Doce Pecado

Queimar

Eu sei que é errado, mas isso está me queimando por dentro, transformando-me em cinzas. Essa... Essa... Sede. Penso em tantas coisas que posso beber: água, suco, leite, vinho, mas a imagem de cada uma delas faz meu estômago se contorcer, levanto-me ao limite do enjôo.

Minhas pernas me levam pelos corredores, que parecem intermináveis para mim. Sinto o suor frio escorrer por minha nuca. Minha mente parece girar, sinto-me tonto e fraco. Tropeço no nada e acabo caindo, meu corpo deslizando pelo chão de pedra. Ajoelho-me e encosto a lateral do meu corpo na parede, buscando apoio para voltar a andar.

Fecho os olhos, sentindo-me atraído por um som baixo e compassado. Tudum, tudum. As batidas de um coração. Posso ouvi-las perfeitamente, ecoando em minha mente e aumentando a intensidade da sede que me consome. Volto a abrir os olhos, tentando resistir, mas é tão difícil! Eu quero, eu preciso desse som. Necessito ouvi-lo saindo do ritmo, tornando-se forte e descompassado. Desesperado. Quente.

Deixo que um baixo gemido escape por entre meus lábios. Toco meu pescoço, minhas unhas arranhando minha pele. Ah, queima tanto! Paro, encostando meu rosto na pedra fria da parede, tentando me acalmar. Respiro fundo, mas não consigo me acalmar, continuo a inspirar e expirar rapidamente, minha respiração ofegante.

As batidas do coração se tornam mais altas, próximas. Suspiro, o desejo, a sede ameaçando controlar minha mente. Volto a caminhar, passando pela porta aberta, entrando na pequena capela. Através de minha visão borrada pelo brilho das velas, vejo um rapaz ajoelhado diante da cruz, orando. Posso ouvir as palavras sendo sussurradas rapidamente. Frases simples, como os versos de uma canção, cuja melodia é a batida do coração.

Dou alguns passos hesitantes em direção ao rapaz. Sei que não deveria fazer isso, que o certo seria me virar e sair correndo daqui, mas não consigo me impedir. O som e a sede são mais fortes que minha vontade, que minha razão, arrastando-me pelo estreito corredor. O rapaz ouve meus passos e se vira, sorrindo para mim. Sinto meu interior quebrar e, por um segundo, o fogo se torna gelo.

Trêmulo, encaro a face jovem a minha frente, tão familiar. Os olhos azuis refletem o brilho da alma inocente, brilho também presente nos lábios finos e vermelhos. Sinto as lágrimas escorrerem por meus olhos, esquentando minha pele, tão quentes quanto a sede.

- Padre Amadeus. – o rapaz diz com um tom de voz preocupado – Está tudo bem, padre?

- Lucas... – sussurro sem saber o que mais dizer.

- Desculpe-me por estar aqui há essa hora. – Lucas pede – Pensei que não haveria problema.

- Não há... – digo.

Parte de mim quer dizer para que Lucas saia daqui o mais rápido possível, mas outra parte deseja que ele permaneça exatamente onde e como está. Com seu coração tocando para meu deleite.

- Está tudo bem, padre? – ele repete a pergunta.

- Sim. – respondo de maneira hesitante – O que faz aqui?

Não! Eu não deveria fazer com que ele continue aqui! Tenho que fazer com que ele vá embora! Só que eu... Eu não consigo! De minha boca, não sai nenhuma palavra de afastamento; meu corpo, trêmulo, parece não querer obedecer aos meus comandos e tirar Lucas daqui. Eu só atendo à sede, ao calor que me queima como o sol queimou minha face mais cedo, ao som do coração pulsando o sangue por todo corpo de Lucas. Não ouço nada além das batidas, não sinto nada além do calor. No limite, na beira do precipício. Um passo, um fraquejar é o bastante para que eu caia, diretamente para os braços da escuridão.

Por mais forte que minha vontade seja, eu sou fraco perante essa... Tentação. E antes que eu perceba, estou realizando aquilo que deveria evitar.

Minhas mãos tremem, mas ainda assim seguram firmemente os ombros de Lucas, empurrando-o em direção à cruz, batendo o corpo frágil contra a prata dura. Por um segundo, encaro as íris azuis, que revelam o medo que Lucas sente nesse momento.

- Padre... – coloco dois dedos sobre os lábios vermelhos ao mesmo tempo em que encaixo meu rosto no pescoço macio, meus próprios lábios deslizando pela pele pálida.

- Shh! – peço. Não torne isso mais difícil do que já é.

Abro minha boca, deixando meus dentes roçarem na pele de Lucas, arranhando, aumentando a força pouco a pouco, até rasgá-la, libertando o líquido pelo qual minha sede tanto anseia. Nem doce, nem amargo. Quente.

Desfrutando um estranho e intenso prazer, ouço o som dos batimentos do coração de Lucas se alterar, tornando-se mais rápidos e fortes. Doce melodia, acompanhada pelo movimento de meus lábios, que sugam o sangue quente com fome.

Sinto Lucas tremer em meus braços e gotas caírem sobre meu rosto, misturando-se ao sangue que tomo. Salgadas. O corpo de Lucas arqueia quando ele tenta respirar mais profundamente, o movimento liberta uma palavra. Um sussurro que me paralisa:

- Deus...

Solto o pescoço de Lucas e me afasto, minhas mãos tocando levemente o corpo trêmulo. Assustado, observo Lucas chorar, respirando de maneira descompassada. O olhar azul é dirigido a mim, questionador. Por quê? Sinto as lágrimas que Lucas derrama se tornarem minhas, marcando minha pele. Toco a face jovem, amedrontada, meus dedos tocando levemente a trilha vermelha feita por meus dentes.

- Padre... – Lucas sussurra, as pálpebras se fechando sobre os olhos azuis, escondendo as íris brilhantes e inocentes.

- Lucas? – chamo, mas não obtenho resposta.

Olho para cima, deparando-me com a cruz de prata. Como um soco em minha face, a realidade do que fiz me atinge bruscamente. Eu o matei! Deus, eu o matei! Toco minha garganta, sentindo a dor me sufocar. Por uma sede maldita eu matei um inocente! Não há perdão para o que eu fiz. Deus, Lucas... Eu... Eu o matei! Desesperado, grito com todas as minhas forças, um grito profundo de uma alma afogada em dor.

Deus, perdoe-me...

Logo, ouço o som de passos se aproximando. Não me importo. Nem mesmo quando ouço as exclamações de raiva e surpresa ou quando agarram meu cabelo, puxando-me e jogando-me no chão. As palavras proferidas por aqueles que me cercam ecoam em minha mente: Filho da escuridão. Demônio. Vampiro. Sinto a ponta de uma lâmina penetrar em meu ombro e outras pontas, outras lâminas rasgarem minha pele rapidamente, como se fossem o próprio vento. Todo toque dói, queima. Fecho meus olhos, deixando que a dor me envolva, que o castigo me domine. Eu mereço.

Sinto a lâmina ser arrancada de meu ombro, que é agarrado em seguida. As mãos que seguram meus ombros me obrigam a ficar ajoelhado. Não ofereço a mínima resistência. Não quero. Ouço uma voz próxima, sussurrando palavras que não consigo entender. Uma mão toca meu pescoço, procurando pela corrente que uso. Percebo quando ela é arrebentada e o crucifixo é levado para longe de mim. Mas logo volto a senti-lo sobre meu olho esquerdo, a prata queimando como o sol, como a sede. Cada vez mais forte, cada vez mais firme, conforme os sussurros se tornam mais altos e firmes.

- Amém! – a voz diz e a cruz é afastada de meu rosto.

Lentamente, abro meus olhos, meu olhar sendo dirigido para cima. A certeza de que a dor que sinto é tão grande que me faz ter alucinações me invade. Vejo a cruz fixada na parede começar a trincar, parecendo sangrar, linhas vermelhas decorando a prata. Tal imagem me faz finalmente entender. Eu estou sendo renegado.

Respiro fundo, sentindo a ponta de uma estaca ser encostada em meu peito. Segundos depois, a estaca é empurrada, afundando em meu coração. Meus ombros são soltos e meu corpo cai de costas no chão. Ouço quando os outros se afastam, dizendo algo sobre fogo. Tento me mover, mas não consigo, meu corpo está paralisado.

Sinto os cortes doerem, meu olho esquerdo ainda queima e sinto uma pressão tão grande em meu peito que tenho a impressão de que vou explodir a qualquer momento. Mas nenhuma dessas sensações é tão terrível quanto a que domina minha alma. Uma sensação que queima e sufoca, marcando em meu espírito o símbolo de meu crime.

Com o olhar, procuro pelo corpo de Lucas, mas não o acho. Ele deve ter sido levado. Sinto muito. Isso é tudo que posso pensar em dizer. Perdoe-me. Olho para a cruz, ainda quebrada e manchada com sangue, mas agora envolta pelas rebeldes labaredas do fogo.

Renegado.

Fui renegado no momento em que sobrevivi ao ataque de Alexis e fui renegado agora ao cometer um crime tão hediondo como o de tirar a vida de um inocente.

Renegado pelo Céu. Renegado por Deus.

Tornei-me um pecador. Um pecador que será queimado assim como queimou a outro.

Notas finais
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