Notas iniciais
Enfim, aconteceu haha Boa leitura! ♥

A noite parecia mais fria que o comum. Não havia tantas pessoas na Rua do Imperador, como de costume, muito menos encontraram grande comoção quando viraram na Rua do Livramento. Tudo parecia estranhamente calmo, para um começo de noite que mais parecia um infortúnio para Joana. Pensar em Pedro, desaparecido por um dia inteiro, lhe causava embrulho no estômago. Seu contato com ele se limitava as poucas vezes em que os pais dos dois trocavam uma ou duas palavras na estalagem, mas Joana sabia que, como qualquer garoto da idade dele, era provável que Pedro conhecesse cada minúsculo lugar de Recife. Não era possível que se perdera no caminho, era?

O que só tornava tudo muito pior, Joana pensou, enquanto olhava um cavalo preso ao meio-fio, de repente se sentindo mal pelo animal. As ruas daquela cidade, tranquilas ou agitadas, não poderiam ser consideradas exatamente seguras para um garoto sozinho. Só de imaginar todos os aproveitadores, os...

— Não estou gostando disso.

O cochicho de Aurélia chegou aos ouvidos de Joana, interrompendo seu raciocínio. Com os braços entrelaçados, as duas caminhavam juntas, tentando seguir o ritmo de Joseph.

— Eu também não. Vamos torcer para que ele esteja bem.

Joana não sussurrava como a mulher a seu lado e a única resposta que recebera fora um resmungo de Joseph. Encarando as costas do homem diante dela, Joana mordeu o lábio, tentando não sorrir. O mau humor dele talvez a divertisse, afinal.

Ela não fazia ideia de para onde Joseph estava seguindo, mas não ousaria perguntar, sabendo que seria ignorada mais uma vez. Dividida entre a raiva e a preocupação, Joana desviou o olhar. Desejava não precisar falar com o inglês nunca mais. Esgueirando-se por aí para se aventurar com atrizes... Como ela nunca pensou que ele seria assim? Na verdade, percebeu, nunca havia de fato parado para pensar em como Joseph Fretcher realmente era, com exceção dos momentos em que tentava adivinhar o que poderia levar um homem como aquele a atravessar um oceano para trabalhar em uma fábrica de biscoitos.

Seu olhar voltou para Joseph.

Joana analisou as mãos dele, punhos cerrados. Tentou imaginar quantos caminhos elas teriam percorrido, quantas peles teria tocado. O olhar dele provocava tanto quanto aquelas mãos nas outras também? Ela poderia apostar que sim.

— A senhorita está bem?

Confusa, Joana olhou para a mulher ao seu lado.

— Estou.

— Está resmungando sozinha.

Joana sentiu as bochechas começaram a esquentar. Ela não tinha notado que haviam parado, quando Joseph colocou a mão sobre uma grande porta de madeira e virou-se para elas, tomando-lhe as palavras antes que Joana pudesse responder.

— Nunca percebeu que essa aí não bate bem da cabeça?

Joana bufou.

— Ignore-o.

Mas Joseph já estava longe de ser visto, desaparecendo dentro do estabelecimento que Joana rapidamente reconheceu como um bar. A porta aberta permitia que o som de conversas altas, risadas e tinir de garrafas chegassem a elas. Espiando com apreensão, Aurélia voltou a inclinar-se na direção de Joana.

— O que exatamente está acontecendo entre vocês? – a mulher sussurrou um pouco mais, se possível. – A senhorita o bateu.

Subitamente, Joana percebeu que estava grata por ser Aurélia quem presenciou isso. Poderia imaginar todo o alarde que Manoel causaria se soubesse.

— Nem saberia por onde começar, Aurélia.

O adornamento do lugar mal podia ser notado no meio do aglomerado de pessoas. Havia tantos homens, bebendo e conversando em níveis estridentes, perdidos entre mesas e cadeiras de madeira de bordo, servidos por um enorme balcão. A medida que Joana percorria o caminho entre eles, desviando de um ou outro, ela podia sentir os olhares a percorrendo. Não daria dois dias para que a notícia chegasse aos ouvidos de seu pai, mas aquilo era algo com o qual ela teria que lidar depois.

Encontraram Joseph diante do balcão, parecendo ainda mais furioso enquanto tentava retirar informações do homem velho e barbudo atrás dele.

— Um garoto, dessa altura... – Joseph indicou um ponto que pouco se aproximava de seu ombro. – Cabelos e olhos escuros, magricela. Estivemos aqui ontem à noite, como é possível que o senhor não se lembre?

Quando percebeu que Joseph já rosnava entredentes, Joana se preocupou um pouco mais. Aquele lugar estava cheio de homens não em seu juízo perfeito e a última coisa que eles precisavam eram arranjar uma confusão.

— Joseph...

O barbudo exibiu um sorriso convencido de dentes amarelados, os olhos finalmente encontrando Joana.

— Ora... Olá, gracinha.

O olhar dele percorreu Joseph e uma apavorada Aurélia atrás, se demorando em Joana. Contando até três mentalmente, ela tentou conter a repulsa.

— O que vocês vão querer?

— O garoto. O senhor o viu aqui hoje?

O homem fez um movimento de desdém com os ombros. Se sabia, não estava disposto a se meter naquilo.

— Talvez queira perguntar a um desses homens, que provavelmente estão aqui a semana toda.

E começou a retirar-se por uma porta atrás do balcão, não antes de deixar uma piscadela para Joana. Aquilo atingiu a raiva de Joseph como um aguilhão, o fazendo dar um ameaçador passo na direção do homem e que fora impedido pela mão de Joana sobre seu peito. Os olhares se encontraram por um breve segundo, e então os três voltaram-se para as pessoas atrás de si. A algazarra estava maior, se possível, e ninguém parecia interessado nos três estranhos.

— Como vamos conseguir a atenção desses homens? – Aurélia perguntou, abraçada ao seu xale de seda estampado.

— Vou dar um jeito nisso.

A resposta foi uma risada silenciosa de Joseph, provocando um olhar desconfiado de Joana para ele.

— Como a senhorita pretende fazer isso?

— Assista e aprenda.

Decidida a acabar com aquilo de uma vez, Joana avançou até a única cadeira vazia em uma mesa localizada bem no centro no bar. Puxando a cadeira, ela a subiu, ficando numa altura suficiente para ser vista por todos. E então, com os dedos entre os lábios, deu o mesmo assobio que utilizava para chamar Dalton, alto o suficiente para calar todos no mesmo segundo.

Aurélia tentava esconder o riso atrás de seu xale e Joseph estava atônito, enquanto se aproximava de Joana.

— Você enlouqueceu?

Mas Joana apenas o ignorou, colocando as mão sobre a cintura.

— Boa noite, senhores. Algum de vocês viu por aqui um garoto de 14 anos, cabelos escuros e magro?

Com uma falsa paciência, Joana esperou e esperou, diante do silêncio dos homens, quebrado apenas por um homem que gritara na direção dela.

— Desça aqui, minha linda, e podemos conversar melhor.

Ao seu lado, Joseph bufou no mesmo momento em que Joana revirou os olhos e voltou-se para o dono daquela frase, que nem de longe era tão velho quanto os outros.

— Se o senhor não tem nenhuma informação a acrescentar, sugiro que fique calado.

Uma onda de risadas tomou o lugar e Joana assistiu o homem lançar um olhar raivoso para ela, que prontamente desconsiderou. Todos a olhavam, intrigados, fascinados e até confusos ao reconheceram a filha de Manoel de Castro.

— E então? Alguém?

— Eu não vi. – um disse.

— Também não, senhorita.

Um homem no fundo cruzou os braços contra o peito, o olhar incisivo para Joseph.

— Eu vi o garoto, ontem à noite. Estava com o senhor, não é?

— Sim. O viu aqui hoje?

— Não. Mas ele voltou aqui pouco tempo depois que foram embora. Estava conversando com a senhorita Damico.

Joseph passou a palma da mão sobre a testa para retirar fios de cabelo que começavam a irrita-lo, dividido entre xingar e socar alguém para livrar-se daquela raiva. Ah, mas quando ele colocasse as mãos em Pedro...

— E você viu para onde ele foi depois?

— Só sei que ele a seguiu. Um cachorrinho na barra da saia dela, como todos os outros.

O homem ergueu o copo cheio de líquido cor de âmbar na direção deles, dando um bom gole. Sua ajuda terminava ali.

Joana suspirou, cansada e impaciente.

— Tudo bem, algum de vocês sabe onde essa mulher está?

Houve algum burburinho antes que alguém de fato falasse.

— Teatro de Santa Isabel. Ela vai se apresentar no mais tardar hoje.

— Muito obrigada.

Joana já se preparava para virar-se, quando outro gritou.

— Agora que já a ajudamos, talvez queira retribuir o favor.

Com a malícia colocada na frase, Joana perdeu as estribeiras.

— Olha aqui, seu idiota, o senhor...

— Já chega. Desça daí.

Joseph agarrou o braço de Joana, a forçando a descer da cadeira, e apenas sossegou quando conseguira arrasta-la para fora do bar.

— Viu só como se fazem as coisas? – Joana sorria, realmente satisfeita que, apenas dos repugnantes comentários que fora obrigada a ouvir, finalmente conseguiram alguma informação sobre Pedro.

— A única coisa que vi foi um bando de idiotas olhando para um provocante troféu de saias.

— Você parece muito irritado para alguém que não se preocupa comigo.

Tendo certeza que perderia a cabeça se continuasse ali, Joseph soltou o braço dela abruptamente, seguindo pela rua mesmo que não fizesse a menor ideia de onde ficava aquele teatro.

— Senhor... É para o outro lado. – Aurélia falou, em um tom suficiente para ser ouvida por ele.

Joseph deu meia volta e, resmungando, passou por elas como uma tempestade raivosa. Joana e Aurélia apenas se olharam, compartilhando um sorriso.

Diversas pessoas, vestidas em cetim e camelão, já ocupavam a frente do teatro. Joana pode apreciar o interior envolvido na luz das velas, através das três portas abertas. Só estivera no lugar duas vezes, mas sempre se impressionava com a arquitetura. Alimentado pela procura e anseio por entretenimento, o elegante teatro parecia abraçar as pessoas que por lá circulavam ou apreciavam um espetáculo, em seus detalhes dourados e vermelho vibrante.

— Por aqui.

Aurélia, que os guiava, puxou o braço de Joana quando essa não notou que seguiriam por um caminho diferente. Percorreram os arredores do teatro, adentrando por uma porta aos fundos, provavelmente exclusiva para artistas e funcionários. O longo e mal iluminado corredor estava preenchido por vozes distantes e um homem que passava apressado. Aurélia correu para se aproximar.

— Senhor, por favor. Preciso de uma informação sobre...

O homem a olhou com expressão azeda.

— A senhora não pode ficar aqui.

E partiu, deixando para trás uma Aurélia que começava a ficar aflita.

— Deixa, Aurélia, eu vou. – Joana se prontificou, quando Joseph a segurou.

— Não, você fica. Eu vou.

— Vocês dois ficam. – a força na voz da mulher de cabelos quase totalmente brancos os calou. – Estão com a cabeça quente demais e algumas coisas precisam de calma para serem resolvidas. Me esperem aqui. Eu volto em um instante.

Aurélia deu três passos em direção ao fim do corredor e então virou-se novamente.

— Ah! E tentem não serem vistos aqui sozinhos. Já temos complicações o suficiente.

Quando ela despareceu de vista, Joana encostou-se na parede atrás de si, braços cruzados contra o peito e um olhar mal-humorado na direção de Joseph.

— Olha só onde você nos meteu. – ela sussurrou.

Joseph, que caminhava de um lado para o outro em impaciência, parou.

— Eu?

— Sim. A culpa disso tudo é sua. Onde estava com a cabeça apresentando ao Pedro uma atriz?

— Isso não te diz respeito.

— Me diz respeito se temos que ficar por aí, sussurrando e nos esgueirando pela noite atrás dele.

— Não pedi para você vir. A responsabilidade é minha, eu que resolvo.

Joana deixou escapar uma risada sem humor, o encarando com a mesma força que ele utilizava para olha-la, a raiva e ansiedade queimando entre os dois.

— Achei que o Pedro não fosse sua responsabilidade.

— Tudo bem. – Joseph ergueu as mãos, em desistência. – Eu planejei tudo isso. Satisfeita agora?

— Não seja desdenhoso comigo.

A discussão sussurrada fora interrompida por passos distantes, que logo colocaram os dois em alerta. Sem dar tempo para Joana pensar, Joseph a puxou através da primeira porta que encontrou, com tamanha pressa que a fizera tropeçar em caixas dentro do minúsculo cômodo iluminado apenas pela luz proveniente de uma pequena janela no alto.

— Não acredito nisso. – Joana soltou suas saias que ficaram emboladas sob seus pés, irritada. – Espero muito que o Pedro esteja bem, porque se não estiver nem sei o que farei com você. Não sei o que meu pai fará comigo, porque, pode ter certeza, ele ficará sabendo que estive naquele bar. Não quero nem pensar. E você está certo, eu deveria ter ficado quieta. Essa é uma frase que constantemente passa na minha cabeça, mas que eu nunca consigo seguir. Talvez isso sirva para eu aprender de uma vez a me render a ser uma dama comportada cheia de frufrus e apenas tomar café enquanto assisto você tentar resolver os problemas que causa. Não sei se algum dia já senti tamanha raiva como estou sentindo agora. Espera... Talvez eu já tenha sentido sim. Quando você apareceu aqui com suas máquinas. Mais uma vez tem a ver com você. Eu...

Lábios encontraram os dela e o protesto de Joana fora cessado. A surpresa a deixou imóvel por um momento, e o que era para ser apenas um simples toque de lábios explodiu em desejo e sofreguidão entre os dois, o corpo de Joseph mantendo Joana contra uma parede. A mão dele percorreu tecidos até encontrar o ponto que queria em sua cintura, lutando pela proximidade, para conseguir sentir ainda mais do corpo dela, com os dedos cravados em busca do calor da pele. A outra mão de Joseph permaneceu em seu rosto, os dedos mergulhados nas suaves ondas do cabelo preso, a mantendo exatamente onde ele a queria e de onde Joana desejava nunca mais sair. Ela lhe agarrou a nuca, buscou apoio ali para a incessante luta de lábios e línguas que fazia seu coração parecer saltar do peito, encontrando o próprio coração agitado de Joseph. Os lábios apenas se separaram quando parecia que haviam consumido todo o ar do lugar.

Completamente aturdida e maravilhada, Joana encarou os olhos daquele homem, a cor agora indecifrável no cômodo pouco iluminado, um tom de azul que ela já conhecia o suficiente para conseguir imagina-lo voltado em sua direção e exclusivamente para ela.

— Por que fez isso? – a voz de Joana saiu em um fiapo.

— Era isso ou minha cabeça iria explodir com seu falatório.

Mesmo querendo parecer descontente, Joana não conteve uma risada. Joseph se derreteu no som da risada dela, ainda experimentando a sensação de a ter em seus braços, um sorriso fácil dançando em seu rosto. Sorriso que conseguiu roubar a atenção de Joana, aumentando o ritmo do seu coração que não conseguia ficar sossegado. Encararam-se por longos segundos, um procurando por algo nos olhos do outro, mesmo que ainda não soubesse pelo que.

Joseph subiu a mão lentamente pelo braço de Joana, lhe provocando arrepios sob o tecido que a fizeram fechar os olhos, em deleite. As duas mãos dele envolveram seu rosto e ela achou que enfraqueceria quando os lábios dos dois voltaram a se encontrar. Diferente do primeiro, o beijo agora era quase uma reverência, quase como se ele lentamente a experimentasse e lentamente a venerasse. Quando a língua dele tocou a sua mais uma vez, Joana segurou em seu braço, sentindo a lã do casaco sob a ponta do seus dedos e imaginando como seria sentir o que escondia-se ali. Era provável que não fosse certo pensar isso, mas tão pouco acreditava que poderia ser certo sentir o que sentia naquele momento, como se pudesse arrebentar nos braços dele. Mesmo assim, ela permitiu se perder no homem que dividia um segredo delicioso com ela.

— Eu não estava falando agora. – Joana sussurrou, após o último beijo que ele deixou em seus lábios.

— Foi apenas para o caso de eu não ter mais oportunidade de fazê-lo.

Joana tentou, mas não conseguiu impedir um sorriso. Alguma coisa não estava certa. Ela deveria estar furiosa com o que ele fizera. Para onde foi a raiva dela? Parecia errado se sentir tão bem assim, como se houvesse esperado por toda uma vida por aquele momento.

— É melhor... É melhor eu ver se Aurélia já voltou.

Joseph relutou um segundo ou dois antes de retirar as mãos dela, abrindo espaço para Joana passar. Ela saiu apressada em direção ao corredor, atirando-se contra a parede ao lado da porta, soltou o ar profundamente pela primeira vez. Puxou o tecido da gola de seu vestido, imaginando que aquilo poderia ajudar a normalizar sua respiração. Nem os momentos em que se sentira verdadeiramente atraída por ele, nem quando imaginou que a beijaria, nada havia a preparado para o que estava por vir.

Sons de sapatos contra o assoalho a deixaram imóvel. Joana esperou por alguém estranho, pronta para esconder-se, mas soltou o ar em alívio ao notar que era Aurélia quem se aproximava.

— Tudo bem? Onde está o Sr. Fretcher?

— Estou aqui.

A voz baixa de Joseph se juntou a dela, quando ele surgiu pela brecha da porta. A mulher franziu o cenho, mas decidiu que não havia tempo para questionamentos.

— Nenhum sinal de Pedro pelos lugares em que passei, mas consegui 5 minutos com a atriz. – Aurélia gesticulava enquanto falava e, unindo às expressões em seu rosto, Joana deduziu que não havia simpatizado com a mulher em questão. – Tomem cuidado com o que vão dizer.

Aurélia os conduziu através de longos corredores que pareciam exatamente iguais, revestidos de um vermelho envelhecido. Joana notou, desanimada, que seus pés começavam a doer dentro dos sapatos e que Joseph caminhava tentando manter distância dela. Então focou na mulher que conhecia há tantos anos para evitar virar-se e o encurralar. O que estava passando em sua cabeça? Ele estava arrependido do que fizera? Porque se estivesse... Bem, ela nem deveria estar se importando tanto assim. Pessoas se beijam as escondidas e isso não é nenhuma novidade, por mais que a educação que recebem as moças reprima qualquer mínimo pensamento libidinoso. Mas o modo como ele a devorara...

Chega disso, Joana!

O lugar que servia de camarim para Greta Damico mais parecia um quarto sem de fato uma cama. Haviam vestidos e panos por todos os lados, um pequeno sofá azul cobalto encostado a uma parede oposta à que acolhia uma penteadeira, onde Joana pôs os olhos sobre a mulher que parecia ser o centro de toda aquela confusão. E para o choque de Aurélia e Joana, a mulher que mal devia ter passado dos 30 anos permanecia sentada apenas em roupas de baixo. O espartilho apertava o corpo esguio e curvilíneo e ela parecia muito confortável com uma mulher lhe prendendo os cachos escuros em um penteado e um homem de expressão entediada no sofá. Greta apenas virou o rosto para as duas, mantendo a mesma posição de pés prostrados sobre a penteadeira e uma taça de vinho na mão.

— O que as senhoritas querem, afinal? – o desinteresse na voz dela foi o suficiente para despertar a irritação de Joana.

— Estamos procurando...

A frase de Joana foi morrendo ao passo que notava o olhar de Greta para longe dela, nenhuma atenção para o que estava falando. Joana revirou os olhos, sabendo que não era preciso virar-se para saber que Joseph havia entrado no cômodo. O sorriso lascivo de Greta indicava tudo.

— Tudo bem, eu espero a senhorita resolver prestar atenção no que digo. – Joana resmungou, cruzando os braços.

Greta não pareceu ouvir, ao contrário de Joseph, que lhe lançou um olhar intrigado. Joana arriscou uma espiada de volta, tentando avaliar a reação dele e percebendo que nem parecia notar que havia uma mulher de roupas íntimas o consumindo com os olhos. Fora a testa franzida, a mesma postura impassível de sempre estava lá, as mãos escondidas dentro dos bolsos.

— Olha só... Alguém que eu não esperava ver por aqui.

Joseph finalmente voltou sua atenção para a atriz. Eles se conheciam? Tentou buscar no fundo de sua memória onde poderia, em algum momento, ter visto aquela mulher e nada lhe vinha a mente, com exceção da noite anterior. Greta parecia ter notado a expressão desconfiada, pois seu sorriso aumentou.

— Não tente lembrar-se. Não nos conhecemos. Mas o senhor é exatamente igual ao seu pai.

Soltando um suspiro, como se recordasse de tempos distantes, Greta voltou a olhar-se no espelho, bebericando um pouco do vinho antes de novamente encara-lo.

— Edward Fretcher... Bons tempos. Como ele está?

O sorriso da atriz deixou bem claro que não era em Edward que ela estava interessada em saber, à medida que seu olhar percorria Joseph da cabeça aos pés. Joana alternava o olhar entre os dois, cada vez mais incomodada com aquela mulher. Ao olhar para o inglês, notou que, apensar de tentar manter desesperadamente a expressão indiferente, Joseph parecia ter engolido algo amargo. Joana, assim como todos no lugar, esperaram pela resposta, mas o silêncio permaneceu.

O empurrando para longe da vista de Greta, Joana assumiu a frente.

— Estamos procurando pelo garoto de 14 anos. E nem ouse dizer que não faz ideia do que eu estou falando, porque já sabemos que ele estava com a senhorita.

Devolvendo o olhar desafiador de Joana, ela sorriu mais uma vez.

— Sim, sim. O garoto. Não me lembro o nome dele.

— Onde ele está?

— Foi buscar um manjar branco que pedi. Estava louca por um desses.

Greta soltara um risinho, como se realmente achasse graça no absurdo que era. Joana já ouvira sobre o alvoroço que as atrizes europeias em viagem pelo Brasil causavam. Empolgando jovens poetas, os fazendo gastar suas mesadas em ceias com elas. Divertiam-se com as atrizes, brigavam pelas atrizes. Mas agora, no meio daquela situação, Joana nunca achou tanta tolice vendo que Greta era quem verdadeiramente se divertia com o tormento dos estudantes.

Quando Joana já se preparava agradecer e finalmente deixar aquele lugar, Greta a interrompeu.

— O que ele é? Seu filho?

O tom que usara não deixava dúvida que a frase foi utilizada com o único propósito de zombar de Joana, caso ela realmente fosse a mãe de Pedro. Ela deveria saber muito bem que muitas mulheres na idade de Joana já possuíam um filho, as vezes até dois ou três, e achava a situação muito humilhante.

Joana cerrou o punho, pronta para uma afiada resposta, mas fora interrompida pela mão de Aurélia.

— Muito obrigada, senhorita. Não vamos incomoda-la mais.

Com um movimento as dispensando, Greta inclinou sua cadeira para avistar Joseph, para o desespero da mulher atrás de si que prontamente lhe segurou o assento.

— Nos vemos em breve, Sr. Fretcher. Em Londres.

Joseph, que se arrependia pesadamente de não ter esperado do outro lado da porta, apenas bufou. Não conte com isso.

Novamente no corredor, os três se entreolharam.

— E agora? – Aurélia foi a primeira a falar.

— Agora esperamos.

Então eles esperaram, por um tempo que pareceu infinito. Aurélia brincava com o bordado de sua retícula entre os dedos, Joana mexia-se em inquietação e Joseph permanecia apoiado contra a parede. Ela o olhou, disfarçadamente o tanto que conseguira. Joseph não ousara dizer uma única palavra desde que chegaram ao camarim, seu humor parecia pior que nunca. Joana se obrigou a acreditar que não se importava.

Então ele se empertigou quando passos despontaram do início do corredor, revelando um desgrenhado Pedro. Toda a cor havia desaparecido de seu rosto e ele parecia olhar para fantasmas, uma pequena tigela esquecida nas mãos.

— Meu Deus! Onde você estava, menino? – Aurélia jogou as mãos para cima, estarrecida enquanto caminhava até Pedro, que já começava a dar passos para trás.

— Onde pensa que vai?

Joseph o segurou pelo colarinho da camisa, impedindo o garoto de se mover.

— O-o que vocês estão fa-fazendo aqui?

— O que você acha, grande gênio? Para fora. Agora. Você e eu vamos conversar.

— Não, Joseph. P-preciso levar isso para...

Mas Joseph não parecia ouvir, o arrastando pela camisa para fora do teatro, onde uma pequena escadaria nos fundos encontrava o vazio da rua. Joana e Aurélia corriam em seguida, deixando o lugar para trás no momento em que Joseph soltou Pedro bruscamente.

— O que você tinha na cabeça para desaparecer dessa forma?

Pedro agarrou-se a tigela, parecendo ainda mais assustado diante de um furioso Joseph.

— Eu não desapareci. Ia voltar para casa essa noite.

— Em primeiro lugar, você nem deveria ter a deixado. De onde tirou que tinha permissão para simplesmente sair e voltar quando bem entender?

— Não preciso de permissão, muito menos da sua. O senhor não é meu pai.

Os dois já beiravam os gritos e o medo de Pedro foi substituído por uma fúria que Joseph logo reconheceu através dos olhos escuros do garoto. A cabeça de Joseph parecia zunir, uma bagunça de pensamentos indesejáveis e medo irracional pelo garoto que estava a sua frente. Quando ele começara a se importar tanto assim com Pedro? Saber isso agora não faria nenhuma diferença. A raiva e a frustração traduziam o cansaço da culpa martelando dentro de si, o incomodando tanto quanto olhar para ele e ver a si mesmo. Um garoto cheio de devaneios, desejando coisas que nem mesmo sabia se um dia as teria, aborrecido por tentarem lhe colocar rédeas.

Aproximando-se de Pedro, Joana se pronunciou pela primeira vez.

— Pedro, o que você fez foi muito irresponsável. Sua mãe apareceu muito preocupada. Parou pra pensar em tudo que poderia ter acontecido com você, sozinho por essas ruas?

— Mas nada aconteceu. Eu sei me cuidar. – o olhar dele viajou de Joana para Joseph. – Você me contou suas histórias. Contou que era assim que se divertia. O que tem de tão errado agora que fiz?

Joana encarou Joseph, atônita, mas ele não ousou devolver o olhar. As coisas que contara para Pedro nunca foram conselhos, afinal.

— Você é só um garoto.

A frase de Joseph, dita entredentes, enfureceu Pedro ainda mais, o fazendo jogar a tigela contra o chão e gritar na direção do homem a sua frente.

— Eu não sou uma criança.

— Parem com isso! – Joana intrometeu-se. – Já perceberam que estão gritando no meio da rua?

— Venha, Pedro. Vou leva-lo para casa.

Aurélia o segurou pelo braço, sussurrando para os dois que deixaria para trás.

— Melhor eu leva-lo, pelo bem de todos nós.

Joana os assistiu partir, assim como observou o ressentimento que ficara entre aqueles dois teimosos. Abraçando-se contra o frio, ela notou que mal havia espaço em si para mais irritação. Estava cansada, desejando um longo banho e a companhia de alguém que não pudesse aborrece-la, como Dalton. Passando a mão pelo rosto, Joseph a olhou.

— Por favor, não diga nada.

Joana movimentou os ombros.

— O que eu ousaria dizer?

Recebeu em resposta uma risada irônica de Joseph.

— Tenho certeza que agora mesmo você tem um discurso na ponta da língua.

Joseph parecia tão desalinhado e atordoado, e estava tão perto... Joana pressionou as unhas contra a palma da mão, obrigando-se a ficar no mesmo lugar.

— Você está bem?

Joseph apenas a olhou, como se a pergunta fosse absurda ou nunca feita para ele.

— Vou acompanha-la até sua casa.

— Não é necessário. Eu vou sozinha.

— Tudo bem. – ele concordou, sem pensar duas vezes.

Deixando Joana perplexa, Joseph virou-se e começou a andar para longe daquela rua. Mas seu coração começara a doer tanto quanto sua cabeça e ele se pegou dando meia-volta, indo ao encontro dela.

— Você vem ou não?

Como em pouquíssimas ocasiões, Joana não soube como deveria responder àquilo e ele nem mesmo esperou que ela pensasse.

— Sabe o que está me incomodando? Que brigar com aquele garoto me enfureça tanto. Que estou repleto de raiva e cansaço e tem tantas coisas confundindo minha cabeça que estou zonzo. E que, agora mesmo, desejo desesperadamente beijar você de novo. Já tive sinais o suficiente de que você me detesta, tanto quanto a sua presença me aborrece. Então é melhor ficarmos longe um do outro.

Joana prendeu o lábio entre os dentes, tentando não sorrir. Pelos céus, por que ela estava sorrindo?

— Não acho que isso vai ser possível.

— O que?

— Agora eu trabalho na biscoutaria.

A encarando como se ela falasse alguma outra língua desconhecida, Joseph quase quis cair na risada. Ah, a ironia das situações...

Olhando para ambos os lados, em busca de alguma alma perdida, mas encontrando apenas o vazio, Joseph segurou o rosto de Joana, unindo sua boca a dela em um demorado e arrebatado beijo, que roubou o chão sob ela e provocou arrepios até os dedos do pé. Então virou-se novamente, seguindo pelo caminho que começara antes sem olhar para trás. Joana cambaleou para trás, perplexa, confusa, fascinada, a voz dele mais uma vez percorrendo a rua até ela.

— Você vem ou não, Joana?