Notas iniciais
Boa noite!!!! Mais um capítulo fresquinho saindo, se tudo der certo amanhã volto com mais um capítulo, pois estou muito ansiosa para chegar em um ponto desse enredo e no fim desse capítulo vcs vão entender... gostaria muito de saber o que estão achando. Sei que muitos autores desistem de suas histórias e isso meio que deixa os leitores com o pé atrás e até desanimados, sei disso, pois tbm sou leitora. Entretanto, prometo a vcs que não vou abandonar este enredo. Então me deixem bem contente e deem a opinião ou o que estão achando nos comentários, por favorzinho


A sexta-feira havia iniciado com tudo, a respiração ainda era irregular. Katniss estava sentada sobre a mesa de mogno polido, as pernas ainda trêmulas, a saia justa erguida até quase a cintura, a blusa de seda aberta, o sutiã desalinhado.

Peeta, com o rosto ainda levemente corado, terminava de fechar a calça social, afivelando o cinto com dedos apressados. Seu cabelo bagunçado e a camisa meio para fora da calça denunciavam o que acabara de acontecer — pela primeira vez no escritório.

A mesa estava uma bagunça completa — folhas espalhadas, caneta no chão, a maquete de uma nova filial virada de lado e uma xícara de café tombada, ainda escorrendo lentamente até a beirada.

Katniss sorriu, ainda sentindo o eco do prazer latejando no corpo.

— Se essa mesa falasse… — sussurrou ela, entre risos e se esticou com uma preguiça felina.

Peeta soltou uma risada baixa e se aproximou, encaixando o corpo entre as pernas dela.

— Ela imploraria por um repeteco, mas a culpa é toda sua por não dormir essa semana comigo — lamentou ele.

— Ohh... como você é pervertido, Sr. Mellark! Meus pais acham até que não moro mais com eles — indignou-se ela, fingindo estar zangada.

O jogo Verdade ou Consequência havia rendido entre os dois. Tanto que o placar final terminou exatamente onde estavam agora.

Peeta se aproximou dela e antes que pudesse beijá-la de novo, três batidas secas interromperam o momento.

— Vocês dois indecentes têm noção de que o jurídico inteiro já está na sala ao lado esperando?

Johanna.

Peeta arregalou os olhos, praguejou baixinho e correu até a porta, ainda tentando alinhar a camisa. Abriu com um sorriso cínico, o ar mais ou menos recomposto.

Johanna entrou como um furacão, os olhos varrendo o ambiente. Parou. Olhou a mesa. Arqueou uma sobrancelha.

— Se isso aqui fosse uma série, eu chamaria essa cena de “Executivos Sem Vergonha” — disse, cruzando os braços. — Vocês pelo menos tiraram a câmera de segurança do loop ou preferem estrear no OnlyFans da Atlas?

Do banheiro interno, Katniss apareceu, ajeitando os cabelos e fechando os últimos botões da blusa com total calma. Estava de salto, segura e cheia de charme — como se nada tivesse acontecido.

Johanna olhou de Katniss para Peeta, depois de volta para Katniss.

— Bom, pelo menos vocês não estão perdendo tempo… Se essa fusão com o grupo asiático for tão intensa quanto o que eu acabei de cheirar aqui, estamos feitos.

Peeta passou a mão no rosto, rindo sem graça.

Katniss apenas lançou um olhar provocador e pegou uma pasta do canto da mesa como se tudo estivesse perfeitamente sob controle.

— Vamos? — disse ela com um leve sorriso. — O jurídico espera, eu ainda preciso devolver essa mesa para o uso profissional… eventualmente.

A sala estava silenciosa e iluminada com a luz fria dos painéis de LED. A equipe jurídica da Atlas — cinco advogados experientes e um estagiário que mal levantava os olhos do notebook — ocupava metade da mesa retangular. Do outro lado, Peeta, agora com a camisa perfeitamente alinhada (ao menos em aparência), tentava manter a postura de CEO impecável.

Katniss estava ao seu lado, com um terninho cobrindo o que antes era pura luxúria. Cruzava as pernas com elegância e anotava alguns pontos na tela do tablet, embora o leve sorriso no canto da boca denunciasse que sua mente ainda vagava... na mesa de mogno.

Johanna estava à cabeceira da mesa, girando uma caneta entre os dedos com tédio proposital. Seus olhos, no entanto, observavam cada micro expressão de Peeta com um ar divertido.

O advogado mais velho pigarreou e começou.

— Como sabem, o conglomerado Shida & Kwon finalizou a segunda rodada de auditorias internas. Eles estão interessados em adquirir 32% das ações subsidiárias da Atlas no Sudeste Asiático, especialmente a divisão de logística e dados.

— Perfeito — respondeu Peeta, firme e logo se arrependeu. A palavra “perfeito” soou estranhamente carregada depois de... bem, tudo. Limpou a garganta. — Desculpe, prossiga.

O estagiário levantou um gráfico projetado na tela.

— Também foi aprovado o memorando de intenções para a criação de um polo conjunto em Cingapura. Esperamos a análise final de compliance até sexta.

Peeta assentiu, mas seus olhos, por um breve instante, escorregaram até a lateral da blusa de Katniss, onde a pele do pescoço ainda exibia um leve rubor... dele.

“Concentra, Mellark.”

Katniss percebeu. E adorou.

Ela girou o tablet para ele, mostrando um dado estratégico.

— Acredito que com os incentivos fiscais que o governo de Cingapura está oferecendo, podemos impulsionar a entrada da Atlas no setor de IA embarcada, o que nos posiciona como referência global... — disse ela, com a voz firme e sedutora o suficiente para fazê-lo prender a respiração.

Peeta se ajeitou na cadeira.

— Excelente ponto, srta. Everdeen... — falou ele, formal demais, como se usasse o título para se proteger de si mesmo.

Johanna soltou um sorrisinho ao vê-lo trocar de posição pela terceira vez em cinco minutos.

— Srta. Everdeen está se mostrando cada vez mais indispensável... — provocou ela, e o estagiário se engasgou com a água.

Katniss sorriu.

— Eu tento manter o desempenho... consistente.

O olhar que ela lançou para Peeta durou meio segundo.

Mas foi o suficiente para fazê-lo querer encerrar aquela reunião imediatamente.

Peeta fechou o notebook com firmeza.

— Agradeço o trabalho de todos. Vamos analisar os próximos passos com calma, mas já podem ir preparando o esboço de contrato.

A equipe começou a recolher os papéis. Quando a sala se esvaziou, Johanna foi a última a sair, mas antes de cruzar a porta, murmurou para Katniss:

— Mesa dois, Reunião zero. Quem diria, Everdeen? Você viciou ele.

Katniss apenas piscou.

Peeta suspirou, passando a mão pelos cabelos.

— Isso foi tortura. Literalmente, tortura corporativa.

Katniss deu de ombros, voltando para o tablet.

— Culpa sua por me convidar pra sentar na sua mesa.

Era quase fim de expediente quando as portas de aço se fecharam com um leve chiado, isolando Peeta e Katniss do restante do mundo por alguns andares.

O silêncio durou exatamente dois segundos.

Peeta se aproximou por trás, encostando o corpo no dela. O calor entre eles era palpável.

— Você está cheirosa... — Ele inclinou a cabeça e murmurou junto ao pescoço de Katniss. — Tão... atraente. E fogosa. — A voz dele soava arrastada, quase uma prece.

Katniss sorriu com malícia, os olhos fixos no número digital piscando no painel.

— São os hormônios, baby... — disse, inclinando o rosto até alcançar o ouvido dele. — Não percebeu ainda o quanto eu fico incendiada só de sentir você por perto?

Ela mordiscou o lóbulo da orelha dele com lentidão calculada.

Peeta estremeceu. Sentiu uma corrente elétrica descer pela espinha.

— Não me testa, Everdeen... — Rosnou baixo. — Você sabe que meu autocontrole perto de você é zero.

Katniss deslizou a mão por cima do terno dele, sentindo os músculos tensos sob o tecido.

— Talvez eu queira exatamente isso... zerar seu autocontrole...

Peeta virou de frente, colando-a contra a parede do elevador. As mãos em sua cintura. Os olhos famintos.

— Não começa o que não pode terminar, Gataniss.

— Eu nunca deixo nada pela metade, amor — rebateu ela, com um sussurro quente.

Quando o elevador apitou anunciando o andar, Peeta praguejou entre os dentes e se afastou a contragosto.

Katniss, completamente recomposta e vitoriosa, passou a mão no cabelo com graça e olhou por cima do ombro.

— Ah, antes que eu esqueça... — disse, com um sorriso afiado. — Você foi intimado para jantar com meus pais amanhã.

— Intimado? — Ele piscou.

— Sim. Minha mãe basicamente ordenou sua presença. E considerando que eu sobrevivi a todos os jantares, almoços e cafés da manhã com a sua mãe... — Ela fez uma pausa dramática e ergueu uma sobrancelha. — Você vai tirar isso de letra. Meus pais são ótimos.

Peeta riu, mordendo o lábio.

— Então é um jantar com os Everdeen... alguma dica de sobrevivência?

Katniss entrou no corredor com passos de gata, virando-se brevemente para lançar um último olhar provocador.

— Sim. Não ouse me deixar sozinha com meu pai. Ele adora interrogatórios disfarçados de receitas.

Peeta sorriu largo, sentindo o estômago girar de nervoso e excitação ao mesmo tempo.

— Ótimo. Mal posso esperar.


✦✦✦


Katniss descia as escadas da ala privativa da mansão Everdeen com o coração um pouco apertado. O jantar com Peeta seria importante — mais um passo naquela “nova etapa” que eles estavam vivendo. Mas antes, precisava esclarecer algo com seus pais.

Encontrou Burdock e Asterid na copa, finalizando os detalhes da arrumação com a equipe de serviço. O cheiro do assado com ervas preenchia o ar com uma sensação acolhedora.

— Pai, mãe... — chamou, com a voz firme, mas o olhar hesitante. — Posso falar com vocês um instante? A sós?

Os dois se entreolharam, captando o tom delicado nas palavras da filha e seguiram até o jardim de inverno logo ao lado. Katniss fechou a porta de vidro e respirou fundo.

— Durante o jantar com o Peeta... — Ela começou, tocando os próprios dedos com nervosismo. — Por favor, não comentem nada sobre a Prim. Nada.

Burdock franziu o cenho, preocupado. Asterid suavizou a expressão, mas manteve o olhar atento.

— Meu amor... — disse a mãe, tocando de leve o braço da filha. — Você sabe que não tocar nesse assunto não apaga a importância da sua irmã.

— Eu sei — respondeu Katniss, a voz um pouco trêmula. — Mas esse assunto... ele ainda me arrebenta por dentro. E... o Peeta não sabe. Não ainda. Não assim. E eu não quero que ele saiba por vocês. Muito menos em um jantar. Isso... me quebra. E eu só quero que hoje seja leve e o mais normal possível.

Burdock assentiu em silêncio. Ele entendia. Era um pai que conhecia bem as rachaduras da filha — mesmo quando ela tentava escondê-las.

— Claro, minha passarinha. Você tem nossa palavra. Nenhuma menção — disse ele.

Asterid concordou, apertando de leve a mão de Katniss.

— A noite vai ser linda. E vamos confiar que, quando for a hora certa, você saberá como contar a ele. No seu tempo.

Katniss os abraçou. Forte. Como quem se apoia na certeza de que, mesmo em meio à dor, ainda existe amor.

— Obrigada... por respeitarem isso — sussurrou, novamente se odiava por manipular cada detalhe de sua vingança, mas como já tinha partilhado a história de Prim com Peeta no passado, temia ele saber quem realmente ela era antes da hora.

Logo depois, os três se recompuseram. Katniss retocou o batom discreto, ajeitou a tiara nos cabelos e caminhou até a entrada para esperar por Peeta. O sorriso nos lábios escondia a lembrança dolorida no peito, mas o brilho nos olhos — esse era só dele.

A sala de jantar estava banhada por uma luz quente que vinha do lustre de cristais suspenso sobre a mesa de mármore branco. As orquídeas brancas davam o toque final à decoração impecável e tudo parecia estar no lugar certo — exceto o coração de Peeta, que batia um pouco mais rápido do que o normal.

Ele trajava uma camisa bege de linho com as mangas dobradas até os antebraços e calça clara, com o relógio prateado bem ajustado no pulso — o visual de alguém que queria parecer tranquilo, mas que por dentro lutava para não suar.

Katniss, com um vestido curto e delicado de tecido floral, exalava uma graça natural. Seus cabelos castanhos soltos e a tiara fina de tecido rosa pálido a faziam parecer saída de um retrato vintage. Ela estava linda. E isso deixava Peeta ainda mais nervoso.

Burdock, elegante e sóbrio em um suéter caramelo sobre a camisa azul clara e calça azul-marinho, observava o genro com olhos de quem enxerga além da aparência. Asterid, ao lado dele, vestia uma camisa transpassada de listras suaves em tons pastel e uma calça rosa claro que combinava com seu batom discreto. Ela sorria com cortesia, mas seus olhos analisavam cada gesto.

— Então, Peeta. — Começou Burdock, após o primeiro brinde com vinho branco gelado. — Ouvi dizer que você e a Katniss estão trabalhando em um novo projeto na Atlas.

— Sim, senhor — respondeu Peeta, com um sorriso sereno. — Estamos preparando o lançamento de uma nova plataforma de integração para o Synapse. Katniss teve ideias brilhantes, como sempre.

Katniss olhou para ele de lado, sorrindo de leve. Burdock também notou o tom afetuoso no elogio, mas disfarçou bem.

— Ela sempre teve uma mente afiada — disse ele, levando a taça aos lábios. — Só espero que vocês estejam... balanceando trabalho e vida pessoal.

Katniss lançou um olhar de “não começa, papai” e Asterid riu suavemente.

— Querido, isso é o mais perto que você chega de ser discreto?

— Estou apenas cuidando da minha filha — respondeu ele, tranquilo.

— Com todo respeito, sr. Everdeen, eu cuidarei dela como ninguém mais faria — disse Peeta, sem hesitar.

O silêncio que se seguiu foi curto, mas cheio de significados. Burdock sustentou o olhar de Peeta por um momento, como se testasse a firmeza daquelas palavras. Então assentiu com um leve movimento de cabeça.

— Bom ouvir isso.

Katniss tomou a palavra para suavizar o clima.

— Mamãe, essa entrada de cogumelos com queijo de cabra está divina. Você usou azeite trufado?

— Usei, sim — disse Asterid, animada. — Imaginei que o senhor Mellark tivesse um paladar apurado.

— Acertou em cheio — elogiou Peeta. — Minha mãe nunca foi de cozinhar, mas meu pai adorava preparar massas e pratos assim. Ele dizia que comida boa era um gesto de carinho.

Os olhos de Katniss se voltaram para Peeta, que por um breve instante ficou imerso nas lembranças de Otho. Asterid pareceu notar a melancolia nos olhos dele.

— Ele faleceu jovem, não?

Katniss imediatamente interferiu, apertando de leve a mão de Peeta sob a mesa.

— Aconteceu há muitos anos... — disse ela com calma, mudando de assunto logo em seguida. — Vamos servir a sobremesa?

Peeta levantou-se para ajudar, e enquanto estavam na cozinha, longe da vista dos pais dela, ele encostou a testa na dela e sussurrou:

— Seus pais são ótimos... existe tanto amor aqui.

Katniss sorriu com doçura e puxou-o para um abraço apertado, o rosto pressionado contra o peito dele.

— Eles são os melhores e posso emprestá-los a você, vez ou outra.

O coração dele perdeu uma batida. Quando a olhou nos olhos, havia ali tudo que ele precisava para saber que estava no lugar certo.

A noite estava morna, o céu limpo e pintado de estrelas. As luzes tênues do jardim deixavam o ambiente com um ar quase mágico. Katniss caminhava ao lado de Peeta, rindo de um comentário que Burdock fizera sobre política de mercado — seu pai nunca perdia a chance de provocar.

Mas Peeta não estava mais interessado em conversas diplomáticas. Com uma mão firme na cintura dela, a puxou discretamente em direção a um dos cantos mais afastados do jardim — um gazebo discreto, coberto por trepadeiras e quase escondido pelas samambaias.

— O que você tá aprontando, Mellark? — sussurrou ela, risonha, sentindo o coração acelerar.

— Me vingando de todas as vezes que você me provocou com esse vestido, Gataniss... — respondeu ele, com aquele sorriso torto que era sua ruína.

Com cuidado, a sentou sobre uma mesa rústica de madeira no interior do gazebo. As pernas dela se abriram suavemente, acomodando-o entre elas. Ele subiu a barra do vestido floral com delicadeza, os olhos cravados nos dela.

— Você tem noção do que esse vestido me faz? — provocou, roçando os lábios na clavícula dela.

Katniss gemeu baixo, suas mãos se enroscando nos fios dourados da nuca dele.

— Talvez... — suspirou ela, arqueando o corpo ao sentir os dedos dele explorando sua pele. — Mas eu gosto de deixar claro...

O beijo veio faminto. E logo as carícias se intensificaram. O som abafado das folhas, o cheiro da noite e do perfume dela misturavam-se ao ritmo ofegante do desejo. Peeta já se encaixava nela como no dia anterior, na sala da Atlas, quando...

Os dois se congelaram. O celular de Peeta vibrava no bolso de trás com insistência. Quase no mesmo instante, o de Katniss, esquecido sobre a mesa, acendeu com a notificação de uma chamada.

— Só pode ser brincadeira! — praguejou ela, entre dentes.

— Droga! — Peeta gemeu, respirando fundo e tentando se recompor sem explodir de frustração. — Espera... é uma chamada de vídeo da Johanna. Deve ser sério.

Katniss arregalou os olhos ao ver o nome de Delly na tela também piscando.

— E eu tenho cinco chamadas perdidas da Delly.

Ambos suspiraram e atenderam, cada um com seu celular em mãos, ainda meio desajeitados.

Na tela de Peeta, Johanna apareceu com um sorriso triunfante, o rosto iluminado por uma felicidade que não se via todo dia.

— Finalmente! Vocês dois estavam... ocupados? — Ela levantou uma sobrancelha, desconfiada. — Não importa. Preciso contar uma coisa!

Do outro lado, Delly mal conseguia falar, chorando de emoção.

— A Johanna me pediu em casamento!

Katniss soltou um grito abafado.

— O quê?! Como assim?!

Johanna riu.

— E eu escolhi o Peeta pra ser meu padrinho. Vai de terno escuro e florzinha na lapela, tá, docinho?

— E você, Kat, vai ser minha madrinha. Vai topar, né? Porque senão... não tem casamento! — completou Delly.

Katniss riu, ainda tentando se ajustar no colo de Peeta, que agora também sorria como um bobo.

— Claro que sim! — respondeu ela.

Peeta piscou pra Johanna.

— Tô dentro. Mas por favor, avisem com antecedência antes de interromperem outra “reunião privada”.

Johanna gargalhou do outro lado.

— Ah, vocês dois... vão nos dar muito trabalho no altar. Agora se recomponham, porque amanhã a gente vai falar sobre os preparativos.

As chamadas foram encerradas.

Katniss ainda estava sobre a mesa. Peeta olhou para ela, o vestido amarrotado, o cabelo bagunçado, o brilho no olhar.

— Onde estávamos mesmo?

Katniss riu e puxou-o pela camisa.

— Em algum lugar muito, muito bom.



✦C&G NITHTCLUB✦



As luzes de LED riscavam o teto como relâmpagos sincronizados ao grave da música. Cashmere e Gloss, os anfitriões da noite, não haviam economizado em absolutamente nada para a despedida de solteiro das amigas — open bar, DJ importado de Ibiza e até dançarinos profissionais dividindo espaço com os convidados.

“Dance Off” — Idris Elba & Anderson Paak ecoava alto pelos alto-falantes. O ritmo era perfeito. Cada batida pulsava no corpo como eletricidade.

Katniss, com um vestido preto justo e recortes estratégicos que deixavam suas curvas em evidência, estava no centro da pista. Os cabelos soltos dançavam ao redor do rosto e os saltos altos pareciam não pesar — ela era a própria tempestade sob o estrobo. Os quadris marcavam cada batida da música como se o mundo ao redor tivesse a acompanhando.

Peeta a observava de longe, apoiado no bar, tenso. Vestia uma camisa preta com botões abertos no peito, mangas dobradas e olhar cada vez mais cerrado. A cena diante dele o deixava em parafuso — Katniss Everdeen dominando a pista, os olhares masculinos caindo como granizo sobre ela... e ela simplesmente ignorando tudo e todos, entregue à música, mas provocando só com o olhar, como se dissesse “eu sei o que estou fazendo.”

— Se continuar assim, vai explodir uma veia no seu pescoço — zombou Johanna, com um copo de gim-tônica nas mãos.

Peeta nem respondeu. Um cara da pista — alto, tatuado, claramente embriagado pelo efeito Katniss — se aproximou demais, encostando na cintura dela enquanto tentava seguir seus movimentos. Katniss se afastou com elegância e um sorriso debochado, sem perder o ritmo, mas o suficiente pra incendiar Peeta.

Foi a gota.

Ele cruzou a pista como um raio, os olhos azuis faiscando. Sem dizer nada, enlaçou Katniss pela cintura por trás, colando o corpo ao dela.

— Dançando sozinha, Gataniss? — sussurrou ao pé do ouvido, com aquele tom rouco de perigo.

Katniss sorriu, sem se virar, continuando a mexer os quadris sensualmente.

— Estava esperando um motivo pra provocar você...

Peeta virou-a de frente e a puxou pela nuca para um beijo intenso, quase possessivo. A pista ao redor parecia ter sumido, alguns olhares agora estavam voltados para eles. A provocação virou combustão.

— Só falta você subir no balcão e acender uma tocha — resmungou ele, entre beijos, ainda grudado nela.

— Você gosta do perigo, Mellark — provocou, mordiscando o lábio inferior dele.

Delly apareceu rindo com um drink na mão.

— Vocês dois vão ser expulsos da própria despedida!

Johanna deu de ombros.

— Pelo menos estão deixando a pista mais interessante.

Katniss piscou para as amigas e voltou a dançar junto a Peeta, agora de forma muito mais íntima — as mãos dele firmes na cintura dela, o corpo colado, os olhos famintos. Ele estava claramente dizendo “ela é minha.”

E Katniss adorava cada segundo desse fogo.

A noite seguia em alta voltagem, mas para Peeta e Katniss, a tensão acumulada havia atingido o ponto de combustão. Depois de dançarem colados por longos minutos e trocarem beijos intensos em meio à multidão, Peeta sussurrou algo no ouvido dela.

— Se não sair comigo daqui agora, vou fazer uma loucura bem no meio dessa pista.

Katniss sorriu com pura malícia, deslizou a mão pelo peito dele até o colarinho e o puxou.

— Então que tal uma loucura... mais discreta?

Ele nem hesitou.

Peeta a guiou pelos bastidores do clube, atravessando corredores iluminados apenas por luzes vermelhas suaves, até encontrarem uma sala de manutenção desativada — com caixas de som, cabos e espelhos usados para testes de luz. Mal fecharam a porta, Katniss empurrou Peeta contra a parede e se encaixou nele.

— Você quase me matou naquela pista, Everdeen — vociferou ele, já puxando a fenda do vestido para o alto.

— E você quase me comeu com os olhos. Agora mata logo esse desejo — arfou, jogando a cabeça para trás enquanto as mãos dele deslizavam por suas coxas.

Beijos urgentes, mãos famintas, respirações descompassadas. Ela arrancou os botões da camisa dele e ele puxou a calcinha por baixo do vestido com tanta destreza que Katniss mordeu o lábio para não gemer alto. Peeta a ergueu pela cintura, a pressionando contra a parede fria e a penetrou com um movimento firme e certeiro. O vestido subiu, os corpos se encaixaram como se o mundo inteiro tivesse evaporado.

O sexo foi intenso, quente e abafado, como se o tempo tivesse parado para que eles queimassem juntos.

Vinte minutos depois, o casal saiu pelos fundos do salão, tentando parecer o mais compostos possível. Tentando.

Peeta estava sem um botão da camisa, o cabelo bagunçado. Katniss ajeitava os fios com os dedos e a calcinha discretamente escondida no bolso da calça dele.

Mas Johanna os viu de longe e soltou uma gargalhada.

— Ah não... vocês não fizeram isso!

Delly deu um gritinho e cobriu a boca.

— Socorro! Vocês transaram na boate?

Katniss fingiu dignidade, erguendo o queixo.

— Não posso confirmar nem negar, mas... aquela parede tem histórias agora.

— Vocês que disseram pra gente aproveitar a despedida. — Peeta piscou para as duas, totalmente satisfeito.

— Ahn-hã. Só peço que da próxima vez deixem um aviso de “ocupado”. Quase entrei atrás de vocês procurando meu casaco — respondeu Johanna , ainda gargalhando.

Delly entregou uma taça para Katniss com um sorriso maroto.

— Parabéns, madrinha. Você definitivamente entrou no clima da festa.

Katniss brindou com elas, os lábios ainda inchados pelos beijos de Peeta e um brilho perigoso nos olhos.

— A festa só está começando.


✦✦✦


O ateliê estava tomado pelo cheiro delicado de flores frescas e amostras de velas aromáticas. Katniss e Delly estavam sentadas em frente a um catálogo enorme de opções de pratos, acompanhadas por uma consultora de eventos com excesso de entusiasmo e clipes de referência demais.

— Peixe com crosta de castanhas ou risoto de limão siciliano? — perguntou Delly, entediada, folheando a pasta pela centésima vez.

— Risoto... eu acho — respondeu Katniss, levando a mão à barriga. Um desconforto estranho subia por seu estômago.

— Tá tudo bem? — Delly arqueou a sobrancelha, percebendo a palidez no rosto da amiga.

— Só um... enjoo — murmurou Katniss, mas antes que pudesse completar a frase, levou a mão à boca e saiu quase correndo em direção ao banheiro do ateliê.

Delly foi atrás. Encontrou Katniss ajoelhada, apoiada no vaso sanitário, vomitando.

— Cacete — xingou Delly, segurando o cabelo da amiga com cuidado. — Você está grávida?

Katniss virou lentamente o rosto para ela, assustada.

— Eu... eu não sei. Não posso. Eu...

— Vocês estão usando algum método?

— Eu nem quis cogitar DIU. Tentei pílula e injeção... Mas não me adaptei. Peeta sabe disso, a gente estava se cuidando com... preservativo e... bom senso — disse, a voz falhando.

Delly soltou um suspiro dramático.

— Gata, você transa com o Peeta Mellark umas três vezes por dia. Isso é pedir pra engravidar com força.

Katniss arregalou os olhos e se encostou na parede gelada do banheiro.

— Não... não posso estar grávida. Não posso... Não... Eu ainda tenho...

A vingança, pensou

Delly franziu o cenho.

Katniss olhava fixamente para o azulejo como se fosse encontrar alguma lógica ali. Delly, sem perder tempo, saiu e voltou minutos depois com um teste de farmácia.

— Vai. Xixi aí.

— Eu não consigo — disse Katniss, aflita.

— Quer que eu faça por você?

— Delly!

— Foi o que pensei. Anda, mulher.

Katniss pegou o teste, trêmula. Fez, deixou na pia e voltou a se sentar no chão. As duas esperaram os minutos mais longos da história.

— Eu não consigo, olha você — disse Katniss, ainda abraçada aos joelhos.

Delly pegou o teste, respirou fundo e sorriu.

— Deu negativo.

Katniss sentiu os ombros afundarem de alívio, mas a dúvida ainda mordia o canto da mente. Não completamente convencida, marcou uma consulta com sua ginecologista.

Dois dias depois, Katniss recebeu o resultado do exame de sangue: NEGATIVO

A dra. Paylor foi gentil.

— É comum que atrasos ocorram por estresse, ansiedade... Seu corpo está saudável, mas sobrecarregado pelo que me contou. Vamos acompanhar seu ciclo e, se quiser, podemos testar métodos contraceptivos de menor impacto.

Katniss assentiu e saiu do consultório em silêncio.

No mesmo dia... à noite, ela contou a Peeta. Estavam deitados no sofá da cobertura, ele com a cabeça em seu colo, acariciando suas pernas nuas. Katniss passou os dedos no cabelo dele e, por fim, contou quase em um sussurro.

— Achei que estivesse grávida.

Peeta ergueu o olhar na hora.

— O quê? Você... está?

— Não. Foi um alarme falso. Achei melhor te contar só depois que tivesse certeza.

Ele se sentou, olhos arregalados, o susto estampado no rosto. Mas então, com um sorriso lento, disse:

— Eu acho que faríamos os bebês mais lindos do universo. Você não acha?

Katniss não respondeu de imediato. Ela apenas o encarou, entre surpresa e comovida. Ele tocou o rosto dela com carinho, o polegar desenhando a curva da bochecha.

— Quando for a hora certa, se você quiser, vamos ser incríveis nisso. Eu prometo.

Ela queria gritar coisas horríveis como “eu nunca vou ter filhos, muito menos um seu.” Ao invés disso, Katniss sorriu, um pouco trêmula, e finalmente se deixou relaxar nos braços dele.

A chuva fina escorria pelo vidro da suíte, desenhando riscos preguiçosos enquanto a cidade lá embaixo seguia em um ritmo indiferente. Katniss observava Manhattan da poltrona junto à janela. Usava apenas a camiseta de Peeta, que ainda carregava seu cheiro. Ele dormia profundamente, exausto depois da noite intensa. Um anjo quebrado... e tão perigosamente humano.

Ela abraçou os joelhos, os dedos brincando com a barra da camiseta, e o peso familiar voltou a se instalar sobre os ombros.

O que eu estou fazendo?

Desde aquela primeira noite na festa beneficente do C&G NIGHTCLUB, quando dançou com o único propósito de bagunçar a mente dele, tudo fugiu lentamente do controle. Os momentos quentes, os sorrisos espontâneos, o modo como ele murmurava seu nome e o novo apelido — “Gataniss” — como se fosse a coisa mais preciosa do mundo... tudo isso se infiltrava pelas frestas da armadura que ela passou anos moldando.

Mas ela sabia.

Sabia que ainda não podia parar.

Por mais que Peeta tivesse mudado, por mais que seu coração estivesse tentando forjar uma nova narrativa entre os dois, aquela adolescente humilhada ainda existia dentro dela. Aquela que saiu do refeitório com a bandeja deixada no chão e os olhos inundados. Aquela que queimou por dentro por oito anos. Aquela que fez a tatuagem no final da coluna — infinito vezes infinito — como uma promessa silenciosa, ela não esqueceria. Nem perdoaria. Não ainda.

Mesmo com tudo o que viviam agora, a vingança ainda era um organismo vivo dentro dela. Um veneno doce que a lembrava do motivo de ter começado tudo.

Ela precisava manter a cabeça em seu objetivo.

O coração... esse que esperasse.

Com o celular na mão, ela abriu o bloco de notas oculto. Aquele que Gale ajudara a criptografar. Nele, estavam os próximos passos. Os nomes. Os documentos que ainda não haviam vindo à tona. Tudo precisava ser checado. Testado. Minado.

Cada momento romântico, cada orgasmo, cada palavra doce... eram armas.

Armas que ele não fazia ideia que ela carregava.

E, no fundo, era isso que mais doía.

Eu vou até o fim, pensou, voltando o olhar para a cama onde ele dormia, a respiração calma, os traços pacíficos.

“Mesmo que esse fim seja o próprio inferno.”

E então, como uma general silenciosa, ela se levantou e começou a traçar novos movimentos.


✦✦✦


O aroma de massa fresca e molho ao sugo preenchia o ambiente com calor e aconchego. A cozinha de Peeta era iluminada por luzes amareladas suaves e o som abafado do jazz instrumental que vinha da sala criava uma trilha sonora involuntária para o momento.

Katniss, sentada sobre a bancada de mármore com uma taça de vinho tinto entre os dedos, balançava os pés com um leve sorriso no rosto. Peeta picava folhas de manjericão, Delly mexia o molho com um avental estampado de limões e Johanna roubava tomates-cereja da tábua com o cinismo de quem odiava cozinhar, mas amava perturbar.

— Então, dia “D” 17 de agosto — disse Katniss, olhando para Delly, que soltou um suspiro animado.

— Sim! Está tão perto e, ao mesmo tempo, parece que faltam mil anos pra tudo ficar pronto — desabafou Delly, rindo nervosa.

— Vai ser tudo perfeito, Cachinhos Dourado. Já temos quase tudo confirmado, lembra? — Katniss puxou o celular da bancada. — Convites entregues. Jonathan, o irmão da Jo, confirmou que vem com a família de Sidney. A mãe da Delly já escolheu o vestido e… — Ela rolava a lista com os dedos — ...Cashmere e Gloss confirmaram presença também. Meus pais confirmaram. Alma, Cato e Presley também. Finnick vem com a Annie. Só estou esperando confirmação da parte do Haymitch.

— Meu padrinho confirmou hoje mais cedo — disse Peeta, voltando os olhos para o molho que Delly mexia.

— Alguém quer apostar quanto tempo até o Cato dizer alguma besteira no brinde? — Johanna disparou, mordendo um tomate.

— Quinze minutos — respondeu Peeta, sem hesitar.

— Dez — disse Katniss.

— Cinco — Delly riu. — Ele já começa o discurso errando o nome de alguém.

Todos riram.

— Vocês têm que dar um desconto pro Cato, as audiências contra Clove não estão sendo nada fáceis e olha que montei a melhor equipe de advogados —desabafou Peeta.

— Aquela vaca vai ter o que merece — vociferou Johanna.

Katniss refletiu por um instante, ela sabia exatamente como acabar com Clove e ainda fazê-la perder a guarda da filha, dando a paz que Cato tanto merece junto da menina. Contudo, todas as peças tinham que estar em seu devido lugar.

Logo o pequeno momento de tensão passou, sendo preenchido pela alegria da noiva.

— Estou empolgada com o iate — disse Delly, voltando ao molho. — Nunca pensei que diria isso, mas... casar em alto-mar vai ser mágico.

— Vocês merecem — disse Katniss. — E eu juro que vou me comportar como uma madrinha exemplar.

— Desde que não roube a cena com seu vestido, tudo bem — provocou Johanna.

— Isso não posso prometer — respondeu Katniss, arqueando uma sobrancelha.

Peeta sorriu, enxugando as mãos no pano de prato e se aproximando para beijar a têmpora de Katniss.

— Só quero garantir que a pista de dança sobreviva a essa turma.

— Só se você dançar também — disse Johanna, apontando uma colher de pau para ele.

— Não garanto nada... mas se tocar Dance Off, vocês me perderam. — Peeta riu.

Delly se aproximou de Katniss e segurou sua mão, apertando com carinho.

— Obrigada por tudo, Kat. Ter você como madrinha é um presente que eu nunca vou conseguir retribuir.

Katniss sentiu o peito apertar. Tinha tantas verdades não ditas entre elas... Mas naquele instante, só o amor entre amigas importava.

— Eu é que agradeço. Vai ser uma honra ver você dizer “sim”.

A cozinha explodiu em mais risadas, cheiros e pequenos brindes improvisados.

A noite era simples, mas tinha tudo — carinho, cumplicidade e uma leveza que tornava difícil lembrar que, por baixo daquela serenidade, ainda ardia um plano que Katniss escondia só para si.

Mas, por ora... ela permitiria que o amor a atravessasse.


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Na manhã seguinte, o aroma do café recém passado misturava-se ao cheiro amadeirado que exalava do difusor. A luz dourada do sol filtrava-se pelas cortinas, criando desenhos no chão. Katniss se sentava sobre um dos bancos altos da ilha da cozinha, as pernas nuas dobradas em sua camisola de seda preta, os cabelos presos em um coque solto e casual.

Peeta estava ao lado dela, de camiseta branca de algodão, recém-saído do banho, os fios loiros ainda úmidos caindo sobre a testa. Próxima a ele, Johanna, já tomava seu segundo expresso da manhã, deitada preguiçosamente no sofá com o notebook sobre o colo. Delly se encontrava dormindo no quarto de hóspede.

— Peeta, saindo um pouco do roteiro matrimonial, precisamos escolher uma instituição séria pra receber parte da verba do fundo beneficente antes da coletiva de imprensa de outubro — comentou Johanna, digitando algo com a expressão focada. — Nada que pareça forçado ou “lavagem de imagem corporativa”, pelo amor de Deus.

Peeta fez que sim, mas estava distraído observando Katniss, que mexia lentamente sua xícara.

— Eu tenho uma sugestão — disse Katniss, erguendo os olhos com naturalidade.

— Manda — respondeu Johanna, virando o rosto interessada.

— Por que não adotamos uma escola pública... tipo uma no Bronx? Uma daquelas que mal tem laboratório, mas transborda talento bruto. Equipar os espaços com tecnologia de ponta, garantir acesso à internet, e mais… — Ela fez uma pausa. — Criar um programa de bolsas integrais pra alunos exemplares, mas que não têm condições de bancar a universidade, especialmente em áreas de tecnologia.

Houve um silêncio respeitoso por um momento. Johanna ergueu uma sobrancelha, surpresa. Peeta colocou a xícara na bancada e olhou para Katniss como se a estivesse vendo pela primeira vez — de novo.

— Você já pensou nisso antes? — perguntou ele, sério e orgulhoso.

Katniss deu de ombros, mas seu olhar era firme.

— Todos os dias que passei do lado de fora de empresas como a sua, sim. Eu sei o que essa ajuda representaria. Não é só caridade. É construir um futuro. E a Atlas Technology pode ser parte disso. — Katniss até podia ter seu plano em mente, ainda assim, o bem que ela pudesse fazer nessa jornada, faria. Aprendeu cedo demais com os pais a exercer a caridade. Não por status. Nem pra se sentirem superiores, mas sempre que podia, os acompanhava até a Church of the Holy Apostles, uma igreja episcopal histórica, onde voluntários serviam sopas, roupas, cobertores, kits de higiene e apoio psicológico para os desamparados.

Peeta se recostou na cadeira, absorvendo as palavras.

— Isso seria enorme pra nossa reputação — comentou Johanna, já digitando algumas anotações. — E mais que isso… é algo real. Concreto.

— Vamos fazer isso — afirmou Peeta, olhando entre as duas. — Não apenas pra imagem da empresa. Mas porque é o certo.

Katniss sorriu de canto. Por dentro, sentia uma pequena batalha vencida e ao mesmo tempo, um peso. Algo dentro dela gritava que aquilo deveria ser apenas parte de um plano. Mas tudo no jeito como Peeta respondeu, no brilho que apareceu nos olhos dele, bagunçava essa certeza.

— Ótimo! Então vou falar com a equipe de responsabilidade social da Atlas pra começar os levantamentos — disse Johanna. — E Katniss... boa jogada. Você vai apresentar isso no evento trimestral da Atlas com a gente.

— Eu?

— Você trouxe a ideia. A imprensa vai adorar. — Peeta confirmou com um sorriso gentil. — E a causa vai precisar de um rosto verdadeiro.

Katniss assentiu. Mas lá no fundo... ela sabia — cada passo que dava, por mais autêntico que fosse, a levava cada vez mais fundo nesse mundo que, ironicamente, ela tinha jurado destruir.

E talvez... talvez ela estivesse começando a querer reconstruí-lo em vez disso.

No dia seguinte logo pela manhã, à reunião improvisada na cozinha, Katniss recebeu um convite de Peeta e Johanna para uma reunião estratégica no 23º andar da Atlas Technology — a sala de vidro que servia como observatório da cidade e coração criativo da empresa.

Katniss chegou usando um blazer off-white perolado e calça preta de alfaiataria de cintura alta, os cabelos presos com um coque elegante. Ela segurava o tablet com anotações sobre o projeto da escola pública e um brilho determinado nos olhos.

— Quero que esse projeto seja mais que pontual. Que ele cresça — disse ela, deslizando os gráficos que passou trabalhando na madrugada na tela. — A ideia é começar com uma escola piloto no Bronx, monitorar os resultados e escalar isso para mais bairros. Criar uma rede de acesso e permanência.

Peeta, sentado à cabeceira da longa mesa de vidro, mantinha os olhos fixos nela. Admirado. Orgulhoso. Fascinado.

Johanna sorriu.

— Eu tô apaixonada e não é pelo café.

— Fico feliz que gostaram da ideia — respondeu Katniss, firme.

— Mas temos que dar um gás nisso, trazer atenção pra causa — sugeriu Peeta. — Alguma ideia pra levantar fundos de forma impactante?

Katniss então ergueu os olhos e falou o que sua mente vinha trabalhando.

— Um baile. No feriado do Dia do Trabalho.

— Um baile? — Johanna inclinou-se, interessada. — Gosto disso. Mas que tipo de baile?

Katniss segurou o sorriso contido, como quem já tinha pensado em tudo há semanas.

— Um baile de máscaras. Algo requintado, elegante e provocador. Nada de gala formal engessada. Um evento com identidade, mistério e sofisticação. A renda dos convites e da noite vai toda para o fundo desse programa.

Peeta inclinou-se para frente, claramente animado.

— E onde seria?

— Já tenho o lugar ideal — respondeu ela, sem hesitar. — Um salão histórico afastado do centro, arquitetura clássica, pé direito alto, lustres imensos, mármore no piso… A imprensa vai adorar. Mas não é só isso.

Ela se levantou e começou a andar devagar, de costas para a janela que emoldurava Manhattan como uma pintura viva.

— O mistério da noite serão as máscaras. Luzes baixas. Identidades escondidas. O ambiente perfeito para uma virada de imagem e uma atmosfera carregada de emoção. E eu mesma vou supervisionar cada detalhe.

Johanna bateu palmas, divertida.

— Menina, você nasceu pra isso!

Peeta apenas observava, silenciosamente impactado.

Ele ainda não sabia.

Ele não fazia ideia de que Katniss Everdeen, com toda sua elegância, firmeza e voz doce, acabara de arquitetar a noite que mudaria tudo.

Porque naquela noite... sob o disfarce das máscaras, a verdade apareceria nua diante de todos.

E ela queimaria. Literalmente.


Notas finais
É isso, amanhã retorno com esse dia tão especial pra Delly e pra Jo... bjuuuus