Notas iniciais
Espero que gostem, boa leitura!! ♥

Recife, 1858

Era muito cedo pela manhã quando Alfredo Marques pisou na casa dos De Castro. O inconfundível casarão amarelo ficava na final da rua Madalena e àquela altura do dia cheirava ao forte aroma do café e do pão. Alfredo passou a mão no rosto magro e tentou conter o embrulho no estômago, resultado da noite mal dormida. Ele estava furioso. Como seu tio ousara deixar tão pouco para ele naquele maldito testamento? Ele fizera tudo. Alfredo agradara e bajulara o tio por toda uma vida, tentando garantir o que deveria ter sido de seu pai – e então, seu. Agora, nos seus 30 anos, estava praticamente arruinado. Como se sustentaria, como comeria, como manteria suas extravagâncias? Como deixaria seus jogos e apostas? Olhando para o papel em sua mão, ele quis amassa-lo até o pó, tamanha a sua raiva. Mas resistiu, pois aquela era sua única esperança.

Alfredo abriu a grande porta de entrada, sem cerimônias. Ele era quase da família, afinal. Sua longa amizade com Manoel de Castro havia lhe garantido isso. Passando pelo salão de entrada decorado e pelo longo corredor azul, seguiu para a origem de tanto burburinho. Na cozinha, Francisca, esposa de Manoel, acompanhava com afinco os criados preparem o café da manhã, enquanto o próprio Manoel se ocupava com papéis em uma pequena mesa, com Isabel e Matilda aos seus pés. As duas filhas de Manoel eram muito pequenas, com 6 e 5 anos e espessos cabelos escuros, quase desapareciam em seus vestidos. Do outro lado da cozinha estava Joana, a terceira filha e a mais velha, com os mesmos cabelos e o olhar perdido além da janela. Enquanto suas irmãs gritavam e cutucavam as pernas do pai, a Joana de 11 anos apenas permanecia apoiada a janela, esperando o momento que poderia fazer as coisas que gostava – que incluíam coisas que seu pai não aprovava, como os livros.

— Tio Alfredo! – Isabel, a filha do meio, gritou com sua fala enroscada, por baixo da mesa. Todos os rostos se voltaram para ele.

— Bom dia, Isabel.

A cada minuto que passava a raiva de Alfredo aumentava, e mesmo para ele, que não tinha nenhuma dificuldade em fingir o que sentia, estava sendo um martírio manter aquele sorriso estúpido no rosto.

— O que está fazendo tão cedo aqui? – Manoel olhava para Alfredo sobre os papéis, a voz ainda de um sotaque português carregado.

Manoel deixara Portugal há 28 anos, fascinado pelo modo como poderia viver a vida no Brasil e por Francisca. Ele gostava de dizer que se arrependia amargamente disso, apenas para irrita-la, mas bastava olhar para ele para saber que ele amava sua esposa.

— Preciso conversar com você. Não pude esperar.

— Não quer nem um cafézinho? – Francisca lhe sorriu, enquanto deixava um pão recém assado sobre a mesa.

— Não, obrigado, Francisca. São negócios urgentes.

— Acho bom ser mesmo.

Manoel lhe cutucou com a bengala, indicando que o seguisse. Diferente de Alfredo, os cabelos de Manoel já começavam a ficar brancos e a bengala, que simplesmente fazia parte da moda masculina, começava a fazer mais por ele do que isso. Acomodados no escritório vermelho de madeira escura, os dois homens se encaravam com interesse e impaciência.

— O que é tão urgente que te trouxe aqui a essa hora?

O discurso de Alfredo estava pronto. Ele jamais admitiria que precisava de dinheiro, e não sentia a mínima vergonha por estar usando o amigo para conseguir isso.

— Estive pensando e estudando algumas possibilidades para aquele prédio que você conseguiu na praça Guadalupe.

Manoel, que se considerava um investidor e administrador de terras, não tinha o menor interesse em fazer algo naquele prédio, mas não disse nada. Ele confiava em Alfredo, assim como em seus conselhos.

Alfredo deixou o papel sobre a mesa.

— O que é isso?

— Uma carta. Da Inglaterra.

De repente curioso, Manoel pegou o papel. – Sobre o que é?

— Sobre nosso futuro negócio.

— O que? Diga de uma vez.

— Biscoitos, meu amigo.

Manoel olhou para ele, e achou que cairia na risada. Do que aquele homem estava falando?

— Biscoitos? O que é isso?

Virando o papel, Alfredo lhe mostrou o que seria o mais próximo de um biscoito, em seu desenho rabiscado.

— Esse alimento achatado, cozido no forno duas, três ou mais vezes, é o que há de mais popular no momento na Europa. Com açúcar, chocolate, chá, as possibilidades são infinitas.

— Não lembro se já vi tal coisa. – Manoel coçou a barriga indiscreta, completamente intrigado e descrente com o rumo daquela conversa. – O que o meu prédio tem a ver com biscoitos, afinal?

— Onde você consegue esse tipo de alimento em Recife? – movendo-se na cadeira estofada, Alfredo não conseguia se conter. Ele tinha que convencer o velhote a qualquer custo. – Exatamente, não consegue. Já imaginou o prestígio disso, Manoel? Eu consigo a importação dos biscoitos, mas não sem você.

— Você enlouqueceu.

— Estou falando de moedas, Manoel. Réis. Eu consigo os biscoitos da Inglaterra, você cede o prédio e o dinheiro. Vamos começar um novo império de vendas.

A vontade de rir já havia desaparecido quando Manoel encarou seu amigo. Ele estava mesmo falando sério? Viajando o olhar entre Alfredo e o papel a sua frente, Manoel só conseguia pensar em todas as maneiras daquele investimento dar errado. E esse pensamento lhe sustentou por semanas, mas Alfredo não iria desistir. Era a oportunidade perfeita. Ele faria dar certo. Conseguir o dinheiro era tudo que importava.

Quando semanas depois o prédio de paredes azuis tão claras que quase pareciam brancas à luz do sol estava limpo e mobiliado, Manoel aceitou que não conseguiria fazer Alfredo mudar de ideia. Ele cedeu não só o prédio, mas a si mesmo àquela ideia absurda. Apenas uma coisa ele não podia negar: os biscoitos eram fantásticos. Uma textura diferente de tudo que já provara, que lhe derretia à boca e lhe arremetia a uma infância que nem mesmo tivera. Manoel cedeu a um negócio que não prosperou no começo, mas no momento em que, naquele verão, os moradores de Recife cederam a curiosidade e também se apaixonaram por aquele pequeno alimento, abarrotando o local de pessoas, o encanto começou. Como sócio, Alfredo não poderia estar mais satisfeito. Tudo havia ocorrido conforme seu plano, porque, afinal, pensou, ele nunca errava. Manoel então, finalmente, cedeu seu coração à Biscoutaria DeCastro.

Mas ele não foi o único.

*

Recife, 1870

Joana chutou a perna de Matilda sob a mesa pequena. Naquela tarde amena as irmãs Castro estavam sentadas próximas a grande janela de vidro da biscoutaria, aproveitando dos biscoitos que sobraram da produção e o café feito pela melhor cozinheira do local, dona Aurélia. Matilda e Isabel riam incansavelmente de todos os clientes que passavam por ali, numa série de piadas que Joana não entendia, mas que a irritava profundamente.

— Parem de rir tão alto. Vocês querem espantar as pessoas?

Isabel fez um movimento de desdém com os ombros, provocando mais risadas em Matilda, que quase deixou um biscoito cair no chão.

— As pessoas não se importam. Somos quase as donas disso aqui.

Não, elas não eram, pensou Joana, alcançando o biscoito que fugia das mãos inquietas de Matilda. Seu pai era dono de tudo aquilo. E por mais que amasse suas irmãs do jeito que elas eram – no espaço de tempo em que não estava irritada com elas, é claro –, duvidada seriamente que seu pai alguma vez houvesse cogitado deixar a biscoutaria para as duas. Isabel e Matilda se tornaram duas garotas eufóricas, que gostavam de rir e falar alto, fofocar e fazer compras. As duas não poderiam se interessar menos por farinha e açúcar, ao contrário de Joana.

Joana olhou para as irmãs, franzindo o cenho quando percebeu que elas usavam exatamente os mesmos tons nos vestidos, as duas uma explosão de saias e babados verdes.

— Não somos donas de nada. E quem não se importaria com as risadas estridentes de vocês duas?

Matilda lhe mostrou a língua, no exato momento em que um cliente passava pela mesa delas. Nenhuma das três ousou ficar envergonhada pela falta de modos, afinal era provável que toda Recife já conhecesse muito bem cada irmã Castro.

— Boa tarde, senhor Garcez.

O homem fez uma mesura para elas com seu chapéu que escondia os cabelos brancos, sem interromper seu caminho para a saída.

— Não entendo como você consegue saber o nome de todo mundo que passa por aqui. – Matilda fez uma careta enquanto banhava sua pequena rosquinha de coco na xícara de café.

— Eu me importo com eles. O que tem de errado nisso?

Isabel olhou para a irmã como houvesse brotado um pacote de farinha sobre sua cabeça.

— Tem tudo de errado. Você não deveria estar pensando em biscoitos ou nome de clientes. Existem tantas coisas melhores, como vestidos, as fofocas da cidade, ou...

Joana ficou imediatamente alerta, sabendo o que estava por vir. Ela apontou um dedo acusadoramente para Isabel.

— Não.

— Quem sabe...

— Não comece com isso.

— Arranjar um marido.

Joana revirou os olhos, tentando ignorar as irmãs. O aroma perfeito de biscoitos recém assados invadiu o lugar, e ela se concentrou em tentar adivinhar do que eram. Banana, talvez?

— Estou falando sério, Joaninha. Você não quer ser uma solteirona. Imagine como seria divertido conseguirmos um marido para você. – Isabel agarrou o braço de Matilda, e as duas vibraram.

— Você sabe que eu detesto quando me chamam de Joaninha.

Ela detestava mesmo, desde que a filha do barão de Tavares usara a palavra para tentar diminui-la. “Mas quem se interessaria por Joaninha, não é mesmo?”. Joana quase viu o caminho da sua mão em direção ao rosto daquela garota.

— E... Ah, meu Deus, Matilda, você não sabe quem vai casar com o Antônio...

Então as duas começaram uma longa e barulhenta conversa sobre os próximos casamentos do que talvez seria possível, Brasil inteiro. Joana apenas suspirou, grata por quem quer que fosse Antônio e seu casamento, que desviaram a atenção da inquisição de Isabel. Ela sabia que talvez devesse estar preocupada com essas coisas. Nada deixaria sua mãe e suas irmãs mais felizes. Até seu pai estava começando a ficar preocupado que, aos 23 anos, não havia nenhuma promessa de casamento no futuro. Mas Joana não se importava tanto assim. Nada conseguia lhe tirar a atenção que ela dedicava àquela biscoutaria. Quando Manoel de Castro começara o negócio com Alfredo, a curiosidade de Joana já estava aguçada. Ela não sabia em que momento aquela curiosidade se transformou em encanto. Talvez fora 5 anos atrás, quando seu pai decidiu que estava na hora de produzirem seus próprios biscoitos. Ver tudo aquilo acontecer, as mãos trabalhando, a festa de farinhas e açúcar que acontecia todos os dias na cozinha da biscoutaria, a fascinava.

Joana olhou para o imenso balcão de madeira escura, as pequenas mesas douradas e as inúmeras prateleiras repletas de pacotes e caixas decoradas. Era tudo perfeito. Os aromas, as possibilidades, o som das conversas e do tilintar de xícaras e colheres de chá. E imaginar que ela nem ao menos sabia se um dia poderia ter algo assim. Para quem seu pai deixaria tudo aquilo?

Um estrondo lhe roubou a atenção, assim como a de Matilda e Isabel. Iolanda, esposa do barão de Tavares, lançava a mão contra o balcão, gritando com o funcionário atrás dele.

— Não é isso que eu quero, seu imprestável! Quero algo melhor.

Enquanto Joana se levantava prontamente para resolver o problema, Isabel e Matilda apenas analisavam o vestido azul cheio de saias.

— Você acha que ela está conseguindo respirar dentro daquele espartilho tão apertado? – Matilda tentou perguntar a Joana, mas ela já estava longe de ouvir.

Dando a volta no balcão, Joana tocou no braço de Ramos, lhe dando seu olhar de “deixa comigo”. Sem ao menos perguntar o que Iolanda estava procurando, Joana retirou uma caixa amarela decorada. E usando de toda a elegância que podia, abriu a caixa para a mulher a sua frente, revelando pequenos biscoitos de limão glaceados. A baronesa, que a todo momento observava desconfiada, se aproximou.

— O que é isso?

— São petit fours. Experimente um.

A expressão do rosto de traços fortes começou a suavizar, e Iolanda quase sorriu diante do francês perfeito de Joana. Por outro lado, Joana tentava conter uma risada. Chamar os biscoitos de limão de petit fours não estava errado, mas, bem, eram só biscoitos. Iolanda gostava de esbanjar e Joana sabia disso. Ela teve certeza quando os olhos de Iolanda brilharam com a primeira mordida.

— É francês, não é?

— Sim. Pequenos tesouros franceses, delicados e, veja só... Essas bordas decoradas. São realmente uns dos nossos trabalhos mais bonitos.

A expressão aflita e admirada de Iolanda divertia Joana cada vez mais.

— E o sabor... A quantidade perfeita de limão, não azedo demais, um contraste perfeito com o açúcar batido da cobertura, apenas... Perfeito. – Iolanda tentou alcançar mais um biscoito, mas Joana rapidamente fechou a caixa com um sorriso astuto.

— Você acha que isso vai impressionar minhas convidadas no café da tarde?

— Não tenho dúvidas.

— Vou levar quatro caixas. – a baronesa começou a retirar moedas de sua retícula. – Qual é o seu nome?

— Joana.

O reconhecimento passou pelo rosto de Iolanda e de repente ela sabia exatamente quem Joana era. Com um pequeno movimento com a cabeça ela apenas se virou e partiu, no exato momento em que Manoel e Alfredo entraram na biscoutaria. Manoel olhou para as filhas emproadas no balcão e apenas suspirou, continuando seu caminho para o escritório nos fundos. Alfredo fez uma reverência para as meninas e Matilda e Isabel acenaram alegremente antes de se voltarem para a irmã.

— Joana e seus dons de domar até os piores clientes. Papai deveria te contratar.

Sim! Sim!

— Não faria diferença, Matilda. Ela praticamente já trabalha aqui. Aliás, que história é essa de petit?

— Li em um livro.

— Não me diga que era isso que você estava lendo todos esses dias...

— Vocês não sabem quantas coisas incríveis que...

— Ah, não, Matilda. Vamos embora daqui.

Isabel agarrou o braço de Matilda e começou a arrasta-la porta afora. Joana seguiu atrás e as três desceram a rua até o casarão em que moravam, com Joana atormentando as duas com histórias de folheados e quiches. As mais novas reclamavam ao mesmo tempo enquanto Joana ria descontroladamente quando entraram na casa. Francisca terminava seu bordado quando as três entraram na sala de desenho, seu rosto de rugas recentes se contorcendo com o estardalhaço.

— Por que vocês têm que fazer tanto barulho?

— Foi culpa da Joana e suas histórias chatas de comida. – Isabel sentou-se ao lado da mãe, tentando bisbilhotar o que ela estava fazendo. – Acredita que ela andou lendo livros de culinária?

Francisca olhou para a mais velha, que se jogava em um dos sofás, pegando um livro qualquer que estava sobre a mesinha. Como era possível ter filhas tão diferentes? Bem, era verdade que Matilda e Isabel eram quase uma só, talvez por terem idades muito próximas, mas quando as três se juntavam era fácil perceber que cada uma possuía uma personalidade em particular. Matilda e Isabel eram mais espalhafatosas, talvez Matilda fosse a mais branda, mas era sempre fácil descobrir o que as duas sentiam ou pensavam. Era Joana que preocupava Francisca. Ela nunca sabia o que se passava na cabeça-dura da filha. Joana não se interessava por trabalhos manuais, pelos cuidados da casa, pelas festas sociais. Apenas sonhava noite e dia com a biscoutaria, o que só preocupava ainda mais Francisca.

— Já pedi a Rosa que arrume as roupas de vocês para hoje à noite.

Joana olhou por cima do livro as irmãs quase saltarem de animação.

— Ah, eu amo as nossas quermesses. A música, a comida, os jogos...

— Só estou animada porque a biscoutaria vai abrir.

Agarrando uma almofada vermelha, Matilda a jogou em Joana, derrubando o livro que estava em suas mãos e provocando uma expressão de raiva.

— Ora, sua...

Joana foi interrompida pela imensa movimentação que Dalton causava ao entrar nos cômodos. O grande fila brasileiro de pelagem dourada entrou correndo na sala, atraído pela voz de Joana, balançando incessantemente seu rabo.

— Olha se não é o amor da minha vida!

Dalton era um cachorro difícil, que aprontava e rosnava para todo mundo, mas para ela era apenas um gigante carente, que a seguia por todos os lados e praticamente uivava de felicidade ao vê-la. Dando espaço para o cachorro que já se preparava para subir no sofá, ela começou a lhe acariciar as grandes orelhas caídas.

— Tire o hipopótamo de cima do sofá. – Isabel a provocou, caindo na risada logo em seguida.

— Do que você o chamou?

Foi a vez de Joana lançar uma almofada contra a irmã.

— Ah, é guerra que você quer?!

E foi uma guerra de almofadas que começou. Com as três lançando almofadas umas contra as outras, Francisca impaciente no meio e um Dalton que latia e pulava descontroladamente para as meninas. Francisca agradeceu aos céus no momento em que todos começaram a se preparar para a festa, e às 8 horas toda família Castro estava na praça. Matilda e Isabel, como sempre, combinavam seus vestidos em tons de rosa e babados brancos. Joana estava satisfeita com seu vestido de noite mais simples, em bege com linho floral.

A quermesse movimentava toda a cidade. As ruas estavam mais iluminadas e a praça já estava abarrotada de pessoas. Puxando uma mecha de cabelo para fora do penteado alto e com Dalton aos seus pés, Joana desviou da terceira pessoa nos cinco minutos em que estavam ali. Sua mãe já havia desaparecido entre a multidão em busca da sua melhor amiga, Eugênia, e Joana localizou seu pai nas portas da biscoutaria, em uma conversa intensa com Alfredo e outros homens. Ela já se preparava para ir até eles quando Isabel lhe agarrou o braço e a obrigou a circular pelo local.

O cheiro de milho impregnava o ar, pessoas conversavam animadamente, crianças corriam por todos os lados e um grupo de homens tocava acordeão, zabumba e triângulo, provocando o forrobodó que divertia as filas de dança. Era impossível não ser contagiado pela animação do lugar, e Joana já sorria e cumprimentava todas as pessoas possíveis, quando praticamente trombou com Matilda, que havia parado abruptamente.

— Meninas... Quem é aquele homem?

O tom desesperado dela colocou Joana em alerta, que já se preparava para ordenar que Dalton farejasse o estranho. Mas assim como as irmãs, Joana ficou sem fala quando o viu. Um casaco escondia o emproado terno que ele usava, a cabeça livre da cartola revelava o cabelo penteado para o lado, que contrastava perfeitamente com a barba curta de aparência bem cuidada. A expressão dura do homem era quase quebrada por seus olhos, que pareciam menores que a maioria das pessoas. Era possivelmente o homem mais lindo que Joana já vira, mas o que ela estava sentindo não era exatamente encantamento. Era, talvez... Apreensão? E isso só piorou quando o viu parar diante de seu pai e Alfredo.

— Ele não é daqui, é?

— Acho que não. Todos estão olhando para ele. Mas, nossa! Você está vendo o que eu estou vendo, Matilda?

— Acho que nunca vi alguém tão bem-apessoado.

Os três homens desaparecem dentro da biscoutaria e Joana já se preparava para verificar o que estava acontecendo quando Dalton se adiantou. Sentindo a presença do estranho, o cachorro começou a correr em direção ao prédio azul.

— Dalton!

— Joana!

Joana tentava alcançar o cachorro enquanto suas irmãs gritavam por ela, que já estava longe para ouvir. Ela conseguiu conter Dalton na entrada da biscoutaria e, agachada ao chão, o abraçou para mantê-lo onde estava.

— Fique quieto, está bem? – ela sussurrou para o cachorro, enquanto se esgueirava pela porta e espiava dentro.

Os homens estavam sentados em uma mesa. Seu pai ria de forma amigável com o estranho, já Alfredo tinha uma expressão no rosto nada amistosa. Havia copos de vinho sobre a mesa e Joana sentiu um rebuliço no estômago.

O que seu pai estava aprontando dessa vez?