Doce Vingança
8 Compromisso
Notas iniciais

A luz da manhã se infiltrava preguiçosa pelas cortinas, refletindo os móveis da ampla e moderna cozinha. Katniss estava descalça, os pés tocando o mármore frio enquanto cantarolava The Nearness Of You, de Norah Jones, a voz baixa e envolvente como um segredo antigo.
Vestia apenas a camisa branca de Peeta, que caía larga em seus ombros e a calcinha vinho da noite anterior com um pequeno protetor diário, pois ainda havia um leve sangramento, mas sem dor. Seu cabelo, preso em um coque desajeitado, deixava alguns fios soltos que moldavam seu rosto. Havia uma calma bonita naquela cena — e uma tempestade interna bem disfarçada.
Mexia os ovos na frigideira com movimentos delicados. A torradeira estalou, ela pegou as fatias quentinhas e douradas, montando uma composição impecável na bancada — ovos, torradas, morangos partidos ao meio, fatias de manga e melão em leque. Suco de laranja e café fresco.
No centro da bancada, um pequeno vaso com flores recém-colhidas do canteiro próximo à piscina. Pequenos detalhes. Katniss sempre foi boa com os detalhes — especialmente quando envolviam o disfarce de sentimentos.
Peeta surgiu atrás dela, ainda com os cabelos bagunçados da noite anterior e o olhar suave de quem já estava apaixonando sem se dar conta da profundidade.
A abraçou pela cintura, repousando o queixo sobre seu ombro.
— Com todo esse capricho, vou ficar mal-acostumado — confessou, a voz enrouquecida. — Por que não te encontrei desde o colegial? Isso teria me polpado de tanta coisa.
Katniss travou.
Por um instante, o cheiro do café se tornou amargo.
Sua mente gritou:
"Eu apareci. Estive lá. E você fingiu me querer... só pra depois me jogar de volta na escuridão."
Queria gritar, cuspir, machucá-lo com palavras afiadas como navalhas. Queria dizer que lembrava exatamente da forma como ele a olhou no refeitório da escola, rindo com os amigos enquanto ela fugia de olhos marejados.
Mas não disse.
Virou-se devagar nos braços dele e com um sorriso suave — construído com toda a maestria da vingança que florescera por dentro — o abraçou.
— Eu estou aqui agora, Peeta… já não basta?
Ele sorriu como se aquilo fosse a verdade mais bonita que já ouvira.
E Katniss se odiou, por um instante, por começar a acreditar nas próprias mentiras.
Ainda na cozinha...
— Vai querer o seu café com ou sem açúcar? — Katniss perguntou, virando-se para ele com a caneca em mãos.
Peeta, ainda de shorts de pijama e com o peito nu, se sentou à bancada, os olhos famintos apenas por ela.
— Com você do lado... pode ser amargo — disse, sorrindo. — Mas já que tenho escolha, adoça. Como ontem à noite.
Ela riu, entregando a xícara. Os dois se acomodaram lado a lado no balcão da cozinha. Comeram em silêncio por alguns minutos, a leve melodia jazzística preenchendo o fundo. Katniss tentava manter o foco nos morangos, não nas mãos grandes que a tocavam poucas horas antes. Nem no jeito como o corpo dela ainda estremecia por ele.
— Engraçado como algo tão pequeno consegue chamar tanta atenção… — falou Peeta, arrancando uma das flores do vasinho. Ele girou a haste entre os dedos e, com um sorriso enviesado, encostou de leve a pétala no braço dela. — Às vezes é do detalhe mais simples que nasce a parte mais bonita do dia.
Katniss estremeceu com o contato sutil, como se a flor fosse só desculpa para a aproximação.
— Vai querer piscina hoje? — Ela desviou, tentando recuperar o ar. — Sol forte, sábado preguiçoso… parece o dia perfeito.
— Parece o dia perfeito… pra não desgrudar de você.
✦✦✦
Mais tarde, no terraço da cobertura...
O sol queimava suave, dourando tudo ao redor. A piscina de borda infinita parecia se estender até o horizonte. Katniss caminhava até a espreguiçadeira usando um biquíni preto, elegante e provocante. Os óculos escuros escondiam os olhos, mas o sorriso era indecifrável.
Peeta já estava na água, apoiado na borda com um copo de gin tônica na mão.
— Está me dando o troco e vai me deixar aqui sozinho? — provocou.
— Nunca — respondeu ela, entrando com calma.
A água abraçou sua pele quente. Assim que se aproximou dele, Peeta a puxou pela cintura, colando seus corpos. Os dois se beijaram ali mesmo, com o mundo inteiro brilhando ao redor e desaparecendo dentro d’água.
As mãos se perderam, os beijos ficaram urgentes. Katniss sentiu a fome dele se misturar à sua.
— Quero você. Agora. — Foi ele quem disse, com voz baixa.
Ela não respondeu de imediato — apenas mordeu o lábio inferior dele e sussurrou:
— Então você me tem.
O sexo foi lento, envolvente, delicioso.
Na água e depois no quarto, com o sol atravessando os vidros. Cada toque era mais profundo. Peeta não economizava palavras ou suspiros. Katniss, por outro lado, se deixava levar, tentando esquecer o que ainda morava dentro dela — a ferida antiga. A vingança.
Quando os corpos cansaram, vieram os risos.
Os dois, nus, deitados de barriga para cima, ofegantes.
— Você é um problema, Everdeen… — disse Peeta, puxando-a pra mais perto.
— E você é a solução errada, Mellark.
Eles riram.
No almoço, pediram comida italiana — massas com trufas e camarões frescos, saladas verdes e um vinho branco gelado. Sentaram-se ainda com os trajes de banho, os corpos preguiçosos e satisfeitos.
— Você cozinha mesmo ou é só fachada? — zombou ela, ao ver os talheres prateados.
— Sei me virar, mas nada elaborado. Ripper sempre deixa meu jantar pronto ou peço delivery quando chego. — Ele piscou. — Mas posso queimar alguma coisa por você, se quiser.
Katniss sorriu e estendeu a taça.
— Queimemos juntos, então.
As taças tilintaram. A tarde escorria como o vinho — suave, quente, perigosa.
✦✦✦
Peeta estava com o terno sobre a cadeira, a camisa social dobrada nos antebraços, enquanto falava sobre um novo projeto com Johanna, sentada de perna cruzada à sua frente, mexendo preguiçosamente no tablet.
— Se a gente unificar os servidores da filial da costa oeste com os de Boston, a economia nos próximos trimestres pode ser bem mais agressiva — concluiu ele.
Joanna ergueu os olhos, semicerrando com desconfiança e... curiosidade.
— Ahn... tá. Agora fala a verdade.
— Que?
— Não me enrola com gráfico e projeção. Cadê o Peeta que me manda memes com duplo sentido no domingo? Que reclama de estar de ressaca ou de tédio? — Ela inclinou-se na cadeira com um sorrisinho malicioso. — Você sumiu no final de semana após o lançamento do Synapse, Mellark.
Peeta passou a mão no cabelo e sorriu de canto, sem jeito.
— Bem... foi especial.
— Opa. — Johanna arregalou os olhos. — Me conta tudo agora mesmo. Você e a garota em chamas finalmente...?
Peeta assentiu, o sorriso crescendo devagar.
— Não foi só físico. Foi tudo. Conversa, carinho, riso. Ficamos o fim de semana inteiro em casa. Piscina, vinho, comida, sofá… cama. Sem pressa. Só a gente. Acho que nunca estive tão... inteiro com alguém.
Joanna, que não era do tipo que se emocionava fácil, sorriu suave.
— Olha... tá apaixonada, hein.
— Você que falou que eu tava ferrado por causa dela. E tava certa. — Peeta riu.
— Eu sempre tô. — Ela piscou. — E posso ser seu padrinho de casamento, só pra avisar.
Dois dias depois, Peeta pediu para falar com Burdock pessoalmente. O pai de Katniss o recebeu com a seriedade habitual, sentado atrás da mesa de carvalho, a gravata afrouxada e os olhos fixos no jovem à sua frente.
— Está tudo certo com os relatórios de T.I.? — perguntou Burdock.
— Estão sim... Mas não vim por causa do Synapse, senhor. — Peeta ajeitou-se na cadeira, a voz um pouco mais firme do que o coração. — Vim por respeito. Pra conversar como homem. Sobre sua filha.
Burdock ergueu uma sobrancelha.
— Katniss?
— Estamos juntos. E... estou completamente envolvido com ela. Eu a amo. Vim aqui dizer que pretendo cuidar dela com tudo o que tenho. Que ela é uma mulher incrível. E que, por respeito ao senhor e à família, achei certo ser direto.
Burdock suspirou. Apoiou os cotovelos sobre a mesa e cruzou os dedos.
— Peeta, eu confesso que ainda estranho vê-los tão próximos. Talvez por eu sempre ter sido protetor demais. Mas não é uma intuição ruim. É coisa de pai. Katniss é a pessoa mais importante da minha vida. E se ela escolheu você... — Fez uma pausa antes de continuar. — Então confio. Porque confio nela. Só espero que esteja preparado pra realmente estar ao lado dela. — Burdock encarou Peeta com seriedade, mas o tom era sincero, quase acolhedor. — Katniss é muito mais que um sorriso bonito ou uma profissional talentosa. Ela é fogo e mar e se você não souber nadar nem se proteger das queimaduras, é melhor sair da frente.
Peeta riu, aliviado.
— Não pretendo sair de jeito nenhum.
Burdock estendeu a mão, apertou firme.
— Então, bem-vindo ao olho do furacão, rapaz.
✦✦✦
Mais tarde Katniss estava sentada no sofá, pernas cruzadas sob si, comendo sorvete TALENTI, direto do pote. Usava uma camiseta larga dele e nada além disso. Peeta surgiu na porta da cozinha com dois copos d’água e se sentou ao lado dela, sorrindo de canto.
— Preciso te contar uma coisa — disse ele, passando um dos copos a ela.
— Ai meu Deus... — Katniss levantou uma sobrancelha. — Você tá com essa cara de quem jogou a bomba e tá esperando o impacto.
— Eu falei com seu pai.
— O quê?! — Ela se engasgou com o sorvete. — Falou com quem?!
— Com o seu pai.
— Peeta! — Ela largou o pote e deu um tapa no braço dele. — Você tá brincando, né?
— Claro que não. Foi sério.
— Mas você é doido?! Tá querendo morrer?
— Achei que era a coisa certa. — Peeta deu de ombros. — Falei que a gente tá junto. Que tô comprometido com você. Que quero cuidar de você.
Katniss arregalou os olhos, ainda chocada. E depois, como se a ficha tivesse caído... ela começou a rir.
— Meu Deus... Você contou pra ele... sobre a gente? Tipo, “oi, seu Burdock, bom dia, estou dormindo com sua filha”? — ironizou ela, com um riso nervoso.
— Não! Pelo amor, não sou suicida — Peeta também riu. — Só falei que estamos juntos. E que eu a amo.
Ela parou.
— Você disse isso?
— Disse. E repito.
— Tá jogando pesado, Mellark — respondeu ela, mais séria, mas com um sorriso contido. — Meu pai vai querer me trancar num bunker agora.
— Ou te jogar nos meus braços de vez. — Ele piscou.
— Nesse caso... não sei se quem tá correndo mais perigo é você ou eu.
— Acho que estamos juntos nessa.
Eles se entreolharam, e por um instante, o tempo parou. Peeta avançou, a tomando nos braços, e amou Katniss com total devoção.
Parque isolado em Cold Spring, NY...
Os dias passavam num piscar de olhos e em uma tarde Katniss caminhava pela trilha de pedras. Havia abandonado os saltos e trocado por um par de tênis. O sol filtrava-se entre as árvores tocando seu rosto. O lugar era isolado, silencioso, com o som de água corrente vindo de algum riacho próximo. Seu pai estivera ali. Ele gostava de se abrigar na cabana e pescar no lago Canopus.
Um pequeno quiosque de madeira se erguia adiante, onde Gale já a esperava, sentado, discreto, com óculos escuros e roupa neutra. Um bom disfarce, para um bom detetive.
— Achei que não viria — disse ele, tirando os óculos.
— Eu disse que viria — respondeu ela, sentando-se diante dele. — Confiar em você é fácil. É no que vai me contar que tenho medo.
Gale respirou fundo, tirou uma pasta fina da mochila.
— Fui mais fundo. No passado do Peeta.
Katniss engoliu em seco.
— Sei que já sabia da traição da ex do colégio... — Gale começou. — Da noiva, da mãe, mas tem mais.
Katniss franziu a testa.
— O quê?
— Alma Mellark não só traiu o marido... ela destruiu o homem. Otho Mellark tinha uma empresa de investimentos em sociedade com Coriolanus Snow. Otho era muito respeitado, a Horizon Global era uma empresa de prestígio... tudo passava por ele. Mas um dia, chegou no Snow e quis desfazer a sociedade. Disse que estava cansado do mundo corporativo e que queria voltar para a Itália e cuidar da vinícola da família. A que atualmente Haymitch, irmão de Otho, cuida. — Gale respirou antes de continuar. — Alma não gostou nada em ter que deixar a vida pomposa nos Estados Unidos e confrontou o próprio marido dizendo que Peeta não era filho dele.
Katniss arregalou os olhos.
— Como assim?
— Não que Peeta fosse o filho predileto, não por isso, mas era o caçula dos homens e Alma disse que ele era filho de um caso antigo dela com ninguém menos que Coriolanus Snow.
Katniss quase perdeu o ar.
— Snow, o sócio milionário?
— O próprio. Só que tudo não passou de uma mentira pra quebrar o cara. Alma queria o controle de tudo. Otho não aguentou o baque pois, achou que Snow fosse seu amigo. Naquela mesma semana teve um AVC.
Katniss levou a mão à boca.
— Meu Deus...
— Mas não morreu, como ela contou pra todos. Ela o escondeu. Disse ao Peeta e aos irmãos que o pai havia morrido, mas a verdade é que, ele foi internado em uma clínica esquecida por Deus. Bem afastada. Debilitado, sim, com a mente falhando, mas vivo.
— Então, Peeta acha que perdeu o pai, o qual Alma mentiu sobre tudo... quando ele está vivo?
Gale assentiu.
— Alma usou o AVC dele como desculpa. Em poucos meses, casou-se com o próprio Snow. Legalmente. E como Snow nunca pôde ter filhos, ela o convenceu de que Peeta era seu herdeiro. Ele acreditou. E deixou toda a herança dele para ela... e para Peeta.
Katniss estava pálida.
— Mas isso... isso é uma teia de mentiras sem fim.
— Ela sempre foi manipuladora e a paixão de Snow por ela o cegou. Alma usa parte desse dinheiro até hoje pra manter Otho vivo, internado, longe de tudo. Sem saber quem ele é, que Peeta é realmente seu filho... só vegetando. E Peeta... foi privado de tudo isso. Alma fez com que acreditasse que seu verdadeiro pai era Snow. Após a morte de Snow Alma herdou tudo.
Katniss fechou os olhos com força.
— Onde ele está? Quero o endereço da clínica. Você tem?
— Tenho. Mas antes... preciso perguntar uma coisa... — Gale inclinou-se à frente. — Você vai seguir com isso?
Ela o olhou.
— Com o quê?
— Com o seu plano. Porque, Katniss... isso vai quebrar ele. O Peeta pode ter feito merda no passado, pode ter te magoado. Mas hoje? Hoje ele é um homem machucado tentando amar alguém com tudo o que ainda tem. E, vi como você fica quando está com ele. Pode não achar isso, mas qualquer um que os vê juntos nota o amor que sentem um pelo outro.
O silêncio caiu como uma bomba.
Katniss engoliu em seco enquanto encarava a mesa de madeira com intensidade. O vento mexia os cabelos em seu rosto, mas ela não os afastava.
— Ele me humilhou, Gale. Fez piada com a minha dor. Inventou mentiras. Me destruiu por dentro... e eu passei anos me reconstruindo. Agora... agora eu quero que ele sinta.
— E se ele já estiver sentindo?
Ela desviou o olhar, com a voz baixa...
— Então vai doer mais ainda.
Gale apenas observou.
— Katniss, esse jogo que você entrou... tem um preço. E ele tá se tornando uma vítima de novo. Mesmo que inconscientemente.
Ela respirou fundo.
— Eu sei disso, Gale. Mas... ainda quero saber até onde posso ir. Ainda quero que ele sinta. Que ele entenda. Que se lembre.
— E quando você for a única ferida?
Ela não respondeu. O som da água ao longe parecia mais alto. Ela apertou os punhos sob a mesa e olhou para o céu.
— Se isso acontecer... — murmurou ela. — Pelo menos vou saber que vivi algo real. — Ela o olhou nos olhos. — Me manda o endereço da clínica.
Clínica San Raffaello — Costa Norte do Estado de NY
Apesar da fachada simples e sem vida, a clínica parecia realmente um lugar esquecido por Deus. Paredes brancas descascadas, janelas estreitas e um silêncio pesado que dominava o entorno. Não havia nada de luxuoso ou tecnológico — apenas o essencial. Ainda assim, por dentro, o ambiente era limpo, organizado, como se a única preocupação fosse manter os pacientes respirando em paz, longe dos olhos do mundo.
Katniss ajustou os óculos escuros no rosto e saiu do carro discreto ao lado de Gale. Estava com um blazer creme por cima de um vestido bege, sapatilhas confortáveis e um crachá pendurado no pescoço com um nome falso e o selo “Instituto de Terapias Cognitivas Privadas – Jennifer Gray, Psicoterapeuta Visitante”. Tudo obra de Gale, que tinha seus contatos e habilidades forjadas nos becos mais escuros de Manhattan.
— Tem certeza disso? — perguntou ele, enquanto caminhavam até a entrada.
— Quero olhar nos olhos dele. Preciso descobrir por mim mesma. — A voz dela estava firme, mas o estômago, em reboliço. — Prefiro encontrá-lo sozinha.
Gale lhe lançou um olhar cúmplice antes de se afastar.
A recepcionista recebeu Katniss com cortesia.
— Dra. Gray, já aguardávamos sua avaliação com o paciente... Otho Mellark. — Ela digitou algo no sistema e sorriu. — Está tudo certo. Podemos levá-la até o jardim, ele gosta de ficar ao ar livre nesse horário.
Katniss assentiu.
— Obrigada.
Ela seguiu a enfermeira até uma porta de vidro fosco, que dava acesso ao pátio lateral da clínica. O cheiro era fresco, de terra molhada, flores recém-regadas e brisa suave. Árvores enormes forneciam sombra natural ao longo de caminhos pavimentados de pedras.
Ali, num canto mais reservado do jardim, estava ele.
Otho Mellark.
Cabelos dourado-prateados, desbotados pelo tempo, caíam sobre a testa. Ele vestia uma camisa verde-acinzentada com colarinho, por baixo de uma jaqueta verde-oliva casual e uma calça escura. Ele estava sentado em uma cadeira de rodas. Os olhos azuis — mesmo meio perdidos, como se buscassem lembranças antigas em algum canto da mente — ainda brilhavam sob a luz da tarde que se estendia.
Katniss parou a poucos passos dele. Seus dedos tremiam levemente ao retirar os óculos escuros. Ela respirou fundo. O coração batia dolorosamente no peito.
Ali estava o homem.
E apesar da debilidade, apesar da confusão estampada no rosto... havia algo inegável.
Os traços. O queixo forte. A linha da mandíbula. O olhar, ainda que cansado.
Ele era o pai de Peeta.
Ela levou a mão aos lábios por um momento, abalada.
“Você está aqui por vingança.” — sua mente alertou.
Mas naquele instante... nada fazia sentido.
Otho a olhou.
— Annie? — murmurou, confuso. — É você menina? Finnick não está aqui...
Katniss se aproximou, com um sorriso delicado nos lábios. Sentou-se no banco ao lado e balançou levemente a cabeça.
— Não, senhor Mellark... eu não sou a Annie.
— Ah... — Ele piscou várias vezes. — Perdão. Você parece alguém que eu conheci. E-ela era tão... gentil.
Katniss desviou o olhar, a garganta apertando.
— Sou apenas uma terapeuta — mentiu com suavidade. — Vim conversar um pouco com o senhor.
— Conversar... — repetiu ele, os olhos vagando de novo pelo céu. — Sempre gostei de conversar. Antes...
Katniss engoliu o nó que se formava.
Ali, sentada ao lado daquele homem despedaçado por mentiras e segredos, algo dentro dela começou a trincar.
Ela se inclinou para frente, os olhos fixos nele.
— O senhor lembra do seu filho caçula?
Otho franziu o cenho. As mãos enrugadas apertaram os braços da cadeira.
— Pe-peeta? Claro... como esquecer? Meu garotinho...
Ele deu um pequeno sorriso.
— Ele tinha um riso tão... puro. Sempre tentava cozinhar comigo. Até hoje consigo ouvir a risada dele quando a farinha voava pela cozinha.
Katniss sentiu as lágrimas se acumulando nos olhos.
Otho fechou os olhos por um instante.
— Disseram que ele não era meu filho. M-mas... no fundo, no fundo... nunca acreditei nisso.
Ela fechou os olhos com força.
— Compreendo... é difícil quando alguém tira algo de você.
Ele se calou.
E mesmo que não entendesse tudo... mesmo que sua memória lhe traísse...
Otho guardava em algum cantinho de sua mente debilitada fragmentos de cada momento importante vivido ao lado dos filhos.
O sol já começava a se pôr quando Katniss saiu pelos portões discretos da clínica. Seus olhos estavam vermelhos, mas nenhuma lágrima escorria. A dor estava ali, latente, mas contida. Do tipo que se aprende a engolir com o tempo.
Gale a esperava dentro do carro, motor ligado, óculos escuros e um semblante preocupado.
Quando ela entrou no banco do passageiro, ele a encarou de relance.
— E então? — perguntou com cuidado.
Katniss demorou a responder. Olhava pela janela, as mãos entrelaçadas no colo.
— É ele... — disse por fim, num tom suave, quase sussurrado. — Muito debilitado, mas é ele.
Gale assentiu devagar.
— Ele se lembra do que aconteceu?
— Não exatamente — respondeu ela, com um sorriso triste. — Mas acho que sentiu algo. Me chamou de Annie.
Gale sorriu levemente.
— É o nome da esposa do filho mais velho, a médica. — Katniss apenas balançou a cabeça. O carro seguiu silencioso por alguns minutos. — Você vai contar ao Peeta?
Ela virou-se devagar para ele, seus olhos cinzentos mais frios do que nunca.
— Ainda não.
— Ainda? — Gale arqueou uma sobrancelha, analisando-a.
— Eu só precisava saber... que era verdade. Que tudo o que a mãe dele fez foi real. Que o pai dele não morreu. Que ele foi enganado.
Gale suspirou, mas não insistiu.
Katniss fechou os olhos por um segundo, tentando organizar os pensamentos.
— Isso... isso tudo vai ser importante, Gale. Mas ainda não é hora. Ele precisa sentir.
— Sentir o quê?
— A dor. A confusão. O mesmo que eu senti por anos. — Ela voltou a encará-lo com firmeza. — Quando a hora chegar... eu vou contar. Não agora.
Gale apoiou os cotovelos no volante e resmungou.
— Isso vai despedaçá-lo, Katniss. Não tem volta depois disso.
— Eu sei. — Seus olhos miraram o céu agora, tingido de dourado e laranja. — Mas também não teve volta quando ele me ridicularizou no colégio. Quando me tratou como se eu fosse uma vadia. Isso aqui... — apontou ela para o próprio peito. — É sobre justiça. Sobre não deixar que ele viva impune de quem foi.
Gale ficou em silêncio. Sabia que por trás daquela frieza havia um coração tremendo. Mas também sabia que, quando Katniss decidia algo... ela não voltava atrás.
— E o que a gente faz agora?
Katniss soltou o ar lentamente, antes de responder:
— Agora... agora a gente volta para Manhattan. — Ela apertou os olhos. — E eu continuo sendo a namorada perfeita.
Ela recostou a cabeça no banco. No reflexo do vidro, enxergava a própria silhueta.
Uma garota em chamas.
Mas naquele instante, em meio à fumaça da vingança e do desejo, ela começava a se perguntar...
“Quem vai se queimar primeiro?”
O carro desacelerou diante dos portões de ferro da mansão Everdeen. O céu estava pálido, tingido de um azul escuro que anunciava o fim de mais um dia — um dia que Katniss jamais esqueceria. Gale a encarou em silêncio, sem insistir em mais palavras. Ele sabia. Já havia dito o que precisava ser dito durante o caminho de volta da clínica.
Katniss apenas assentiu em agradecimento a Gale, abriu a porta e desceu.
Sem forças para ir até a cobertura de Peeta. Sem coragem para encarar seus olhos depois de tudo que viu naquela clínica. Depois de conhecer o homem que era seu verdadeiro genitor.
Ela cruzou os jardins silenciosos da mansão e sentiu alívio ao perceber que os pais não se encontravam. O silêncio a envolveu como um cobertor pesado.
Ao entrar no próprio quarto, não acendeu nenhuma luz. Jogou a bolsa sobre a poltrona, tirou a roupa e os sapatos mecanicamente, ignorando completamente a tela do celular que piscava, acesa com chamadas perdidas — todas de Peeta.
Entrou no banheiro e se deixou levar por um banho morno, curto. Não chorou. Não falou. Só ficou ali, sentindo a água descer como se pudesse limpá-la de tudo — da culpa, da dor, do peso que havia carregado nos ombros desde que decidiu se vingar.
Mas o banho terminou. E a realidade voltou a bater.
Pegou o celular, hesitante. E, no momento em que tocou a tela, a self dele acompanhada da melodia Holding Out for a Hero, ecoou pela suíte. O coração dela quase parou.
Desde que Peeta havia salvado a música como toque pessoal. Um gesto bobo. Um símbolo íntimo. Ela nunca mudara. Nunca teve coragem.
O polegar tremeu sobre a opção de recusar a chamada.
“Desliga, Katniss. Você não está pronta.” — gritou uma parte dela.
Mas a outra… não queria perdê-lo.
Suspirou, venceu-se… e atendeu.
— Oi... — disse, a voz rouca, sem ânimo, sem disfarce.
A voz dele veio rápida, doce, carregada de preocupação.
— Amor, por onde andou a tarde toda? Fiquei preocupado quando fui até sua sala e não te encontrei...
Ela fechou os olhos, deitada de lado na cama, encarando o teto escuro.
— E-eu não estava me sentindo muito bem... TPM, sabe...
Não era exatamente mentira. Sentia-se estranha de tantas formas, e seu ciclo menstrual, como sempre, parecia escolher os piores momentos para chegar.
— Ahhh… como posso ajudá-la?
A gentileza dele atravessou como uma faca quente.
— Vou tomar um chá e dormir. Amanhã estarei melhor, vai ver.
— Se quiser tirar o dia de folga, fique à vontade.
— Amanhã a gente se vê e prometo que estarei bem...
Ela queria encerrar logo. Queria silêncio. Mas ele, do outro lado, não queria soltar sua mão.
— Está bem, então, minha vida. Melhoras e tenha uma excelente noite. Não se esqueça que eu te amo.
As palavras bateram nela como uma onda gelada.
Ele a amava. Com todas as forças. E ela... queria vê-lo sofrer. Mas como fazer isso sem destruir-se também no processo?
Uma lágrima desceu, silenciosa.
— A-amo você... — murmurou, vencida. E desligou antes que a dor aumentasse.
Ficou ali, imóvel, o celular no peito, ouvindo apenas o som da própria respiração.
Amanhã ela se recomporia.
Amanhã voltaria a ser forte.

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