Doce obsessão
25 Capítulo 25: Tão irritada.
Notas iniciais
Brittany P.:
Às vezes imagino que minha vida não pode ser totalmente perfeita. Quando as coisas em casa passam a ficar mais tranquilas, as coisas na escola e no resto da minha vida pessoal parece ruir. E com 'minha vida pessoal', eu me refiro à Santana.
A semana que se passou após minha conversa com Peter foi cheia de surpresas. Em casa, parecíamos uma outra família. Peter ainda não era um perfeito cavalheiro, porém estava se esforçando. Ele brincava com Rose quando queria sair e beber. Era uma forma de manter o controle e eu o admirava um pouquinho por isso.
Minha mãe começou no novo emprego e parecia impossivelmente feliz. Ela estava sentindo-se livre e independente. Eu via isso em seus olhos e não poderia deixar de sentir-me feliz. Todo dia ela chegava em casa com algo novo para contar sobre algo que uma das criança disse ou fez. Ela era apaixonada por aqueles pequenos e, diferente do que se possa imaginar a partir disso, Rose não havia ficado com ciúmes. Na realidade, posso dizer que Rose se aproveitou da situação para fazer novos amiguinhos.
Em minha escola as coisas já não estão tão agradáveis assim. As inúmeras provas já estão sendo aplicadas e isso, de certo modo, afastou-me de Santana. Tentamos estudar juntas, tentamos mesmo, mas era sempre muito complicado. Nossas provas caiam em dias diferentes e com matérias diferentes. Os estudos acabavam não dando muito certo, pois uma sempre ficava prejudicada.
Na escola, não tínhamos muito tempo juntas. Apesar disso, todas as vezes em que Artie me cumprimentava, Santana estava próxima. Chegava a ser ridículo a coincidência disso.
Ela revirava os olhos e me virava as costas. O resto do dia ela passava com a cara emburrada e, mesmo eu pedindo explicações, ela não explicava. Apenas dizia estar com sono e cansada.
A semana toda se passou dessa forma e só foi piorando. Na sexta-feira Artie decidiu que seria interessante puxar assunto comigo durante a troca de aulas. Por educação, fui com ele até a sala de aula enquanto empurrava sua cadeira. Santana ficou irritada e ignorou-me o resto do dia e da semana. Na segunda-feira da semana seguinte, ontem, nem aos menos nos vimos pela manhã, como sempre foi de costume.
Eu me sinto tão irritada. Todas as vezes em que ela me aparecia com a cara fechada, eu fazia o possível para agradá-la. Ela, ao contrário de mim, não fez o menor esforço em se manter próxima. Na verdade, começo a suspeitar que sua intenção desde o início foi me afastar. Bem, está funcionando.
Hoje é terça-feira e as aulas nunca me pareceram tão duradouras. Mesmo sem querer, não consigo evitar procurar Santana com o olhar. Vejo-a chegar até seu armário e abri-lo. Minhas mãos automaticamente começam a suar em claro sinal de ansiedade. Esse tipo de reação me tira do sério. Eu poderia dizer que sinto borboletas em minha barriga, mas nunca tive borboletas na barriga, então não tem como eu dizer isso.
Kickstart my heart when you shine it in my eyes (Meu coração dispara quando você ilumina meus olhos)
Can't lie, it's a sweet life (Não dá pra mentir, é uma vida boa)
Ela me olha e desvia o olhar. Eu simplesmente não entendo como foi que passamos a nos ignorar. Ou melhor, como foi que Santana passou a me ignorar. Fiz algo de errado e não percebi?
Suspiro e me viro para a direção oposta a ela. Caminho lentamente para a sala de aula, não reprimindo a esperança de que ela venha atrás de mim. Ela não vem.
Avisto Noah ao final do corredor e aceno educada. Ele retribui com um pequeno sorriso e me mostra seu dedo polegar, como um "joinha". Retribuo o gesto e entro na sala de aula.
Depois do término entre Santana e ele, conversamos poucas vezes. Na realidade só o fazemos quando temos aulas juntos. Fora isso, nossa relação se baseia em educados cumprimentos. Mas ainda assim parece funcionar. Não é como se fingíssemos que não nos conhecemos. Apenas estamos um pouco mais retraídos com o outro.
Sento ao lado de Kurt quando entro na sala de aula, e logo abro o caderno numa página em branco. Suspiro novamente, pensando em como quero estar em casa deitada e fazendo nada.
Sinto o olhar de Kurt em mim e espero que ele faça suas intermináveis perguntas. Não demora muito a acontecer. Totalmente previsível.
– Santana ainda está com ciúmes? – Pergunta ciente da situação esquisita entre ela e eu. Com sua pergunta eu logo percebo que minha expressão deve ser de pura insatisfação.
– Sim. Você não acha isso ridículo? Digo, eu já deixei claro meu desinteresse em Artie, no entanto ela aparentemente não se importa com isso. É tão injusto! – Cruzo os braços irritada. Ouço Kurt rir ao meu lado. — Estou realmente começando a achar que ela não sente o menor ciúme. Ela apenas não sabe como me dispensar e fica fazendo essa ceninha.
– Isso é tão drama adolescente... – Comenta suspirando. – Vocês complicam coisas simples. É a famosa tempestade num copo d'água.
Olho para ele curiosa. Não discordo em nada.
– Talvez agora ela só esteja precisando daquele tempo que não teve quando terminou com Noah, Britt. Você às vezes parece esquecer ou ignorar o fato de que atropelou tudo. – Sinto vontade de brigar com Kurt por jogar isso na minha cara. Mas ele tem razão. Eu fui uma babaca passando por cima de tudo e não posso criticar Santana se ela realmente estiver precisando desse tempo do qual Kurt falou.
– Acha que é isso mesmo?
– É uma possibilidade. Mas ela obviamente não gosta de você e Artie juntos, acredite. – Balanço a cabeça concordando.
Tento prestar atenção na aula e evitar pensar em Santana. Será mesmo que ela só precisa de um tempo? E o que isso poderia significar? É algum retrocesso em nossa relação já estranha e confusa? Depois desse tempo, ela ainda irá me querer por perto? Franzo as sobrancelhas com tantas perguntas sem respostas. Que vida difícil!
Finalmente a aula acaba e eu levanto e paro ao lado de Kurt, esperando que ele termine de guardar os materiais que estão espalhados em sua mesa.
– Sabe, você poderia ser mais organizado. – Reclamo com sua demora. Ele apenas ignora e fecha o zíper da bolsa.
Caminhamos até meu armário enquanto discutimos sobre qual série é melhor: Friends ou How I met your mother. Concluimos que ambas são ótimas, mas que Friends é ainda melhor. É nesse momento em que esbarro em alguém. Não que seja alguma novidade eu fazer isso.
– Não olha por onde anda, não? — Ouço a pessoa reclamar irritada. Dou risada ao perceber que é Santana e que ela está com o cenho franzido e com uma expressão absolutamente emburrada. Tão bonitinha.
– Bem, você poderia ter desviado, não? – Indago com uma sobrancelha erguida. Ela me olha e finalmente parece perceber que sou eu.
– É... hum, talvez. – Responde dando de ombros. – Agora eu tenho que ir.
A decepção toma conta de mim. Ficamos distantes por um tempo tão considerável que agora eu simplesmente não a quero longe. E ela nem ao menos foi carinhosa ou algo do tipo. Eu não poderia ser mais estúpida.
'Cause you light the way, you light the way (Porque você ilumina o caminho, você ilumina o caminho)
You light the way (Você ilumina o caminho)
– Tudo bem então. – Dou de ombros puxando Kurt que apenas nos observava e indo para minha próxima aula com a chateação tomando conta do meu semblante.
Olho para trás enquanto caminho e vejo Santana ainda parada olhando em minha direção. Suspiro e continuo a andar.
É a última aula do dia e eu mal posso esperar para chegar logo em casa. E isso é péssimo. Quanto mais eu espero, mais interminável a aula se torna. É uma tortura!!
Finalmente ouço o mágico barulho do sinal indicando o fim da aula. Suspiro feliz e levanto, aguardando enquanto os alunos correm desesperados para a saída. Quando o caminho parece suficientemente livre, passo a caminhar até meu armário. Não demoro muito e logo sigo em direção à luz ao fim do corredor.
– Ei, quer uma carona? – Ouço Artie perguntando ao meu lado. Provavelmente estou com os olhos arregalados em uma expressão de susto, pois ele dá risada e aponta para seu colo. — Não é nada muito veloz, mas acho que serve.
Viro a cabeça um pouco confusa. Nunca me ofereceram uma carona numa cadeira de rodas. Dou risada com a situação.
– Bem, até que não é uma má ideia visto que estou apressada para sair desse lugar. – Comento olhando em volta e dando de ombros , sentando em seu colo em seguida. É estranho. Porém divertido. Artie é tão magrinho que sinto como se suas pernas fossem quebrar com meu peso. Aparentemente ele não tem a mesma sensação, já que move a cadeira com agilidade até a porta de saída.
Paramos no local onde nossos caminhos se separam e eu me levanto, rindo do momento divertido que tive.
– Muitíssimo obrigada pela carona. Uma pena ter durado tão pouco. – Digo sorrindo. Ele abre um enorme sorriso também e abaixa a cabeça um pouco tímido. Despeço-me dele e inicio a caminhada até minha casa.
Coloco os fones de ouvido na tentativa de fazer o percurso mais divertido e vez ou outra abro a boca para acompanhar o cantor da música.
Sinto alguém se aproximando pelo meu lado direito e ando um pouquinho mais rápido, temendo olhar para a pessoa e encontrar um assaltante pronto para levar qualquer coisa de valor que eu tenha.
A pessoa me alcança e fica exatamente ao meu lado, na maior intimidade. Com o canto do olho observo que, na verdade, se trata de Santana. Suspiro aliviada por ser ela e não um desconhecido com índole duvidosa.
Meu alivio só dura o tempo de eu notar sua expressão séria e irritada. Ela olha fixamente para frente, sua sobrancelhas franzidas, o maxilar apertado e os braços cruzados mostram o quanto ela está concentrada e tensa. Talvez um pouco assustadora também.
Fico um pouco desconsertada e não sei se devo questioná-la a respeito de algo. Ela até então não estava muito sociável. Não comigo.
– Avise a sua mãe que você irá para a minha casa. – Diz ríspida. Ergo as sobrancelhas.
– Eu vou?
– Não vai? – Devolve, virando finalmente o rosto em minha direção e olhando-me como se estivesse propondo um desafio. Suspiro sem entender nada. Minha vontade é estapeá-la por ser tão arrogante e mandona, mas, ao mesmo tempo, quero abraçá-la e passar o dia matando a saudade do calor do seu corpo.
Suspiro novamente e decido não dizer nada. É tão difícil estar apaixonada.
Ela continua com sua expressão estressada e o silêncio só a faz parecer mais aborrecida. Seus pés pisam forte no chão e quase sinto pena da calçada por isso. É um absurdo que ela desconte seus problemas comigo dessa forma. Um absurdo mesmo!
Decido avisar minha mãe, como Santana propôs, que chegaria mais tarde em casa. Não demora muito para chegarmos na residência da garota nervosa ao meu lado.
O silêncio do lugar faz os pelinhos dos meu braços arrepiarem. Santana está tão irritada que penso no perigo de estar sozinha com ela.
Fico na sala a esperando beber água. Ela volta e simplesmente sobe as escadas, provavelmente esperando que eu a siga. Dou de ombros e o faço.
Meus passos parecem fazer eco dentro da enorme casa. Ou talvez eu esteja apenas muito apreensiva. Sem motivos, devo ressaltar. É só que Santana parece tão chateada e agitada que é quase como se eu sentisse o mesmo, só que de forma diferente e confusa.
O fato dela de repente querer conversar comigo libera toda minha curiosidade em cima disso. Em pouco tempo a boa convivência que tínhamos virou uma completa bagunça e agora surge a possibilidade de uma conversa esclarecedora.
Respiro fundo e subo o restante da escada. Eu só quero que as coisas entre nós se resolvam da melhor forma possível.
You're getting me, getting me through the night (Você me guia, me guia no meio da noite)
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