, até depois então, Rach. – Me despeço, acenando.
Entro na sala e avisto Kurt chamando a minha atenção no lado oposto ao da porta, perto das janelas. Sigo em sua direção e sento ao seu lado, feliz em vê-lo.
Não há muito tempo para conversarmos, pois logo o professor está em sala, nos impossibilitando de nos comunicarmos verbalmente.
Tento prestar atenção no que o professor está dizendo. Tenho quase certeza de que é algo relacionado à reprodução.
Olho para o lado e Kurt está me observando, mostrando curiosidade, como se questionasse o que eu estava pensando.
Ele deposita rapidamente sua atenção no caderno e começa a escrever, para logo em seguida arrancar a folha e me entregar. Kurt e seus bilhetinhos...
K: Está pensativa... algo a me contar?
Reviro os olhos e dou uma risada silenciosa, me sentindo a maior vidente do mundo. Abro um sorriso maior com meus pensamentos bobos.
B: Nada não.
Devolvo o papel e Kurt me olha magoado, como se recusasse uma resposta tão enxuta.
– ... logo, vemos que na reprodução assexuada há a desvantagem da falta de variabilidade genética. – Explica o professor.
K: Tá. Mas e como vão as coisas com a Santana? Já deram algumas bitoquinhas? ;P
Sinto meu rosto todinho adquirir um tom rosado e ficar mais quente. Tenho certeza que está super visível o quanto estou corada. Olho em volta e ninguém parece notar. Reflito um pouco sobre contar a verdade ou não e antes de responder confiro se o professor não está notando nada e logo respondo ao Kurt:
B: Estamos bem, vc não precisa de mais informações por enquanto. Depois conversamos.
Observo Kurt lendo e dou uma leve risada ao ver sua expressão frustrada. Volto minha atenção ao professor e decido me concentrar na aula.
Não demora muito e ouço o sinal tocando, indicando o fim da aula. Espero Kurt guardar suas coisas e logo nos retiramos da classe. Kurt não comenta nada sobre nossa conversinha por papel, respeitando totalmente meu espaço. Fico muito agradecida por isso.
A aula seguinte se passa num terrível silêncio, quase me enlouquecendo. O cochilo que tive não foi suficiente ao que parece. Bocejo, esperando que a aula termine logo. É tanta tortura.
Passo a fazer rabiscos aleatórios no caderno como forma de passar o tempo. Após isso não presto mais atenção em muita coisa. Apenas quando o almoço se inicia e eu me sinto acordar novamente. Finalmente um descanso.
Faço o caminho até o auditório, sentindo meu estomago revirar de ansiedade. Santana sempre faz com que eu tenha essas sensações.
Abro a porta que leva às coxias e entro, ouvindo apenas meus passos. Vou para a parte da frente do auditório e sento numa das cadeiras da primeira fileira enquanto aguardo Santana aparecer.
É estranho estar aqui sozinha, nesse silêncio. Meus pensamentos parecem gritar e ao mesmo tempo se silenciarem, como se eu não estivesse pensando em nada.
A luz que entra no auditório é decorrente da porta de emergência aberta, o que faz com que eu note perfeitamente quando Santana entra. Involuntariamente um sorriso surge no meu rosto. Sacudo a cabeça, tentando me controlar e apenas mantenho um expressão tranquila quando ela se aproxima de mim.
Ela me oferece um sorriso e se senta ao meu lado, me encarando. Eu sinceramente espero que ela comece essa conversa pois eu não faço a menor ideia do motivo pelo qual estamos a tendo.
– Obrigada por ter vindo. – Agradece ela, de repente.
Fico a observando, esperando que ela continue, mas ela não o faz. Apenas fica pensativa, possivelmente ponderando o que deve e o que não deve me dizer.
– Você pode simplesmente dizer, San. Seja lá o que você queira. Seja direta. – Peço, com a curiosidade me sufocando.
Ela por alguns segundos apenas me olha, surpresa por eu ter percebido sua confusão.
– Certo... – Ela diz, pensando uma última vez antes de expôr o problema. – Eu acho que talvez nos precipitamos ao nos beijarmos. Eu sei que você disse que entenderia qualquer decisão que eu tomasse, mas eu não quero, de qualquer forma, acabar dando a impressão errada. Eu gosto de você, Britt. Gosto mesmo, só não vamos confundir isso.
Olho por alguns segundos seu lindo rosto preocupado. Suspiro, me sentindo confusa. Ela não sabe a dimensão do meu carinho por ela e pelo jeito não precisa saber agora.
– Eu na verdade não te entendo, San. Você correspondeu e agora tem toda essa situação, como se estivesse arrependida... Mas olha, não vou forçar nada. Está tudo bem. Não se preocupe quanto a isso, está tudo certo. Não vou insistir, prometo. – Afirmo, pegando em sua mão.
Santana olha para nossas mãos agora unidas, não dizendo nada sobre o que eu disse e parece em dúvida a respeito de algo. Talvez até desconfortável. Meu coração parece ficar um pouco menor e sinto um leve aperto. Não gosto quando a San fica assim comigo. Como se não confiasse o suficiente em mim ou não se sentisse confortável quando estamos juntas. Não eramos assim antes e eu sinto como se tivesse feito a maior burrada quando decidi a beijar.
Decido ignorar esse sentimento e agir como se não houvesse notado nenhuma mudança de comportamento.
– Então... como passou o restante do sábado e o domingo? – Pergunto, procurando conversar com ela. O silêncio desta vez era desconfortável.
– Muito bem, e o seu? Vagou muito pelas ruas, nesse frio? – Questiona ela, irônica. Como assim?
– Na verdade fui para casa depois que a encontrei, San. Não saí de lá depois disso.
– Mesmo?
– Sim, mesmo... – Confirmo, estranhando sua repentina curiosidade e suspeita. – Por quê?
– Apenas estranhei, já que você mesma disse que estava cansada de ficar em casa.
– Ah, sim. E estou mesmo. Não estamos passando por um bom momento, sabe? – Conto sussurrando, como se pedindo segredo.
– O que está havendo? – Ela de repente me parece preocupada.
– Peter, é claro. Ele está destruindo a família, San! Mamãe e ele não paravam de discutir e bom, eu não poderia ficar calada, não é? Mas mamãe não entende. – Esclareço, abaixando a cabeça, me sentindo chateada novamente. – Ela acha que tudo isso vai passar. Ela não me ouve. Parece que gosta de sofrer. Eu briguei com ela por isso e saí de casa para espairecer. Foi quando te liguei. Queria alguém para conversar.
Santana me olha, realmente me encarando de forma fixa. Parece analisar todo o meu desabafo de sofrimento. Um horror.
– E-então foi por isso que você ligou? Queria poder ter te ajudado, Britt-Britt. Sinto muito pelo que está acontecendo na sua casa. Você poderia ter me contado quando nos encontramos na rua, querida. – Ela diz, acariciando meus cabelos. Sorrio com seu carinho, feliz por ter de volta a San de sempre.
– Sim, por isso. Obrigada por seu consolo. Espero que minha mãe abra os olhos para toda essa situação... De toda maneira, eu vi que você não estava no seu melhor momento quando nos encontramos, San. Você não estava disposta a conversar e eu não estava disposta a te chatear. Foi isso. Achei melhor deixá-la ir.
Santana me olha como se fosse pular em mim num imenso abraço.
– Tudo vai se resolver, D. Susan é inteligente e eu confio nela para isso. – Ela afirma sorrindo, me oferecendo conforto. – Da próxima vez, converse comigo, tudo bem?
Balanço a cabeça, concordando.
– Então estamos bem? – Pergunto insegura.
– Estamos ótimas. – Ela confirma, rindo e prendendo meu dedinho ao seu.
Olho para seu sorriso e tudo realmente parece bem. Sei que a cada dia que se passa minha chances com Santana diminuem. Após a conversa de agora tudo parece ainda mais impossível, porém não é algo pelo qual eu queira me preocupar no momento. Tudo que conquistei até hoje já é um enorme lucro. Sua amizade é simplesmente meu porto seguro.
Qualquer sorriso, olhar ou palavra que vem dela direcionados para mim tornam meus dias completos e felizes. Qualquer coisa a mais já é um bônus imensurável, impossível de descrever.
Nos mantemos por um bom tempo no auditório, apenas conversando como sempre gostamos de fazer. Nossos dedinhos ainda estão unidos e agradavelmente nenhuma de nós duas está de fato pensando em largar da outra. Estamos simplesmente curtindo o momento.
Fale com o autor