Notas iniciais
Espero que gostem, boa leitura!! ♥

— Acho que este é o último baú. – a voz de Pedro ecoou pelo salão vazio, assim como o som da caixa caindo no chão.

Mesmo com o barulho que provocara uma careta no rosto esguio do garoto, Joseph não se movera. Com o casaco aberto e as mãos repousando nos quadris, permaneceu imóvel no centro daquele desabitado salão de entrada, que possuía apenas dois aparadores de madeira jacarandá, um relógio de pé e um sofá que parecia estar ali há anos. Instalado na Rua do Br da Victoria, o cômodo fazia jus àquele sobrado que Manoel conseguira para ele: simples e adequado. Joseph não era exigente, estaria satisfeito ali ou no quarto da pousada, então o eco daquele vazio não era o que o preocupava. Era o fato de que aquele lugar seria sua casa, pelo espaço de tempo que ele nem mesmo fazia ideia. Casa. Aquilo não lhe parecia uma casa, pensou, com um raspar de garganta desconcertado.

— Não precisava ter feito isso. – Joseph finalmente falou, olhando para o garoto parado na entrada e se perguntando como ele não se quebrara ao meio com o peso.

— É claro que precisava.

Pedro sorriu abertamente, arregaçando as mangas de seu traje um tanto surrado.

— Por onde começamos?

Suspirando, Joseph ergueu algumas moedas para ele.

— Pegue.

— N-não precisa, Joseph.

— Pegue de uma vez.

— Não quero o seu dinheiro. Fiz isso porque gosto do senhor... Joseph.

Outro raspar de garganta e Joseph esqueceu o assunto. Então os dois começaram a guardar os pertences, levando-os para o andar de cima ou retirando a poeira quando necessário. Sobrara apenas um baú no salão, que servia de apoio para o caderno de Joseph e uma pequena caixa esverdeada.

— O que é isso? – Pedro não esperou que ele respondesse e no segundo seguinte já se desfizera da tampa, revelando pequenos biscoitos de creme. – Biscoutos! De que são?

Joseph parou no fim da estreita escada, seus olhos indo diretamente para a caixa nas mãos de Pedro. Ele até tentou bloquear as imagens que lhe vinham a cabeça todas as vezes em que pusera os olhos naquele objeto na noite anterior e naquele dia logo que acordara. A pele corada pelo calor do forno, as mãos que habilmente montaram a caixa que escondia os pequenos doces, o olhar apreensivo e desafiador direcionado exatamente para ele. Era difícil não se irritar ao flagrar a si mesmo pensando nisso. Era difícil não se irritar na presença de Joana.

— Sinceramente, não sei. Nunca comi algo parecido.

Pedro quase pulou de animação.

— Posso comer um?

Joseph não disse nada, assistindo Pedro levar um biscoito a boca e decidindo que não era nada racional reclamar com um garoto por um biscoito, mesmo que estivesse a ponto de tomar a caixa das mãos dele. Era apenas um biscoito, não era?

— Minha nossa! São realmente da biscoutaria? Como você conseguiu?

— A senhorita de Castro me entregou. – Joseph disse e se arrependeu no mesmo segundo ao notar o olhar de Pedro.

— Matilda?

— Não.

— Isabel, então?

— Não.

Pedro parou, mais um pequeno biscoito perdido no caminho até sua boca.

— A senhorita Joana?

Joseph mais uma vez não disse nada. E não era preciso, pois Pedro já tinha um sorriso astuto no rosto.

— Por que a senhorita Joana te deu biscoitos que nem mesmo se vende lá?

Passando por ele para alcançar seu caderno, Joseph bufou.

— Pare de me olhar assim. Eu trabalho na biscoutaria, não é tão difícil assim conseguir biscoitos.

— É verdade, mas por que a senhorita Joana?

Joseph virou-se para ele, lhe fuzilando com o olhar.

— Saia do meu caminho, Pedro.

O garoto se manteve aos pés da escada, tentando não cair na risada.

— A senhorita Joana é muito bonita, não é?

— Não reparei.

Tentando desviar do garoto, ele foi bloqueado mais uma vez. Pedro subiu mais um degrau para ficar na mesma altura do homem a sua frente.

— Como não reparou? Todos reparam na senhorita Joana. Você acha que é o cabelo dela?

Os olhos.

Joseph se chutou mentalmente. De onde viera aquilo?

Erguendo Pedro pelos ombros, ele o depositou com facilidade no chão longe da escada.

— Ei!

— Tenho coisas a fazer. Conversar sobre esses absurdos não está na minha lista.

— Por que o senhor se aborreceu tanto? A senhorita Jo...

Pedro se espantou quando Joseph o agarrou pelo colarinho da camisa, caindo na gargalhada logo em seguida.

— Estou indo trabalhar. Adeus, Pedro.

E fechou a porta. Como aquilo era interessante, Pedro pensou, desatando a rir por todo caminho até a pousada, onde sua mãe esperava com um prato de almoço e um sermão.

Três ruas abaixo do sobrado, tudo corria tranquilamente no casarão amarelo. Francisca se ocupava nos fundos da casa com Prazeres, a empregada que sentia sua pele escura se tornar úmida a medida que o início de uma chuva se tornava mais forte e ela corria para entregar cenouras recém colhidas a sua patroa. No escritório, Manoel cuidava de seus negócios que envolviam nada mais que dinheiro, açúcar e farinha, enquanto no andar de cima Joana se sentava diante de sua penteadeira.

Ajeitou a manga curta de seu vestido de passeio em catalufa azul-esverdeada e colocou uma joia em seu pescoço, quando Isabel puxou seu cabelo mais uma vez.

— Você está tentando fazer um penteado ou arrancar cada fio de cabelo?

— Shh, fique quieta.

Isabel franziu o cenho, tentando colocar um grampo em seu lugar. Joana assistia a cena através do espelho, dividida entre olhar para ela, para si mesma enquanto beliscava as próprias bochechas em busca de cor e para Matilda deitada em sua cama.

— Arg... Arge... Eu desisto. – Matilda resmungou, jogando um livro com indignação. – Não consigo falar essas palavras.

— O que você está estudando? – Joana disse, dessa vez beliscando a perna de Isabel quando essa lhe espetou mais uma vez o grampo. Isabel olhou feio para ela.

Les couleurs.

— Você fala isso muito bem, por que está desistindo? Vamos, diga comigo. Argenté.

— Argen..

Argenté.

Matilda suspirou, tentando se concentrar.

Argenté.

— Isso mesmo. Só precisa puxar mais esse r.

— Argenté. – Matilda sorriu para a irmã através do espelho, animada com o acerto. – Bem, isso é um sermão a menos da madame Conceição.

Estremecendo ao lembrar das reclamações da preceptora, Matilda fechou o livro e encarou a janela do quarto de Joana, onde a chuva lá fora impedia o silêncio.

— Nosso pai e você ainda estão brigando, não é? – Matilda disse, deitando sobre uma das almofadas de Joana.

— Por que diz isso?

— Ouvimos papai resmungando seu nome agora a pouco com Alfredo.

Joana olhou para os nós de seus dedos, que ela apertava em desagrado por ouvir aquele nome.

— Alfredo está aqui?

— Acredito que ainda está, sim.

Ela tentou não grunhir.

— Está ótimo, Isabel. – Joana levantou-se. – Agora preciso ir.

— O que? Para onde você vai nessa chuva?

— Para a biscoutaria, é claro.

Isabel sentou ao lado de Matilda e as duas olharam para Joana como se agora ela mesma falasse francês.

— Você enlouqueceu? Está chovendo.

— Não se preocupe, levarei um guarda-chuva.

— Mas Joana...

Joana apenas lhe sorriu enquanto deixava o quarto, descendo a escadaria às pressas. Com cuidado para não chamar atenção, ela atravessou o corredor, o salão de jantar e a frente do escritório do pai, para praticamente ir de encontro a Alfredo na entrada do casarão. Mas que azar!

— Querida Joana.

Joana apenas fez uma mesura com a cabeça, já se preparando para seguir seu caminho, mas Alfredo fora mais rápido, lhe segurando a mão para um beijo.

— Para onde está indo?

— Eu... Eu estou indo para...

— A biscoutaria? Te acompanharei então.

Para onde foram todas as desculpas que ela poderia dar naquele momento? Joana tentou não revirar os olhos quando Alfredo começou a guia-la pela rua, através da chuva. Ela achou completamente indecente que os dois fossem visto de braços dados àquela hora do dia, então soltou seu braço em um movimento brusco que provocou a raiva de Alfredo, escondida atrás de um sorriso educado.

— Posso lhe perguntar algo, Joana?

— Não sei porque me pede permissão se irá perguntar de todo jeito.

Alfredo sorriu mais uma vez, dessa vez um verdadeiro sorriso de agrado diante da perspicácia de Joana. Joana seria um desafio e ele amava um bom desafio, principalmente quando sabia que sairia ganhando.

— A senhorita pensa em se casar?

Joana tentou esconder a expressão de espanto. Por favor, não.

— Como isso pode interessar o senhor?

— Me interessa, Joana.

Desesperada para encerrar aquela conversa, Joana acelerou o passo, até estarem diante das grandes portas da biscoutaria, onde um ou dois clientes se abrigavam do derramamento de água. Joana virou-se para Alfredo, falando o mais baixo que pode.

— Não, senhor. Talvez eu não me case. Nunca.— ela deu ênfase a última palavra, torcendo para que Alfredo entendesse seu recado. Mas tudo que ela ganhou foi mais um sorriso.

— Talvez eu faça a senhorita mudar de ideia.

Joana cerrou os pulsos.

— Por que tanto interesse? O senhor nunca...

— Senhorita Joana! – dona Aurélia surgiu através da porta, para o alívio de Joana. – Estamos precisando de um conselho seu na cozinha.

Joana sorriu pela primeira vez, satisfeita por precisarem dela. Sem se dar o trabalho de despedir-se, ela apenas olhou para Alfredo mais uma vez, antes de desaparecer pelo corredor. O sorriso de Alfredo se desfez, dando lugar ao soturno olhar que encarava o caminho por onde Joana seguira. Alfredo só então notou que Ramos estava parado a poucos passos dele, o encarando com receio e curiosidade.

— O que está olhando, moleque? Volte a trabalhar.

Batendo sua bengala no chão, Alfredo seguiu para o escritório vazio de Manoel, onde sentou-se atrás da grande mesa, os pés sobre ela. Sentindo-se, enfim, dono de algo, ele tomou uma pena às mãos e encarou a pintura de Manoel de Castro pendurada na parede próxima a porta. Com o olhar escurecendo, ele mirou a ponta metálica na direção do homem pintado a sua frente.

Um estrondo e uma vozearia. Diversos barulhos chegaram aos ouvidos de Joana quando ela entrou na cozinha da biscoutaria. Apesar do movimento da biscoutaria não ser dos maiores por conta da chuva inesperada, a cozinha estava a todo vapor. Havia louças se esbarrando, massas eram sovadas, tudo isso dividindo espaço com Joseph Fretcher e sua invasão de metal. Joana brigou com seu coração inquieto quando colocou os olhos sobre ele e os funcionários que haviam se mobilizado para ajudá-lo a construir as máquinas. Ela sentiu outra pontada no coração.

Joseph apenas notou a presença de Joana quando, agachado ao chão da cozinha, viu a barra azul de seu vestido entrar em seu campo de visão. Ele ergueu lentamente o olhar, passando pelo amontoado de saias e bordados de arabescos, seguindo pela cintura comprimida, talvez se demorando um pouco mais no decote e parando em seu rosto. A expressão tranquila dela sempre surpreendia Joseph. Pigarreando para si mesmo, ele voltou a se ocupar com o trabalho de abrir um pedaço de metal.

A tarde passou lentamente, enquanto Joana decidia entre biscoitos de milho ou de leite, encomendava um único biscoito da raspa de mandioca para um cliente exigente e ajudava a trocar as toalhas das pequenas mesas. A cada funcionário que deixava a biscoutaria no final daquele dia, Joana encontrava algo a mais que precisava ser feito, até sobrar apenas ela e a incessante chuva lá fora. Então Joana sentou-se próximo a janela, torcendo para a chuva ao menos diminuir, com uma receita de biscoutos mineiros e uma xícara de café a sua frente.

— É claro que a senhorita ainda estaria aqui.

Joana ergueu o olhar para um Joseph de cabelos revoltos e braços cruzados, encostado ao batente da porta que dividia a biscoutaria. Ela moveu a xícara caprichosa aos lábios e apenas levantou uma sobrancelha para ele, uma tentativa de não começar uma conversa com aquele homem. Com aquele mesmo caderno nas mãos e o corpo livre do casaco que permaneceu pendente em seu braço, Joana notou as manchas de fuligem nos braços e que nem a expressão de cansaço conseguia esconder o olhar indecifrável que ele parecia lançar para tudo. Assistiu o movimento das mãos dele, atenta a uma estranha e evidente veia que surgia ali, desaparecendo sob a manga dobrada de sua camisa e... Por que ele estava caminhando na direção dela?

Nenhum dos dois ousou dizer coisa alguma quando Joseph sentou à frente de Joana. Na verdade, ela notou sem surpresa, Joseph nem parecia reparar na presença dela. Com o rosto voltado para a janela, ele se ocupou em observar o aguaceiro, mal sabia que assim como ele Joana desejava com ansiedade que acabasse depressa.

Como diria a boa cozinheira dona Aurélia, estar perto dele a aperreava. Joana permaneceu com a xícara entre as mãos, o olhar com uma mal disfarçada sutileza observava o homem a sua frente. Ela notou – mesmo dizendo a si mesma que não queria notar – as tênues curvas de seu perfil, desde a quase imperceptível em seu nariz até a sinuosidade do queixo encoberto por pelos. Joseph não cultuava o gosto por barbear e mantinha uma pequena barba muito bem aparada, assim como não possuía o físico franzino que predominava nos homens que conhecia. Ela se perguntou se era algo dos homens de Londres.

O caderno sendo colocado sobre a mesa, os compridos dedos roçando no queixo, os braços cruzando novamente. Joana tentou imaginar o que pensariam se os encontrassem ali, sozinhos. Desastre era a única palavra que lhe vinha a cabeça.

— Ainda tentando fazer seu pai mudar de ideia?

O som da voz dele despertou Joana, enquanto ela ponderava a pergunta dele. Tomada por uma franqueza que nem mesmo sabia de onde surgira, ela suspirou, depositando a xícara no pires.

— Meu pai não tem apreciado muito minha companhia.

Nenhuma expressão em resposta. Como ele conseguia esconder tanto o que sentia?

— Manoel de Castro frequentemente me questiona sobre a senhorita.

O dedo que percorria o livro parou sobre a palavra fermento.

— O que?

— Ele acha perigoso e inconveniente que fique próxima a mim.

— Perigoso para o senhor, é claro.

Joseph inclinou levemente a cabeça para um lado, um mínimo sorriso se desenrolando no canto da boca, como se prestes a responder àquilo, mas preferindo não fazê-lo. Joana sentiu um arrepio atingi-la até a nuca.

— Como já expliquei a ele, não tenho medo da senhorita. Assim como acredito que não tenha poder sobre mim o suficiente para conseguir me fazer mudar de ideia. E pelo visto, nem sobre o seu pai.

Joana apertou o tecido de sua saia entre os dedos.

— Vou me lembrar disso quando estiver jogando o senhor dentro do navio de volta para o lugar de onde veio, junto com a suas tralhas de ferro.

O menor traço de humor desapareceu do rosto de Joseph.

— Tralhas? – ele disse, o olhar baixando para o livro repousado no centro da mesa, tomando-lhe nas mãos. – O que é isso? As suas tralhas?

— Devolva-me isso.

Mas Joseph já estava de pé folheando o livro, quando Joana levantou e tentou alcançar o exemplar.

Ajuntão-se pedaços de canela, a casca de um limão picada...

O tom de zombaria que Joseph utilizava para ler a receita a sua frente enfurecia Joana.

— O senhor é um arrogante. Devolva-me.

Agarrando-lhe o braço, Joana finalmente apanhou o livro, no exato momento que um estrondo ecoou por toda a biscoutaria, a fazendo perceber que o estrondo de que ouvira mais cedo não vinha da cozinha, e sim dos céus. Mas, para sua infelicidade, ela não esperava se espantar tanto, a fazendo colidir seu ombro no de Joseph. O que ela esperava ainda menos era que Joseph deslizaria o braço em volta de sua cintura, a firmando antes que tropeçasse.

Joana ergueu o rosto, encontrando as duas tempestades azuis direcionadas para ela. O livro esquecido em mãos, a irregularidade da respiração, a proximidade gritante que acertara Joana como um golpe. Ela quase podia jurar que sentia o calor que emanava dele. Quase podia jurar que Joseph relutava em retirar o braço, que sua mão deslizava lentamente por suas costas, sentindo as amarras de seu vestido. Então, no meio daquele caos dentro de si, um pensamento aterrorizante lhe ocorreu. Era aquilo que significava se sentir atraída por alguém?

Não, não, não.

Pressionando a mão contra o peito de Joseph, Joana o empurrou. Ele a encarou como se acabasse de sair de um transe. O que acontecera ali? Joseph mal podia acreditar que estava prestes a seduzir aquela mulher. Quando fora a última vez que ele se sentira tão fora de controle?

Os dois se afastaram tanto quanto se sentiram lançados um para o outro, até o temporal se tornar chuvisco. Ele não ofereceu e ela não tentou impedi-lo, mas os dois seguiram em silêncio até o casarão. Joana virou-se para ele, erguendo o guarda-chuva que carregava.

— Leve.

— Não se preocupe. Eu caminho rápido.

— Leve o guarda-chuva. – para não ficar doente, Joana mordeu a língua.

Sabendo que de nada adiantava discutir com a obstinação dela, Joseph pegou o objeto, tentando não admitir para si mesmo que praticamente corria em direção ao sobrado. Já dentro do casarão, a distraída Joana foi recebida com lamentos e gritaria.

— Pelos céus, onde você estava menina? – Francisca correu até a ela, o semblante irritado e preocupado.

— Na biscoutaria.

— A essa hora e nessa chuva? Manoel, fale algo para sua filha. Está perdendo a cabeça se acha que pode ficar por aí sozinha.

Joana olhou para o pai sentado no sofá que nem notara. Manoel ergueu os olhos sob os óculos, evidente desinteresse.

— Eu falaria, se quisesse perder meu tempo.

Com o ressentimento quase palpável entre os dois, Joana se sentiu ainda mais extenuada, arrastando-se em direção as escadas.

— Para onde vai? Não vai comer?

— Estou sem fome.

Francisca arregalou os olhos na direção de Manoel, com uma mão repousando na cintura em indignação, a outra mão apontando para o caminho em que Joana não podia mais ser vista.

— Manoel, faça alguma coisa. Não me obrigue a trancar essa menina em casa.

— Mulher, essa foi a melhor ideia que você já teve em anos.

Francisca jogou uma almofada no marido.

Recém-banhada, Joana vestiu um camisão para dormir, trançou os fios longos, até mesmo brincou com o preguiçoso Dalton, prostrado aos pés de sua cama. Mas apenas quando assoprou a última vela e seus olhos encontraram a escuridão, uma única palavra lhe veio à cabeça.

Desastre.

*

Na manhã seguinte, não foi preciso o barulho das galinhas ou o insistente som de passos contra a madeira dos corredores para acordar Joana, pois o próprio vendaval entrara no quarto.

— Joana! Acorde, acorde! – Isabel quase gritava, saltando sobre ela na cama.

— Me deixe em paz, Isabel.

Joana tentou jogar uma almofada na irmã, mas Matilda lhe tomou antes que conseguisse.

— Acorde, Joana. Chegou uma carta para você e acho que vai gostar do que está escrito.

Desperta pela curiosidade, Joana apenas virou-se para as duas garotas ostentando enormes sorrisos. Ela nunca recebia cartas.

— Carta? Quem me mandou uma carta?

— Não é uma simples carta. É um convite, da esposa do barão de Tavares. O jantar anual da família Tavares e Garcia é uma honra, e você foi convidada.

Joana franziu o cenho, vasculhando na memória lembranças de Iolanda, do encontro das duas na biscoutaria e, é claro, de Carlota de Garcia.

— Eu não vou.

O sorriso de Isabel se desfez.

— É claro que vai.

— A filha dela estará lá e sabe que detesto aquela garota.

Voltando a sorrir como se Joana não tivesse dito coisa alguma de importante, Isabel sentou-se ao lado da irmã, com Matilda ocupando o outro lado.

— É só você ignorá-la. Não pode fazer essa desfeita, Joana.

— Vamos conseguir um vestido lindo de morrer.

Matilda bateu palmas, quase derrubando a carta que agora estava nas mãos de Joana, esta que procurava pelo nome das irmãs escrito ali.

— Vocês não estão chateadas que não foram convidadas?

— O que? Claro que não. – Matilda disse, sendo acompanhada por Isabel.

— Imagine só como vai ser divertido arrumarmos você. Recife, prepara-se para Joana de Castro.

Joana balançou a cabeça, não contendo mais o riso. Vendo aquelas duas tão animadas por uma coisa que provavelmente significava muito mais para elas do que para própria Joana, ela só conseguia sentir seu coração aquecer. Enlaçando os braços em torno das irmãs, ela as derrubou em um abraço.

— Você está nos sufocando, Joana.

Mas ela não se importava, pois estava sorrindo novamente. Não importava o tempo que passasse, com biscoutaria ou sem, com loucuras ou sem, Joana sempre as teria ali, para lhe acabar com o juízo.