Doce Pecado

Rosas

É um belo quadro. O tom cinza que domina o céu, caindo sobre a terra e se purificando, se tornando branco ao atingir as pétalas das rosas, pintando-as. O brilho do verde da grama, que resiste, apesar da constante ameaça das sombras e do marrom da terra. Uma pintura quase que brilhante, que contrasta com a catedral opaca que envolve. Pedras que não passam de ruínas de um tempo de glória e beleza, uma era apagada pelo sopro do tempo.

As crianças correm pelo jardim sem se darem conta da real profundidade da beleza de que participam. Os sorrisos inocentes e espontâneos são fortes o suficiente para afastar o medo da tempestade, o frio da solidão que a chuva traz. Belos sorrisos, porém incompletos, já que uma das crianças se recusa a sorrir. Deitado com a cabeça apoiada em minha perna, Ludwig mantém uma expressão neutra enquanto observa o quadro que a natureza monta diante de nossos olhos.

Tenho medo do silêncio de Ludwig. Parece que, quanto mais o tempo passa, mais a ausência de palavras se aprofunda, escondendo o que se passa pela mente da minha criança mais velha. E mais frágil. Toco o cabelo castanho, deslizando meus dedos pelos fios da cor do bronze. Ludwig respira fundo, parecendo segurar algo dentro de si. Um pedido, talvez? Ou uma confissão?

Tenho minha atenção roubada pela aproximação de Aielin, que agacha a nossa frente, entregando uma rosa branca a cada um de nós. Agradeço e Ludwig sorri fracamente em um obrigado silencioso. Aielin fica de pé e então retorna para a companhia dos amigos. Olho por um momento para a rosa que ganhei, completamente desabrochada e bela. Desvio meu olhar e vejo Ludwig brincar com a própria rosa, rodando-a entre os dedos.

- A rosa branca é a favorita da minha irmã. – ele diz, surpreendendo-me. Em dois séculos, essa é a primeira vez que ouço Ludwig falar sobre Alexis. – Ela costuma dizer que nós nascemos como rosas brancas, vivemos como rosas vermelhas e morremos como rosas que fazem jus ao nome que receberam. – uma pausa – Aielin e os outros são rosas brancas.

- São inocentes. – digo.

- Exato. – Ludwig diz, erguendo a rosa em sua mão para o céu – Eles são brancos. Não conhecem o vermelho, portanto não podem se tornar rosas. Ainda.

- Acredita que eles crescerão e se tornaram pecadores? – pergunto, observando a face de Ludwig.

O olhar dourado, novamente brilhante, permanece fixo na rosa e no céu, como se quisesse montar um quadro com os dois elementos. Enquanto fala, Ludwig mexe a flor em seus dedos, como se ela representasse algo ao mesmo tempo frágil e importante e forte e descartável. Como se ao mesmo tempo em que deseja segurar a flor, Ludwig quisesse jogá-la longe.

- Todos os seres humanos, mais cedo ou mais tarde, se tornam vermelhos. – o rapaz responde – Não há escapatória. Se você quer sobreviver nesse mundo, você tem que conhecer o vermelho e usá-lo para pintar suas pétalas. Mesmo que isso te machuque.

- Então o destino de todos nós é nos tornarmos rosas?

Afasto alguns fios de sobre os olhos dourados, que se fecham com força enquanto um suspiro escapa pelos lábios finos. A rosa é abaixada, a mão sobre grama, os dedos fechados sobre as pétalas, amassando-as. A pele pálida toca alguns espinhos, sendo machucada, pintando as pétalas com o líquido vermelho.

- Não. – Ludwig responde voltando a abrir os olhos – Somente aqueles que desejam podem se tornar rosas. Você só encontra a sua redenção quando anseia verdadeiramente por ela.

Não digo nada. Penso em quantas rosas existem nesse mundo e quantas delas podem ser brancas, vermelhas ou realmente rosas. Olho para minhas crianças brincando. Se o que Ludwig disse é verdade, se é realmente impossível escapar do vermelho, pergunto-me o que essa cor pode fazer as rosas brancas. Ao serem pintadas, o que as pétalas sentem? Dor, prazer? Elas choram ou sorriem? De qualquer forma, elas trocam de cor. Que tipo de marcas essa troca pode deixar?

- O tipo que decide se o vermelho se tornará rosa ou não. – Ludwig comenta. Acho que nunca vou me acostumar ao fato de ele poder ler os meus pensamentos e eu não poder fazer o mesmo com os dele – Se você sofre sendo pintado de vermelho, você procurará por uma nova cor para suas pétalas. Mas se você sente prazer sendo vermelho, será difícil querer mudar.

O desejo de se tornar rosa, de se arrepender. Somente esse anseio pode fazer com que as pétalas mudem, com que o caminho seja alterado. É justo, eu acho. De nada adianta você assumir uma cor com a qual não se sente confortável. Suas pétalas devem refletir quem você é e que caminho você percorre, mesmo que, no futuro, haja consequências.

- O que você acha que é? – pergunto – Que tipo de rosa você acredita que seja?

Ludwig demorar algum tempo para responder. A rosa, jogada sobre a grama, tem suas pétalas, respingadas de vermelho, arrancadas uma a uma. Conforme o vento bate, as trilhas vermelhas se espalham pela superfície macia, misturando-se ao branco.

- Vermelha. – o rapaz responde.

- Então somos iguais. – comento. Acredito que seja óbvia minha condição de rosa vermelha. Tão vermelha quanto o sangue que roubo e que mancho minhas pétalas cada vez mais.

- Não. – Ludwig diz, sentando-se e olhando em meus olhos – Somos diferentes. – sinto as pontas dos dedos do rapaz tocarem a lateral do meu rosto, parecendo procurar por algo em minha imagem. Ou somente... Observar? – Você é uma rosa que pensa ser vermelha quando, na verdade, já honra o nome que recebeu.

Abro a boca para perguntar algo, mas um toque frio em meu rosto desvia minha atenção, fazendo-me olhar para o céu. O cinza se tornou mais forte, trazendo consigo a chuva que agora derrama sobre nós. Ludwig se levanta e chama as crianças, mandando-as entrar na catedral. Fico de pé e toco o braço do rapaz, virando para mim, mas antes que eu possa dizer algo, ele fala:

- Entenderá em breve, Amadeus.

Sem dizer mais nada, Ludwig liberta o braço do meu toque e entra junto com as crianças. Permaneço parado sob a chuva, buscando compreender o que me foi dito. Se eu sou uma rosa que honra o nome que recebeu... Sou rosa, portanto, alcancei minha redenção. Mas como isso pode ser possível se em certas noites somente aumento meu pecado?

O som de um trovão me tira de meus pensamentos. O vento bate mais forte e sinto alguém atrás de mim. Viro-me, mas não vejo ninguém. Há somente as rosas brancas do jardim sendo molhadas pela chuva. Sem pensar, aproximo-me das flores, observando como as gotas d’água escorrem pelas pétalas do mesmo modo que um pincel desliza por uma tela. Talvez a chuva também queira pintar essas rosas. Pergunto-me que cor a tempestade escolheria.

Qual é a cor da dor? Ouço a pergunta e sinto meu corpo tremer quando minha mente reconhece a voz que a pronunciou. Fecho meus olhos e sinto mãos tocarem meus pulsos e um corpo encostar as minhas costas. Os dedos percorrem toda a extensão dos meus braços, parando em meus ombros. Lábios macios e molhados tocam minha nuca, beijando minha pele brevemente.

Amadeus. Outro tremor percorre meu corpo. Alexis. Viro meu rosto e sinto as unhas dela arranharem minha garganta enquanto os dedos seguram meu pescoço no lugar. Os lábios molhados tocam minha bochecha. Meu... Ela diz e me solta bruscamente. Abro os olhos no mesmo instante e viro meu corpo, procurando por ela, mas não há nada. Nem o mínimo sinal de que havia mais alguém aqui.

Respiro fundo, passando minhas mãos por meu rosto. Estava alucinando? Talvez tudo o que Ludwig me disse tenha me afetado mais do que eu pude perceber. Olho mais uma vez ao meu redor, mas não há absolutamente nada.

Nada além de um jardim de rosas brancas.

Notas finais
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