Doce Promessa
3 Três
Notas iniciais
O ranger da grande porta dos fundos da biscoutaria estrondeou no exato momento em que um pássaro dava a volta pela construção, seu gorjeio sinalizando que a manhã estava oficialmente começando em Recife. Joana fechou a porta lentamente, com medo de ser pega por algum funcionário ansioso ou um pai furioso. Dentro da enorme cozinha, ela soltou o ar, como se pudesse enfim respirar. Sua noite não havia sido das melhores, volta e meia sua mente ocupada com preocupações, volta e meia Dalton implorava para que abrisse a porta de seu quarto, a obrigando a se levantar inúmeras vezes. Então por que se prolongaria na cama?
Graças ao horário, Joana conseguiu descer toda rua Madalena sem encontrar alguém conhecido ou algum vizinho curioso. Agora na segurança do lugar que tanto amava, Joana dobrou as mangas de seu vestido cor de marfim azul, descansando em seguida as mãos em seus quadris, tentava decidir por onde começaria. Havia farinha sobre o balcão, louças a serem guardadas e barris a serem armazenados longe do caminho dos fornos. Ela não culpava nenhum dos funcionários por isso, a quermesse mantivera todos acordados até o alvorecer. Talvez até devesse lhes agradecer, pois ela enfim poderia colocar a mão na massa. Agarrando um pedaço de tecido, Joana sorriu um pouco ao imaginar a reação de Manoel de Castro ao ver a filha espanar farinha para longe da cozinha.
Ainda estava irritada até seu último fio de cabelo. A ambição de seu pai era algo com a qual já deveria estar acostumada, mas trazer um inglês para construir máquinas? Joana tremia só de imaginar. Ela nunca tinha visto uma de perto, mas tudo que ouvia falar não poderia fazê-la gostar menos. Exploração, pessoas perdendo empregos. E todo o calor do trabalho manual que acontecia naquela cozinha? Seu pai não podia estar pensando direito.
Pendurando a última louça sobre o forno, Joana limpou as mãos sujas de farinha e açúcar no vestido, desfazendo a aparência impecável de seu vestido de passeio. E para contrariar a si própria, ela pensou no inglês Joseph de alguma coisa. No seu olhar ininteligente enquanto parecia avaliar todos a sua frente. Até pensou no modo como a gola de sua roupa estava dobrada, deixando o colarinho sempre no alto, e naquele pequeno movimento que ele fez com a sobrancelha, a desafiando.
Joana bufou.
O que seu pai teria dito para convence-lo a ir até ali? Qual era o preço de uma viagem tão longa? Como Joana queria a resposta para todas essas coisas! Como queria fazer parte daquilo! Encarando uma pequena caixa de biscoitos esquecida, ela desejou saber como fazer seu pai mudar de ideia, enxerga-la de outro modo. Deveria ter algo que pudesse fazer. Talvez se...
Um pequeno click e o barulho distante de uma porta sendo fechada despertaram Joana, que rapidamente se afastou da mesa em que se apoiara. Era muito cedo para os trabalhos estarem começando, não era? Ela desejou ter um relógio enquanto esgueirava-se cautelosamente pelo corredor até o salão de entrada, para encontrar a última pessoa que queria ver naquele momento.
Joseph Fretcher colocava as mãos nos bolsos de sua calça quando Joana decidiu que talvez fosse melhor apenas espreitar o que aquele homem fazia ali, tão cedo. Ela esperou por mais alguém, mas aparentemente ele estava sozinho, agora em um terno de tecido menos nobre que o da noite anterior, o cabelo não em perfeito alinho. Ele parecia seguro e muito confortável em si mesmo, enquanto caminhava entre as mesas, analisando tudo atentamente. Joana constatou que era a segunda vez que espionava, em tão pouco intervalo de tempo. Talvez devesse apenas encara-lo, deixar claro que ainda estavam fechados. Ou quem sabe... Mas por que raios seu coração estava disparado?
Agarrando a saia de seu vestido como se isso pudesse lhe trazer mais equilíbrio, ela observou o momento em que ele se curvou diante da vitrine de biscoitos, examinando cada espécime. E então Joseph deu a volta pelo balcão. Ergueu uma mão. Então alcançou um biscoito amanteigado.
— O que o senhor está fazendo aqui?
Joana tentara – e como tentara – permanecer quieta, mas como poderia apenas assisti-lo enquanto parecia ter todos os tipos de pensamentos maquiavélicos, com o pequeno biscoito sob eu olhar cuidadoso?
Joseph nem ao menos pareceu assustado com a presença repentina da mulher a sua frente. Na verdade, pareceu levar alguns segundos para assimilar quem ela era, o que, por algum motivo, irritou Joana ainda mais.
— Esperando por Manoel.
— Meu pai não costuma abrir a biscoutaria. Então se você...
Ela se aproximou e tentou lhe roubar o biscoito das mãos, que Joseph prontamente tirou do alcance dela. Porque ele era muito mais alto que ela, obrigou Joana a ficar na ponta dos pés numa última tentativa de tirar o biscoito da mão dele.
— Não se preocupe. O encontrei no caminho e ele não deve demorar.
Derrotada, apenas cruzou os braços contra o peito. – Você sempre costumar revirar as produções dos outros?
E então ele lhe deu um breve, muito breve, sorriso brilhante, que esquentou todo o rosto de Joana.
— Na verdade, sim.
Depois desse estranho momento em que não conseguira impedir um sorriso, Joseph olhou bem para ela, para as marcas brancas em seu vestido e até em seu rosto, e ele quis sorrir novamente – o que achou muito importuno. A filha mais velha de Manoel já havia se provado em desacordo completo com a presença dele ali, mas ele não entendia aquele expressão de irritação no rosto dela, como se ele acabasse de mexer em um dos bens mais preciosos da terra. Olhou novamente para o alimento em sua mão e, instigado pela curiosidade, lhe deu uma mordida. A explosão de sabores, o suntuoso e deleitável caráter salgado, quase o deixou alheio ao semblante de Joana, que agora passara para revolta.
— Já comi melhores em Londres.
Joana buscou por palavras e falhou algumas vezes.
— É mesmo? – Joana respirou fundo. Contou até três. – Pois tenho um perfeito para o senhor.
Buscando por uma caixinha vermelha no canto de uma prateleira, Joana voltou-se para o homem desconfiado a sua frente, exibindo biscoitos amanteigados que em quase nada diferiam do que Joseph havia experimentado.
— Experimente.
Ela lhe ergueu a caixa, esperando. Para Joseph aparentavam biscoitos salgados comuns, mas Joana conhecia bem o ingrediente que eles carregavam: toques de endívia conferiam ao biscoito um amargor apenas para os mais corajosos e exigentes. Joseph alcançou um biscoito com a mão e, então, parou.
— Como vou saber que não está tentando me envenenar?
Joana fez uma carranca.
— Nunca brinque com isso. Biscoitos não devem nunca serem usados para tal coisa.
— Quem disse que estou brincando?
Apesar dos protestos e da desconfiança, Joana assistiu o momento em que levou o biscoito a boca, dando uma ínfima mordida. Então ela esperou a expressão de desagrado. Esperou. Esperou e... ganhou apenas mais um breve sorriso.
Inacreditável.
— Saboroso.
Como aquilo era possível? Joana tinha absoluta certeza de que conseguiria lhe causar o desprazer de consumir aquele biscoito, mas o homem não se alterara nem meio momento. Eram poucos os que acham os biscoitos de endívia apetitosos, devido a sua característica excêntrica, o que levou Joana a concluir que talvez Joseph realmente fosse um cliente exigente. Ela se aborreceu um pouco mais.
Colocando as mãos novamente nos bolsos, Joseph passou por ela, intenção clara de seguir pelo corredor até os fundos. Ela se obrigou a não pensar no aroma que ele deixou ao passar, uma mistura de algo recém banhado e um perfume que ela jamais sentira na vida, e mesmo assim, se perguntou vagamente se era algo que ele trouxera de Londres.
De braços cruzados, ela o seguiu até a cozinha, onde Joseph novamente atentou-se a observar cada detalhe, tão pouco notando a presença de Joana ali, parada à porta, analisando aquele homem completamente estranho para ela.
— Acho que será possível fazer um bom trabalho aqui. Posso alterar as medidas ou...
Joana quase perguntou do que ele falava, até notar que Joseph estava na verdade falando consigo mesmo – o que ela achou estranho por um momento, mas, conforme o ouvia murmurar sobre medidas e distâncias, o cenho franzido em seu rosto foi desfazendo, dando lugar a um rebuliço no estômago. Ele parecia absorto no próprio mundo e talvez nada do que ela dissesse o faria deixar o lugar. Ela não conseguia decidir como se sentia em relação àquilo, mas seria algo bem perto do desespero.
Joseph retirou do bolso um longo objeto, uma fita retrátil marcadas por números, o estendendo diante de diversos cantos da cozinha. Como se a curiosidade de Joana já não estivesse aguçada – por mais que ela tentasse negar –, ela ficou nas pontas dos pés, tentava enxergar o que ele tanto fazia com aquele objeto que ela nunca vira antes, e quase tropeçou em seus sapatos quando ouviu a voz dele mais uma vez.
— A senhorita trabalha aqui?
Suspirando discretamente, Joana tentou se recompor, apoiando-se contra a parede.
— Não.
Novamente ela não viu nenhuma expressão no rosto de Joseph. Era quase como se ele perguntasse apenas por educação e ela decidiu que era melhor assim. Não queria ter que dividir nenhuma informação sobre sua vida com aquele homem, mas ainda assim Joana continuou esperando que ele falasse algo mais, enquanto Joseph apenas se mantinha agachado ao chão, apoiado por um joelho, encarava um canto vazio como se diante de um verdadeiro enigma.
— Posso considerar agora como minha vez de fazer uma pergunta? – Joana disse, começando a perceber que ele não a deixaria sozinha para continuar seu trabalho.
Joseph voltou a ficar de pé. A encarando, ele enrolou lentamente a fita, observando o modo como ela estava atenta ao instrumento. Joseph era um engenheiro mecânico, mas também se considerava um negociador, afinal. Era preciso tanto conhecimento quanto conversação e astúcia para vender seus negócios, e fazendo isso por tantos anos, ele sabia claramente ler nas entrelinhas de uma simples frase. Era claro que Joana tentava arrancar alguma informação dele, o que despertou sua curiosidade. E, oras, a quem ele estava tentando enganar, fingindo que não havia notado? Ela era realmente bonita. Talvez não arrancasse suspiros em toda Londres, mas havia uma sutileza irônica no modo como os delicados traços de seu rosto contrastavam com a personalidade gritante que ele notara em tão pouco tempo. Ela talvez não arrancasse suspiros dos mais exigentes, mas mesmo assim ele teve que se conter para não continuar olhando para ela. Para o modo como ela erguia a cabeça, evidenciando a suave curva de seu nariz, ou na mesma sinuosidade de seu lábio, ou...
Ele pigarreou. Como chegou naquele pensamento, afinal de contas? Joseph não tinha tempo para isso. Não se considerava um conquistador, em nenhuma hipótese. Havia muitas outras coisas que ele precisava fazer, e certamente gastar tempo com firulas e cortejos não estava em sua lista, não importava quão bonita a pessoa em questão fosse. Se considerava um homem prático demais para isso, era prático quando queria uma mulher, como fora com todas as que estivera. Seu trabalho era o seu foco, o que só dava mais motivos para Olivia, sua irmã, o perturbar com histórias sobre ficar sozinho para sempre. Joseph não se importava tanto assim.
— Tudo bem. Pergunte.
— Por que está aqui?
Joana registrou a surpresa em seu rosto. Nem ela mesma esperava pelo confronto, mas se ele estava ali, longe de seu pai, não seria a oportunidade perfeita?
— Seu pai comprou meus serviços, como bem sabe.
— O senhor não pode ter viajado de tão longe até aqui, apenas por causa de máquinas.
— Apenas por causa de máquinas? Levo meu trabalho muito a sério, senhorita.
O modo como ele disse aquilo despertou algo que Joana tentava a todo custo conter. Afastando-se do seu apoio, ela se aproximou um passo.
— Quais são suas reais intenções com a biscoutaria?
— Minhas intenções são bem claras.
— Não acho que são tão claras assim. Como meu pai te convenceu a fazer uma viagem de semanas apenas para construir uma máquina?
E ela continuava usando aquele apenas. Joseph se aproximou mais, sentindo seu único migalho de paciência desaparecer.
— Realmente não é um problema meu que a senhorita tenha desconfianças quanto a mim. Seu pai contratou meus serviços, então é apenas a ele que devo satisfações. A menos que ele desconsidere, continuarei fazendo meu trabalho.
Joana cerrou os punhos ao lado do corpo, tamanha irritação que sentia, não notando nem que agora estavam a apenas centímetros um do outro, se encarando como duas criaturas raivosas.
— Ah, tenha certeza que terei o maior prazer em fazê-lo desconsiderar.
— Isso foi um desafio?
Sentindo o coração palpitar, ela apenas ergueu a cabeça um pouco mais, para conseguir encara-lo nos olhos.
— Bem, será divertido então. Me lembrarei quando estiver voltando para casa, em minha viagem de semanas, com o dinheiro do seu pai no bolso.
— É claro. O dinheiro do meu pai. É sobre isso, não é?
Não, não era inteiramente sobre isso, mas Joseph não admitiria isso para a mulher teimosa a sua frente. Talvez nunca vira alguém tão apaixonado por algo, tão tomado algo para si. Era quase como se ela sentisse em si mesma uma ameaça àquele local, e talvez em outro momento ele ousasse admirar isso, mas ali, encarando aqueles olhos, ele apenas se enfurecia mais.
— Por que se importa tanto? Achei que não trabalhasse aqui.
— Esse lugar é da minha família. É claro que me importo.
— Bem, não posso fazer nada a respeito.
Joana não achou que poderia sentir mais raiva, mas aquela frase conseguira isso, a impedindo de desviar os olhos dele. Encararam-se por longos segundos, presos numa realidade de irritações não ditas e personalidades inconciliáveis, até ouvirem um pigarro vindo de Manoel de Castro, parado à porta, olhando atentamente para os dois.
Joana afastou-se imediatamente e foi para ela que Manoel olhou.
— O que está fazendo aqui?
Ela não ousou responder. De todos os modos havia grandes chances de um sermão estar vindo. Então Manoel olhou para Joseph.
— Estava aqui sozinho com minha filha, Fretcher?
— Não sabia que ela estava aqui, senhor.
— É claro.
Joana sentiu o rosto queimar diante das suposições que Manoel deixou claro naquela frase. Como seu pai podia pensar naquilo? O que ela mesma estava pensando? Irritada com os dois homens e consigo mesma, Joana virou-se, deixando o lugar o mais rápido que pode. Tentou evitar as perguntas de sua mãe e os comentários de Isabel e Matilda, passando o restante do dia trancada na biblioteca do casarão, se obrigando a ler um exemplar sobre tortas francesas e não pensar no vislumbre de um homem duro e indiferente que Joseph deixara escapar naquela cozinha.
Quando o dia ameaçava acabar e todos se preparavam para deixar a biscoutaria, Manoel levou Joseph até seu escritório. Imaginando sobre o que poderia ser a conversa e na possibilidade de envolver algum casamento por ser pego sozinho com a filha dele, Joseph tentou calcular quanto tempo levaria para arrumar suas coisas e partir para Londres.
— Sabe que te contratei por acreditar que é o melhor no que faz.
— Sim, eu sei.
— Mas agora que está aqui, tenho uma outra proposta para você.
Joseph não estava surpreso.
— E sobre o que seria?
— Quero propor que fique aqui e trabalhe para mim. Permanentemente. Cuidarei de tudo que for preciso, da sua moradia, se ficar em Recife e garantir a manutenção das minhas máquinas.
O inglês quase engasgou. Aquilo ia muito além do que ele imaginara sobre as intenções de Manoel. Morar em Recife? Ele nem ao menos sabia como se sentia a respeito.
— Estou investindo muito nisso, Fretcher. Não vou correr o risco de algo dar errado. Se der, quero você aqui para resolver. É o seu trabalho, não é?
Joseph continuava sem saber o que responder diante da audácia de Manoel, a mão deslizando sobre a barba em seu rosto em um gesto nervoso.
— E então? Tem algo que te prenda em Londres?
Foram tantas as situações que passaram pela mente de Joseph naquele momento, tantos motivos despertados por aquela simples pergunta, e nenhum deles o fazia ficar. Eram motivos que apenas o faziam fugir de Londres, cada vez mais. Então, decidido, ele respondeu.
— Não.
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