Doce Promessa

19 Dezenove


Notas iniciais
Demorei, mas voltei!!!! E nem acredito, mas agora estamos oficialmente entrando na reta final. Como sempre, espero que gostem, boa leitura e se cuidem!! ♥

Um passo para trás e Joana sentiu o toque de suas pernas contra a cama, sinalizando que ela estava exatamente onde queria. Deliberou consigo mesma o caminho que fizeram até ali, marcado por toques ansiosos e beijos exigentes, o desejo a percorrendo com uma força muito maior que o nervosismo que a fazia torcer o tecido do vestido entre os dedos.

Ela abandonou os olhos que a observavam atentamente, seu olhar sorvendo cada centímetro de pele exposta do homem a sua frente. Joseph estava tão perto que ela podia sentir seu cheiro de banho recém-tomado sem esforçar-se, o calor dele a envolvendo e tornando-a ainda mais quente. Apenas quando os olhos dela voltaram a encontrar os dele, Joseph buscou algum sinal para se afastar, de que aquilo era uma péssima ideia, mas somente encontrou um reflexo de suas próprias emoções. A queria tanto que o alívio o atravessou, quando tudo que desejava fazer era tocá-la. E assim o fez.

Sutilmente, ergueu a mão até o cabelo de Joana, começando a desfazer o penteado. Grampo por grampo, assistiu a cascata de cabelos escuros derramar-se sobre os ombros dela, lhe provocando um sorriso.

— O que foi? – Joana sussurrou.

O sopro da voz dela misturou-se ao quarto mal iluminado, o peso da necessidade condensando o ar ao redor deles. Mesmo ansiando pelo outro, nenhum dos dois se movia com pressa, a perfeita sintonia entre os dois confirmando que respeitariam o ritmo um do outro, fosse ele qual for. Tinham a noite inteira e, furtivamente, ansiavam por uma vida inteira.

Tentando conter o sorriso, Joseph balançou a cabeça discretamente, seu olhar percorrendo cada detalhe do rosto de Joana.

— Apenas me surpreendo como você sempre se transforma a minha frente. Cada vez que olho para você me dou conta da sua beleza, como se fosse a primeira vez. E, de alguma forma, você consegue parecer ainda mais linda.

Bastava um único toque dele e Joana acreditava que iria desfazer-se ali mesmo. Quando a mão de Joseph percorreu lentamente por seu braço e o tom profundo de sua voz a envolvia, ela esperou por isso. Mas assim que ele alcançou seus dedos nervosos e os levou até os lábios, Joana percebeu que podia manter-se inteira e ainda sentir tudo aquilo, com cada vez mais intensidade.

— Me pergunto... – Joseph continuou, beijos suaves sendo depositados na palma da mão dela. – Se é assim para todos que se apaixonam ou eu que sou extremamente sortudo.

Quando os lábios de Joseph lhe atingiram o interior do punho, a respiração de Joana falhou por um segundo. Sentia-se a beira do desespero e ele mal estava a tocando. Talvez esse fosse o problema, ponderou com impaciência.

— Chega de falar. – Joana se ouviu dizendo, a avidez em sua frase deixando claro seu pedido. – Me ame. Agora.

— Estou fazendo isso. Há mais tempo do que sei.

Antes que ela pudesse protestar mais uma vez, Joseph cessou o sorriso insistente em seu rosto ao unir seus lábios aos dela, lhe arrancando o ar e o último fio de pensamento. Joana agarrou-se a ele como se precisasse disso para sobreviver, como se ele enfim lhe oferecesse as respostas para as perguntas que sempre tivera e ela encontrasse mais um lugar para pertencer. Bem ali, nos braços de Joseph, ela queria morar para sempre.

Antes mesmo que notasse, Joseph já desfazia habilmente cada botão azul do vestido e sem demora ela fora colocada de costas para ele. Joana deixou seu olhar cair sobre a cama a sua frente, atenta a cada movimento que ele fazia, desde afastar seus fios escuros até deslizar em uma lenta agonia o tecido por seus ombros. Ela podia ouvir o som da noite e das respirações dos dois, mas fora o farfalhar do vestido caindo aos seus pés que retumbou seu coração agitado contra o peito.

A cada tecido que se afastava e a cada parte de Joana que se revelava, Joseph sentia o controle lhe escapando. Admirou a curva do pescoço dela primeiro com os olhos e em seguida os lábios encontraram a pele, absorvendo a essência de Joana. Então, com um único puxão, Joseph desfez o aperto das cordas do espartilho, no exato momento em que alcançou um ponto exato atrás da orelha de Joana e mordiscou ali, a fazendo ofegar.

O som o atingiu e refletiu nos movimentos urgentes de suas mãos, que se livraram-se das últimas peças de roupa de Joana, inquieto com seu próprio desejo, as chutando para longe do seu caminho ao deita-la sob os lençóis da cama. A consciência de que apenas a barreira da calça de Joseph estava entre eles esquentou todo o corpo de Joana e ela contorceu-se quando ele voltou a tomar sua boca para si, lançando sua mão até os cabelos de Joseph, torcendo-os em seus dedos.

Uma outra mão atrevida viaja pelo peito de Joseph, em direção ao abdome, e encontrava o caminho para libertar da única peça de roupa que o restara. De relance, ele acompanhou o movimento de Joana, dirigindo a própria mão para o corpo junto ao seu. Foi a vez do seu olhar seguir o trajeto do toque que certificava-se da suavidade da pele e apreciava cada curva nua dela, descobrindo com perturbação o quão fácil seria para ele perder-se nelas. Então Joseph ergueu os olhos para encontrar determinação, desejo e curiosidade estampados no rosto de Joana, o lembrando exatamente do que importava naquele momento.

— O que você quer, Joana?

— Você.

E não haveria outra resposta para ela.

— Onde?

O sussurro de Joseph a surpreendeu. Não porque Joana tinha receio ou não sabia o que devia responder, mas sim porque ela sabia exatamente o que queria.

— Em todos os lugares.

Com um sorriso lascivo nos lábios, Joseph moveu-se até toca-los no pescoço de Joana em um percurso de lentos beijos que desciam e desciam.

— Aqui? – ele quis saber, percorrendo a linha da clavícula.

Joana não notara que prendia a respiração quando seus olhos fecharam-se, perdida em absorver as sensações que ele lhe provocava, e, mesmo em um fiapo de voz, ela se obrigou a responder.

— Sim.

Atento a cada reação dela, Joseph continuou seu trajeto impetuoso, até encontrar a curva de um seio.

— E aqui?

Joana tinha a resposta pronta, mas ao abrir a boca a única coisa que saíra fora um som incoerente que deixara escapar, a sofreguidão de sua respiração no exato minuto em que a boca de Joseph fechou-se sobre seu seio. Ele a venerou ali e ela implorou por mais sem dizer uma palavra, seu corpo arqueando-se na direção do dele, querendo, precisando.

E assim, movendo-se com ansiedade em busca de mais contato, se aquilo fosse possível, Joana sentiu cada parte do corpo de Joseph contra o seu, o aprisionando ao lançar uma perna a sua volta e sentindo o peso do desejo que ela o provocava. A mão de Joseph lhe segurou a coxa com força, quando os olhos de Joana abriram-se em realização.

— Por que você ainda está vestindo essa porcaria de calça?

Ele tentara impedir, mas acabara sorrindo contra a pele macia da barriga de Joana, por onde Joseph começara a explorar. Erguendo-se, encarou a mulher por quem se apaixonara e que agora mais do que nunca lhe tirava o fôlego.

— Devo tirar?

Joana não respondera e apenas o observou com o olhar desafiador, enquanto Joseph ficava de pé e lentamente ameaçava se desfazer da peça.

— Está tentando me torturar?

— Impaciente?

— Não lembro exatamente quando eu...

E então a frase morreu quando ela teve a visão completa do homem a sua frente, processando cada detalhe perfeito dele, cada de extensão de músculos, o registrando em sua mente. Sua boca secara, seu coração disparava e uma tensão misturava-se com completa segurança. Não se constrangia, porque confiava e o amava. Amava Joseph, por cada coisa que descobrira dele e que despertara nela. Agora se permitiria amá-lo por cada contato físico, que se romperia em um sentimento completamente novo para ela.

Quando Joana tentara prender novamente sua perna à ele e o trazer de volta, Joseph adiantou-se, segurando a perna dela com firmeza. E no momento em que os lábios dele encontraram a parte interior de sua coxa, Joana arfou.

— Sinto que não vou aguentar mais.

— Você vai. Porque estou apenas começando.

E a promessa implícita ali, ele cumpriu. A cada novo toque, ele fazia outra promessa. Joseph explorou cada parte de Joana e ela agarrou-se a isso, ansiando pelo alívio daquela tortura deliciosa e desejando que ela não acabasse nunca. Descobriram um ao outro, abandonando incertezas e exaltando tudo de bom que eles possuíam. Ele a satisfez, a amou e, quando finalmente tornaram-se um só, Joana experimentou algo que excedeu qualquer emoção que tivera até ali, o nome dele a única palavra escapando de sua boca por muito tempo. E assim, perdidos um no outro, eles permaneceram por longas horas a fio, até que uma parte de si que eles não sabiam que existiam preencheu-se e não havia mais volta.

Porque eles pertenciam um ao outro.

*

— No que está pensando?

A pergunta de Joseph desviou a atenção de Joana, concentrada em observar como lentamente as primeiras luzes do dia surgiam no céu através da janela do quarto. Deitada no aconchego dos braços dele, ela deslizava a ponta do dedo sobre o peito de Joseph, onde sua cabeça descansava.

— Em como me sinto em relação a tudo isso.

Notando a sonolência em sua voz, Joseph voltou a lhe acariciar os cabelos, esperando que ela pudesse descansar no pouco tempo que ainda os restavam juntos.

— Está arrependida?

Não havia nenhuma emoção naquela pergunta e Joana quase sorrira, porque sabia bem o quanto ele era bom em esconder o que sentia. Não sabia se Joseph sentia algum receio ao fazer aquela pergunta, mas apostou que agora ele, por a conhecer tão bem, sabia que não era assim que ela se sentia.

— Não. – e, com um suspiro, Joana se aquietou para apenas abraça-lo. – Não acredito que iria tão longe se acreditasse que iria me arrepender.

A única resposta de Joseph para aquilo fora um distraído beijo que deixara em sua testa, onde permaneceu sentindo o cheiro dos cabelos de Joana. Inquieta com o que formigava em seu peito, ela não se conteve mais um segundo e, apoiando-se nos cotovelos, ergueu o corpo para o olhar.

— Eu cresci aprendendo que só existem dois tipos de mulheres: as boas moças e as levianas. Ainda consigo ouvir a voz da minha preceptora quando dizia que as moças de família devem ser contidas, se preparar adequadamente para o casamento, conservar-se inocentes, enquanto as levianas são aquelas que os rapazes namoram, mas não casam.

Respirando fundo quando Joseph afastou uma mecha de seu cabelo do rosto, o olhar atento a ela, Joana continuou.

— Sinto que falhei em ser uma boa moça há muito tempo. Não sou contida, não sou inocente, mas me recuso a aceitar que me chamem de leviana, mesmo não querendo que você se case comigo por causa do que aconteceu aqui. Não quero que você se case comigo porque precisa salvar minha reputação. Quero que se case comigo porque me ama, da mesma forma que eu decidi estar aqui agora porque amo você.

Então Joana arregalou os olhos ao perceber o que deixara escapar.

— Eu não estou dizendo que você tem que casar comigo, só estou...

Mas aquela frase nunca seria concluída, pois Joseph já a silenciava com um beijo que sempre seria capaz de derrete-la por inteiro.

— Você não precisa se explicar para mim, Joana. Você está aqui agora porque essa foi sua vontade e isso basta para mim.

— Mas eu não consigo evitar me questionar. Por que tenho que me transformar em outra pessoa apenas porque amo você?

Por mais que aquele cenho franzido de preocupação não fosse o que Joseph queria e gostaria de ver naquele momento, aquele era assunto que dependia exclusivamente dela.

— Não posso garantir que não houve mudanças em você, porque estamos sempre mudando. Mas isso não quer dizer que foi algo ruim. Quanto à isso de casamento... Quando acontecer, espero que você tire da cabeça a ideia de que farei isso por me sentir na obrigação.

Pronta para consentir com aquilo, Joana finalmente reparou no significado da frase, a fazendo saltar sentada, o lençol branco firmemente contra o corpo despido.

— Você disse “quando”?

Então ela o assistiu assumir um ar inocente, a mão roçando ligeiramente sobre a barba curta.

— “Quando”? Eu quis dizer “se”.

Joseph se manteve sério por pouco tempo antes de desmanchar-se em um sorriso diante da expressão consternada de Joana. Sorriso que logo transformou-se em uma risada quando ela tentou atingi-lo com o pé, que ele rapidamente deteve.

— Não me provoque assim.

Mesmo tentando soar zangada, o brilho no olhar de Joana a entregaria no mesmo instante. Apesar das perguntas que insistiam em surgir e a confundir, sentia-se feliz e em paz como nunca se sentira antes. Não menos ou mais feliz, apenas de uma forma tão diferente que a completou a ponto de acelerar seu coração. Mas talvez não totalmente em paz, decidiu, quando algo lhe voltou a mente inquieta.

— Por que não me contou que meu pai te ofereceu a biscoutaria?

— Estava imaginado quando tocaria nesse assunto. – Joseph expirou, a acariciando no tornozelo em uma lentidão que pouco a pouco desacelerou Joana, a deixando novamente à deriva do sono. – Não achei que era algo que eu deveria contar. De alguma forma sinto que isso não tem nenhuma relação comigo. É entre seu pai e você.

Diante do silêncio de Joana, ele prosseguiu, a estudando.

— Eu sempre estive genuinamente interessado por essa biscoutaria. Não teria viajado até aqui se não estivesse. O negócio que vocês construíram conseguiu me convencer e viver isso me fez passar a admirar aquele lugar. Me sinto feliz por construir máquinas para ela, principalmente porque eu nunca havia trabalhado com algo do ramo alimentício. Mas eu te disse uma vez, isso ainda não é o que quero fazer. Mesmo sabendo das intenções do seu pai, não teria como eu aceitar. Então eu apenas segui como se ele nunca tivesse feito essa proposta.

— Queria poder fazer o mesmo.

Sem demora, Joseph deu um tapinha ao seu lado, a convidando a deitar novamente e para onde ela foi de bom grado.

— Você vai aceitar, não vai? – ele questionou, a mantendo junto a si em um abraço apertado.

— É claro que vou.

Um sorriso de alívio, mesmo que ela não pudesse ver.

— Não tenho nenhuma dúvida de que você será muito boa para aquele lugar.

Havia tanta certeza e carinho naquela frase que Joana sentira-se obrigada a erguer o rosto novamente, os olhos fixos nos dele.

— Eu amo você.

Ela disse simplesmente, afirmando ao se demorar com os lábios sobre os de Joseph em seguida, para logo voltar a se envolver no calor dele e finalmente permitindo-se descansar. Por longos minutos, Joseph não disse coisa alguma. Manteve-se ritmicamente deslizando a mão pelas costas de Joana, o olhar perdido encarava o vazio do teto. Quando por fim abandonou o silêncio, sua voz não passara de uma confissão murmurada.

— Passei quase toda a minha vida fugindo. Usava de qualquer desculpa para me afastar e em todos os lugares para onde fui nunca me senti em casa. Nunca senti que pertencia a lugar algum. Parece que agora eu finalmente encontrei.

Com a mente repleta e o coração leve, Joseph a assistiu dormir pelos longos minutos seguintes que não lhe pareceram longos o suficiente, perguntando-se quando teria a sorte de ter aquela visão todos os dias, por uma vida inteira.

*

Um murmúrio sonolento escapou quando Joana sentiu algo a remexer, ameaçando lhe arrancar do sono. Resoluta, ela cobriu-se ainda mais com o lençol, aconchegando-se na cama que dormira tão bem.

— Acorde, dorminhoca.

A contra gosto e sonolenta, Joana abriu os olhos para encontrar um Joseph a olhando com diversão, em seu habitual terno preto.

— Está cedo.

— Exatamente por isso é melhor que você vá agora, enquanto ainda há poucas pessoas nas ruas.

Com um resmungo, Joana sentou-se, a mão imediatamente tocando seus cabelos em completo desalinho, o que aumentou o sorriso de Joseph.

— Não me olhe assim. De quem foi a brilhante ideia de passar a noite aqui? – ele a provocou.

— Como se você tivesse algo do que reclamar.

Mais um resmungo e Joseph pressionou seu sorriso contra os lábios dela em um beijo preguiçoso.

— Na verdade, tenho sim do que reclamar.

Joana apenas ergueu um sobrancelha para ele, bastante consciente do modo como Joseph escorregava beijos ao longo do seu queixo e em direção ao seu pescoço.

— Preciso reclamar porque meu único desejo era passar o dia com você aqui, mas isso vai ser impossível agora.

— Não é impossível. – fora o sussurro de Joana, quando sua mente começava a desvanecer e seu corpo tornava-se mais vivo que nunca. – Ninguém notaria nossa falta.

Mas, para infelicidade dela, um segundo depois Joseph já estava de pé.

— Você sabe tão bem quanto eu que isso não é verdade. Venha, vou ajudá-la a se vestir.

Porque sabia que ele tinha razão e porque já estava quase na hora em que a biscoutaria abriria e ela sentia saudades do lugar, Joana arrastou-se para fora da cama. Agora, à luz do dia, sentiu-se de repente tímida e Joseph fora expulso do quarto, só voltando a pôr os olhos sobre ela quando esta estava devidamente vestida com sua chemise e a calçola. Então ele a ajudou com o espartilho e o vestido, um processo que levou muito mais tempo do que deveria, dado pelos beijos roubados e risadas compartilhadas. Enquanto tentava domar novamente os cabelos, Joana reviveu a noite anterior e pegou-se sorrindo para seu reflexo no pequeno espelho a sua frente. Estava enlouquecendo, mas por um bom motivo.

Um muito bom e atraente motivo, que ela encontrou logo em seguida no corredor e juntos encaminharam-se para o andar de baixo.

— Acho que você deveria comer algo antes de ir.

— Não se preocupe com isso. – Joana o assegurou, descendo os degraus a frente de Joseph. – Comerei assim que chegar em casa ou quando estiver na biscoutaria...

Exatamente no fim daquela frase, as vozes foram abafadas, bem como o som dos passos dos dois que detiveram-se ao notar a figura parada e atônita no salão de entrada. Bento não conseguiu disfarçar sua surpresa, encarando Joana com curiosidade.

— Sr. Fretcher. Senhorita Joana.

Com um curto cumprimento, Bento voltou a ficar imóvel, sem saber o que deveria fazer. Joana era a última pessoa que ela imaginaria encontrar deixando os aposentes do seu patrão, tão cedo pela manhã. Mas antes mesmo que pudesse decidir como reagiria, Joseph adiantou-se.

— Bento, você poderia acompanhar a senhorita Joana até a sua casa?

— Si-sim, senhor. É claro.

Joana estava estarrecida em seu lugar. Quase podia jurar que via seu rosto enrubescendo cada vez mais diante do olhar de Bento. Quando o olhar dele atingiu o baú de Joana, ainda esquecido na entrada, ela prendeu a respiração. Não poderia estar mais claro que ela passara a noite ali. Pelos céus, por que estava com tanta vergonha?

Somente quando Joseph lhe tocou discretamente a base das costas, Joana lembrou que precisava deixa-lo.

— Nos vemos depois.

Joana apenas assentiu, devolvendo a força do seu olhar, por onde ele a pedia que ficasse tranquila, a garantia que ficaria tudo bem e que os dois voltariam a se ver.

Com Bento ao seu lado a ajudando a carregar o baú, ela começou a percorrer as poucas ruas em direção ao casarão em um silêncio desconfortável. Era apenas o Bento, e ela não conseguia imaginar como deveria começar uma conversa com ele agora.

— Bento...

— Não se preocupe, senhorita Joana. Sei muito bem ser discreto. De mim, não sairá uma palavra.

O toque do baú contra o chão e os passos cessaram ao alcançarem a casa, quando Joana tentou sorrir em gratidão. Acreditou que ficaria maluca se precisasse contar com a discrição de mais alguém.

— Se me permite dizer, acho que vocês ficam muito bem juntos.

O sorriso de Joana transformou-se em um risada calma.

— Acha mesmo?

Infelizmente, a calma e felicidade de Joana não durariam muito. Naquele segundo, foram interrompidos por um esbaforido Ramos que corria em sua direção, gritando palavras que ela encontrou dificuldade em compreender.

— Ramos, o que houve?

— Senhorita Joana... A biscoutaria... Precisamos...

Bem ali, Joana sentiu que algo estava muito errado. Em resposta àquilo, seu coração disparou no peito e Bento agarrou Ramos pelo braço, tão apreensivo quanto ela.

— Homem, diga de uma vez!

Ainda ofegante, Ramos tentou encontrar as palavras certas em meio ao desespero.

— Fogo... A biscoutaria está pegando fogo!

Algo como um soco na boca do estômago. Como sentir o chão sendo arrancado do seus pés. O mundo girou diante de Joana, confuso, enquanto sua mente se dava conta do que aquilo significava. Em aflição abandonada, largou os dois homens e correu para dentro do casarão, gritando por seu pai. Bento assistiu tudo espantado, percebendo lentamente que Ramos continuava a falar.

— ...Tive sorte que decidi abrir a biscoutaria pela porta da frente hoje. É na cozinha que está o fogo. Não sabemos se há alguém. Precisamos ir.

E Bento iria, ajudaria como fosse possível, mas havia uma coisa que precisava fazer.

— Vá. Estarei lá em um instante.

Então ele correu ruas acima, tão rápido quanto se sua vida dependesse disso, assustando aos que ainda, desavisados, não percebiam a pouca fumaça circundando a praça.

— Sr. Fretcher! Joseph!

O chamado desesperado de Bento preencheu todo o sobrado, encontrando seu objetivo no cômodo que Joseph fizera de escritório. Lá, ele dividia uma risada com Pedro, sentado à sua frente. Mal sabia Bento que, minutos antes a sua chegada, Joseph acabava por vez com a curiosidade do garoto. “Você vai casar com ela? Já não era sem tempo!” era o que Pedro estava prestes a dizer, quando Bento os interrompeu.

— Bento? – Joseph alarmou-se no mesmo instante. – Aconteceu alguma coisa?

— Um incêndio. Na biscoutaria.

Eles não perderiam um segundo sequer e quando chegaram à biscoutaria, uma comoção já havia se instalado no lugar. Pessoas observavam a cena abismadas e preocupadas, homens arregaçavam as mangas ao carregar baldes com água. Era o que Joseph estava prestes a fazer, assim como Bento, quando seus olhos encontraram quem ele procurava.

Ao lado de Matilda e Isabel, Joana apertava as próprias mãos enquanto lágrimas escorriam livremente por seu rosto, sem que ela se preocupasse em secá-las. Mas fora o olhar destruído que ela direcionava para a biscoutaria de portas abertas que preocupou Joseph. Com o balde em mãos, ele moveu-se e parou logo em seguida, voltando a observar Joana, quando Ramos abriu caminho entre as pessoas em direção a Francisca.

— Senhora... Encontrei o Domingos e ele confirmou que o Sr. De Castro saiu para trabalhar mais cedo.

Tomada pelo medo, Francisca virou-se para sua filha mais velha, mas já era tarde demais.

— Joana!

Ninguém notara, mas a voz de Joseph soara mais alto ali e o seu desespero ficou evidente quando ele tentou segui-la, mas fora impedido pela mão de Alfredo em seu braço. Joana já havia desaparecido dentro do lugar, cada vez mais repleto de fumaça e fuligem que atravessava a cozinha e a alcançava no corredor.

Lutando contra o pânico, Joana rasgou parte do tecido de seu vestido e o pressionou contra o nariz, na tentativa de encontrar Manoel. Sua visão embaçava cada vez mais e ela culpou as lágrimas incessantes que a atrapalhavam. Prendeu a respiração, gritou por Manoel até lhe faltar o ar nos pulmões e quase cedera ao chão em alívio quando reconheceu sua silhueta curvada na porta do escritório.

— Papai!

Joana correu até ele, tentando afastá-lo da parede ao qual se agarrara.

— Preciso... – ele balbuciou. – Da minha bengala.

— Apoie-se em mim, pai. Precisamos sair daqui.

Manoel sentia-se esgotado. Em um minuto aproveitava a paz e o silêncio de seu escritório, organizando papéis antes que todos chegassem, e logo em seguida o cheiro insuportável de fumaça começou a confundi-lo. Tentara encontrar sua bengala para descobrir o que estava acontecendo, mas falhara, bem como suas pernas ameaçavam ceder enquanto Joana esforçava-se para atravessarem o lugar.

Ela estava tão perto e ainda assim a cada passo que dava, levando Manoel apoiado em si, o medo aumentava. Quando pode ouvir a tosse dele bem ao seu lado, Joana entendeu o porquê. Estava apavorada porque não conseguia saber como ele estava, mesmo tão perto, e antes que perdesse as forças ali mesmo, pares de mãos os levaram para fora. Joana não as reconheceu, pois assim que Manoel fora deitado próximo a uma chorosa Francisca, ela estava de joelhos ao lado dele, utilizando o pedaço de tecido que antes fizera parte de seu vestido para limpar o rosto dele.

— Papai, você está bem? Consegue me ouvir?

Após uma tosse que as preocupou ainda mais, Manoel deu tapinhas na mão de Joana, a dispensando. Sem conter uma risada em meio às lágrimas de puro alívio, ela estava pronta para abarrota-lo de perguntas, quando dedos lhe atingiram a orelha, a obrigando a levantar.

— Você ficou maluca?

— Está me machucando, Isabel.

A mais nova bufou em resposta, apenas cedendo o aperto quando Joana afastou sua mão com força.

— O que você tinha na cabeça para entrar daquele jeito?

Havia muitas coisas que Joana poderia ter respondido. Que não estava pensando direito, que foi tomada pelo medo ou que não suportava a ideia de saber que seu pai estava lá e não fazer nada. Por fim, apenas segurou o rosto de Isabel, secando seu rosto.

— Eu estou bem.

Lhe transferindo um tapa no braço, Isabel voltou a resmungar e o olhar de Joana percorreu ansioso as pessoas em volta, imaginado que a essa altura ele já estaria sabendo.

— Você viu o Joseph?

— Está nos fundos, ajudando a apagar o fogo. Não se preocupe, o puxão de orelha foi em nome dele também. – Isabel tinha um pequeno sorriso no rosto, porque sabia que Joana não prestava atenção.

Agora ela tinha mais uma coisa para se preocupar, incomodou-se ao olhar para trás enquanto acompanhava seus pais de volta para o casarão. Dali em diante, se manteve a porta do quarto deles, aguardando enquanto Manoel era avaliado pelo médico que prontamente fora chamado. Ela caminhou de um lado ao outro, recusou todo os tipos de chá que lhe ofereciam, a inquietação martelando no peito. No fim, terminou abraçada à Matilda, que encontrava dificuldade para cessar o choro.

— Ele vai ficar bem. – Joana sussurrou, assim que médico os garantiu que o caso de Manoel não era grave.

— Vamos apenas torcer para que ele não apresente febre ou falta de ar. Líquidos, descanso e eu voltarei amanhã para o avaliar mais uma vez.

Com Manoel deitado no centro da cama, resmungando sobre toda aquela atenção, a tensão no ar começou a dissipar. Francisca agarrou a mão do marido, aliviada, assim como fizeram Matilda e Isabel. Joana apenas permitiu-se sentar na cadeira ao lado, o observando e agradecendo aos céus que tudo terminara bem. Quanto à biscoutaria, assim que a notícia de que o fogo fora controlado chegou no início da tarde, foi decidido que teriam que se preocupar com isso depois.

Bem, isso foi o que ela decidiu, já que Manoel estava em completo desacordo.

— Eu perdi tudo! O que farei agora? – ele lamentava, ignorando a todos que tentavam acalma-lo.

— Pare com isso, Manoel. – Francisca interveio, com firmeza. – Nada está perdido.

— Minha biscoutaria...

E uma nova onda de tosse surgiu, junto com a repreensão de Francisca e Matilda. No canto do quarto, Prazeres deixava um jarro com água e atrás dela Alice acenou em apoio para Joana, que prontamente devolveu com um sorriso. Então quando Joana voltou-se para seu contrariado pai, uma grave voz irrompeu pelo cômodo, eriçando todos os pelinhos de seu braço.

— Não se preocupe, Manoel. Vamos dar um jeito. – Joseph assegurou, permanecendo encostado ao batente da porta.

— Não há jeito, Sr. Fretcher. Venha até aqui e me conte os estragos. Perdi a cozinha, não foi? Foi criminoso? Eu tenho certeza.

Fazendo como pedido, Joseph se aproximou da cama, tentando esconder muito bem o que sentia agora. Era verdade que boa parte da cozinha fora arruinada e ele não achava que agora era o momento certo para discutir aquilo, por mais que ele acreditasse que tudo era possível de reerguer-se. Por isso, ao invés de responder prontamente, ele deixou seu olhar pousar rapidamente sobre Joana, que o encarava que se estivesse prestes a saltar sobre ele. A analisando discretamente da cabeça aos pés em busca de algo errado e felizmente não encontrando nada, retornou a atenção para Manoel.

— Apenas se preocupe em descansar pelos próximos dias. A biscoutaria está fechada a partir de agora, mas faremos um relatório com tudo que foi perdido enquanto o senhor se recupera.

— Dinheiro. Preciso saber quanto dinheiro eu ainda...

Subitamente, Manoel tentou levantar-se, provocando um burburinho que logo o pôs de volta na cama.

— Papai, descanse. – Joana o alertou.

— E não se preocupe com dinheiro ou materiais. Estarei partindo para a Inglaterra em alguns dias e só voltarei com tudo o que senhor precisar para reerguer sua fábrica.

A perspectiva de conseguir o melhor tipo de material, direto do exterior, aquietou Manoel por alguns instantes enquanto ele tentava tirar mais informações de Joseph. O que não acontecera com Joana, que o encarava estarrecida.

Como assim ele estava partindo?

Com a pergunta na ponta da língua, Joana o viu se despedir de todos e seguir seu caminho para o andar de baixo. Sem qualquer intenção de deixá-lo ir sem antes descobrir o porquê daquela viagem repentina, Joana pulou de sua cadeira em busca dele. Enquanto descia as escadas, agarrou-se a frase dita por Joseph, de que voltaria quando conseguisse o que fora buscar.

Ele voltaria. Certo?

Atravessou o corredor quase em uma corrida e quando pisou no salão de entrada do casarão, finalmente avistando as costas de Joseph, a cena que vira a fizera dar um passo para trás, tamanho susto.

Joseph acabara de transferir um soco no rosto de Edward Fretcher.