Notas iniciais
Boa noite amores, mais um capítulo fresquinho pra vcs, espero que gostem. Beijos e até . Ps: Logo tbm teremos att de LT da Sany.

A sala de reuniões estava carregada de tensão. Peeta se mantinha firme na ponta da mesa de vidro, encarando o empresário italiano Stefano Vassalli, um dos investidores mais exigentes e temperamentais do grupo europeu com quem negociavam a integração de um novo sistema logístico.

Haymitch estava recostado na cadeira, revirando os olhos a cada grito contido.

— Mellark, se vocês não entregarem o software até o final do trimestre, o nosso investimento desanda! — esbravejou Stefano, levantando-se abruptamente. O rosto corado, a voz grossa carregada de sotaque e o dedo apontado na direção de Peeta pareciam uma caricatura da máfia.

— E se você continuar me ameaçando desse jeito, Vassalli, vamos repensar quem precisa de quem aqui — respondeu Peeta com firmeza.

— Ma che cazzo dici? Tu non capisci niente! — rosnou o italiano, fora de si. Insinuando que Peeta não sabia de nada.

Peeta soltou a caneta que segurava, empurrou a cadeira para trás e se levantou tão rápido quanto um raio.

— Vai a merda, stronzo! — retrucou entre dentes, os punhos já cerrados e olhos faiscando.

Katniss, sentada num canto da sala tomando notas no tablet, quase engasgou. Seus olhos arregalaram e o calor que subiu por seu corpo a fez cruzar as pernas, apertando as coxas.

Ah, ótimo. Agora ele fala italiano furioso e eu quero montar nele. Como posso continuar com meu plano se me desequilibra desse jeito?

Haymitch soltou uma risada baixa, como quem assistia a uma peça cômica disfarçada de tragédia corporativa.

— Tá bom, tá bom, já tivemos nosso show napolitano por hoje, senhores? — interrompeu Haymitch, com um tom debochado. — Vamos respirar antes que alguém atire uma taça de vinho.

Peeta não respondeu. Saiu da sala a passos firmes, o maxilar travado.

Katniss esperou uns minutos e depois o seguiu até sua sala. Ele estava de pé, de costas para ela, frente ao bar embutido, servindo um generoso trago de whisky puro. A tensão ainda tomava seus ombros largos, que ela conhecia bem de cor e desejo.

Ela entrou em silêncio e trancou a porta atrás de si. Aproximou-se por trás dele e subiu com graça para o seu colo assim que ele se sentou no sofá.

As pernas dela se entrelaçaram ao redor da cintura dele. Peeta soltou um suspiro profundo, ainda irritado, mas claramente mexido com a proximidade da morena.

— Per l’amor di Dio... — murmurou, a voz mais rouca.

— Por que você não me xinga em italiano na cama também? — sussurrou Katniss em seu ouvido, com um sorriso malicioso.

Peeta arregalou os olhos.

— Você quer que eu te xingue em italiano? — indagou com uma expressão confusa, tentando manter a seriedade.

— Só pra me deixar com mais tesão... sabe? — Ela roçou os lábios em seu pescoço. — Um tesão... produtivo.

Ele soltou uma gargalhada surpresa, a cabeça caindo levemente para trás e a tensão que o esmagava desde cedo se dissipou num riso leve.

— Você é um perigo, Everdeen.

— Um perigo muito gostoso — observou ela, rebolando no colo dele, o que arrancou dele um gemido involuntário.

— Dio santo... Sei um’inferno com gambe... — gemeu ele, agarrando-a pela cintura com força.

— Traduz?

— “Você é o inferno de pernas” — respondeu, a voz baixa e intensa.

— Humm... — Katniss mordeu o lábio. — Então me leva direto pro fogo, Peeta.

Ele a deitou sobre o sofá, afastando os papéis do contrato que ainda estavam ali.

O whisky foi esquecido na mesinha de canto.

A tensão se dissipou com o calor do toque dela, e naquela sala onde segundos antes existia raiva e pressão, agora só restavam suspiros, risos e a dança secreta de dois corpos viciados um no outro.

Restaurante Osteria Luce – Manhattan, 14h42

O quarteto estava acomodado à mesa do restaurante italiano de alto padrão a apenas três quadras da sede da Atlas Technology. O ambiente era discreto, sofisticado e servido com massas artesanais que deixariam até a avó de Stefano Vassalli orgulhosa.

Peeta estava com a camisa branca levemente aberta no colarinho, ainda visivelmente mais relaxado que no início da manhã. Katniss, sentada ao seu lado, vestia um vestido tubinho vermelho que acentuava suas curvas e contrastava com o tom de pele bronzeado. Do outro lado, Haymitch bebia vinho tinto como se fosse suco, e Johanna balançava a taça, animada demais para uma sexta-feira comum.

— Ainda bem que eu não estava naquela reunião, porque se eu estivesse... — disse Johanna, depois de ouvir o resumo completo. — Eu mandava aquele tal de Stefano se foder em italiano mesmo! Vaffanculo! — completou com um sotaque duvidoso, fazendo Katniss engasgar com o suco.

— Ah, mas você precisava ver o meu loiro aqui — disse Katniss, apoiando o queixo na mão e olhando para Peeta com um sorriso malicioso. — Quando ele se levantou da cadeira e mandou um vai a merda, stronzo! Com aquele sotaque... eu juro que quase subi na mesa. Que cena...

— Alerta de fetiche linguístico confirmado — comentou Haymitch, sem tirar os olhos do cardápio. — E eu achando que só vinho italiano deixava as mulheres molhadas. Que ingenuidade minha.

Johanna gargalhou, quase derrubando o cesto de pães da mesa.

— Gente, Katniss tá tão obcecada pelo italiano do Peeta que se ele disser macarronada com sotaque certo, ela tira a roupa — comentou Johanna, rindo.

Peeta revirou os olhos, divertido.

— Vocês não têm ideia do quanto ela ficou animada. Eu estava tenso, suando, achando que ia ter que dar um murro em um senhor de 65 anos e ela me olha como se eu fosse uma calça Versace em liquidação.

— Porque você é, querido. Uma raridade irresistível — sussurrou Katniss em seu ouvido, brincando com o colarinho da camisa dele. Peeta correspondeu com um sorriso travesso e um leve beijo em sua têmpora.

— E depois disso... — Haymitch retomou, apontando para Peeta com o garfo. — Nosso CEO herege ainda teve coragem de se enfiar com a Everdeen na própria sala. Vocês acham que eu não sei, mas o cheiro de óleo essencial e luxúria ficou no ar. Quase escorreguei no carpete.

— Haymitch! — repreendeu Katniss, corando.

— Ah, relaxa, querida. Você não é a primeira mulher a montar um CEO cansado... só é a primeira a fazer ele sorrir depois de uma reunião com o Vassalli — ressaltou ele, erguendo a taça. — A essa façanha, eu brindo.

— Brindo também — disse Peeta. — Mas pra deixar claro; a Katniss me salvou hoje. Se ela não tivesse aparecido, eu estaria internado ou preso.

— Ainda bem que você não tocou no homem. Porque aí a briga era certa, napolitano — brincou Johanna.

E todos brindaram com um toque leve de taças. O clima à mesa era descontraído, os pratos estavam deliciosos e, pela primeira vez em dias, Peeta sentia que o peso em seus ombros havia sido aliviado — e tudo graças à mulher sentada ao seu lado, a mesma que, silenciosamente, ainda guardava uma tempestade dentro de si.

✦✦✦

O som dos saltos de Katniss ecoava pelo corredor de mármore enquanto ela acompanhava Peeta até sua sala. A conversa do almoço ainda reverberava em sua mente, especialmente a forma como todos — até Haymitch — pareciam enxergar com clareza o que ela tentava camuflar; seu envolvimento com Peeta estava escapando do controle. Não apenas físico, mas emocional. E isso, para alguém com um plano de vingança em curso, era perigoso.

Assim que a porta da sala se fechou atrás deles com um estalido magnético, Peeta soltou um suspiro profundo e desabotoou o paletó, jogando-o sobre a poltrona.

— Eu nem devia ter voltado pra cá hoje. Estou com vontade de cancelar o resto da tarde e... te sequestrar.

— Sequestrar? — Katniss ergueu a sobrancelha, sorrindo.

— Num andar abandonado da Atlas, onde ninguém ouviria seus gemidos — desabafou ele, com voz grave, se aproximando por trás, segurando sua cintura.

Ela riu, mas seu olhar foi para a vista de Manhattan através da parede de vidro.

— O que foi? — Quis saber Peeta, percebendo o ar pensativo dela.

— Só pensando... em como tudo isso é intenso. Nós dois. Aqui. Agora. E como em segundos você pode estar gritando em italiano para um velho... e em outros segundos, me despindo com os olhos.

Peeta se aproximou ainda mais, roçando os lábios no pescoço dela.

— Não te agrada essa dualidade?

— Me desequilibra.... — respondeu ela, sincera. E pensou, me enfraquece… e isso não estava nos meus planos.

Antes que Peeta pudesse responder, Lucy bateu à porta e anunciou:

— Sr. Mellark, o Sr. Vassalli está na linha dois. Disse que reconsiderou a cláusula do contrato.

Peeta soltou um riso sarcástico.

— Olha só... O italiano se dobrou.

Katniss virou-se para ele, com aquele sorriso felino.

— Acho que você falando “stronzo” com sotaque teve mais impacto que qualquer cláusula contratual.

— Se eu soubesse que te excitava tanto, teria dito mais vezes —respondeu Peeta , abrindo um sorriso maroto.

— Ainda pode usar isso a seu favor... — murmurou ela, e mordeu de leve o lábio inferior. — Mas, agora, seja CEO, Mellark. Me mostre como fecha acordos milionários. Porque mais tarde... eu vou querer ver de novo o seu lado napolitano.

Peeta caminhou até sua cadeira, sentou-se e pegou o telefone. Enquanto conversava com Stefano com o tom polido e frio típico de CEO experiente, Katniss sentou-se de frente para ele, cruzando as pernas devagar, puxando a barra do vestido.

E pensou com um peso no peito:

Como vou fazê-lo sangrar, se tudo que quero é cuidar dos cortes dele?

Mas sua mente logo foi silenciada pela voz de Peeta.

— Stefano, se não concordar com isso, vou ter que te mandar à merda de novo. E desta vez em público — disse ele em italiano, com a maior naturalidade.

Katniss riu baixinho.

Sim, aquele homem era um problema. Mas um problema que ela já não tinha certeza se queria resolver... ou amar para sempre.

✦✦✦

Katniss ajeitava a gola do blazer preto enquanto explicava os conceitos da nova campanha digital ao estagiário.

— Stuart, preciso que catalogue as ações da equipe de campo e cruze com os dados dos últimos relatórios de performance. A senha está nesse post-it, e... cuidado pra não derrubar café no teclado. Acredite, o sistema da Atlas tem alma e se vinga — falou ela, com um sorriso divertido.

— Entendido, srta. Everdeen. Juro solenemente não danificar nada eletrônico... hoje — respondeu Stuart, com um sorriso tímido e a covinha que surgiu em sua bochecha não passou despercebida.

Katniss soltou uma risadinha. Ele era gentil, esforçado e absurdamente educado. Um verdadeiro golden retriever humano.

A porta da sala se abriu de repente, e lá estava ele — Peeta Mellark, camisa branca impecável, as mangas arregaçadas, o paletó pendurado nos ombros e uma expressão nada corporativa ao ver Stuart sorrindo para Katniss.

— Trouxe aquele relatório que a equipe jurídica pediu — disse Peeta, com a voz mais tensa que cópia sem toner.

— Ah, obrigada, amor —respondeu Katniss, se levantando da cadeira com naturalidade.

— Stuart Campbell. — O estagiário se adiantou com a mão estendida, o sorriso amigável de sempre. — Sou novo aqui. A srta. Everdeen está me treinando.

Peeta apertou a mão dele como quem apertava um controle remoto que não funcionava há três dias. Um aperto firme. Demais.

— Prazer — falou, sem esboçar nem 10% do entusiasmo que Stuart tinha.

Katniss percebeu na hora. O olhar afiado, o maxilar travado, o nariz levemente dilatado.

— Stuart, consegue digitar aquele memorando que te pedi? — perguntou ela, sorrindo. — Já volto. — Ela puxou Peeta pela mão antes que ele resolvesse demonstrar domínio territorial pela sala inteira. Entraram no elevador, e só quando a porta se fechou Katniss cruzou os braços e disparou. — Agora você vai me dizer que está com ciúmes de um estagiário?

— Ele tem covinha... — Começou Peeta, sério.

— Ah, então a covinha é o gatilho? — Katniss riu, apoiando a mão na parede do elevador. — Você precisa urgentemente de terapia.

— Ele te chamou de “senhorita Everdeen” com uma devoção que eu não vejo nem nos funcionários efetivos!

— Peeta, ele é literalmente um golden retriever com planilhas — disse ela, rindo. — Relaxa, você é o único homem que eu deixo me arrastar pela sala, me colocar na mesa e dizer obscenidades em italiano. E essa covinha do seu queixo... me faz precisar de um exorcismo de tão possuída que fico quando te olho.

Peeta finalmente sorriu, derrotado pela sinceridade divertida dela.

— Tá, talvez eu tenha exagerado um pouquinho.

— Um pouquinho? Você quase jogou o relatório no colo dele como se fosse um cartão vermelho!

Chegaram ao andar executivo e Katniss segurou sua gravata, impedindo-o de entrar na própria sala.

— Escuta, Mellark. Eu gosto de você. Só de você. Aquele ali mal sabe onde fica o botão “enviar” do e-mail corporativo. Agora... — sussurrou ela, com um sorriso travesso. — Se quiser me provar sua masculinidade, você pode me trancar aqui dentro depois do expediente e...

— Senhor Mellark? — A voz de Johanna soou pelo corredor.

Katniss soltou a gravata como se estivesse soltando a coleira de um pitbull.

— Te vejo mais tarde, Conquistador das Covinhas — provocou ela, piscando antes de voltar para a sala.

Peeta ainda ficou um segundo parado, digerindo o apelido.

— Covinhas... meu Deus.

Ele balançou a cabeça, rindo sozinho, enquanto Johanna se aproximava com uma pasta na mão e uma expressão de quem já sabia de tudo.

— Deixa eu adivinhar... o estagiário tem covinha? — questionou ela, abrindo a pasta.

— A sua boca é uma maldição, Johanna.

✦✦✦

O céu começava a ganhar tons dourados enquanto os últimos raios de sol invadiam as janelas panorâmicas. Katniss entrou sem bater, segurando um copo de café e os olhos semicerrados depois de um dia inteiro entre planilhas, estagiários e farpas corporativas.

Peeta estava em pé, ajeitando a gravata diante de um dos espelhos embutidos em seu armário. Ao vê-la, relaxou os ombros e sorriu.

— Vem cá — disse ele, estendendo a mão. — Preciso te dar um aviso de utilidade pública.

— Aviso? — Ela se aproximou, entregando o café e se acomodando na poltrona da frente, puxando os saltos como quem já não aguentava mais parecer elegante. — Diga logo que estou demitida, vai.

Peeta riu.

— Ao contrário. Você acaba de ser promovida a consultora oficial de moda da minha mãe.

Katniss congelou, o sorriso sumindo dos lábios.

— Perdão?

— Ela quer ir ao shopping com você e a Presley — contou ele, com a naturalidade de quem falava sobre o tempo. — Pra escolher os vestidos e as máscaras do baile.

Katniss arregalou os olhos.

— Sua mãe quer minha opinião?

— Exatamente. — Ele se aproximou e se encostou na beirada da mesa, cruzando os braços com aquele meio sorriso que ela já sabia que significava “eu adoro te ver desconcertada”.

— Isso é uma cilada. Ela vai me trancar em um provador e me obrigar a usar algo rosa pastel com babados.

— Rosa pastel com babados não te segura, Everdeen — sussurrou ele, se inclinando, os olhos fixos nos dela. — Nem mesmo se vier com uma tiara de princesa.

— Presley vai? — perguntou, tentando voltar à racionalidade e ignorar o calor que subia pela nuca.

— Vai. A missão é essa, encontrar algo digno do baile mais exclusivo do ano. E minha mãe confia em você pra liderar a operação.

— Ela confia em mim... ou está sondando o inimigo? —questionou Katniss, estreitando os olhos, meio brincando, meio falando sério.

Peeta a olhou por um instante mais longo do que o necessário.

— Falei pra ela não dizer nada estúpido a você. Ela que vai se comportar. E... talvez tentar te agradar. À maneira dela, claro. — Ele deu de ombros. — Não é fácil pra ela. Mas ela percebeu o quanto você significa pra mim. E isso... muda tudo.

Katniss mordeu o canto do lábio, o coração acelerando. Podia ser algum tipo de armadilha. Peeta abaixou-se até ficar com o rosto na altura do dela.

— Se te derem uma missão impossível... liga pra mim. Eu corro pra te salvar. Ou, sei lá, levo uma bomba de fumaça e te tiro do provador.

Katniss riu, se aproximando para dar um beijo rápido no canto da boca dele.

— Você realmente me colocaria em um vestido rosa pastel com babados?

— Não. Mas te colocaria em qualquer coisa que te fizesse feliz... ou nua. Preferencialmente nua.

— Mellark! — Ela riu, batendo de leve no peito dele.

Peeta riu também, mas antes de deixá-la sair da sala, segurou sua mão por um instante.

— Obrigado por topar. Mesmo que minha mãe tenha seus... jeitos... Presley gosta muito de você.

Katniss assentiu, já de costas para a porta.

— Só estou indo justamente porque Presley vai me proteger. Mas se sua mãe tentar me colocar em um vestido de tafetá rosa ou lilás já sabe... você vai dormir no sofá.

— Negociável... desde que seja com você nua no sofá também.

Ela piscou e desapareceu pelo corredor, enquanto Peeta sorria, completamente encantado por ela — e, ao mesmo tempo, completamente alheio à tempestade que se formava por trás daquela máscara sedutora.

Shopping da 5ª Avenida

A boutique de luxo era um oásis de tecidos finos, luzes estrategicamente posicionadas e atendentes vestidos de preto dos pés à cabeça. Katniss caminhava ao lado de Presley, observando com discrição a silhueta esguia de Alma Mellark — ou melhor, Alma Snow, como fazia questão de se apresentar — logo à frente, já com dois vestidos grotescos pendurados no antebraço. Um deles parecia uma mistura de cortina de veludo com penas de pavão, o outro tinha brilho suficiente para refletir satélites.

— Esse aqui realça seus ombros, Presley — disse Alma, erguendo um vestido bufante, salmão-choque, com gola alta e babados.

Presley, que era a imagem da elegância com seus cachos dourados e uma calça jeans impecável, cruzou os braços, o olhar impassível.

— Esqueceu que curso moda, Sra. Mellark?

Alma parou, o maxilar se tensionando, e respondeu com frieza:

— Sra. Snow.

Presley bufou, sem disfarçar o desgosto.

— Ah, mãe... fala sério. Aquele homem era repugnante. E quem te passou o sobrenome de casada primeiro foi o papai.

O silêncio que se seguiu foi denso. Alma virou o rosto para um vestido na arara como se nada tivesse acontecido, mas seu reflexo no espelho a denunciava. Katniss sentiu o peito apertar. Saber que Otho estava vivo, mesmo fora de cena, era um lembrete de que essa família tinha feridas profundas demais para cicatrizar com vestidos caros.

— Pres, o que acha desse vestido? — Katniss a puxou suavemente, apontando para uma vitrine ao lado. Um vestido de alcinhas amarelo queimado, justo na medida certa, com corte limpo e caimento leve. — Eu conheço esse estilista. É o mesmo que desenhou o meu vestido. Cinna Laurent. Ele trabalha com tecidos naturais e modelagens elegantes. Esse vai te deixar deslumbrante.

Presley abriu um sorriso instantâneo. Aproximou-se da vitrine e girou o pulso para observar o caimento no manequim.

— Ai meu Deus... é perfeito! E esse tom de amarelo vai destacar meu cabelo e meus olhos. Você me convenceu, Everdeen. E criação do Cinna... aí meu Deus que incrível!!!

— Cuidado, Presley. — Alma alfinetou, se aproximando. — A moça está cada vez mais confortável dando ordens, parece até que é da família.

Katniss sustentou o olhar de Alma por um segundo, serena.

— Só gosto de ver as pessoas ao meu redor bem vestidas. Afinal, o baile beneficente será um marco para a Atlas. E todos os olhos estarão sobre vocês.

Presley olhou da mãe para Katniss, sentindo a tensão palpável.

— Bom, se é pra ser vista, que seja com um vestido Cinna Laurent e não parecendo uma travesti renascentista — disse, pegando o cabide com o vestido amarelo e sumindo atrás da cortina do provador.

Katniss segurou uma risada contida, enquanto Alma revirava os olhos.

No momento seguinte, o celular de Katniss vibrou:

[16:35] P — Elas ainda não te raptaram? Preciso de notícias. Mande uma selfie ou um sinal de fumaça.🫨

Katniss respondeu com uma foto do vestido amarelo sobre o braço, seguida de...

[16:37] K — Presley fez uma ótima escolha. Sua mãe… nem tanto. Sobrevivi. Por enquanto.😜

Peeta respondeu com um emoji de fogo e outro de explosão.

Minutos depois, Presley saiu do provador, o vestido abraçando suas curvas e sua pele dourada como se tivesse sido moldado exclusivamente para ela. Até Alma soltou um suspiro, contra a própria vontade.

— Vestiário aprovado — disse Presley com um giro, sorrindo. — Agora falta só a máscara. Mas dessa vez, mãe, nada com plumas, ok?

Alma resmungou, mas não contestou.

Katniss pegou outro cabide com uma máscara dourada bordada, linda e elegante.

— Essa aqui. Contrasta com o vestido e dá um ar de mistério, sem parecer um cisne assassino.

Presley gargalhou.

— Você é um gênio, Everdeen. Peeta sabe a joia que tem?

Katniss sorriu de canto, mas desviou o olhar, sentindo um nó no peito.

Sim... Peeta sabia. Mas ele ainda não fazia ideia do que viria depois daquele baile.

✦✦✦

O carro de Presley estacionou sob a sombra frondosa de uma cerejeira no quintal dos Everdeen. Os últimos raios do sol atravessavam as folhagens do jardim bem cuidado, lançando sombras delicadas sobre as pedras do caminho. Katniss, com os cabelos soltos, blazer preto estruturado, top rendado embaixo do blazer, saia lápis preta, completando o look com Scarpin preto de bico fino e sua bolsa de mão. Presley desceu do carro encantada com o lugar.

— Uau... isso aqui parece uma daquelas casas de revista — enalteceu, girando devagar para observar o entorno.

Katniss sorriu com carinho e fez um gesto com a cabeça.

— Vem, vou te mostrar meu vestido.

Presley a seguiu pelos degraus até o interior da mansão, atravessaram o hall imponente, de tons neutros e detalhes em madeira escura, e subiram a escada até o segundo andar. O quarto de Katniss era amplo, aconchegante, decorado com tons naturais, uma cama Queen com lençóis de linho e uma parede com fotografias em preto e branco.

— Esse é meu cantinho de fuga quando tudo fica insuportável — disse Katniss, abrindo as portas do closet embutido.

Ela se aproximou de uma área reservada ao fundo, puxou um zíper de uma capa protetora e revelou o vestido bordô.

Presley soltou um suspiro quase teatral:

— Santo Laurent! Isso é… uma obra de arte. Alça drapeada, fenda, decote, saia ampla... Meu Deus, você vai deixar o Peeta em coma.

Katniss riu, com um toque de timidez nos olhos.

— Cinna superou todas as expectativas. E a máscara...

Ela abriu uma caixinha de veludo branco e revelou a máscara dourada rendada, trabalhada com delicadeza e pequenos cristais quase imperceptíveis.

— Isso aqui é tipo... Versailles encontra Luxúria fashion week. — Presley estava maravilhada. — Você vai ser a mulher mais misteriosa e sensual daquele salão, sem dúvida.

— Vem, vamos tomar um chá? Minha mãe deve estar chegando.

As duas desceram juntas e seguiram até a cozinha, uma área charmosa da mansão com grandes janelas abertas para o jardim. No momento em que entraram, Asterid já estava lá, cortando fatias de bolo de limão.

— Oi, mãe! Você chegou! — disse Katniss, depositando um beijo na bochecha da mãe.

Asterid olhou para Presley e sorriu com doçura.

— E essa beldade é...?

— Mãe, essa é a Presley, irmã do Peeta.

— Ah! A irmã que estuda moda! — comentou Asterid, gentilmente estendendo a mão. — Katniss falou de você e posso dizer... seu senso estético é visível. E essa pele linda, querida, parece de porcelana.

Presley riu, levemente corada.

— Olha quem fala! A senhora é a definição de pele perfeita e energia calma. Agora entendo de onde a Katniss herdou isso.

Asterid soltou uma risada suave.

— Você é encantadora. Aliás, filha, por que não a leva até o nosso boticário? Tenho certeza de que consigo montar um kit de cuidados só com óleos naturais, ervas específicas para o tipo de pele dela. Vai amar, Presley.

— O quê?! Você tá me oferecendo poções mágicas? — brincou Presley, sentando-se à mesa. — Isso já virou a melhor tarde da minha semana.

As três se acomodaram e tomaram chá em xícaras de porcelana com pintura floral. A mesa exalava o perfume do bolo de limão e da infusão de hortelã com lavanda.

— Então... — disse Asterid, servindo o chá. — Ansiosas para o baile?

— Definitivamente — falou Katniss, cruzando um olhar cúmplice com Presley.

— Eu? Estou pronta para causar. — Presley ergueu a xícara. — Que os mascarados estejam preparados!

A tarde seguiu leve, cheia de risadas, elogios trocados e um silêncio confortável entre confidências e chá quente.

Minutos depois, Katniss e Presley atravessaram o corredor lateral da casa e entraram por uma porta de madeira pintada em tom verde-oliva, envolta por trepadeiras. O aroma do ambiente era suave e reconfortante — uma mistura de lavanda, camomila e óleo de rosa. Frascos âmbar, potes de cerâmica, folhas secas e pequenos vidros com rótulos caligrafados preenchiam as prateleiras. Luz natural atravessava as janelas com cortinas leves, criando reflexos dourados nos vidros.

— Uau... isso aqui parece saído de um filme — comentou Presley, encantada. — Eu juro que consigo sentir o cortisol do meu corpo indo embora só de respirar aqui.

Asterid sorriu enquanto usava um pequeno pilão para masserar flores secas.

— Esse espaço é meu templo. Criei cada fórmula para ajudar pessoas a se reconectarem com o próprio corpo, com os sentidos. E agora, quero montar algo especial pra você, Presley.

A loira se aproximou da bancada de madeira, observando os frascos enquanto Katniss se encostava à porta, sorrindo ao ver o encantamento dela.

— Você tem preferência por aromas cítricos, florais, amadeirados...? — perguntou Asterid, colocando algumas opções sobre a mesa.

— Hum... florais com fundo amadeirado. Algo elegante, mas que ainda tenha alma.

— Uma garota exigente, gostei! — falou Asterid, já separando essência de sândalo, absoluto de jasmim e um toque de bergamota. — Vai ficar com a sua cara.

Enquanto Asterid trabalhava com precisão, o celular de Katniss vibrou discretamente. Ela puxou o aparelho, sorrindo ao ver a selfie torta de Peeta. Ele usava óculos escuros, cara de tédio e atrás, Johanna fazendo careta no fundo.

[17:45] P— Me tira daqui... essa filial tá me sugando a alma. Johanna não para de cantar Madonna no viva-voz. Saudades da minha mulher 😩Volto à noite. Vista a lingerie verde-esmeralda 👀

Katniss riu baixo, digitando.

[17:47] K — Sobreviva aí, CEO suprimido. Se comporta com a Jô! A lingerie está na minha gaveta do seu closet... Especialmente pra você.🫦

Presley notou o brilho no rosto da amiga.

— Mensagem do boy magia?

— É, ele tá em missão de guerra com a Johanna. Disse que está com saudade...

— Ai, gente... isso aqui é tão surreal. Você e Peeta parecem coisa de filme. Se alguém tivesse me contado isso no início do ano, eu teria gargalhado.

Katniss sorriu, mas havia uma pontinha de melancolia em seu olhar — um lembrete da teia que ela mesma havia tecido.

Asterid, concentrada, ofereceu à Presley um pequeno frasco com tampa dourada.

— Aqui está. Um blend calmante, sensual e marcante. Perfeito para antes do baile. Passe nos pulsos, atrás das orelhas, nas clavículas... Vai parecer que nasceu em Versailles.

— Tia Asterid, a senhora é bruxa! Isso aqui... nossa! — Presley inspirou profundamente. — Juro que me sinto poderosa com esse cheiro.

As três riram e voltaram para a casa, embaladas por um sentimento leve, como se por um instante, nada precisasse ser consertado — nem o passado, nem os sentimentos.

✦✦✦

O relógio marcava 22h40. A luz quente da luminária preenchia o quarto com uma suavidade quase surreal. Katniss estava deitada sobre a cama king-size, as pernas cruzadas e um livro nas mãos — embora há vários minutos não conseguisse ler uma linha sequer. Seu corpo estava coberto apenas por uma camisa branca de Peeta, três números maior que o dela, e por baixo, a lingerie verde-esmeralda, rendada, provocante.

Ela ouvia o som dos passos no corredor e então... A fechadura girou e ela se sentou com um sorrisinho no rosto.

Peeta entrou no quarto afrouxando a gravata. O paletó já estava jogada por algum canto. Os cabelos loiros estavam levemente bagunçados e a barba rala marcava seu cansaço.

— Finalmente — disse Katniss, fingindo desdém. — Achei que Johanna fosse te sequestrar em definitivo.

Peeta sorriu e deixou os papéis e o celular sobre o aparador.

— Ela tentou, mas sobrevivi. Prometo te contar os detalhes... só me dá cinco minutos e um banho, senão eu vou desmaiar no carpete. — Ele se aproximou, inclinou-se e beijou sua testa. — Você tá um escândalo nessa camisa.

Katniss arqueou a sobrancelha.

— E olha que você ainda não viu o que tem por baixo.

Peeta parou, a encarando com olhos famintos.

— Darei um jeito de sobreviver ao banho em menos de dois minutos.

Peeta saiu do banheiro com o cabelo ainda pingando, apenas uma toalha branca na cintura. Mas assim que viu Katniss em pé junto à cama, os ombros à mostra, os cabelos soltos caindo pelas costas e a rendada lingerie esmeralda que contrastava perfeitamente com a pele, a toalha caiu. Literalmente.

Katniss mordeu o lábio.

— Vai ficar me encarando ou vai fazer alguma coisa, senhor Mellark?

Peeta se aproximou com um olhar escuro, pegando-a pela cintura e colando os corpos.

— Dio mio... — sussurrou ele em seu ouvido, a voz rouca, quente. — Ti giuro... com questo corpo mi fai impazzire... Sei la mia tentazione personale... — A cada palavra, ele a beijava com mais intensidade.

Trad-[ Eu juro... esse corpo me deixa louco... Você é minha tentação pessoal...]

Katniss, arfando, soltou um riso baixo:

— Você me enlouquece falando em italiano... — arfou ela.

— Ti scoperò fino a farti dimenticare il tuo nome. — Peeta gemeu contra a pele dela, a carregando até a cama com um desejo que queimava.

Trad-[Eu vou te foder até você esquecer seu nome.]

O momento foi lento e intenso. Mãos explorando, bocas famintas, olhares embriagados. Peeta sussurrava obscenidades em italiano entre gemidos e juras de desejo. Katniss ria, estremecia e se entregava completamente.

Ele é meu caos... e minha paz ao mesmo tempo.

Manhã seguinte, no banco do caríssimo Lamborghini preto, Peeta dirigia com uma mão só, os cabelos ainda levemente molhados da ducha matinal, os olhos protegidos por óculos escuros. Katniss, no banco ao lado, comia uma maçã com uma calma desconcertante e as pernas cruzadas elegantemente sob a saia lápis vinho. O rádio tocava baixinho alguma estação de jazz instrumental.

— A propósito — disse ela, olhando para ele de lado com um sorriso malicioso. — Se eu soubesse que o italiano te deixava ainda mais sexy, tinha te provocado antes como o Vassalli fez.

Peeta riu, balançando a cabeça. O riso era baixo, quase nostálgico.

— Desde pequeno, mio padre me ensinava italiano. Ele dizia que eu tinha que aprender sua língua materna, pois era o idioma da alma e da comida boa. Me fazia repetir frases pra decorar as receitas da mãe dele... — Peeta fez uma pausa, a mão apertando um pouco mais o volante. — Mas depois que ele morreu e descobri que Snow era meu verdadeiro pai… eu simplesmente parei. Nunca mais falei uma única palavra. Até ontem.

Katniss o observou em silêncio por alguns segundos.

— Ontem foi um bom recomeço — disse, tocando levemente o antebraço dele.

Peeta sorriu, mas havia algo de melancolia no fundo dos olhos.

— Foi você quem me fez lembrar quem eu era.

Katniss apenas sorriu, mas seu estômago se revirou com a culpa latejando entre as costelas.

Chegaram à empresa e assim que o elevador se abriu com um leve som, Katniss saiu primeiro, vestida com sua elegância usual. Peeta foi logo atrás, ajustando a gravata. Assim que chegaram ao hall do marketing, ela se virou e roubou um beijo rápido, sentindo os olhos de alguns funcionários os acompanharem de relance.

— Boa reunião, CEO mais sexy de Manhattan— sussurrou ela.

— E você, Everdeen... tenta não deixar mais nenhum estagiário apaixonado por você hoje — advertiu Peeta em tom leve, mas lançando um olhar nada leve para Stuart que, pontualíssimo, já estava à porta da sala com um tablet nas mãos. — Até daqui a pouco, meu amor — concluiu ele, dando um beijo lento e possessivo na boca de Katniss, olhando de canto para Stuart ao se afastar.

Stuart, educado como sempre, apenas sorriu um tanto nervoso e olhou para os próprios sapatos por alguns segundos.

— Bom dia, Srta. Everdeen! Pronta para uma manhã de ideias sobre o app do projeto de bolsas educacionais! — disse ele animado.

— Bom dia, Stuart! E vamos com calma, que nem café eu tomei ainda — respondeu ela com um sorriso.

Os dois entraram na sala de reuniões do marketing. Katniss começou a mostrar algumas planilhas no tablet, quando um entregador entrou pela porta com um buquê enorme e lindíssimo de rosas vermelhas.

— Entrega para... Katniss Everdeen?

— Sou eu — disse ela, surpresa.

Stuart soltou um “uau” e tentou conter o sorrisinho curioso.

Katniss abriu o cartão preso ao laço de cetim. A caligrafia era inconfundível, desenhada com precisão quase artesanal.

“Ti amo, ti voglio.”

— P.

Ela sentiu as bochechas corarem e sorriu sozinha.

— Isso é tão... dramático. Tipo um filme de romance europeu — comentou Stuart, olhando para o enorme buque.

— Dramático é o nome do meio dele — completou Katniss, tentando disfarçar o quanto estava boba.

— Só não deixe ele me matar de ciúmes. Ele me olha como se eu tivesse sequestrado um gatinho da infância dele.

Katniss deu de ombros e piscou.

— Ele é competitivo. Mas se serve de consolo, Stuart, você é fofo demais pra morrer pelas mãos de Peeta Mellark.

Stuart fingiu um suspiro de alívio exagerado e disse, rindo.

— Então hoje é um bom dia pra continuar vivo.

Os dois voltaram ao trabalho, mas o buquê ficou ali, no centro da mesa, como um lembrete romântico e intenso de que o caos e o amor estavam em pleno duelo nos bastidores daquela vingança cuidadosamente arquitetada.