Doce Sangue

3 Os seres a nossa volta


Sofia não atendia minhas ligações, talvez a aula já tivesse começado e o celular dela estava no silencioso, mas eu insisti. Os alunos que estavam circulando por ali já estavam estranhando minha reação. Eu estava andando de uma lado para o outro com o celular nas mãos. Depois de alguns minutos ouvi uma voz atendendo minha ligação

– Alô — Eu falei

– O que você quer — Respondeu Sofia, reconheci sua voz, ela foi um pouco agressiva

– Preciso de sua ajuda, estou com muito medo — Minha voz saiu fraca

– Sinto muito, não posso ajuda lo — Ela disse em um tom claro e direto

– Por favor, não conheço mais ninguém aqui, acho que estou morrendo e eu não quero morrer

– Isso é um de seus truques para atrair suas vítimas?

– Vitimas do que? do que está falando? Você acha que eu sou um serial killer?

– Não me venha com essa história, Eu sei o que você é

– E o que eu sou?

– Um vampiro

Quando ouvi Sofia dizer isso , no primeiro instante pensei que ela estivesse de zoação, mas Sofia não riu em nenhum momento, ela continuava falando comigo pelo celular com a voz séria.

– Eu, um vampiro? Por favor Sofia eu estou falando sério, tem algo de errado comigo, acho que peguei alguma doença, preciso de ajuda — Falei outra vez, tentando convencer a garota a me ajudar

Antes que eu pudesse falar mais alguma coisa Sofia desligou o celular na minha cara, eu me sentei ali em uma cadeira e fiquei pensando em como faria para ir para minha aula sem tomar sol. Não podia mais contar com a ajuda de Sofia, a garota estava com medo de mim, não a culpo eu mesmo estava com medo, não me reconhecia mais, algo realmente estava errado comigo e claro que isso assustaria qualquer pessoa.

Depois de um tempo que eu estava ali de cabeça baixa sentado no banco na recepção do apartamento, vi uma garota se aproximar. Era Sofia, ela se aproximou de mim mas manteve uma pequena distância de onde eu estava.

– Você não sabe mesmo o que você é? — Perguntou a garota surpresa

– Sério, você vai vir com essa história de vampiro outra vez? Porque eu não estou com tempo para isso — Falei um pouco baixo dessa vez

– Vamos até seu quarto — Disse Sofia, eu não estava entendendo nada, mas ela era a única pessoa que poderia me ajudar, então mostrei o caminho e ela me seguiu.

Quando chegamos a meu quarto, Sofia pediu para que eu fechasse a porta para que ninguém entrasse ali de repente, assim eu fiz, depois Sofia se sentou na beira da minha cama e pediu para que eu sentasse a seu lado. Me sentei devagar, ela pegou meu braço e segurou firme deixando meu pulso virado para cima.

– Olha — Sofia disse isso e rapidamente puxou um estilete do bolso e cortou meu braço, o ferimento parecia muito profundo, senti a dor quando ela cortou meu braço, o sangue começou a escorrer.

Pulei para longe da garota e arregalei meus olhos, como ela foi capaz de fazer isso? E ainda estava com medo de mim? Acho que eu é quem deveria ter medo dela. Eu já ia começar a falar e xingar, quando notei que em meu braço não havia mais ferimento nenhum, apenas o sangue ainda estava por todo meu braço, mas o ferimento havia sumido. Fui até o banheiro, lavei meu braço e realmente não havia nada, nenhuma cicatriz, nada.

– Como isso é possível? — Pensei alto

– Vampiros tem a cura acelerada, você se machuca e em menos de um minuto seu ferimento se fecha sem nem deixar cicatriz alguma. Falou Sofia surgindo atrás de mim no banheiro

– Que droga — Me assustei quando ela falou

– Desculpa

– Então quer dizer que eu sou mesmo?

– Um Vampiro? sim — Ela disse me interrompendo — Percebi isso quando toquei em você na aula ontem, pensei que você estava querendo se aproximar de mim para me matar, mas nunca imaginei que você mesmo não soubesse o que você é

– Eu ainda não acredito, mas depois disso eu não tenho mais como explicar, eu vi você cortando meu braço, senti isso, e agora não tenho mais nada, nenhum ferimento, nada

– Desculpa ter cortado você, foi o único jeito de provar que o que eu estava dizendo era verdade, sei que deve ser difícil acreditar nisso, mas você é um vampiro, estranho que ainda não saiba disso, você foi mordido recentemente?

– Antes de chegar na cidade, eu parei em uma lanchonete de beira de estrada. Um garoto mordeu minha mãe quando eu estava lá. Pensei que eu tinha pegado alguma doença, nunca imaginaria que eu me tornaria um vampiro, isso é surreal, coisa de filmes

– Não Charlie, isso é bem real. Mas o estranho é que você já está no estágio de transformação, isso só acontece quando a pessoa que é mordida por um vampiro bebe o sangue humano. Se a pessoa que é mordida por um vampiro não beber sangue humano, ela ainda não se torna completamente um vampiro.

– Droga — Falei me lembrando do dia passado, o sangue no dedo de Nick

– O que foi ? — Sofia perguntou ao ver minha reação

– Ontem meu colega de quarto se cortou, eu fui ajuda lo com um esparadrapo, mas quando vi o sangue em seu dedo eu não consegui me controlar e acabei lambendo o dedo dele com sangue e tudo

– Isso é normal Charlie, quando você é mordido por um vampiro é difícil controlar a sede por sangue, quase ninguém consegue. Agora você já é um vampiro, por isso queimou quando saiu no sol, você teve sorte de voltar correndo para dentro do prédio, ou você teria se queimado até virar pó. Já vi acontecer isso com outros vampiros, é horrível, eles começam a pegar fogo como se tivessem com o corpo cheio de álcool, depois ficam queimando até não sobrar nada.

– Então minha vida acabou? Não posso mais sair a não ser a noite? terei que beber sangue para sobreviver? Sofia o que eu faço agora? Eu tinha uma vida, tinha planos

– Calma Charlie, eu vou te ajudar, mas a primeira coisa que você deve saber. Nunca, jamais diga a alguém que você é um vampiro, nunca deixe que vejam algo que revele o que você é, e se esforce o máximo para não machucar pessoas. Você vivia no mundo dos humanos Charlie, esse mundo sempre existiu em segredo, agora você faz parte desse mundo. Mas há por ai pessoas dispostas a caçar vampiros, pessoas que sabem da existência deles, então cuidado, seja muito sigiloso, nunca mais lamba o dedo de ninguém por ai

Eu soltei uma risada, mas o momento não era engraçado. Eu estava perdido, como eu faria para sobreviver a isso? Pensei que minha vida seria simples, ter um bom trabalho, ter um rapaz com quem eu pudesse morar junto e talvez formar uma família, filhos. Mas tudo isso agora parecia apenas sonhos que foram destruídos, se eu realmente me tornei um vampiro eu não poderia mais ter alguém comigo, muito menos filhos, como eu cuidaria dessas crianças ao mesmo tempo tentar controlar minha sede por sangue. Dessa vez era o fim, estava arrasado, voltei a minha cama e me sentei, Sofia se sentou do meu lado.

– Volte para a aula Sofia, eu não posso sair daqui mesmo — Falei com a cabeça baixa

– Claro que pode — ela disse erguendo meu rosto

– Como?

– Você tem algo que seja de prata?

– Tenho um colar

– Então use ele, a prata vai te proteger do sol. A prata significa muitas coisas, inclusive ela mata lobisomens. E quando um vampiro usa algo de prata, ele pode sair no sol tranquilamente sem se queimar, mas sempre com muito cuidado para não tirar seu colar enquanto estiver no sol.

Então peguei meu colar e caminhei até a janela, eu estava com medo de abrir a cortina, fiquei por um tempo em pé em frente a janela sem coragem de deixar o sol entrar. Eu já estava com o colar no pescoço, era um colar que eu havia ganhado de minha mãe, era de prata e tinha um pingente no formato de uma Ancora. Antes que eu pudesse abrir a cortina com minhas mãos, ela se abriu sozinha, como se tivesse sido puxada eu escondi meu rosto e dei um pequeno grito no susto. Depois fiquei mais tranquilo quando notei que o sol não me feria mais. Me senti aliviado, mas intrigado pela cortina ter aberto bruscamente sozinha daquela maneira

– Você viu o que aconteceu com a cortina? — Falei olhando assustado para Sofia que estava rindo a toa

– Você quis dizer assim? — Sofia fez um gesto com as mãos e a cortina voltou a se fechar sozinha

– Não vai me dizer...

– Sim, sou uma bruxa — Respondeu a garota antes mesmo que eu falasse

– Você poderia ter me queimado se não funcionasse — Reclamei

– Acha mesmo que eu faria isso se não tivesse certeza que funcionaria?

Eu dei um sorriso depois fui me sentar ao lado da garota. Decidimos não ir a aula já que tínhamos perdido uma boa parte da manhã ali conversando. Ficamos falando sobre coisas sobrenaturais. Sofia me contou que vinha de uma família de bruxos de muitos anos atrás. Era isso que ela estudava o outro dia na lanchonete, feitiços e magias. Sofia me contou mais sobre os vampiros, ela disse que eles já existem a muito tempo, muitas vezes devo ter conhecido alguém que era um vampiro mas nunca saberia pois temos que esconder isso do mundo. As pessoas não estão preparadas para lidar com o que é diferente, sei disso porque sempre lutei contra preconceitos na vida por eu ser gay, as pessoas não aceitam o que é diferente, então tínhamos que esconder isso do mundo. Hoje eu posso dizer ao mundo que sou gay, mas jamais dizer que sou um vampiro.

Depois de uma longa conversa, ouvi alguém abrindo a porta. Nick entrou e ficou surpreso ao me ver ali com Sofia, nós estávamos deitados na cama conversando, ela de uma lado e eu de outro.

– Sexo não é permitido, sabia disso não é? — Falou Nick depois de jogar suas coisas em cima da cama.

– As vezes nós quebramos essa regra, sabe disso não é — Disse Sofia irônica rindo de canto

Ela se levantou e foi até o garoto e deu um abraço no rapaz, ele retribuiu

– Que bom te ver — Nick falou enquanto abraçava a moça

– Bom te ver também Nick — ela respondeu

– Vocês são amigos? — Perguntei interrompendo a conversa dos dois

– Hoje sim — Respondeu Sofia — Bom Charlie agora preciso voltar ao meu dormitório, vou ver a matéria que foi passada hoje com uma amiga, depois a gente conversa

– Tudo bem, me passa a matéria depois

Sofia saiu do quarto. Nick parecia outra vez de mau humor, nem ao menos puxei conversa. ele começou a tirar a calça que estava usando, eu estava ficando excitado, tentei não olhar mas não conseguia evitar de espiar um pouco. Depois ele se enrolou em uma toalha e foi até o banheiro. Ouvi quando o chuveiro se abriu. Peguei um de meus livros e tentei ler, mas minha imaginação estava no rapaz que estava logo ali no nosso banheiro. Depois que o chuveiro desligou, me virei do outro lado, pensei que ele sairia pelado e queria fingir que não estava disposta a vê lo daquela forma. Mas na verdade estava morrendo de vontade de olhar.

– Então, primeiro dia e já está saindo com alguém? rápido você em — Falou Nick, ouvi sua voz, eu estava de costas na minha cama olhando para a parede.

– É só uma amiga — respondi

– Não precisa ser discreto cara, sei que não somos amigos mas pode falar

– É sério, ela é só uma amiga, eu sou gay

Um silêncio tomou conta do local quando eu falei isso. Só ouvia o barulho de Nick se arrumando. Depois de um tempo me virei, Nick já estava sentado na cama, vestido e com o cabelo molhado

– Sério que você é gay? — Nick perguntou outra vez, agora olhando nos meus olhos

– Sim, tem algum problema com isso?

– Não cara, relaxa, só perguntei

– Desculpa se pareci grosso, não foi minha intenção é só que eu queria saber se você teria problema em dividir o quarto com um gay

– Confesso que não queria você como colega de quarto, mas não por sua opção sexual, nem por nada contra você, apenas por que queria meu amigo aqui entende?

– Tudo bem

Eu estava me sentindo melhor, mas parecia que eu estava ouvindo o coração de Nick, suas veias ficavam cada vez mais atraentes para meus olhos, eu conseguia sentir o cheiro dele mesmo estando um pouco longe. Minha boca começou a se encher de água, eu conseguia ver o sangue correndo pelas veias dele, então virei outra vez de costas e respirei fundo. Meu corpo todo tremia, meus sentidos estavam alvoroçados, ao mesmo tempo que eu queria pular em cima de Nick e o beijar, eu queria morder o rapaz e sentir seu sangue.

– Então, porque você veio pra cidade? — Nick perguntou, mas eu não estava conseguindo me concentrar, senti que estava quase perdendo o controle.

Me levantei depressa e corri para fora do quarto. Nick se assustou com minha reação, mas não veio atrás de mim nem me chamou. Eu sai andando pelo prédio, depois desci até o térreo. Fui caminhar pelo campus, alguns alunos também caminhavam por ali. Eu fui até o prédio onde ficavam as salas de aula, eu precisava me distrair. Foi quando aquele cheiro outra vez consumiu meus sentidos, eu não consegui mais me controlar, entrei na sala onde estava vindo o cheiro, era um laboratório. Estava vazio, tinha muitas coisas ali, cubos, microscópios e outras coisas de laboratório. Bem no fundo tinha uma geladeira, como um freezer. O cheiro vinha de lá, eu corri até lá e abri. haviam ali algumas bolsas de sangue que eram usados para as aulas. Eu peguei uma bolsa nas mãos pensei e devolvi ao freezer. Mas depois voltei a pegar, foi incontrolável meu desejo por sangue. Fiz um furo com um lápis que estava ali em uma mesa e comecei a beber o sangue da bolsa. Enquanto fazia isso algo começou a crescer na minha boca. Percebi que meus dentes caninos começaram a crescer, isso foi dolorido, mas eu não conseguia parar de beber o sangue. Eu estava com a camiseta, as mãos e a boca toda suja de sangue. Fiquei satisfeito por aquela hora, foi então que eu percebi o que eu tinha feito, ouvi quando alguém gritou atrás de mim

– O que é isso? — A voz era de um garoto

Meu corpo gelou, não consegui olhar para trás, fiquei paralisado, meu coração estava acelerado, senti um frio na barriga ao mesmo tempo um prazer enorme.