Doce Promessa

14 Quatorze


Notas iniciais
Boa leitura!! ♥

Há poucos momentos na vida que nos enchem de paz. Para Joana, era entrar na biscoutaria, admirar os biscoitos serem feitos, a expressão de satisfação nos rostos dos clientes. Momentos que enlevam nossa alma, onde um sorriso de puro contentamento surge sem avisar.

Era esse mesmo sorriso que estava impregnado em seus lábios, enquanto ela permanecia deitada ao lado de Joseph naquele sofá que mal os cabia, obrigando suas pernas a permanecerem entrelaçadas. Um momento único de completa paz só por estar ao lado dele e que deveria deixa-la assustada, mas que apenas fazia seu sorriso aumentar a cada minuto. Preguiçosamente, Joana piscou e voltou seu rosto para o homem ao seu lado. Seu olhar percorreu a camisa branca aberta que revelava os tênues pelos em seu peito e o amontoado de músculos, que a surpreendeu e que Joana ousou tocar apenas alguns minutos atrás. Navegou pelos contornos dos ombros e pescoço, para encontrar em seu rosto a mesma expressão de tranquilidade e o olhar direcionado para o teto do escritório, assim como ela fazia segundos antes. O braço de Joseph apoiava a cabeça dela por longos minutos e Joana se questionou se a posição o estava incomodando, quando ele soltou um longo suspiro.

Então os dedos de Joseph começaram a deslizar sutil e lentamente pelo ombro nu de Joana, cessando suas dúvidas. O vestido embolado na cintura exibia o espartilho e Joana nunca se sentira tão exposta. Mas, de alguma forma, ela se sentia bem com isso. Se sentia mais que bem, pensou com um sorriso, ao lembrar-se do olhar sedento que Joseph lançara em sua direção. Mesmo perdida e completamente rendida a ele, uma vozinha começou a cutucar em sua mente, quando as palavras “acho que estamos indo rápido demais” escaparam pelos lábios que Joseph reivindicava para si. Ele não disse nada naquele momento, somente a olhou nos olhos e Joana soube que estava tudo bem, porque ele respeitava sua decisão. Não passaria um segundo sequer iludindo-se com a perspectiva de que ele a esperaria. Estava ligada à Joseph, mas apesar disso algo precisava ser construído ali, antes que ela conseguisse entregar-se daquela forma. Era tudo que tinha para oferecer agora.

— Por que está sorrindo tanto?

A voz de Joseph a despertou para o fato de que agora ele estava a encarando. Sua expressão confusa aumentou o sorriso de Joana, que aconchegou sua cabeça no ombro dele. A mão dela deslizou sobre o abdômen, seguindo o trajeto até o peito e sendo detida por Joseph logo acima de seu coração. Joana encarou os dedos que começavam a se entrelaçar, à vontade quando o braço de Joseph a envolveu, apertando-a contra si.

— Não consigo imaginar de que outra forma estaria.

Fora da visão de Joana, ele sorria ligeiramente. Não lembrava de algum dia em que houvesse imaginado estar tão tranquilo ao lado de alguém. E lá estava ele, com Joana agarrada a si e seus braços certificando-se de que ela não escaparia, escondidos pelas paredes daquele escritório. Não havia outro lugar onde gostaria de estar e sua mente descansava em concordância, derivando ao sono.

— Ainda não me contou o motivo do seu bom humor. – Joana quis saber, a voz abafada e um polegar inquieto deslizando sobre os dedos de Joseph.

— De alguma forma... – ele expirou, após uma longa pausa. – Eu sabia que ficaríamos bem hoje.

Aquilo rebentou mais um sorriso no rosto de Joana, que logo se transformou em uma pequena risada enquanto erguia-se para encarar Joseph, uma sobrancelha erguida.

— Tão presunçoso.

— Esperançoso. Além disso...

Joana esperou e esperou, mas agora Joseph estava distraído analisando os contornos do rosto dela. Ah, o que ele gostaria de fazer com ela... Suspirou, sem entender porque ainda conversavam, quando havia tantas coisas que Joseph gostaria de expressar e que não precisavam de palavras.

— Além disso... – Joana instigou.

— E além disso, Olivia está grávida.

Joana saltou, maravilhada, e a estupefação em seu rosto impediu Joseph de conter uma risada.

— É mesmo?

— Sim. Era isso que dizia a carta.

Isso, e o longo sermão que Olivia escrevera, o desaprovando por ter se instalado em Recife sem comunicá-la antes. Joseph apenas desejou que Olivia mantivesse essa informação em segredo. A última coisa que ele precisava era que Edward Fretcher soubesse que o filho finalmente decidira desaparecer da Inglaterra. Afastando os pensamentos desagradáveis, Joseph percebeu que Joana ainda falava sem parar.

— ...Quer dizer, era de se esperar, mas ainda assim. Você vai ser... tio. – então Joana se desmanchou em uma risada. – Isso era uma coisa que eu gostaria de ver.

A carranca de Joseph estava de volta.

— O que quer dizer com isso?

— Apenas estou tentando te imaginar com uma criança. Espero que não a assuste com seu mau humor.

Com um resmungo, Joseph remexeu-se movendo Joana, que se apoiava em seus joelhos.

— Eu sei lidar com crianças. Convivo com o Pedro.

— Pedro não é uma criança.

— Não sei se posso concordar com isso.

Joana se desfez em mais uma risada, um tapa travesso sendo transferido na perna de Joseph. Então seu sorriso enfraqueceu pouco a pouco, à medida que tentava descobrir o que dizer. Quase pedira que Joseph reservasse um espaço em sua carta para informar a sua irmã que ela lhe desejava o melhor e que o bebê viesse com muita saúde, mas no que ela estava pensando?! Isso faria com que Joseph tivesse que mencionar Joana em sua carta. Não conseguia imaginar como Joseph seria capaz de se referir à ela, estava enlouquecendo e iludindo-se se acreditasse que o relacionamento dos dois já houvesse atingido tão longe.

Joana devolveu a efervescência do olhar que Joseph lhe dava naquele momento. Ele a estudava, enquanto ela permanecia perdida em devaneios. Ele escreveria para a irmã? Iria visita-la? O que isso poderia significar para sua permanência em Recife?

— Tudo bem? – Joseph a trouxe de volta para o presente.

Mordendo um lábio para conter a enxurrada de cobranças sem sentidos que sua mente queria fazer, Joana forçou um pequeno sorriso.

— Sim. Está ficando tarde, eu preciso ir.

Já de pé, Joana se preparava para organizar a bagunça de seu vestido, quando Joseph lhe agarrou as saias, a fazendo sentar bruscamente.

— Joseph!

— Deixe-me. – ele pediu, agora posicionado atrás de Joana e com suas mãos procurando pelas partes soltas do vestido.

Em uma lentidão agoniante, Joseph a ajudou, deslizando o vestido até cobri-la nos ombros. A respiração dele ricocheteava no pescoço dela, fazendo o coração de Joana pular no peito e arrepios percorrem sua pele. Quando a sensação fora substituída pelo encontro dos lábios dele na linha entre seu ombro e pescoço, ela prendeu o ar. Ele a beijou em um ponto atrás da orelha e Joana definitivamente esqueceu como respirava.

Com uma demora ainda maior, Joseph fechava os botões do vestido, um por um, até se interromper subitamente. Fora pego de surpresa ao perceber que era primeira vez que via Joana com os cabelos soltos e ela virou-se para encontrar o espanto e admiração em seu rosto. Os cabelos escuros quase atingiam a cintura, derramando-se pelas costas em ondas revoltas. Ela o tirava o fôlego.

— Por favor, nunca mais prenda os cabelos.

Com uma risada, Joana já se afastava, as mãos ocupando-se com o que Joseph não queria que fizesse.

— A senhora Francisca não me deixaria passar da porta.

Pronta para partir, Joana se deteve para observar Joseph arrumar a si próprio. Assistiu o modo como seus dedos habilmente abotoavam a camisa branca, como vestia o colete e jogava o casaco sobre os ombros. Sem esperar para descobrir a despedida, Joana lançou-se na direção dele, enlaçando seus braços no pescoço de Joseph e o surpreendendo com um beijo. Lhe agarrou a nuca, com as mãos dele reclamando por ela, seduzindo e inebriando o que ele tocava com elas e com os lábios e que já se tornava dele. Beijaram-se com desespero, como se aquela fosse a última a vez e até desfazer o último fio de saudade que definhava entre os dois. E quando Joseph a deixou na entrada do casarão, não houve cobranças ou promessas. Estavam entregues e, de alguma forma, encontrariam um caminho de volta um para o outro.

Naquele começo de noite, o casarão estava completamente iluminado, o mesmo tanto que estava silencioso. A passos cautelosos, Joana interrompeu-se logo que passou por um espelho disposto no corredor. Encarou seu reflexo e não conteve um sorriso ao notar as bochechas avermelhadas e seu penteado, antes tão minuciosamente preso, agora dava vida à rebeldes fios soltos. Estava uma bagunça, em sua cabeça e em seu coração. Mas ainda assim, se sentia tão animada, feliz mesmo, e percorreu o corredor com o mesmo sorriso bobo atado ao rosto. Sorriso que se desmanchou em pavor no mesmo segundo ao notar Manoel sentado ao sofá, um papel em mãos, os óculos pendendo na ponta do nariz e um olhar desconfiado em sua direção.

— Posso saber onde estava?

Por que seu coração estava tão disparado? Joana levou a mão ao peito, presa ao chão na indecisão de dar meia volta e trancar-se no quarto ou se aproximar do pai. A segunda opção lhe parecia a mais sensata. E perigosa.

— Na biscoutaria, como sempre. – falou, tentando parecer despreocupada e sentando-se na poltrona ao lado do sofá.

Manoel apenas bufou por um momento, como se esperasse pela resposta, mesmo que ela não o satisfizesse.

— Sabe que não tenho nenhum interesse em ficar de olho no que você e suas irmãs fazem, contanto que não me traga problemas. Mas hoje, em meio às reclamações histéricas de sua mãe, percebi uma coisa. – Manoel fez uma pausa, abaixando o papel em direção ao colo e encontrando o olhar hesitante de Joana. – Ultimamente, quando você está na biscoutaria, sempre volta tarde. É a última a sair sempre. Tem alguma coisa que você queira me contar?

Sim, pai. Estou me apaixonando pelo inglês que você colocou na minha vida e que eu tanto fui contra. Inesperado, não é?!

O que?

Joana arregalou os olhos. Que tipo de pensamentos eram aqueles? É claro que não diria isso. Nem mesmo sabia se algum dia poderia dizer coisa parecida. Não quando seu futuro com Joseph era tão incerto, quando ele podia a qualquer momento juntar suas coisas e seguir seu caminho para o lugar de onde veio. De que adiantaria fazer do que estava acontecendo entre Joseph e ela conhecimento da sua família? Só faria com que Manoel obrigasse os dois a se casarem e se Joseph não aceitasse e partisse, Joana ficaria marcada para sempre. No entanto, não era como se ela já estivesse marcada, não é mesmo?!

— O que foi?

— O que?

— Por que arregalou os olhos dessa maneira?

— Ah... Bem... Fome... Eu... – balbuciou. Matilda estava certa. Ela era péssima em mentir e detestava ter que fazê-lo. – Não precisa se preocupar pai, está tudo bem. Não estou fazendo nada que trará problemas para o senhor. Apenas, o senhor sabe... Quando estou na biscoutaria, alguma coisa sempre acaba me prendendo lá.

Ou alguém. Joana apertou as saias entre os dedos inquietos, enquanto levantava-se.

— Então se me der licença... – com um fiapo de voz, ela fez uma pequena reverência antes de quase saltar em direção à porta.

Mas Manoel ainda não estava pronto para deixa-la.

— Eu ainda não acabei.

Obediente e pacientemente, Joana esperou.

— Realmente desistiu de trabalhar para mim?

Então toda a agonia e apreensão de Joana em relação ao assunto anterior desapareceram por um segundo. Ela foi avassalada pelas inquietações que permaneceram esquecidas naquela noite.

— Achei que era o que você mais queria. – Manoel voltou a falar, despertando-a.

— Sim, é. Apenas eu...

— Apenas você precisa deixar de ser teimosa. – ele a interrompeu. – Uma única vez na sua vida. Você ama aquele lugar, Joana?

— O senhor sabe muito bem que sim.

— Quando amamos algo, queremos o melhor para ela. É o que eu estou fazendo.

Joana abraçou a si mesma, as mãos descendo e subindo pelos braços enquanto ela, em pura apreensão, começava a dar passos pelo salão. Onde seu pai queria chegar com aquela conversa? Quando ela sentiria que chegara a algum lugar, no meio de toda essa história?

— Não se trata de querer o melhor ou pior, papai. Se trata do que realmente somos, do que nos faz ser como somos. Do que nos levou até onde chegamos. É a essência daquele lugar, que sinto estar escapando entre meus dedos e não consigo fazer nada.

Ela parou novamente diante de Manoel, em uma distância suficiente para que pudessem encarar os olhos um do outro. Olhar que ele não sustentou por muito tempo, o desviando para retirar os óculos e massagear as têmporas, em exaustão. Lidar com Joana sempre fora difícil. Desde criança, ela sempre tivera opinião forte sobre tudo. Sobre o que brincaria ou o que comeria. A família até mesmo enfrentara um enorme estardalhaço quando, aos 9 anos, Joana assistira pela primeira vez um escravo ser castigado pelo senhor do engenho Estância e correra até a cena aos gritos e repreensões. Ela crescera com um forte senso de si e agarrada às suas próprias convicções, como estava naquele momento, o fitando com a mesma força que ele dirigia para ela. Era cansativo lidar com Joana, mas ela ainda era a sua filha. A mesma que por muitos anos sempre o recebia com um abraço apertado em seu braço. Onde havia ido parar aqueles abraços, afinal? Manoel resmungou um pouco.

E, com um suspiro, ele finalmente voltou a falar.

— Assim como nós crescemos, as coisas também tem que crescer. Você fala sobre essência, eu estou falando sobre evolução.

— Eu entendo suas ambições, pai. Mas não compartilho delas. E sim, sou teimosa. Teimosa o suficiente para não aceita-las.

— Não tem nada que você possa fazer, Joana. A biscoutaria vai crescer ainda mais de agora em diante, você querendo ou não. As máquinas vão continuar lá. Vamos alcançar São Paulo e Rio de Janeiro também. Então decida-se agora. Você vai continuar ou deixa-la?

Confusa, Joana se aproximou alguns passos.

— Espera... O que disse sobre São Paulo e Rio de Janeiro?

— Ah, sim. Fechamos contratos com fornecedores nas duas províncias, graças ao Fretcher.

Com a testa franzida, Joana não disse nada. Joseph esquecera-se de mencionar aquilo à ela? O que ele pretendia com isso?

— Decida-se, Joana.

Com o coração apertado e sentindo-se num beco sem saída, não era como se ela possuísse algo para realmente decidir. Só havia uma única coisa que sempre seria verdadeira.

— Eu jamais deixarei aquele lugar.

— Ótimo. A espero na segunda-feira, então. A propósito, ficará responsável também por confiscar as mercadorias que vamos enviar para as províncias. E sua mãe está a esperando na cozinha.

Voltando sua atenção para o papel em mãos, Manoel encerrou a conversa. Joana forçou um sorriso, seguindo seu caminho pelo corredor, agora aturdida em preocupações.

— Finalmente! – a voz branda de Francisca a alcançou, assim como a visão de sua mãe e Prazeres, empoleiradas no balcão da cozinha produzindo sabão.

Sua mãe estava visivelmente mais tranquila ao pôr os olhos em Joana, mas não parecia furiosa, como por um momento ela esperou encontrar. Durante um instante, Francisca ficou tentada a retirar informações de Joana, mas desistiu assim que notou a expressão distraída no rosto da filha.

— Sirva-se. – ela optou por dizer, apontando para as panelas dispostas na mesa.

E assim Joana o fez, silenciosamente. Entre uma mordida e outra do peixe, observava as expressões de sua mãe para a mulher ao seu lado. Não fazia ideia de por quanto tempo conseguiria manter Joseph em segredo ou até quando conseguiria encontrar-se com ele sem que ninguém soubesse. Enlouqueceria dessa forma.

— Desculpe-me, mãe. – Joana exprimiu, após longos minutos.

— Pelo que está se desculpando?

— Por deixa-la sempre preocupada.

Voltand0-se na direção de Joana, que naquele momento embebia sua louça suja em água, Francisca sorriu abertamente. – Sempre vou me preocupar com você, Joana. Não há outra maneira.

Joana retribuiu o sorriso que até mesmo estava em Prazeres, demorando-se a notar que a expressão de Francisca se transformara em perplexidade.

— Espere um instante... O que houve com seu cabelo?

Instintivamente, Joana levou as mãos aos cabelos, seu sorriso convertendo-se em uma risada nervosa. Abraçando as mulheres, ela transferiu um beijo no rosto das duas.

— Senhoras. Boa noite.

— Joana!

Ela reclamou, mas Joana já corria escada acima, longe de ser vista e deixando uma Francisca atorada e Prazeres aos risos. Joana desejava desesperadamente um longo banho e sua cama, mas algo lhe chamou a atenção enquanto marchava em direção ao seu quarto. Risinhos vindo do quarto que Isabel e Matilda dividiam chegaram até seus ouvidos, a obrigando a parar e, com leves batidas à porta, encontrar as duas sentadas nas próprias camas, imersas em alguma conversa.

— Joana! – Matilda entusiasmou ao perceber a irmã mais velha. – Estávamos mesmo falando de... Ei!

Isabel atirara uma almofada na direção de Matilda, a calando. Joana, que observava tudo apoiada à penteadeira, ergueu uma sobrancelha para Isabel.

— Estávamos falando sobre assuntos aleatórios. O que houve? – ela rapidamente desconversou. – Sentiu falta de dormir aqui, com nós duas?

— O que? Não! Sinto arrepios só de pensar.

Isabel revirou os olhos, mas as três tinham sorrisos nos rostos.

— Tudo bem. Continuem a conversa. – Joana falou, depois de atrevidamente empurrar Isabel para conseguir espaço e sentar-se ao seu lado.

As duas irmãs trocaram olhares diante do pedido de Joana. É claro que ela se chatearia se Isabel continuasse o que estava confidenciando para Matilda.

— Ah, não. Já terminamos.

— Eu sei que estavam falando de mim. Vão mesmo continuar a fazê-lo pelas minhas costas?

O sorriso de Isabel desapareceu, tomada por um sentimento de culpa.

— Eu vi o modo como você olhava para o senhor Fretcher ontem, no jantar.

Joana olhou para as irmãs, uma de cada vez. Matilda sorria levemente, o queixo apoiado em seu joelho demonstrava todo seu interesse no assunto. Isabel não voltou a sorrir, seu olhar direcionado para Joana parecia pedir desculpas por ter visto, mas sem poder desfazê-lo e com a mente criando todo o tipo de hipóteses. Ela deveria contar? Por algum motivo, Joana desejava que mais ninguém soubesse. Não ainda.

— Você ainda o detesta? – Isabel incitou quando Joana nada disse.

— Não. – foi o sussurro de Joana. De nada adiantava mentir agora, se ela mesma duvidava que voltaria a sentir-se como antes. Ficaria claro para qualquer um, em apenas um segundo.

Mais nenhuma palavra foi dita por algum tempo. As três permanecerem quietas, contemplativas com suas próprias ideias.

— Bem, está ficando tarde. Preciso me banhar antes que pegue um resfriado. – Joana levantou-se, já a caminho da porta. – E vocês duas, parem de conversar besteiras.

— Besteiras, é claro...— a provocação de Isabel foi seguida de mais um de seus sorrisos astuciosos. – Você pode dormir aqui, se quiser.

A resposta de Joana chegou através de um protesto vindo do corredor.

— Nem pensar!

Mas, depois de vestida, Joana acabou embrenhando-se na cama de Matilda, ambas rindo da ausência de espaço e as três adormeceram entre cochichos e risos, fazendo Joana se esquecer por um momento suas preocupações.

*

O aroma de biscoitos assando impregnava o ar na tarde da segunda-feira, despertando apetites e atiçando o inquieto focinho de Dalton. O cachorro farejava o caminho até a cozinha, passando pelos clientes que ainda sobravam e os funcionários ansiosos pelo fim do dia. Ainda assim, ao chegar à cozinha, Dalton pareceu encontrar algo que lhe chamou mais atenção. Correu apressado até os pés de Joseph, provocando um alvoroço que motivou uma repreensão de Aurélia.

O fila brasileiro apenas sossegou quando Joseph inclinara-se para lhe acariciar as orelhas, os olhos pardos do animal fixos intensamente nos seus.

— O que você está fazendo aqui?

Dalton examinou as mãos de Joseph, em seguida pondo a língua para fora e aguardando por mais afagos em sua cabeça.

— Isso quer dizer que sua dona está por perto? – Joseph segredou, longe dos ouvidos alheios.

Ele quase sorrira ao lembrar as poucas vezes em que pusera os olhos em Joana naquele dia. Ambos encaravam-se furtivamente, mal contendo a satisfação em suas expressões, ansiedade pura pela perspectiva de serem pegos e pelo momento em que poderiam ficar juntos, longe de todos.

Após Dalton cessar seu desejo por atenção e seguir Aurélia com intenções claras, Joseph ergueu o rosto para o momento em que Alfredo entrava na cozinha. Os dois homens estudaram um ao outro rudemente, antes de Alfredo engatar em um sorriso pretensioso.

— Aurélia, queria pedir que prepare a melhor caixa de biscoitos de limão para a senhorita Joana.

Alfredo não poderia ser mais óbvio, Joseph constatou, percebendo a expressão de confusão no rosto de Aurélia, que mesmo assim prontamente aceitou o pedido.

— A senhorita Joana os pediu? – ela quis saber.

— Não. São um presente.

Joseph precisou virar-se e continuar a organizar suas coisas, para evitar bufar ali mesmo. Ele nem mesmo percebera que trincava a mandíbula, tamanha irritação que Alfredo lhe causava. Jogando seu caderno dentro do baú com força desnecessária, Joseph não conteve a provocação que sairia da sua boca em seguida.

— Sem criatividade, Alfredo? A senhorita Joana tem acessos a esses biscoitos a hora que ela desejar.

— Não me importa se ela os tem com facilidade. O que importa é que esses a lembraram de mim.

— É muita presunção.

Soltando uma risada incrédula, Alfredo começou a se aproximar de Joseph a passos lentos.

— E o que isso tem a ver com você, Fretcher?

— Parem vocês dois! O que está acontecendo aqui? – Aurélia rapidamente interviu, pressionando a caixa laranja contra o peito de Alfredo. – Pegue-os e vá.

Sem deixar Joseph fugir de sua linha de visão, Alfredo deixou a cozinha, mas não antes de manear a cabeça na direção dele, deixando algum recado para trás que Joseph desejava muito fazê-lo engolir. Algo em Alfredo sempre o incomodara e o fato de que ele, tão descaradamente, tentava ganhar a atenção de Joana o deixava louco. Fique longe dela, ele queria rosnar, mas tudo que podia fazer era assistir Alfredo desaparecer pelo corredor, assim como pouco a pouco todos deixavam o lugar.

O fim do dia chegara e Joseph estava pronto para partir rumo ao sobrado, derramar-se no sofá e investigar do que se tratava as inúmeras cartas de antigos clientes europeus que ele estava recebendo. Quem havia compartilhado da informação de seu paradeiro? Olivia? Ah, ele até mesmo possuía um sermão pronto.

O impedindo de concluir sua vontade, Dalton entrara mais uma vez na cozinha, ainda mais esbaforido que antes, se possível. Agarrara a calça de Joseph com os dentes, o puxando incansavelmente em direção à porta.

— O que deu em você, garoto?

Foi então que Joseph ouviu a sincronia de vozes exaltadas vindo do escritório, para onde ele seguiu a passos duros e apressados. Atrás da mesa de madeira, o olhar impaciente de Manoel enfrentava uma Joana perplexa.

— Nem pense nisso, papai.

— Já está feito, Joana.

— É do Bento que estamos falando. – Joana queixou-se.

— Eu sei muito bem de quem estamos falando. Mas estou decidido e não voltarei atrás. A partir de hoje e até nos ajustarmos à nova realidade, irei reter gastos nessa fábrica. Bento é um bom funcionário, mas se agora tem alguém que faça o trabalho dele, infelizmente não preciso mais de seus serviços.

— Alguém ou algo?

O que Joana insinuava com aquele pergunta ficou claro para todos no lugar e Joseph remexeu-se desconfortável em seu lugar à porta. Ele ainda não havia sido notado e acreditou que continuou assim até mesmo quando Joana passou por ele como uma tempestade. Joseph estava pronto para segui-la, quando a voz de Alfredo chegou até ele.

— Posso conversar com ela, se me permitir.

Manoel apenas fez um movimento com a mão, visivelmente cansado. Joseph cerrou os punhos em revolta quando Alfredo levantou-se da cadeira que ocupara e o fulminou com o olhar quando o homem passou por ele, o desafiando da mesma forma. A imagem de Alfredo e Joana sozinhos naquele momento serpenteava em sua mente, elevando sua irritação até obriga-lo a dar passos em direção ao caminho que os dois seguiram.

— Algum problema, Fretcher? – Manoel o deteve, seu olhar demonstrando claramente que ele esperava que Joseph ficasse.

— Não.

— Então sente-se. Vamos conversar.

Dividido, Joseph não se moveu. Precisava tirar Alfredo de perto de Joana. Precisava ir atrás dela. Entender o que estava acontecendo. Conforta-la, escuta-la, o que fosse preciso.

Como, pelos céus, ele manteria aquilo em segredo?