Doce Vingança
4 Inquietação
Notas iniciais
Os dias passavam como cenas meticulosamente ensaiadas em uma peça dirigida por Katniss. Cada gesto, cada olhar, cada frase dita com exatidão tinha um papel no roteiro que ela escrevia para Peeta Mellark. Seu alvo. Seu prêmio. Sua ruína — ou seu prêmio antes da queda.
O Projeto Synapse, a obra-prima de seu pai, estava em vias de redefinir o conceito de segurança e privacidade digital. Mas, para Katniss, sua real utilidade era outra — dar-lhe acesso privilegiado ao império Mellark. Como diretora de marketing, ela não apenas manipulava imagens e narrativas — manipulava ambientes inteiros, inclusive os que envolviam reuniões com Peeta. E, claro, cada encontro era uma oportunidade ensaiada.
Ela o estudava como se fosse um animal em cativeiro, disfarçada de cúmplice entusiasmada. Testava os limites, brincava com silêncios, forçava o contato visual e calculava a exata pressão de um toque no braço ou o tempo exato de um sorriso enviesado. Sabia que ele a desejava. Sabia que o desejo dele era um incêndio mal contido.
Fazia quase um mês desde o episódio no teatro. A noite em que ela o encurralou emocionalmente e deixou um beijo fantasma no canto de sua boca. Desde então, Peeta se escondeu atrás de compromissos, contratos, e-mails que evitavam qualquer tom pessoal. Ela, no entanto, era paciente. E mortalmente focada.
Naquela tarde de terça-feira, a garoa parecia não dar trégua. Na sede da Atlas, a luz morna do pôr do sol tingia de dourado o vidro das janelas quando Katniss — sozinha em sua sala — finalizava os esboços finais da campanha do Synapse. Tudo milimetricamente perfeito.
Foi quando a porta se abriu em silêncio, Peeta.
Ele entrou com a usual calma firme, o terno semiaberto, o rosto cansado, mas perigoso como sempre. Ela não se virou de imediato. Sabia que a presença dela, de costas, sempre o deixava mais instável. Quando finalmente o encarou, foi com um sorriso mínimo, cortante.
— Estava começando a achar que você só apareceria para assinar contratos — provocou ela, com um tom quase preguiçoso.
Peeta não respondeu de imediato. Seu olhar passeou pela mesa, fixando-se nas anotações e nos layouts abertos no tablet. Então ele falou, baixo:
— Finalizou com as mudanças que sugeri?
Ela entregou a ele o arquivo com um leve toque de dedos sobre a tela.
— E refinei o tom. Está pronto para explodir nos dados da primeira semana — disse, como quem sabe que vai vencer.
Peeta assentiu. O silêncio entre eles ganhou um peso próprio. E então, sem aviso, ele a segurou pelo pulso.
Não foi um gesto bruto. Mas também não foi suave. Foi uma decisão que ele parecia ter tomado no mesmo segundo em que a executou.
Katniss ergueu o olhar, tensa por dentro, mas impassível por fora. E viu. Viu nos olhos dele que estava no limite.
Foi ele quem cruzou a distância. Foi ele quem a puxou para si e a beijou.
Não houve hesitação, apenas necessidade. O beijo veio carregado de raiva, desejo, frustração, um rompante que ela não previu com exatidão. Ele era mais bruto do que ela lembrava, mais intenso. Como se estivesse punindo a si mesmo por finalmente ceder. Como se, por um momento, deixasse de ser Peeta Mellark, o magnata, e se tornasse apenas um homem faminto.
Katniss correspondeu. E mais do que isso — comandou. Seus braços se fecharam em torno do pescoço dele com maestria, e seu corpo encontrou o dele em perfeita sincronia. Ela queria que ele sentisse. Queria que ele soubesse o que estava perdendo esse tempo todo. Queria que ele implorasse por mais.
Mas então ele recuou.
Rápido.
Como se tivesse tocado fogo. Como se o beijo tivesse lhe deixado queimaduras internas.
Peeta deu um passo para trás, os olhos arregalados, o rosto em conflito. Katniss viu — e não soube interpretar. Ele parecia mais que perturbado. Estava… devastado?
— Me desculpe — ele murmurou, baixo, como se tivesse envergonhado a própria alma.
Ela ficou imóvel. Fria por fora, mas tomada por uma surpresa que não era estratégica. Aquilo não fazia parte do roteiro. Ela o havia estudado. Medido. Previsto reações. Mas não aquilo.
— Isso foi… interessante — disse ela, com um arqueamento de sobrancelha. — Mas não o tipo de reação que costumo causar.
Peeta passou as mãos pelo cabelo. Estava inquieto, desconcertado, como se lutasse contra algo invisível.
— Eu não devia... — repetiu, quase sem som.
Katniss cruzou os braços, seus olhos como lâminas afiadas.
— Você acha que está se desculpando por mim. Mas está se desculpando com você mesmo. — Sua voz era baixa, firme, sem julgamento. — O que está tentando proteger, Peeta?
Ele não respondeu. Apenas se virou para a janela, onde a chuva continuava a bater, fina, nos vidros altos. A cidade aos poucos se apagava atrás da névoa cinza. Peeta parecia perdido nela.
Por um segundo — um único segundo — Katniss sentiu algo que não queria sentir, pena. E talvez… empatia.
Ela caminhou até ele, mas parou a poucos passos.
— Você vai me contar? — perguntou, suavemente. — Ou vai continuar fugindo de mim?
Ele virou-se devagar, a dor nos olhos azuis agora evidente. Quando falou, sua voz estava embargada:
— Eu não posso me machucar de novo, Katniss.
Essa resposta não era sobre ela. Era sobre algo anterior. Algo que ela não havia considerado. Uma dor velha, um trauma que não fazia parte da equação.
Katniss recuou um passo mentalmente.
Ali, pela primeira vez, ela percebeu que a guerra que estava travando… era maior do que imaginava.
Peeta se moveu como um robô bem calibrado — preciso, rápido, porém vazio. Cada passo ecoava pelo corredor com firmeza, como se caminhar com propósito fosse suficiente para abafar o caos que rugia dentro dele.
Assim que a porta pesada de seu escritório se fechou atrás de si, a ilusão caiu. O silêncio o engoliu com a mesma brutalidade com que o desejo havia o consumido momentos antes. Ele soltou um suspiro trêmulo — aquele que segura o mundo nos ombros — e foi direto ao bar. Os dedos já sabiam o que fazer — buscar a garrafa de whisky escocês, um ritual antigo, como quem procura um código de acesso para silenciar o coração.
O gelo tilintou no copo como se zombasse de sua ilusão de controle. O primeiro gole foi como lava: queimava, corroía, mas não anestesiava.
A lembrança do beijo com Katniss ainda estava ali, viva, elétrica, desgraçadamente irresistível. Ele podia sentir o gosto dela nos lábios. A forma como ela se moldou à sua boca com ousadia e intenção... aquilo não tinha sido um deslize. Aquilo fora uma implosão. E ele, um homem que se orgulhava de manter todos os fios no lugar, havia simplesmente explodido.
“Merda”, murmurou para si, afundando no sofá de couro, a cabeça pendendo para trás.
Ele não estava preparado para aquilo. Para ela.
Katniss Everdeen não era só uma peça-chave na campanha de lançamento do Synapse. Ela era um fator de instabilidade. Uma tempestade disfarçada de certeza. E mesmo sabendo que estava sendo arrastado em direção a ela, ainda assim, não conseguia reagir. Ao contrário, queria mais.
Ela era perigosa. Aqueles olhos acinzentados, os gestos, seu toque. E ele... se deixava levar. Como um tolo.
E o pior, ela sabia disso.
O desejo por ela era uma força avassaladora, um impulso primário que o deixava sem controle e vulnerável. Mas o medo era ainda maior. Um medo obscuro e profundo que o paralisava, que o impedia de se entregar completamente. Parecia tão mais simples, quando saía com alguma modelo da Victoria Secret’s ou qualquer outra que nem lembrasse o nome, apenas para um sexo casual.
A porta se abriu sem cerimônia.
— Cedo demais pra se afogar no álcool, garoto. — A voz de Haymitch soou como um tapa de realidade. Rude, mas necessária.
Peeta não reagiu de imediato. Continuou ali, olhando para o teto, o copo ainda meio cheio em sua mão.
— Preciso que esse dia acabe. — Foi tudo que conseguiu dizer, rouco.
Haymitch entrou, fechando a porta com o pé. Trazia uma pasta de couro na mão, recém-chegado de Milão. O cheiro sutil de vinho fino o acompanhava como assinatura pessoal.
— E aí, me diz. Foi o conselho? Ou foi alguma garota?
Peeta virou o rosto, sem responder. Não era um homem acostumado a confessar. Especialmente suas fraquezas. Estava largado no sofá, a gravata afrouxada, o colarinho da camisa aberto, um contraste gritante com a imagem impecável que ele projetava para o mundo. O ambiente estava escuro, iluminado apenas por uma luz fraca que emanava de uma lâmpada de mesa próxima, criando sombras longas e profundas que pareciam acentuar o seu desespero.
— Nada melhor que um mel dos deuses pra acalmar a mente, padrinho — respondeu Peeta, a voz rouca, quase um sussurro.
Haymitch se aproximou, sentando-se em uma poltrona próxima. Ele observou Peeta com um olhar perspicaz, aquele olhar que conseguia ver além da superfície, que conseguia decifrar as emoções que Peeta tentava esconder. Ele tinha uma percepção apurada, uma intuição aguçada, capaz de detectar as mentiras e as verdades ocultas por trás das palavras.
— Sério? Mas desembucha logo. O conselho está irredutível? —Haymitch, mantinha um sorriso irônico nos lábios, enquanto analisava a situação.
— Não, Hay, eu arrasei na reunião. Foi um sucesso. Todos estão empolgados com o lançamento do novo software — disse ele, sua voz firme, mas com um tremor sutil que não deixou passar despercebido.
— Bem, segunda opção então... — deduziu Haymitch.
Peeta se encolheu levemente. Uma simples menção e toda a sua fachada tremia.
— Eu não sei o que estou fazendo... — O copo tilintou entre seus dedos. — Ela é... intensa. Provocadora. Ela entra em uma sala e me desmonta. E o pior? Eu deixo.
Haymitch se recostou na poltrona, cruzando os braços, os olhos semicerrados.
— Porque você quer. Porque ela te tira do lugar que você mesmo construiu. Coisa que pouca gente ousa fazer.
— Isso não é bom, Hay. — Peeta se levantou abruptamente, indo até a janela. A chuva insistente marcava o vidro com gotas finas. — É perigoso.
— Então se pergunta por que está mexido assim, mais do que com qualquer uma daquelas bonecas de luxo que você arrasta por aí.
Peeta sorriu com amargura.
— Porque tenho a impressão que ela me vê. E eu odeio isso.
— Você odeia não poder controlar o que sente.
O silêncio cresceu entre os dois como uma sombra.
— E o que ela quer de você, Peeta?
— Eu ainda não sei. E é isso que me destrói. Porque parte de mim desconfia se é só mais uma pra me destruir. E a outra... só quer me jogar nela. Sem perguntas.
Haymitch se levantou, deixando a pasta sobre a mesa.
— Confiança não é pra ser cega, garoto. Mas também não pode ser refém do medo.
Peeta apenas assentiu, perdido. Haymitch o conhecia desde sempre. Conhecia suas ruínas e sabia que, por mais racional que ele fosse, por mais milimetricamente que controlasse sua vida... uma mulher como Katniss poderia arrebentar todas as represas.
— Presley chegou comigo. Jantar às oito. Sua mãe fez questão de lembrar. — E então, com um toque de ironia... — Você vai adorar.
Peeta soltou uma risada seca. A mãe. Sempre tão prestes a intervir, com seu amor materno tóxico, vigiando-o. Ele sabia que o jantar seria mais uma performance.
— Mal posso esperar — murmurou, pegando o celular.
Digitou rápido. Uma mensagem para Gale, talvez um convite mudo para sair dali. Mas hesitou. Olhou a tela iluminando seu rosto cansado, e não clicou em “enviar”.
O nome de Katniss ainda estava na barra de contatos recentes.
Guardou o celular no bolso.
— Preciso de ar, Hay. Preciso... pensar.
Haymitch se dirigiu à porta, mas antes de sair, virou-se.
— Só cuidado com o que você tenta sufocar, garoto. Desejo demais guardado vira veneno.
E então, ele o deixou sozinho, com seus pensamentos, seu copo vazio, e a imagem de uma mulher que era a própria ruína disfarçada de oportunidade.
Quando se encontrou sozinho, recolheu seus pertences e saiu caminhando pelos corredores da empresa, o silêncio do local contrastando com a tempestade em seu interior. Seus passos eram firmes, mas seu olhar estava distante, perdido em um mar de pensamentos. Ele evitou intencionalmente a sala de Katniss, evitando qualquer contato visual, qualquer possibilidade de um encontro casual. A lembrança do beijo e toda intensidade, ainda o assombrava.
Ele precisava de espaço. Precisava se afastar, não só de Katniss, mas também de si mesmo. O jantar, ele sabia, seria um novo campo de batalha, onde teria que lutar para manter a sanidade intacta e esconder a verdade que o consumia.
✦✦✦
Peeta entrou em seu apartamento, deixando para trás o caos da cidade, mas não o caos em sua mente. Seus pensamentos fervilhavam como uma panela de pressão prestes a explodir. Uma mistura de desejo, culpa e um medo profundo que ele não conseguia nomear. A chuveiro, normalmente algo que o relaxava após um dia exaustivo, agora parecia uma torrente incessante de água fria que não conseguia apagar o fogo que o consumia por dentro. A água gelada chocando seu corpo, mas não conseguindo abafar a tempestade em sua mente. Imagens de mulheres traidoras passavam em sua cabeça — Jacqueline, Glimmer e até sua mãe —sorrisos falsos e promessas vazias. Tantas mulheres que o haviam enganado, usando sua posição, sua riqueza, sua aparente perfeição para alcançar seus próprios objetivos. Por isso nos últimos anos Peeta Mellark saía com as mulheres apenas para sanar sua necessidade, nunca telefonava e nem lembrava o nome, não fazia questão de se lembrar e jamais as levava até seu apartamento. Após o rompimento com Glimmer desfez do apartamento em que morava com ela e comprou o atual, fazendo uma promessa boba de não deixar nenhuma mulher que valesse a pena entrar ali.
Estava farto da histeria, manipulação e das expectativas irreais. Não queria mais ter que lidar com a decepção, desilusão e a constante necessidade de se proteger. E, além de tudo isso, havia um lado dele que era inacessível à maioria, um lado vulnerável, inseguro, que ele escondia cuidadosamente por trás de uma máscara de poder e sucesso.
Desligou o chuveiro, a água fria escorrendo pelo seu corpo, deixando para trás um leve tremor, um arrepio que não era de frio. Enrolou uma toalha na cintura e seguiu até o closet, não estava nem um pouco a fim de ir ao jantar familiar, mas sabia que não poderia se esquivar. A única coisa que poderia amenizar a tortura, seria a simples conversa com seu irmão mais velho e o abraço caloroso de Presley.
Gale o aguardava na entrada do prédio, a porta aberta, Peeta assentiu em agradecimento.
— Gale, depois que me deixar na minha mãe pode ir pra casa descansar — disse ele, sua voz ainda marcada pela exaustão.
— Sim, senhor. — agradeceu Gale.
A mansão de Alma Mellark, na parte alta de Manhattan, tinha vista panorâmica para o Central Park. Os interiores impecavelmente decorados por arquitetos italianos. Cada detalhe exalava luxo, elegância e… frieza.
Tudo estava silencioso e sereno naquela hora da noite, diferente da tempestade que ainda assolava Peeta por dentro. Subiu os degraus da casa familiar. Ao abrir a porta, porém, foi recebido por um turbilhão de alegria e amor que não esperava. Anthony e Kate, os filhos gêmeos de seu irmão mais velho, e Skye, a filha de seu irmão do meio, o envolveram em abraços apertados, seus risos infantis quebrando a tensão que ele carregava. Por um breve momento, o peso em seu peito diminuiu, substituído por uma onda de afeição. O amor incondicional deles era único e verdadeiro.
— Até que enfim você chegou! — A voz de sua mãe, carregada de um tom que ele conhecia muito bem – uma mistura de afeto superficial e subjacente crítica – o interrompeu. Ela surgiu no corredor, seu olhar o avaliando, como se estivesse procurando falhas em sua armadura.
— Se não fosse o Haymitch me visitar, nem viria — respondeu Peeta, dando de ombros, tentando manter um tom leve, mas a ironia em sua fala era inegável. Ele não estava ali por vontade própria.
— Não diga isso meu, filho! Sabe o quanto me importo e preocu...
— Ah, sério! Nem pra ver sua irmã favorita? — A voz melodiosa de Presley, sua irmã mais nova, surgiu atrás de sua mãe, seu sorriso radiante em evidência.
Peeta sorriu, um sorriso verdadeiro desta vez, que alcançava seus olhos, quebrando um pouco da tensão que o envolvia. Presley, com seus cabelos loiros ondulados e olhos azuis somada a sua natureza extrovertida de menina, representava o oposto da personalidade reservada de Peeta.
— Você é a única irmã favorita que tenho, Pres — respondeu ele, a voz suave, contendo um toque de afeição.
Peeta se virou para Presley, a presença dela, trazia um toque de normalidade àquela noite que se anunciava tensa.
— Vai ficar mais tempo desta vez antes de voltar para Milão, né? — perguntou ele, genuinamente curioso. Sua irmã que acabara de fazer vinte e três anos cursava moda na Itália.
Presley se aproximou, envolvendo-o em um abraço apertado e cheio de afeição. Seu perfume era uma mistura de florais e um toque de algo exótico.
— Desta vez vou passar uma temporada por aqui — respondeu, sua voz carregada de entusiasmo. Peeta esboçou um sorriu ladeado.
Finnick e Cato entraram na sala. O mais velho, acompanhado de Annie, sua esposa, emanava uma aura de calma e segurança, seu sorriso caloroso dissipando parte da apreensão que Peeta sentia. Ao seu lado, Cato, o irmão do meio, tinha um olhar mais reservado, mas seus olhos azuis brilhavam com um carinho silencioso. A presença deles, juntos, era reconfortante.
Finnick se aproximou, envolvendo Peeta em um abraço forte e silencioso. O abraço não precisava de palavras; era uma manifestação de apoio, compreensão e de amor incondicional. Cato, mais contido, ofereceu um aperto de mão firme.
A mesa de jantar estava impecavelmente posta, refletindo o gosto apurado — e milimetricamente calculado — de Alma. Louça de porcelana francesa, talheres de prata reluzente e taças de cristal alinhadas como soldados. O aroma delicado dos pratos preenchia o ar, mas o verdadeiro banquete estava nas entrelinhas.
Annie irradiava elegância com sua postura serena. Tinha um olhar clínico, treinado tanto para ler exames quanto para ler pessoas. Ela serviu-se com delicadeza antes de se dirigir à anfitriã, sua voz calma suavizando qualquer rigidez:
— Alma, a escolha dos pratos está simplesmente perfeita. A combinação de sabores, o equilíbrio... É tudo muito refinado.
Alma sorriu, estreitando os olhos ligeiramente como quem avalia mais do que agradece.
— Obrigada, querida. Eu insisti com o chef para que fosse algo à altura de todos... — Ela lançou um olhar enviesado para Peeta, que permanecia em silêncio, girando o vinho na taça. — Especialmente à altura do nosso primogênito.
Finnick arqueou uma sobrancelha, cruzando os talheres no prato como quem encerrava a participação no teatro. Ele trocou um olhar breve com Annie antes de comentar, num tom contido:
— A Atlas anda nas alturas mesmo. Te vi na capa da Forbes outro dia, irmão. A matéria estava... gentil.
— Gentil demais, talvez — comentou Cato, o do meio, com um meio sorriso que não chegava aos olhos. — Mas dizem que o jornalismo econômico é assim mesmo. Morde com uma colher de prata.
Peeta, finalmente, ergueu os olhos. Um brilho frio passeou por suas íris azuladas.
— Nem tudo o que sai impresso é verdade. Mas aprendi a não me incomodar com a fantasia que esperam de mim. É mais lucrativo sorrir para as câmeras.
Presley, mexia na salada sem muito entusiasmo, os cabelos bem alinhados contrastando com a expressão dispersa. As crianças brincavam distraídas na sala, após jantares antes.
— Você sempre teve essa habilidade — disse Alma, com um toque de mel na voz. — Desde criança sabia como conquistar as pessoas. Um talento inato para liderança.
— Ou para o autocontrole — murmurou Cato, seco, encarando o copo de água como se fosse interessante.
Annie interveio com suavidade, mudando o rumo da conversa como quem muda o curso de uma cirurgia complicada.
— Peeta, e como estão os novos projetos da Atlas? A inovação com energia limpa que vocês estão desenvolvendo parece promissora.
— Está indo bem — ele respondeu, com um leve assentir de cabeça para Annie. — A equipe de P&D está comprometida. Ainda é cedo para abrir números, mas a projeção é forte. O governo tem demonstrado interesse, inclusive.
— Claro que tem — disse Alma, com um tom quase possessivo. — Um homem à frente do seu tempo sempre atrai as atenções certas.
Finnick pigarreou, servindo-se de mais vinho.
— E você, mãe, anda atraindo que tipo de atenção?
— Só a de quem sabe reconhecer o valor da família — respondeu ela, com um sorriso afiado, estendendo a mão para alisar o guardanapo com exagerada elegância. — E quem sabe o que é melhor para ela.
O silêncio que se seguiu foi espesso como fumaça. Annie manteve o sorriso, mas sua mão apertava levemente a de Finnick sob a mesa. Presley, enfim, levantou os olhos.
— Esse vinho é italiano, não é? Muito bom. Quase me fez esquecer que estou em uma peça de teatro.
Todos riram — alguns mais do que outros.
A noite prosseguiu com conversas entrecortadas, garfadas cuidadosas e brindes formais. Mas o verdadeiro jantar não era o servido nos pratos – era o que se digeria nas entrelinhas.
Mas a fragilidade daquela fachada de perfeição ficou evidente quando o nome de Cato foi mencionado, e, logo em seguida, a palavra Clove. O silêncio que se seguiu foi mais pesado que qualquer outro som, quebrando a atmosfera de falsa harmonia. Os sorrisos desapareceram, substituídos por olhares tensos, carregados de uma mistura de surpresa, preocupação, e talvez, um pouco de julgamento.
— Tentaram a terapia, filho? A dra. Gaul é ótima. — Alma tentava a todo custo salvar o que há muito tempo vinha degringolando.
— Mãe, agora não — Cato desviou o olhar, sua expressão séria e contida. Ele tentou mudar de assunto, lançando um olhar para Skye, sua filha de seis anos, que brincava distraída com um pequeno brinquedo.
A presença da menina, inocente e despreocupada, serviu como um escudo, um impedimento para que a conversa se aprofundasse em detalhes dolorosos e complexos. A proteção da filha era prioridade para ele. Cato era um homem de poucas palavras, mas o peso da situação era visível em seus gestos e na sua expressão. Ele lidava com a situação com dignidade, mesmo que por dentro a dor o consumisse. Devia estar acostumado a lidar com casos assim e mais complexos todos os dias na empresa de advocacia, onde era sócio.
Peeta quase não teve paciência de esperar a sobremesa, se despediu com um aceno de cabeça curto, evitando qualquer contato prolongado, qualquer olhar que pudesse revelar suas próprias emoções. No entanto, Finnick o seguiu até lá fora.
— Ei, você não está bem — observou, colocando uma mão sobre o ombro do irmão caçula.
— Ah, deixa pra lá, não é nada importante. Nada com o que se preocupar. — Peeta sentia um turbilhão de coisas, mas não era apenas por causa do beijo em Katniss.
— Escuta, sei que as coisas mudaram e que não estou mais por perto, mas sempre que precisar pode me ligar ou quando eu estiver por aqui, podemos sair só nós dois. Você não se parece em nada com aquele homem, sua essência é a mesma do papai e mesmo que não esteja mais aqui, você tem a mim, sempre terá, Peeta.
— Obrigado, Finn. — Peeta segurou a lágrima que queria vir à tona.
Os dois se abraçaram dando tapinhas um nas costas do outro em seguida Peeta chamou um táxi. A cidade que passava pela janela era um borrão de luzes e sombras.
Ao deitar a cabeça no travesseiro, as imagens do beijo com Katniss tornaram invadir sua mente, nítidas e vibrantes, como se tivessem acontecido há apenas alguns segundos. Os olhos tempestuosos dela, cheios de uma paixão ardente e incontrolável, os lábios carnudos, famintos, a intensidade do toque... Uma rigidez se instalou em sua virilha, uma resposta física ao turbilhão de emoções que o assolavam.
Ele pensou em ligar para ela, em buscar uma explicação. Tentar entender o que havia acontecido. Mas a incerteza o paralisava. O que ele diria? Como justificaria seu comportamento?
A frustração o invadiu, uma onda de impotência que o deixava sem ação. Ele se levantou em um instante. Ligou o chuveiro, a água quente escorrendo pelo seu corpo, limpando a tensão física. Enquanto a água caía sobre ele, as imagens de Katniss, sedutora e inesquecível, continuavam a dançar em sua mente, um lembrete constante do desejo e do medo que o dominavam. Ele não aguentou o tesão crescente e se aliviou gemendo o nome dela.
FAMÍLIA MELLARK
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