Notas iniciais
E feliz Halloween pra todo mundo! Vendo os filmes, séries e tudo mais eu considero esse o melhor feriado do ano, mesmo que no Brasil ele seja bem pouco comemorado.

A pequena cesta com o formato de abóbora balançava em suas mãos, e a garota bufava frustrada por não conseguir praticamente doce algum. Como havia pensado, já era velha demais para ir de porta em porta repetindo a famosa frase “Doces ou travessuras!” no Halloween, mas Kaminari, de alguma forma tão idiota quanto o próprio, havia a convencido do contrário. Os dois amigos andavam lado a lado por uma calçada vendo os quintais e entradas das casas enfeitados com esqueletos de mentira, aranhas em suas teias feitas com cartolina, abóboras macabras e todo tipo de decorações temáticas que se podia imaginar. Kaminari por sua vez não parecia se incomodar como Jirou, mesmo que sua cesta com o formato de um crânio estivesse tão vazia quanto a da garota.

O loiro havia realmente se esforçado para fazer a fantasia de Frankenstein que usava, e os parafusos presos em seu pescoço eram convincentes o suficiente para fazer qualquer pessoa acreditar que havia realmente dois objetos de metal saindo do seu corpo, talvez como parte de sua individualidade. Ficar por horas a fio com uma fantasia pesada como aquela e sapatos desconfortáveis como o que calçava devia ser realmente um incômodo, o que só deixava Jirou mais confusa em relação a alegria que o loiro deixava transparecer.

Diferente dele, Jirou usava uma fantasia muito mais leve, mas que para ela ainda era extremamente desconfortável nessa idade. Se vestia como Noodle, a integrante guitarrista da banda virtual Gorillaz. Seus pés já deviam estar sujos por andar pelas ruas calçando nada além das longas meias listradas em preto e branco. Mas seu problema mesmo era em como o vestido branco era mais curto e justo do que estava habituada a vestir. A máscara com o rosto de gato estava na lateral de sua cabeça, virada para o lado oposto de Kaminari. Gostaria de ter trago consigo também sua melódica para estar totalmente na personagem, mas optou por não o fazer pois seria muito incômodo ter ambas as mãos ocupadas com o instrumento e com sua cesta de Halloween. Se soubesse que voltaria para casa com tão poucos doces poderia nem ter trago a cesta, e só acompanharia o amigo tocando algumas músicas da banda de tempos em tempos com ele.

Bufou com o pensamento desagradável, não valia a pena se estressar com isso. Poderia fazer como Kaminari e tentar manter uma atitude um pouco mais positiva. Pouco doce ainda era melhor do que doce nenhum, mesmo tendo o trabalho de conseguir a fantasia não sendo recompensador o suficiente. Com essa idade seria mais comum ficar em casa e ser ela a entrega os doces para crianças que batessem em sua porta. Talvez, se não fosse a insistência do amigo, ela teria mesmo feito isso. Em último caso teria decidido ir em alguma festa de última hora, não tendo a paciência para ficar parando o quer que estivesse fazendo para atender a porta uma vez atrás da outra. O incentivo de seus pais havia sido outro fator a coloca-la nessa situação, já que ambos gostavam tanto do amigo falador dela.

“Mais seguro do que ir em festas sozinha” ambos disseram. Não estavam errados no final das contas, então não discutiria com eles.

As ruas ficavam pouco a pouco mais vazias, com a noite que cada vez mais escura levava as crianças de volta para seus lares para se aproveitarem das inúmeras guloseimas que conseguiram. Os dois já haviam concordado que era tarde demais para continuarem vagando pelas ruas em busca de conseguirem mais alguns mísero doces, então a dupla ia em direção de suas respectivas casas que ficavam em um bairro próximo.

—Eu ainda acho que uma fantasia de Pikachu combinaria mais com você. –A roqueira comentou querendo pôr fim ao baixo e constante cantarolar que seu amigo mantinha, provavelmente sem sequer perceber. –Talvez algumas dessas pessoas achasse engraçado o quão idiota você ficaria e tivessem resolvido nos dar mais alguns doces.

—Por que todo mundo diz isso? –Resmungava pelo tratamento que recebia da amiga. Idiota era praticamente seu nome do meio quando estava com Jirou. Não era tão irritante, mas também já havia desistido de tentar mudar isso. –O que eu tenho em comum com ele?

A menor não pensou por muito tempo, e sorriu divertida com a frustração do amigo. Logo começou a listar as características que ambos carregavam, como se fossem a coisa mais óbvia do mundo. E realmente, para ela, eram mesmo.

—Primeiramente vocês dois tem poderes elétricos, o seu cabelo é amarelo com uma mancha preta como o pelo dele... –Seu sorriso se expandiu vendo um rosto um tanto quanto incrédulo de Kaminari, como se a informação fosse a maior revelação que já tivesse ouvido em sua vida. – e vocês dois até que são bem fof... –E de repente ela se calou, sentindo suas bochechas se aquecerem rapidamente e um par de olhos amarelos e confusos a fitando.

—Nós dois somos...? –Ele indagou esperando que ela continuasse de onde parou, querendo saber o que mais poderia ter em comum com o pequeno rato elétrico.

—Nada! –A resposta veio curta e grossa, e a jovem cobria parcialmente seu rosto com a máscara outra vez, só que agora era com o intuito de esconder o rubor que crescia em suas bochechas. –Nada demais, Frankenstein.

Eventualmente o garoto voltou a olhar pelo caminho que seguiam, desviando de algumas crianças que corriam animadas fossem para suas próprias casas ou para outras em busca de mais “doces ou travessuras”. Sorriu nostálgico com isso, se lembrando que de quando era menor o feriado tinha guloseimas mais generosas e recompensadoras, e o mais impressionante era que isso tudo vinha com alguma fantasia muito mais barata e simples do que a usava agora

—Por que você ainda gosta dessa brincadeira? –Jirou perguntou chamando novamente a atenção do loiro. –E por que insistiu tanto pra eu vir junto também?

Por um momento se perguntou o que exatamente ela queria dizer com isso, já que para ele realmente não havia nenhum motivo para não fazer uma dessas coisas.

—Eu posso até ser um pouco velho pra fazer isso, mas qual o problema? Ainda é divertido, mesmo que a gente não tenha conseguido muita coisa. –Ria balançando a própria cesta e ouvindo o punhado de doces se remexendo dentro. –Mas é que nem aqueles jogos de garra, não é? Mesmo que você não consiga o prêmio que queria, ainda dá pra se divertir jogando.

Os olhos roxos da garota fitavam Kaminari com um misto de descrença e um pouco de confusão. As vezes ela pensava que o garoto nem mesmo ouvia o que falava. –Essa analogia não faz o menor sentido e não tem nada a ver com a situação.

—Han? –Exclamou a encarando frustrado, vendo a expressão zombeteira que se formava em seu rosto enquanto tirava outra vez a máscara de gato. –Sério? Pra mim ela é perfeita e se encaixa muito bem com o que fizemos hoje.

—Nenhum um pouco, Denki. –Riu vendo como ele estava indignado. As vezes se questionava como ele a conseguia fazer rir mesmo sem tentar. – E... em relação à segunda pergunta?

Viu o semblante do loiro levemente alterado, ficando pensativo com a pergunta. Isso era estranho já que Kaminari não era muito de pensar.

—Deixa eu ver... –Dizia com uma mão sobre o queixo, coçando o maxilar e fazendo uma careta exageradamente pensativa tirando outro breve sorriso dela com a visão cômica que teve com isso. –Pra mim é algo que faz sentido, mas depois do que você disse talvez seja só besteira minha de novo.

—Anda logo, fala o que é?

—Eu achei que seria muito mais divertido fazer isso com você. –De pensativo seu semblante havia parado em apreensivo, e talvez tendo passado por alegre antes, Jirou não tinha certeza. Mas os olhos amarelos pareciam brilhar enquanto a olhavam esperando ansiosos por uma reação que a garota não tinha certeza de como deveria ser. –Então... isso faz mais sentido?

—Fa-faz! –Respondeu depois que voltou a si e sentiu a pressão do olhar de Kaminari sobre ela ainda esperando pela resposta, falando o mais rápido que podia. –Faz sim.

Um largo sorriso aparecia no rosto do loiro, satisfeito e feliz com a reação dela.

—Você acha que foi divertido também? –Questionou outra vez, já que a maior parte do tempo a roqueira parecia incomoda por mais de um motivo, temia que não tivesse sido esse o caso. –A ideia toda de eu te chamar vai pelo ralo se não tiver sido divertido pra você também.

—Foi sim. –Respondeu assim que os dois pararam no cruzamento da rua, onde cada um seguiria seu caminho para própria casa. –Com certeza melhor do que ficar em casa atendendo a porta sem parar e ficar com inveja das crianças.

Ambos riram brevemente, parecendo dois velhos saudosos com a infância quando eram só dois adolescentes que ainda tinha a simplicidade da infância bem fresca em suas memórias.

—Então obrigado por ter vindo junto, saber que não foi uma perda de tempo pra você fez a noite ser muito melhor pra mim. – O garota se afastava da menor, caminhando na direção oposta à que ela seguiria. –A gente se vê-

—Na verdade, Denki... –Ela o interrompeu de repente, a voz saindo um pouco mais alterada do que pretendia, surpreendendo tanto a si mesma quanto ao amigo fantasiado. Depois de chamar sua atenção, ela levantou o braço balançando levemente a pequena cesta quase vazia que carregava, sorrindo amistosamente para ele. –Você quer ir em mais algumas casas antes de encerrar a noite? Só mais uma rua?

O sorriso que se abriu no rosto de Kaminari era ainda maior que o anterior, respondendo animadamente e sem hesitar. –Claro!

Fazendo o caminho oposto, se aproximou da garota e ambos começaram a descer a mesma rua de antes. Jirou não ligou muita para o fato de que provavelmente conseguiria tão poucos doces nessas últimas casas quanto havia conseguido no resto da noite, mas faria isso do mesmo jeito e se manteria alegre. Afinal de contas não estava sozinha, e poderia para passar mais algum tempo com Kaminari.

—Sabe, talvez ano que vem eu me fantasie de Pikachu e tente ver se o que você falou é verdade.

—Vou adorar ver isso.

Notas finais
To ligado que esse lance de “uma pessoa vai fazer um elogio que pode ser considerado flerte sem perceber e fica com vergonha por isso enquanto a outra pessoa não entende o que aconteceu porque a primeira parou de falar do nada” é clichê mas não to nem ai. Imaginei a cena e achei fofa pra caralho, então quis colocar. Uma observação de uma alteração que tive que fazer: Inicialmente a fic seria de universo alternativo sem individualidades, mas dessa forma Denki não teria muita coisa que pudesse remeter ao Pikachu, então resolvi manter o universo original. Contudo, no original eles dormem no mesmo dormitório o que eu queria fazer diferente pra ter esse cenário no final, então vamos só fingir que a U.A. levou mais tempo pra tomar a decisão de fazer os dormitórios e nesse período teve o halooween. Dia 31 de outubro também é o aniversário da Noodle, da banda Gorillaz pra quem não conhece. Ficou como uma pequena homenagem a Jack fantasiada como ela durante a fase 3.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!