Doce Vingança
18 Capítulo 18
Notas iniciais
O céu começava a escurecer quando Leah chamou da varanda:
— Sally… tem uma mulher aqui. Disse que quer falar com Aiden. Que é a mãe dele.
Meu coração afundou.
Respirei fundo, saí até a calçada e a vi.
Ela estava mais magra do que na última vez que nos vimos, mas havia firmeza no olhar. Vestia calça jeans escura, uma blusa branca de linho e um casaco leve. Os cabelos castanhos caíam sobre os ombros com um certo desleixo que só quem passou por meses de recuperação conhece.
— Angeline?
— Sim... Oi Sally — respondeu, com a voz suave, porém firme. — Eu fiquei sabendo do que ele está passando. Sei o que você está passando. Não vim pra brigar.
Houve um momento de silêncio.
— Ele está aqui?
Olhei para trás dela, hesitante, tentando encontrar alguém escondido, mas não achei, então assenti.
— Por quê nunca mais deu notícias?
Ela pareceu esperar pela pergunta.
— Eu precisava manter-me no anonimato. Tive medo do Matt descobrir que eu tinha saído da clínica e fugir com o Aiden ou fazer algo para eu nunca mais vê-lo. Mas... não perdi o amor pelo meu filho, sempre esperei o dia em que o veria novamente.
Houve sinceridade naquele olhar. Então a deixei entrar.
Chamei Aiden falando que a mãe dele estava lá. Ele desceu as escadas devagar, como se ainda não acreditasse.
— Mãe?
Ela se levantou. Os olhos marejaram imediatamente.
— Oi, filho.
Ele não disse nada. Apenas foi até ela e a abraçou. Forte. Longo. Sem dizer uma palavra.
Os dois choraram. E por um instante, nada mais existia no mundo além daquele reencontro.
Quando se afastaram, Angeline segurou o rosto dele com carinho.
— Desculpa ter sumido, Aiden. E não espero que você me perdoe de uma hora pra outra. Mas precisava te ver. Saber se você tá bem. Saber se ainda consegue olhar pra mim sem raiva.
Mesmo soluçando e com o rosto molhado de tanto chorar, ele manteve os olhos nela.
-Quando saiu da clínica? — perguntou.
-Duas semanas depois que você me visitou pela última vez. Eu estava procurando um emprego, precisava me estabilizar antes de encontrar você de novo...
— Você... Não faz ideia do que houve — ele murmurou, com a voz embargada.
— Eu sei. Eu entendo. Mas estou tentando voltar a ser quem eu era antes de tudo... por você.
Ele assentiu, apertando os olhos para conter as lágrimas.
— E por que agora?
Ela respirou fundo.
— Porque vi seu nome no noticiário. Soube da Sally. E sabia que seu pai ia usar tudo isso contra você. Contra ela. Contra mim, se pudesse. Eu não vou deixar ele te quebrar, Aiden. Nem te transformar em uma versão dele.
Ele abaixou o olhar. Depois olhou para mim.
— A Sally… salvou minha vida.
Angeline me olhou por alguns segundos. Seus olhos não traziam julgamento, apenas dor.
— Eu não concordo com tudo isso. Mas não vim aqui pra julgar. Vim pra ajudar.
Houve um silêncio respeitoso.
— E como pretende fazer isso? — perguntei, com delicadeza.
— Testemunhando. Se for necessário. Contando o que sei sobre Matt, sobre o quanto ele controlava tudo, sobre como manipulava e criava um ambiente doentio dentro daquela casa. Isso pode ajudar vocês. Pode mostrar que nada disso é preto no branco.
Fiquei surpresa. Aiden também.
— Você faria isso?
— Faria por ele — apontou para o filho. — E por mim. Porque talvez essa seja a única coisa certa que eu posso fazer por enquanto.
Aiden sorriu, abraçando a mãe dele e murmurando um "obrigado" repetidas vezes.
Quando todos se acalmaram, minha mãe chamou Angeline para jantar, o que Aiden concordou rapidamente.
-Eu não quero incomodar vocês. Já estava até de saída, só vim mesmo dizer que eu quero ajudar vocês — negou ela, educadamente.
-Não vai ser incômodo nenhum! A senhora é muito bem vinda aqui — garantiu minha mãe — É bom que a senhora pode nos ajudar a documentar tudo sobre o Matt.
-E você também pode passar um tempo com seu filho, já que vocês não se veem há muito tempo — sugeri sorrindo.
Aiden olhou para a mãe esperançoso, até que ela aceitou e ele comemorou.
Após um jantar bem animado, ela se preparou para ir embora. Fui deixá-la na porta, onde ela se virou para mim.
-Muito obrigada por acolher meu filho e cuidar dele. Significa muito para mim — ela disse, com os olhos ainda marejados.
-Não agradeça. Eu jamais o deixaria sozinho — garanti, a olhando.
Ela me abraçou, deixou o seu número, pediu pra manterem contato. Disse que precisava ir devagar, mas queria se fazer presente.
Aiden estava pensativo, sentado na beira da cama. Fui até ele.
— Você está bem? — perguntei.
— Acho que sim. É estranho. Parece um sonho ver ela ali, falando tudo aquilo — suspirou ele.
— Ela ainda é sua mãe, Aiden. E parece estar tentando fazer o que pode.
— Eu só... tenho medo de acreditar de novo e quebrar a cara.
Sentei ao lado dele.
— Isso acontece com todos nós. Confiar é sempre um risco. Mas às vezes… vale a pena.
Ele me olhou com os olhos cansados, mas cheios de ternura.
— Igual aconteceu com você?
— Igualzinho.
Ele pegou minha mão.
— Obrigado por tudo.
Eu o encarei.
— Isso tudo ainda está longe de acabar. Mas... ter alguém do nosso lado já muda tudo.
Nos olhamos por longos segundos. Sua respiração junto da minha, nossos narizes roçando. Até que ele quebrou o espaço entre nós e me beijou calmo. Simples. Sem língua, sem mão boba, apenas carícias e nada mais. Era um beijo de conforto, para garantir que tudo ficaria bem.
Após alguns segundos, nos afastamos, ele me olhou.
-Saudade do seu beijo... — sussurrou.
-E eu do seu. Mas nunca tinha clima pra isso — sussurrei sorrindo.
Voltamos a nos encarar. E mesmo sem beijos, sem carícias, havia um amor ali que resistia à vergonha, ao medo, à ameaça.
Um amor em reconstrução.
***
-O que achou? Se divertiu? — perguntei à Aiden, depois de irmos ao cinema com Leah e o grupo de amigos dela.
-Sim. Eu achei mais divertido ainda porque você estava lá com a gente, mas eu gostei bastante do filme e das conversas. Todos se dão muito bem — respondeu ele.
-Que bom que gostou, a Leah é tímida, mas está começando a socializar depois que ficou amiga da Megan.
-Elas pareciam muito próximas. Bem próximas.
-A Leah é bissexual. Mas ainda não sabe se sente algo pela Megan. Mas ela ainda é nova, tem tempo pra descobrir várias coisas ainda.
-Concordo.
Tomei banho, troquei de roupas e fui para o quarto aproveitar o resto do dia, até que o telefone da casa tocou.
Minha mãe atendeu, trocou algumas palavras curtas e veio até mim com uma expressão preocupada.
— Era o Dr. Cunningan. Ele quer vir aqui hoje à noite. Disse que é importante.
Assenti com um leve arrepio percorrendo minha espinha.
— Tudo bem. Vamos recebê-lo.
***
Dr. Cunningan espalhou documentos e pastas sobre a mesa. Havia mais papéis do que da última vez. Seus olhos pareciam mais atentos, como se tivesse passado o dia inteiro estudando.
— Sally… Aiden… temos um caminho. Mas ele exige coragem — disse ele.
Aiden sentou-se ao meu lado. Eu entrelacei meus dedos nos dele, como se aquilo fosse me dar mais força.
— A mãe do Aiden, Angeline, me ligou — continuou o advogado. — Ela contou tudo que passou nas mãos do Matt. O abuso psicológico. A chantagem. A manipulação. Tudo documentado em anotações que ela mantinha na clínica. E mais: tem mensagens antigas que mostram como Matt tentou interná-la à força e silenciá-la em mais de uma ocasião. Isso pode ser essencial para mostrar o padrão de comportamento dele.
— Então ela vai mesmo testemunhar? — perguntei, incrédula.
— Vai. Com coragem, e com a ajuda do terapeuta que a acompanha. Ela vai depor, se for necessário.
Aiden ficou boquiaberto.
— Ela nunca teria feito isso antes. Isso é… grande.
— Sim. Mas há mais.
Cunningan puxou uma pasta marcada com um clipe vermelho.
— O juiz responsável pelo seu caso é o mesmo que julgou o divórcio entre Matt e Angeline. Ele já viu de perto o comportamento dele. Isso pode jogar a nosso favor, se usarmos com inteligência.
— E qual é o risco? — perguntei, ainda cautelosa.
— O risco é... Matt.
Silêncio.
— Como assim? — perguntou minha mãe.
— Ele já soube da reaproximação da Angeline. Já enviou mensagens para o número dela. Ameaçando-a. E, mais grave: me mandaram um vídeo hoje.
Dr. Cunningan pegou o celular e o virou para nós. Quando deu play, vimos.
Era uma filmagem feita por uma câmera de segurança. Mostrava um homem encapuzado pichando a fachada da casa com a palavra:
"PEDÓFILA"
Minha mãe levou a mão à boca. Leah, que estava atrás da porta, soltou um grito baixo. Aiden olhou para mim, horrorizado.
— Isso foi hoje de manhã — explicou o advogado. — Em uma casa abandonada ao lado. A polícia foi chamada, mas nada foi feito ainda. O que isso mostra? Que ele está desesperado. Que vai jogar sujo. E que temos que agir com mais cuidado do que nunca.
— Ele quer acabar comigo de todas as formas possíveis — murmurei.
— Sim. E por isso precisamos nos antecipar.
Dr. Cunningan me encarou diretamente:
— Sally, há uma chance real de você não ser presa. Se conseguirmos provar que houve abuso emocional por parte do pai, negligência materna anterior, e principalmente, que a relação com Aiden — mesmo sendo eticamente questionável — não foi predatória, mas sim afetiva e mútua… o juiz pode optar por uma pena alternativa.
— Pena alternativa? Tipo o quê?
—Serviços comunitários. Reabilitação supervisionada. Perda temporária do direito de cuidar de menores, talvez. Mas isso é mil vezes melhor do que a prisão.
Respirei fundo, sentindo uma mistura de esperança e medo.
— E se… ele conseguir virar tudo contra mim?
— Por isso não vamos deixar ele agir sozinho. Vamos combater fogo com luz. Com verdade.
Aiden apertou minha mão com mais força.
— Eu vou depor também, se for preciso. Eu vou contar tudo.
— Já estamos preparando isso — disse o advogado, abrindo outra pasta. — Mas tem uma última coisa.
— O quê? — perguntei, já sem fôlego.
— Matt entrou com um pedido formal para ter a guarda integral de Aiden. E, mais grave… ele quer te acusar de sequestro. Disse que você o escondeu sem autorização, e que o influenciou emocionalmente a fugir com você. A audiência sobre isso pode acontecer antes do julgamento principal.
O mundo girou.
— Ele quer me tirar de você — sussurrei, olhando para Aiden.
Aiden ficou pálido.
— Ele nunca me amou. Eu era só uma vitrine pra ele. Um troféu. Ele quer me calar, não me proteger.
— Então vamos lutar — disse Cunningan, fechando as pastas com firmeza. — Com cada recurso legal, com cada testemunho, com cada fragmento de verdade.
Eu assenti. Aiden também. Minha mãe e Leah estavam atrás, chorando baixinho.
Naquela noite, não dormimos. Mas pela primeira vez, sentíamos que não estávamos mais sozinhos.
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