Doce Vingança
19 Capítulo 19
Notas iniciais
A sala de audiência carregava uma tensão que dava pra sentir na pele. O juiz chegou com pontualidade britânica, óculos levemente tortos, olhar cansado, mas firme. O silêncio se instaurou.
Sentei-me ao lado de Dr. Cunningan. Atrás de nós, Aiden, Leah e minha mãe. Matt Clifford ocupava a outra lateral com seu advogado, vestindo aquele terno escuro que parecia gritar “autoridade”. Mas seu olhar não era o de um pai preocupado. Era o de um homem humilhado — e vingativo.
O juiz abriu a sessão:
— Estamos reunidos para analisar o pedido de guarda unilateral feito pelo Sr. Matthew Clifford, bem como a alegação de subtração de menor contra a Sra. Sally Hayes. Vamos manter a ordem. Início da palavra à parte requerente.
O advogado de Matt levantou-se, seguro.
— Meritíssimo, nosso argumento é direto: a requerida, Sra. Hayes, envolveu-se emocional e fisicamente com um adolescente, filho do seu então empregador. Depois do ocorrido, levou o rapaz consigo, sem consentimento do pai, o que configura, em nossa visão, a subtração de menor e comportamento inadequado.
Dr. Cunningan rebateu em seguida:
— Meritíssimo, a acusação é distorcida. A realidade é que o Sr. Clifford, após flagrar seu filho com a minha cliente, expulsou o próprio filho de casa. Temos aqui um caso de abandono e tentativa de mascarar abuso emocional por meio de uma manobra judicial.
O juiz ergueu os olhos, curioso:
— Tem testemunhas?
— Sim. Chamamos a Sra. Angeline Clifford, mãe do menor.
Vestida com simplicidade, mas digna, Angeline entrou, fitando Matt com um misto de desprezo e pena. Quando cruzou os olhos com Aiden, sorriu emocionada. Ele quase desabou. Ela prestou juramento e iniciou.
— Fui casada com Matt por dezenove anos. Me separei por motivos que não me orgulho, mas que não podia mais ignorar: controle excessivo, manipulação emocional e tentativas de me afastar do meu próprio filho.
— A senhora tem conhecimento de como ele tratava Aiden?
— Sim. Matt exigia perfeição. Nunca aceitava diálogo. Era punição ou desprezo. Aiden vivia calado, ansioso. Eu... me culpo por ter sumido por tanto tempo.
Ela baixou os olhos, emocionada.
— Obrigado, Sra. Clifford — disse Cunningan. — Chamamos agora Aiden Clifford.
Aiden soltou um longo suspiro antes de se levantar, incentivado por minha mãe e Leah.
O tribunal se calou. Aiden estava mais firme do que eu imaginava. Seus olhos varreram a sala até parar no juiz.
— Seu nome completo?
— Aiden Michael Clifford.
— Idade?
— Dezessete anos e nove meses.
— Pode nos contar o que aconteceu na noite em que saiu da casa do seu pai?
Aiden respirou fundo.
— Eu não saí por vontade. Fui expulso. Meu pai me flagrou... com a Sally. No meu quarto. Na cama. E sem nem deixar que eu explicasse, gritou e disse pra eu nunca mais pisar naquela casa porque não suportaria olhar para mim sabendo que deitei com a mulher que ele gosta.
O tribunal ficou em silêncio absoluto. O juiz o encarou por longos segundos.
— Então você confirma que não houve fuga?
— Nenhuma. Eu não sabia pra onde ir. A Sally tentou conversar com ele, mas ele a ameaçou, gritou. Minha mãe ainda estava em reabilitação, e eu não tinha mais ninguém. Ela me acolheu porque eu não tinha onde dormir. Não houve sequestro. Houve rejeição.
Matt se remexia na cadeira, o olhar sombrio.
— Ele está mentindo! — gritou, levantando-se — Isso é uma armação!
— Silêncio, Sr. Clifford! — o juiz esbravejou, batendo o martelo. — Mais uma e será retirado da sala.
Matt recuou, bufando.
— Continue, Aiden.
— Eu não vou fingir que o que houve entre mim e a Sally foi simples. Não foi. Mas também não foi uma armadilha. Eu sou quase maior de idade. Eu sabia o que sentia, mas não fazia ideia que meu pai estava apaixonado por ela também e que a Sally queria se vingar dele. O que meu pai está tentando fazer... é apagar a humilhação que sentiu ao perder o controle da situação. Ele quer destruir a vida da Sally por ter sido rejeitado e depois atingido por ela.
Ele respirou fundo e virou-se, olhando para Matt.
-Claro que, nos primeiros dias na casa da Sally, eu me sentia horrível, usado... Mas, depois entendi que o verdadeiro culpado disso tudo é meu pai. Se ele não tivesse demitido a Sally por causa do fora que ela lhe deu, ela jamais teria sentido a vontade de se vingar — completou, deixando Matt boquiaberto.
O juiz anotou por um longo tempo. Todos na sala pareciam estar segurando a respiração.
— Muito bem. — ele disse, finalmente. — Diante dos relatos apresentados, não há base legal para configurar subtração de menor. Pelo contrário: o menor foi expulso da residência, e acolhido por alguém que, até então, não apresentava risco comprovado.
Dr. Cunningan aproveitou:
— Solicitamos que a acusação de sequestro seja retirada do processo e que o Sr. Clifford seja advertido quanto a seu comportamento abusivo.
O juiz continuou, olhando para mim, mas o advogado de Matt se levantou rapidamente.
— Meritíssimo, senhores do júri... O que temos aqui é um caso claro de violação ética, abuso de confiança e uma relação imprópria com um adolescente. A ré era funcionária da casa. Tinha acesso, confiança, poder. E escolheu usá-los para seduzir um jovem emocionalmente fragilizado, filho do homem que a demitiu.
Matt baixa a cabeça, fingindo pesar.
— Ainda que o garoto estivesse a poucos meses da maioridade, a posição da ré como babá — uma figura de cuidado — torna essa situação não apenas imoral, mas condenável pela lei.
O Dr. Cunningan, se levanta com calma. Confiante, com a voz firme.
— Meritíssimo... minha cliente não é um monstro. Ela não manipulou ninguém. O que houve aqui, antes de mais nada, foi uma tragédia familiar com mágoas profundas de ambos os lados.
Fechei meus olhos, com força.
— Temos testemunhas, provas de que o Sr. Matt Clifford expulsou seu próprio filho de casa após flagrar os dois juntos. E temos, principalmente, o depoimento do jovem Aiden Clifford. Que não fugiu. Que não foi coagido. Que escolheu estar aqui hoje.
— Vamos dar continuidade à audiência.
Acidente respira fundo, cabeça erguida, rosto firme, mas há nervosismo no ar.
— Sr. Clifford, o senhor confirma que manteve uma relação afetiva com a ré, Sra. Sally Hayes? — perguntou o juiz.
— Afetiva e consensual, sim — respondeu Aiden, calmamente.
— Por acaso você tem provas concretas de que fora consensual? — perguntou o promotor.
— Sim, tenho mensagens trocadas com ela durante uns dias que ainda estão salvas no meu celular.
Ele pegou o aparelho do bolso do paletó, as mãos tremiam, mas ele conseguiu colocar nas conversas que tivemos.
-Essas mensagens foram trocadas entre nós, dias antes de nos envolvermos. Em nenhum momento, ela me obrigou a nada. Nem pessoalmente. Meu pai que inventou isso para nos prejudicar.
O tribunal murmura. Matt tenta conter a reação.
— Mas ela era babá. Uma figura de responsabilidade. Não vê nenhum problema ético nisso? — perguntou novamente o promotor.
Aiden me encarou, decidido.
— Vejo dois adultos quebrados tentando encontrar sentido num mundo onde todo mundo grita, mas ninguém escuta — Ela não me manipulou. Ela me salvou.
Silêncio. O juiz faz sinal para encerrar.
— Obrigado, Aiden Clifford — Próxima testemunha: Sr. Matthew Clifford.
Ele ajeita o paletó. Tenta parecer sensato, ferido. O promotor olhou para ele.
— Sr. Clifford, o senhor flagrou sua ex-funcionária com seu filho. Como se sentiu?
— Destruído. É como ver um predador sorrindo enquanto devora aquilo que você mais ama. Ela era uma babá. Ganhava para cuidar, não para corromper.
Irritado, Dr. Cunningan se levantou.
— O senhor confirma que expulsou o próprio filho?
Matt bufou com a pergunta.
— Eu... reagi no impulso. Mas o afastei por segurança. Ela o enfeitiçou.
— Alguma prova disso? Cartas? Mensagens? Ameaças? — perguntou Dr. Cunningan.
Matt hesitou por um segundo, mas manteve a postura.
— Não. Mas ninguém em sã consciência... se envolve com um menino de dezessete anos!
— Então o senhor baseia sua acusação apenas em julgamento moral?
— Baseio no fato de que ela dormiu com meu filho!
— Ordem na sala! — gritou o juiz, bateu o martelo.
Logo, o juiz me chamou para falar. Caminhei com calma, mas meu olhar estava tenso. Meu coração disparado. O tribunal estava em silêncio.
Dr. Cunningan me lançou um olhar sereno que me tranquilizou um pouco, mas ainda não tinha acabado.
— Sra. Hayes. A senhora admite ter se envolvido com Aiden Clifford?
— Admito, sim.
— Com intenção de se vingar por ele ter te demitido?
— Tudo bem, eu admito isso. No começo era para fazê-lo se sentir como eu me senti quando ele me demitiu por um motivo tão banal, mas não queria que as coisas chegassem tão longe.
— A senhora usou sua posição de confiança para ganhar acesso emocional ao garoto? — acusou o promotor.
Olhei direto para o júri.
— Toda babá precisa ter a confiança de quem ela vai cuidar. Eu ganhei a confiança dele por necessidade, tudo o que veio depois foi por causa da expulsão dele de casa e eu nunca o deixaria morar na rua. Eu amo o Aiden. E jamais vou pedir desculpas por isso. Mas se o amor que demos um ao outro for considerado crime... então que me condenem.
Um silêncio profundo tomou a sala. Nem mesmo o juiz falou por alguns segundos, até quebrar o silêncio.
— O júri irá se retirar para deliberar. A sentença será lida após o recesso.
Todos saímos da sala, esperando a decisão do júri.
— O que quer que aconteça… a gente chegou até aqui — disse Aiden, já do lado de fora. E você foi mais forte do que qualquer um jamais foi por mim.
— Eu só quis proteger você. De tudo que o mundo queria arrancar — falei, emocionada.
— Agora é com eles. Mas vocês já venceram. Porque não esconderam quem são — minha mãe sorriu.
Alguns minutos depois, o júri voltou com um olhar determinado. Meu coração voltou a acelerar.
O envelope foi entregue ao juiz, que o abriu. O mundo parece parar. Matt, de pé, encarava com um olhar de fúria contida. Aiden segura o ar. Fechei novamente os olhos.
— No que tange ao crime de corrupção de menor, o júri declara a ré…
O juiz fez uma pausa
— Inocente.
Um suspiro de alívio coletivo toma a sala, mas o juiz continuou.
— Porém, no que tange à violação do código de conduta profissional e abuso de confiança no exercício de função como babá registrada…
— Culpada.
Confusa, sem entender por um momento, abri os olhos para ouvi-lo explicar melhor.
— Por essa acusação, a pena estabelecida é de oito meses de serviços comunitários e suspensão definitiva de seu registro profissional em instituições de cuidado infantil — condenou o juiz.
Matt explodiu da fileira oposta.
— Isso é uma piada! Ela destruiu a minha família! — gritou.
O juiz bateu o martelo com força, o som ecoou pela sala.
— Ordem na corte!
Matt voltou a se sentar.
-Quanto ao ofensor, Matt Clifford, obstrução de justiça e acusação sem provas é determinação de calúnia, um dos crimes mais sérios cometidos. Por conta disso, o senhor está condenado a pagar uma indenização trabalhista à ré, quinhentos mil dólares por danos morais e assédio moral, sem justa causa.
-Isso não pode estar acontecendo! — disse Matt, completamente atordoado, levando as mãos aos cabelos enquanto seu advogado fechava sua pasta, derrotado.
-CASO ENCERRADO! — o juiz bateu o martelo novamente.
Lágrimas caíam do meu rosto sem que eu pudesse controlá-las. Eram uma mistura de alívio e felicidade. Aiden, minha mãe e Leah me abraçavam, também emocionados por termos vencido.
— Você não vai pra cadeia. A gente venceu, Sally — comemorou Aiden.
— Mas nunca mais poderei trabalhar com crianças. Nunca mais serei quem eu era — consegui falar depois de um tempo, soluçando.
— Talvez não. Mas você pode ser algo novo. E isso... isso também é liberdade — sorriu minha mãe.
E não pude negar, que ela estava certa.
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