Doce Morada
12 Sobre Amar
Notas iniciais
1 mês depois
Acordei sentindo dentes morderem de leve a carne do meu pescoço. Minha teoria de que Lorenzo já foi ou se tornará um vampiro cada vez ganha mais credibilidade. Meu pescoço já é cheio de marcas que ele faz e isso ainda será o motivo de uma séria discussão. Não havia uma maneira melhor de me acordar.
— Bom dia. – disse ele sem nem eu ter aberto os olhos ainda. – Não adianta fingir, eu sei que já acordou. Vamos levantar ou iremos nos atrasar para o trabalho.
— Eu odeio trabalhar.
— Pensava que o garoto mimado era eu, Enrique. Mas agora não tenho tanta certeza.
— Você conseguiu emprego na empresa de um amigo do seu pai, na parte de administração. Eu trabalho numa fábrica de tecelagem. Definitivamente, não é a mesma coisa.
— Eu sei. Eu vou dar um jeito de conseguir dinheiro suficiente para que você não precise trabalhar lá.
— Não, isso não. Talvez não seja o melhor local de trabalho, ou talvez eu demore para me acostumar, mas não precisa me sustentar. Você sabe o que eu realmente quero de você.
— O meu corpo.
— Sim, é basicamente isso o que você pode me oferecer. Estou indo tomar banho.
— Vou junto para economizar água. Não podemos gastar muito estando na casa dos outros.
Lorenzo havia passado três semanas se recuperando do tiro. Nas duas primeiras semanas, eu fiquei a cuidar dele, mas Ronald conseguiu um emprego para mim numa fábrica de tecelagem e há duas semanas estou trabalhando. Lorenzo também começou a trabalhar semana passada.
Apesar de não gostar muito do meu trabalho, estou feliz por finalmente fazer algo. Não me sentiria bem se ficasse morando nessa casa sem fazer nada. Agora eu posso ajudar com as despesas pelo tempo em que ficar.
Joseph, Ronald, Lily e Carlie têm sido maravilhosos comigo. Nesses dias que fiquei cuidado de Lorenzo, ele me ensinou inglês por várias horas e agora eu conseguia conversar, pelo menos o básico, com todos. As mulheres estavam sempre cozinhando algo novo para eu experimentar. Ronald era o mais próximo de amigo que já tive na vida e eu não me restringia em conversar com ele sobre minha vida e meus sentimentos. Ele estava sempre me aconselhando, principalmente sobre Lorenzo.
Joseph era mais quieto, mas fazia ótimas piadas de vez em quando. E eu ria muito quando conseguia entender. Os quatro eram uma grande família e às vezes eu me sentia como um filho para eles, apesar de não ser tão mais novo.
Tomei o meu banho, apesar da tentação de ter Lorenzo ao meu lado totalmente pelado. Me arrumei e fui para a cozinha ajudar a preparar o café. Tinha aprendido um pouco de culinária e todos elogiavam minha comida, apesar de eu achar que fosse por educação.
— Bom dia. – falei em inglês e eles retribuíram. Fui ajudar Carlie que assava alguma coisa na panela.
— Enrique, preciso da sua ajuda. Fui convidada para um jantar onde vão estar pessoas importantes e estou em dúvida entre dois vestidos. – disse Lily aparecendo na cozinha segurando um vestido em cada mão. – Vermelho ou azul?
— Azul.
— Por quê? – perguntou ela.
— Me parece mais adequado. O vermelho cairia melhor numa festa.
— Então será o azul. Eu confio no seu gosto.
— Por que ninguém me pergunta nada? – Lorenzo se intrometeu na conversa e fez expressão de ofendido. – Eu também tenho opinião. Vocês parecem que esquecem de mim quando o Enrique está por perto.
— Que lindo, ele ciumento. – Lily foi até ele e apertou suas bochechas. – Você não vai ousar discordar do Enrique, vai?
— Nem se eu quisesse.
— Meninos. – Carlie chamou virando-se para Ronald e Joseph que estavam abraçados de lado. – Se vocês tivessem que escolher, ficaram com o Enrique ou com o Lorenzo?
— Enrique. – respondeu Ronald.
— Lorenzo. – disse Joseph.
— E você, amor? – perguntou para Lily.
— Enrique. Mas o Lorenzo é uma ótima segunda opção.
— Você perguntou isso para me humilhar? É claro que a maioria escolheria o português. Uma pena que eu só eu posso tê-lo. – Lorenzo veio até mim e me abraçou por trás. Eu o afastei para colocar a comida da panela na mesa.
Nós seis tomamos o café conversando sobre besteiras. Eu poderia dizer que somos amigos.
Oito meses depois
Lorenzo e eu caminhávamos a caminho da casa que compramos. Após todos esses meses, conseguimos juntar o dinheiro e resolvemos nos mudar para uma casa só nossa. Apesar da boa hospitalidade que os nossos amigos nos ofereceram, preferimos ter o nosso canto para construir a nossa vida.
A casa era um pouco afastada da cidade e quase não tínhamos vizinhos. Tudo isso para não chamar muita atenção, afinal ainda tínhamos que esconder a nossa relação para o pessoal de fora. Isso ainda me entristecia, mas não conseguia me derrubar. O importante é que eu sou feliz ao lado desse homem e ninguém pode querer vir me dizer se é errado ou não. Eu não me importo com a negatividade que podem jogar contra mim e sim com a minha vida. A minha felicidade.
Nesse tempo, Lorenzo e eu definimos que somos namorados. Mas agora estamos dando um passo a frente. Morando juntos, só nós dois. Posso dizer que em breve o chamarei de meu marido.
O Enrique de um ano atrás nunca imaginaria que um dia eu estaria vivendo esse momento. E é por várias razões que o Enrique de 20 anos, eu agora, tenho vivido o momento mais feliz da minha vida. Ao lado de pessoas incríveis, que me amam como eu sou. Ao lado de alguém com quem eu posso compartilhar as minhas questões existenciais, a minha cabeça muito pensativa, os meus sentimentos aflorados.
Entramos na casa e deixamos as tintas num canto para dar uma olhada. Iríamos pintar a casa de azul claro, decisão unânime.
— Nossa casa. – Lorenzo falou com um sorriso tão lindo que eu gostaria de gravar aquela imagem na minha cabeça para sempre.
— Eu ainda estou sem acreditar.
— Ei. – Lorenzo veio até mim e ficou em minha frente, me analisando por alguns segundos. Então ele apenas me abraçou e eu o abracei de volta. – Eu te amo!
— Eu também te amo!
Era a primeira vez que dizíamos isso um para o outro. Não que eu não soubesse disso antes. A verdade é que acho que estava guardando para o momento certo. E não havia melhor momento que aquele.
— Já pensou em tudo que viveremos aqui? Vamos ser tão felizes, Enrique.
— Vamos, sim. – Lorenzo me soltou do abraço e eu coloquei minhas duas mãos em seu rosto. Seus olhos lacrimejavam e os meus não demoraram a ficar assim também.
Então me aproximei e colei nossos lábios. Para mim, aquilo era como selar um pacto de sermos muito felizes. Não pude deixar de pensar nas pessoas como nós que não têm a mesma oportunidade. Que foram reprimidas por outros ou que lhes foram arrancadas a chance de ter uma vida normal, ao lado da pessoa que ama.
Eu sei que deve haver várias pessoas assim nesse gigante mundo. E infelizmente, eu sei que faço parte de uma minoria que, apesar de todos os percalços, consegue viver uma história de amor. Mas eu acredito que um dia, as coisas mudarão. Mais pessoas terão essa chance que eu estou tendo agora. Pode ser em dez anos, em cem, em um século. Uma hora as pessoas terão que entender que não dá para restringir o amor.
Essa minha história é uma carta aberta sobre o amor. Em favor do amor.
Lorenzo e eu começamos a pintar a casa. Eu me sujava com a maior facilidade e em minutos minha pele já tinha tom de azul. Depois de horas, quando todas as paredes estavam devidamente pintadas, deitamos exaustos no chão. Me aconcheguei no peito de Lorenzo e ele passou a afagar meus cabelos. Acabamos dormindo ali, exaustos.
Cinco meses depois
Lorenzo e eu estávamos sendo o anfitrião dessa vez. Convidamos Joseph, Ronald, Lily, Carlie e agora Midas para jantar em nossa casa. Fazíamos isso com certa frequência para conversarmos sobre a vida. Midas era o filho de Lily e Carlie. Elas o encontraram abandonado na rua e decidiram adotá-lo. Para as outras pessoas, era filho de Joseph e Lily. Mas a verdade é que Midas tinha dois pais e duas mães, já que o outro casal também se apegou muito ao menino.
— E então Midas, você quer um pedaço de torta? – perguntei ao menino que assentiu sem olhar para mim. Ele era um pouco envergonhado. – Pega aqui. – estendi para ele um pedaço da torta de carne. – Se quiser mais é só vir pedir ao tio, tudo bem? – o menino acenou e foi se juntar aos outros.
— Como está a comida? – Lorenzo apareceu na cozinha e me deu um selinho.
— Do jeito que você deixou, não mexi em nada.
— Ótimo. Dessa vez não quero precisar improvisar algo.
— Foi só uma receita errada. Você sabe que eu cozinho muito melhor que você.
— Tem certeza?
— Não me provoca, Lorenzo. Vai olhar o forno, não quero ver nada queimado. Vou ficar conversando com nossos amigos enquanto você cuida do resto. – pisquei para Lorenzo que respondeu dando um tapa na minha bunda. Olhei para ele o repreendendo, mas ele abriu um sorriso cínico.
— E então, Enrique? Como é o novo trabalho? – Carlie perguntou. Eu havia ganho uma promoção na fábrica e agora era supervisor.
— É um pouco difícil porque às vezes tenho que pegar no pé do pessoal e tenho medo de que eles criem um ódio por mim. Mas até agora está indo tudo bem.
— Acho muito difícil alguém odiar você. É um bebê. – respondeu Lily.
— Às vezes eu acho que sou mais novo que o Midas pela maneira que falam de mim. Inclusive, como vai o garoto?
— Encontramos uma escola para ele. Começou a estudar já umas semanas e ele é bem inteligente. Está surpreendendo os professores com a facilidade para aprender. – disse Carlie.
— Não esperava menos do meu sobrinho. – falei e Lorenzo apareceu na sala.
— A comida já está pronta. Podemos ir para a mesa. – todos se levantaram em direção a mesa, mas quando eu fui passar, Lorenzo me parou. – Não queimei nada.
— Parabéns. Merece um prêmio.
— Vou cobrar depois.
— Vamos para a mesa. Eles estão nos esperando.
— Para mais um jantar cheio de babação para cima do maravilhoso Enrique. Um dia, eles ainda te sequestram e somem para longe.
— Deixa de exagero, menino.
Lorenzo e eu fomos colocamos a comida na mesa e nos sentamos. O jantar estava realmente maravilhoso, mas eu não contaria ao meu marido. Dar esse gostinho a ele de graça?
— Daqui há algum tempo, Lorenzo será meu sócio e nós abriremos uma empresa. Iremos concorrer com as maiores de Londres. – disse Joseph empolgado. Ele tinha esses planos de abrir uma fábrica e administrá-la junto a Lorenzo.
— Esses dois se tornarão esse tipo de homem que só pensa no trabalho. – falou Ronald. – O que faremos quanto a isso, Enrique?
— Vamos abandonar os dois e formar um novo casal. – eu disse e recebi olhares furiosos de Joseph e Lorenzo. – Calma, é só uma brincadeira.
— Isso não vai acontecer. Eu sei administrar muito bem o meu tempo. – Joseph disse para o marido.
— Eu acho bom me darem um cargo nessa empresa de vocês. Um que eu ganhe bem e não precise trabalhar tanto. Ser mãe demanda muito tempo e dinheiro. – Lily comentou arrancando risadas. – Mas eu não reclamo. Midas é a coisa mais importante da minha vida.
— E eu? – perguntou Carlie com tom de indignação.
— Você está no mesmo nível de importância, amor.
Eu achava linda a relação das meninas e agora elas sendo mães. Midas era um garoto de sorte. Cresceria num lar repleto de amor, onde ele poderia ser quem quiser. Eu tinha um pouco de inveja dele por isso. Até hoje penso em meus pais. É inevitável não pensar que eu só estou aqui hoje pelo que havia acontecido em Évora.
Não vou mentir que não tenho vontade de revê-los. Minha curiosidade em saber o que aconteceu ainda é enorme e me rouba o sono em algumas noites. Mas isso é algo com que eu tenho de conviver dia a dia.
Após o fim do jantar, foi a hora de nos despedirmos. Marcamos um outro jantar na casa deles em duas semanas. Fechei a porta assim que todos saíram. Virei-me para Lorenzo que me olhava com uma feição indecifrável.
— Eu quero um filho. Ou uma filha. – disse ele de repente, me pegando de surpresa.
— Como? Você sabe que para eles é fácil porque Joseph e Lily fingem que são casados para as pessoas, assim como Ronald e Carlie.
— Nós vamos dar um jeito. Já conseguimos morar sozinhos. Eu sei que é arriscado, mas eu penso que vale a pena. Não vê como estão felizes? Mas claro, antes você precisa dizer se também quer isso. Eu não tomaria nenhuma decisão sem o seu consentimento.
— Você e sua mania de me pegar de surpresa. Algum dia você irá parar de fazer isso?
— Não posso te prometer nada. Além de que irei te amar para sempre.
— Está dizendo isso para me convencer, é? Claro que eu quero ser pai e vamos conseguir sim dar um jeito. Nós merecemos isso.
— Eu sei que não podemos fazer um filho do jeito normal. Porém, não quer dizer que não possamos similar isso.
— Acho uma boa ideia. Vai que a ciência está errada e possamos sim gerar um filho? – nosso tom era de brincadeira.
Lorenzo me subiu, colocando o meu corpo em seus ombros. Eu caí em risada vendo de cabeça para baixo ele me carregando até o nosso quarto. Me deitou com cuidado na cama e ficou em pé me olhando com um brilho dos olhos que me fez derreter.
— Você é tão lindo, Enrique.
— Não mais que você.
Eu não acreditava que encontraria o amor. E na verdade, não o encontrei. Eu o conquistei. Lorenzo e eu desbravamos juntos esse sentimento. Ninguém poderia dizer se é errado ou não o que sentimentos. Eu sei que não tem nada mais certo do que nós em minha vida.
Lorenzo Valença se tornou o meu lar. Minha doce morada.
FIM
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