Doce Sacrifício

3 Capítulo 3 - Projeto Patrono


Notas iniciais
Bem, esse capítulo funciona mais como uma introdução de uma nova ideia e de novos personagens, então peço desculpas caso ele tenha ficado chato, mas não conseguiria desenvolver o restante da história se não passasse por um começo 'parado'. Prometo os próximos capítulos, quando Thomas e Gabriel finalmente se acertarem, serão bem mais emociantes o/ Espero que estejam gostando de ler tanto quanto estou gostando de escrever ^^

Ainda que eu costume acordar quarenta minutos após o despertar do relógio, com minha mãe me chamando, acordei dessa vez quarenta minutos antes, sozinho. O brilho vermelho do visor do relógio me dava um pouco de dor de cabeça e o barulho ensurdecedor do 'tique-taque' de outro no corredor só piorava. Ninguém havia acordado ainda, nem meus pais, nem minha irmã mais velha. Fitei o teto por alguns segundos e tive uma ideia. Ninguém acordaria nos próximos trinta minutos, o que é tempo mais que suficiente para tomar um banho e preparar um belo café da manhã para todos.

Levantei-me da cama com um pulo e vesti minhas pantufas do Pikachu. Peguei uma toalha, meu roupão azul com a estampa do Super-Homem, uma cueca box e fui direto ao chuveiro. Levei cerca de quinze minutos para finalmente conseguir sair da água quente e enfrentar o ar frio matutino. Sequei-me e vesti o roupão com as pantufas. Fui direto a cozinha no primeiro andar fazendo o mínimo de barulho para não acordar ninguém na casa. Com o tempo a meu favor, corri na padaria ao lado de casa e comprei um bolo de cenoura e pães. Nem ao menos me dei ao trabalho de substituir o roupão e as pantufas por uma roupa mais decente. Ainda me restava dez minutos antes de todos acordarem.

Enquanto os ovos fritavam, arrumei o balcão central da cozinha com frios, o bolo, frutas e coberturas doces. Ouvi ao longe o despertador da minha irmã e seu clássico bocejo. Me apressei para colocar a massa de waffle na máquina e, enquanto eram feitos, preparei a salada. O despertador de meus pais tocou logo em seguida.

– Veja se não é meu Super-Homem... ­– Amanda beijou minhas bochechas e me abraçou por trás, permanecendo agarrada por alguns segundos – Bom dia, seu chato...

– Você está com uma aparência horrível... – Respondi sarcasticamente enquanto Amanda sentava-se a mesa.

– E você está cheiroso, mas vejo que não é a única coisa cheirosa aqui, não?

– Fiz Waffles para você... – Larguei a salada e me escorei no balcão sorrindo para ela.

Mamãe desceu as escadas logo em seguida. Apoiou-se contra o batente da porta e sorriu.

– Morreu? – Perguntou sarcasticamente

– O quê? — Perguntei confuso

– Acordar cedo e preparar tudo isso... – Fez uma pausa – Morreu? Caiu o braço?

– Haha! – Não pude segurar a risada irônica – Estou fazendo salada para a Senhora e para o Papai. Têm bolo de cenoura...

– Não ouse tocar no meu bolo! – Advertiu Amanda

– ... e pães. Os ovos estão na bandeja coberta. – Continuei

Mamãe segurou meu rosto pelas bochechas e beijou minha testa. – Estou orgulhosa de você – Ela disse.

Voltei para a salada logo em seguida. Alguns minutos depois, todos estavam ao redor da mesa, comendo. Faltava quase uma hora e meia para a escola, mas não me importava de chegar mais cedo. Subi até meu quarto, tranquei a porta e coloquei o uniforme azul do colégio. Escovei rapidamente os dentes e desci para a cozinha. Mamãe estava lavando a louça enquanto meu Pai e Amanda ainda comiam. Beijei a bochecha de todos, um de cada vez e parei antes de atravessar a porta para a sala.

– Amo todos vocês... – Disse sorrindo – Até mais.

As vozes se misturavam, não pude realmente ouvir o que falavam. Uma mistura de "Amamos vocês" com "Boa aula". Peguei o casaco no suporte da parede e saí da casa. Meu ponto de ônibus não era tão distante, apenas dois minutos. Felizmente meu ônibus já estava no ponto. Cumprimentei o motorista e o cobrador e sentei-me nos últimos acentos. O percurso de vinte minutos fora feito em dezoito e, após cinco minutos separando o ponto de ônibus e a escola, finalmente cheguei. Nathalia já estava sentada no canto do terceiro médio. A saudei e ficamos conversando no resto do tempo.

Geralmente o coordenador aparecia cerca de cinco minutos antes do sinal para nos dar bom dia, contar alguma notícia junto a uma frase famosa e, por fim, desejar boas aulas, mas dessa vez ele apareceu no momento que o sinal tocou. Já estavam todos se levantando e se dirigindo a sala quando ele começou:

– Gostaria da atenção de todos... – Ajeitou seu microfone e a gola da camisa – Antes de mais nada, um bom dia a todos. Vejo que a maioria de vocês estão presentes, então posso fazer o anúncio. – O coordenador olhou para a diretora, no canto do pátio, sorriu e continuou – É com muito orgulho que inauguramos um novo projeto do colégio. – Deu uma pequena pausa enquanto observava os alunos – Junto com a diretora e representantes do MEC, além de outros diretores de outras escolas e alunos, criamos o Projeto Patrono, uma iniciativa que vai começar a vigorar a partir da semana que vem, mas que já deverá ser organizada a partir de hoje!

– Ótimo... – Nathalia resmungou ao meu lado – Mais um projeto tosco para deixar o restante do meu ano uma bosta!

– De cada sala serão escolhidos alguns alunos, os que obtiveram os melhores desempenhos em relação a nota e comportamento. Esses alunos serão chamados de Patronos. A exigência, além dos itens falados no começo, é que o aluno esteja na escola há pelo menos um ano.

– Está ficando interessante... – Nathalia disse, pensativa

– O aluno Patrono tem a "obrigação" de ajudar o seu Apadrinhado, um aluno de qualquer série anterior a sua. Cada Patrono poderá tomar dois Apadrinhados. – Pensativo, o coordenador parou por um instante, encarando a porta de entrada. Continuou logo em seguida – Se você é um aluno do Segundo médio, poderá ser Patrono de um aluno do Primeiro médio, do Novo, do Oitavo, do Sétimo ou do Sexto ano, por exemplo.

Minha mente começara a viajar. Talvez fosse minha oportunidade de passar mais tempo com Thomas.

– O Patrono irá ajudar em questões estudantis, seja com matérias ou até mesmo no quesito de levar algo à direção. Pensem em seus Apadrinhados como se fossem seus primos. Protejam-no e ensine-os quando possuírem dificuldades. – O coordenador pareceu ter encerrado por ali. Olhava para os lados procurando espaços para falar, mas aparentemente não achara nenhum. Passara então o microfone à diretora.

– Um bom dia a todos... – Sua voz saía calma e suave das caixas de som. Ainda que possuísse uma idade mais avançada, sua voz soava como uma pessoa de trinta anos. Poderia gravá-la e ouvir antes de dormir. – A Iniciativa Patrono, ou Projeto Patrono, promete ajudar os novatos e os calouros nessa difícil jornada que a escola pode se tornar. – A diretora sorriu para todos, ainda que não pudera ser vista por muitos. Continuou após um pequeno intervalo – Acreditem ou não, eu já estive no lugar de vocês, mas isso faz um bom tempo. Na minha época a escola era temida. Os professores e até mesmo os diretores aplicavam punições severas para que os estudantes aprendessem, mas isso já se foi há um tempinho. – Novamente parou, mas agora olhou para o relógio. Já passaram-se cinco minutos desde o sinal – Ainda naquela época, eu pude sentir a dificuldade de ser a aluna nova. De entrar num lugar onde todos já se conheciam ou simplesmente pensar que ninguém gostaria de ser meu amigo e que eu passaria o restante do ano sozinha. Sei que esse é o pensamento de muitos de vocês novos e isso me preocupa profundamente. Veja esse projeto como uma oportunidade. Abrace esse projeto e aceite seu Patrono, um amigo que estará sempre disponível para lhe ajudar em situações corriqueiras e, quem sabe, até nos clássicos Bullyings que, sem sombra de dúvidas, varrem os corredores dessa escola.

– Sabe de uma coisa? – Nathalia perguntou no pé de minha orelha – Parece que esse ano será legalzinho com esse projeto novo.

– Atividades serão propostas na tentativa de unir os integrantes dos projetos. Testes serão aplicados e o desempenho desta iniciativa será analisado. No final do ano, um prêmio será dado para o Patrono e o Apadrinhado que melhor se destacar. – A diretora levou o microfone a sua frente enquanto virava as costas para tossir – Não forçaremos ninguém a nada. Se você não se sente confortável com um Patrono, nos avise e não precisará participar. Caso mais de um Patrono se inscreva para você, a decisão de qual escolher é somente sua. Entre hoje e amanhã passaremos em todas as salas e analisaremos quais serão os Patronos de cada ano. Os professores já foram consultados, então já temos uma base. Quando tudo estiver em ordem, uma lista será passada para os Patronos, que irão assinar ao lado do aluno que deseja apadrinhar. – Levou o microfone a altura do estômago e, após um longo período sorrindo para o pátio, voltou a falar – Não quero mais prender vocês. Qualquer dúvida, procure-nos, o coordenador ou eu, e ficaremos felizes em lhes ajudar. Sem mais, uma boa aula a todos.

O coordenador pegou o microfone e, ainda que não possuía esperanças de que alguém lhe ouviria, tentou.

– Uma vez Einstein disse: "A imaginação é mais importante que o conhecimento". Não se esqueçam de regar sempre essa planta que cresce cada vez mais dentro de vocês. Não se desesperem com os estudos. Criem uma maneira nova e criativa de estudar, uma que possa beneficiá-lo e todas as consequências boas irão lhe seguir. Nunca deixem a criança interior de vocês apagarem. Tenham uma boa aula...

***

Minha classe não era das piores. Alguns relaxados aqui e ali, mas eu nunca dei importância. Desde a sétima série fomos agraciados com prêmios anuais quanto a boas notas vindas do meu grupo de estudos. Embora 85% da sala estivesse ali somente por obrigação, Nathalia, Renan, Alex e eu nos interessávamos em aprender. Obviamente não éramos máquinas e tínhamos nossas dificuldades em algumas matérias, mas enquanto eu era bom em ciências exatas, Alex arrasava em humanas. No final, todos ajudávamos todos a entender o necessário para uma boa nota.

A organização da sala era bem específica. Possuíamos quatro pólos distintos entre si. A extrema esquerda e a direita do topo da sala estavam os mais relaxados. A escolha dos professores era mais que obvia: "Deixe-os num lugar onde você possa os ver colando". Entretanto, na canto inferior esquerdo estava o meu grupo, esforçados. Não costumávamos dar trabalho para os professores, mas de vez em quando recebíamos algumas broncas por falar alto demais ou durante a explicação. O canto inferior direito, porém, estavam aqueles um pouco mais 'Nerds'. Digo isso não como uma forma de ofensa, mas é a maneira que eles gostam de ser chamados. A maior parte era constituída por garotos que passavam a vida jogando videogame. Não minto, passava no grupo algumas vezes quando o assunto era interessante.

Os professores costumavam ser gentis com a sala. Carrego a ligeira impressão de que eles vão amansando conforme você vai passando de ano. Talvez por medo de estarmos mais velhos, ou simplesmente por precisarem nos disciplinar enquanto jovens. Tirando uma professora de geografia, todos os outros eram extremamente gentis, interrompendo minutos preciosos de aula para falar conosco. Nunca tive problemas, então realmente não tinha o que reclamar sobre aqueles ótimos profissionais.

Quanto ao meu grupo, sentávamos na esquerda da sala, no fundo. Eu e Nathalia ficávamos na parede, Renan sentava-se na próxima fileira, ao lado de Nathalia, e Alex sentava-se atrás de Renan. Aquele pequeno "quadrado" se reunira aos poucos. Entrei na escola no terceiro ano do fundamental junto de Alex, enquanto Nathalia entrara no quinto ano e Renan no sétimo. Éramos inseparáveis, melhores amigos. Não poderia pedir por pessoas melhores, os amava incondicionalmente.

***

O intervalo finalmente chegara. Como no dia anterior, sentei-me no mesmo lugar e recebi mais uma vez uma piadinha de Nathalia. Ao longe pude ver Thomas conversando com Bruno enquanto sentados nas escadas do 'anfiteatro'. Uma sensação de alívio atravessou meu coração naquele momento. Sabia que Bruno não faria mau nenhum a Thomas, que seria um bom amigo e que faria o máximo para ajudá-lo em suas dificuldades.

– Não vai dizer nada? – Nathalia me perguntou

– Desculpa?

– Pelo amor de Deus,Biel. O que há de errado com você?

– Se você falasse menos, mais devagar e coisas interessantes, talvez eu prestasse mais atenção – Lancei-lhe um sorriso sarcástico

– Eu falei a mesma coisa para ela ontem, Biel.

– Calado, Ale... – Nathalia o advertiu – Enfim, você não acha que...

– Viu? – Dei um gole no refrigerante e coloquei-o sobre a mesa, lançando um sorriso para Nathalia –...ta chato já. – Levantei-me e fui em direção ao banheiro.

Em meio a crianças correndo para lá e para cá, minha atenção fora desviada para um garoto loiro de uns 10 anos que tropeçara e caíra no chão do pátio. Continuaria o trajeto normalmente se não fosse pelo fato de Thomas ter se levantado e corrido para ajudá-lo. Ajoelhou-se ao lado do garoto e confortara-lhe em sua perna. Desviei meu percurso e fui até a multidão de crianças que se formara, talvez da sala dele. Thomas tentava acalmar o garoto que agonizava em seus braços. Pressionando o braço direito do garoto, Thomas pedia para que ele se acalmasse num tom focado e confortante. Eu não fazia ideia do porquê daquilo tudo, mas Thomas estava sendo bem gentil com aquele garoto.

– Thomas – O garoto tentava falar entre os intervalos de dor – ,ta doendo muito...

– Eu sei amigão, eu sei... Consegue se levantar? – Thomas perguntara-lhe, passando a mão pelos cabelos dourados da criança.

O garoto negou com a cabeça, contorcendo-se em dor.

– Eu quero ir embora, Thom...

Thomas o braço do garoto ao redor de seu pescoço e o ergueu. Levantou do chão e foi em direção a secretaria, carregando o garoto nos braços. Acompanhei-o com a cabeça até sumir no corredor, então segui meu trajeto. Estava a quase dois metros do destino quando o coordenador me parou.

– Gabriel? Preciso falar contigo, mas se quiser pode ir ao banheiro antes. – Ele possuía uma prancheta em uma das mãos

– Só um minuto então...

Saí do banheiro tão rápido quanto havia entrado. O coordenador ainda esperava na porta, olhando alguns papeis da prancheta.

– Então...? – Perguntei-lhe

– Pode me acompanhar até a coordenadoria?

– Desculpa, mas eu fiz algo de errado? ­– Embora eu soubesse que não dava trabalho para nenhum funcionário, ou mesmo por minhas notas, aquela pergunta me incomodara.

– Não, pelo contrário... Só preciso conversar com você. ­­­­­­– Considerando que não havia feito nada de errado, concordei em segui-lo.

A coordenadoria não era tão distante dali. Na verdade, ficava no corredor ao lado, adjacente à secretaria. Sentei-me numa cadeira estofada em frente a mesa do coordenador, que sentou-se em sua cadeira. Embora aquilo tudo fosse apenas uma conversa, não podia esconder meu nervosismo e ansiedade. Aquela sala verde-musgo me dava calafrios.

– Gabriel... César, certo? – Arrumava os óculos enquanto se ajeitava na cadeira, afastando-se um pouco das papeladas para enxergar melhor. Apostei comigo mesmo que ele possuía Hipermetropia.

– Correto...

– Bem, Gabriel, suas notas são excelentes, seu comportamento em sala é exemplar e os professores carregam somente elogios quanto você. – Fez uma pequena pausa e voltou seu olhar para mim – Por isso gostaríamos que se tornasse um Patrono.

– Sério? – Sorri. Parte pelos elogios e parte pela oportunidade. – Seria uma honra! – Poucas foram as vezes que usei a palavra 'honra' na minha vida, mas não pude segurá-la, saiu sem pensar.

– Bem, você só precisa levar esse formulário para seus pais assinarem nessas linhas aqui – Apontara os espaços – E você deve assinar na última página. O consentimento deles e o seu irá lhe assegurar quanto aos possíveis prêmios e certificados.

– Amanhã eu trago, tudo bem?

– Tudo certo então... – Estendeu a mão por cima da mesa.

Cumprimentei-o e sai da sala com o formulário em mãos. Thomas estava na metade do caminho, entre o corredor da secretaria e do pátio. Thomas olhava para o chão enquanto andava, pude ver ao longe que estava chateado, por isso resolvi lhe dar espaço. O sinal batera segundos depois.

***

Mais uma vez o ônibus de Renan passara quando chegamos ao ponto e, ao longe, vi Thomas se aproximando. Embora parecesse um pouco melhor, seu rosto ainda demonstrava preocupação. A passos largos para alcançar o ônibus que já se aproximava, Thomas chegou ao ponto e lançou-me um sorriso como comprimento. Respondi com um aceno enquanto entravamos no ônibus.

Como no dia seguinte, sentamos nos mesmos dois lugares. Thomas sentou-se ao lado da janela, posicionou a mochila sobre o colo e recostou-se no banco, liberando um suspiro pesado. Não pude vê-lo daquela forma, então serenamente lhe perguntei:

– Ta tudo bem, cara?

Thomas virou-se para mim e forçou um pequeno sorriso, consentindo enquanto umedecia os lábios.

– Aquele garoto... Está tudo bem com ele? – Parei por um instante – Você o conhecia?

– É o meu primo, Daniel... – Suspirou – Não tenho certeza, mas pelo que pareceu, ele quebrou o braço.

– Mande-o melhoras. – Recostei a cabeça enquanto encarava Thomas – Foi muito legal o que você fez ali, a maneira como você o tratou, sem perder a calma.

– O que eu posso dizer, – Thomas desviou o olhar por um instante e sorriu – ele é o xodó da família.

– Realmente, você se sairia bem em medicina – Lancei-lhe um sorriso de canto – Você tem muito contato com o Daniel fora da escola? Ele pareceu gostar bastante de você. – Pude notar que falei algo que não devia quando o rosto de Thomas mudou para um tom mais preocupado.

– Na verdade ele mora comigo... – Numa tentativa de desviar o olhar, Thomas começou a mexer na alça da mochila – Quando ele tinha cinco anos, ele perdeu os pais num acidente de carro – Secou uma lágrima que percorria-lhe o rosto – Desde então sua guarda foi entregue aos meus pais. Ele é meu irmãozinho mais novo...

– Sinto muito, eu não...

– Não tem problema – Thomas passou a mão no olho e lançou-me um sorriso – Está tudo bem, sério...

– Você só tem ele como 'irmão'? – Perguntei na tentativa de quebrar o clima pesado que se formara.

– Não, tenho o Nathan também. Ele tem 19 anos. – Fez uma pequena pausa e continuou – E você?

– A diferença entre vocês dois é pequena até... – Sorri – Tenho uma irmã, Amanda. Ela tem 28.

Thomas iria falar algo, mas o interrompi antes que conseguisse.

– Seu ponto é o próximo... – Thomas parecia ter perdido a noção do tempo. Seu destino se aproximava rapidamente e logo se colocou em pé em frente a porta, apertando o botão para descer. – Tem facebook?

– Thomas Barnett! – Disse enquanto descia as escadas – B-A-R-N-E-T-T! – As portas estavam quase se fechando quando terminou de soletrar. – Até amanhã!

Sorri com a situação. Resgatei uma caneta de um dos bolsos da mochila e anotei seu sobrenome no braço. Desci poucos minutos depois.

***

A casa estava vazia. Mamãe deveria ter saído com Amanda e meu pai estava trabalhando. Um prato coberto na geladeira levava a mensagem sobre a tampa:

"Tem salada no pote vermelho.

Volto logo,

Mãe"

Coloquei a comida para esquentar enquanto ligava o notebook na sala. Liguei a TV e fui passando pelos canais até estancar no início de uma maratona de Senhor dos Anéis. Enquanto o note iniciava, peguei a comida e fui em direção ao sofá, colocando o note sobre um suporte enquanto almoçava normalmente.

Lá estava seu perfil, como ele havia dito, 'Thomas Barnett'. Sua foto de perfil mostrava Thomas sorrindo enquanto fazia cócegas em Daniel, que claramente estava tentando fugir, embora estivesse sorrindo. Sua imagem de capa trazia a frase "I wish that I could be like the cool kids" (Eu gostaria de ser como as crianças legais) rabiscadas numa folha de caderno, uma referência a música Cool Kids do Ecosmith. O restante do perfil estava bloqueado, exceto por imagens de capa e de perfil anteriores, mas não me interessei no momento, apenas lhe enviei o pedido de amizade e repousei o notebook ao lado do sofá, ajeitando-me em meu acento enquanto almoçava e assistia o filme, que acabara de começar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.