Doce Mentira
6 Momento Errado
Notas iniciais
Meus olhos foram incomodados pela forte luz apontada em sua direção e lentamente se abriram. Um homem alto com uma máscara apontava uma lanterna para mim enquanto me observava meticulosamente. Tentei me mover e não consegui, movi meu pescoço com dificuldades e olhei para baixo: meus braços e pernas estavam preso na maca onde eu estava deitado:
–Droga!!! -Gritei eu.
O homem com a máscara médica se afastou de mim e sussurrou para seus outros colegas:
–Não me parece que haja algo de errado com o seu corpo em geral...Talvez eu deva analisar o seu cérebro de forma mais profunda...
Daniel se levantou e agarrou o homem por seu colarinho enquanto levantava-o ao ar:
–Como assim não há nada de errado? -Gritou ele furiosamente. -Eu passei mais quarenta ciclos da minha vida observando ele, e em todas as vezes ele fez a mesma coisa!! Todos os quarenta ciclos!!!!
Outro homem interferiu:
–Acalma-se Hélio, nós entendemos a sua frustração mas você deveria se controlar mais...
Daniel largou o médico e retrucou se afastando:
–Meu nome é Daniel agora!
E eu fiquei ainda mais perdido após ouvir aquela conversa...talvez eu estivesse no meio de algo perigoso. O médico voltou a aproximar-se de mim mas dessa vez com uma agulha e um bisturi:
–Parece que terei de analisar o seu cérebro a fundo... -Disse ele com um olhar frio.
Eu rapidamente retruquei:
–Ei!! O que você vai fazer? Ei!!!
O médico apenas sinalizou para seus companheiros me calarem. Eles se aproximaram com algumas amarras e eu vi minha vida passar diante dos meus olhos. Mas ele impediu:
–Espere...eu quero falar com ele primeiro... -Disse Daniel.
Ao ver seu rosto, um sentimento maligno percorreu o meu corpo, meu ódio por ele não havia sido esquecido. Ele colocou sua mão no meu rosto com força e perguntou com um olhar agressivo:
–Você se lembra do que aconteceu antes?
Eu respondi no mesmo tom agressivo:
–Antes?
–António? Jasmin? Não se lembra desses nomes?
Eu apenas balancei minha cabeça para responder que não. Seus olhos se encheram de fúria, ele socou a parede mais próxima com toda a sua força e gritou:
–MERDA!!!!
Ele apenas se distanciou enquanto os médicos voltavam ao seu trabalho. Senti minha boca sendo calada, meus olhos sendo vendados e uma agulha penetrar minha pele:
–Então é assim que acaba? -Pensei eu perdido na minha própria insignificância. -Sem saber de nada? Que final infeliz...
Foi quando eu escutei um urro de dor e minhas pernas foram tocadas por algum líquido:
–O que está acontecendo?
Alguns outros barulhos foram emitidos juntamente de gritos de dor. E logo em seguida, meus olhos foram desvendados. O lugar estava completamente destruído, os médicos estavam todos mortos e o sangue banhava tudo. Quando olhei para quem ainda estava vivo, me surpreendi:
–Daniel...
Ele pegou em meu braço e começou a correr:
–Rápido...reforços irão chegar...precisamos sair daqui...
Eu sequer tive tempo de fazer alguma pergunta. Após algum tempo, nós encontramos um carro e usando ele saímos daquele lugar. Peguei o resto do ar que estava em meu pulmão e perguntei:
–Porque?
Ele respondeu calmamente:
–Não se preocupe, eu vou te explicar...
Algum tempo se passou e nós já estávamos bem longe daquele lugar quando ele começou a se explicar:
–Por onde eu deveria começar... -Disse ele pensando. -Talvez por aqui...
Ele inspirou e começou:
–Nós vivemos num lugar estranho neste momento, por mais normal que esse mundo pareça, ele com certeza não é. Esse mundo é uma espécie de cópia do mundo real, tudo é exatamente igual, com uma exceção...esse mundo tem fim.
Sem pensar duas vezes, eu perguntei:
–Fim?
–Após um certo número de dias, esse mundo irá acabar e começar de novo. Para ser mais exato, esse mundo começa a partir do ano de 1983 e irá acabar por volta de 2013. -Continuou ele. -Nós não sabemos porque isso acontece, mas nós conseguimos nos adaptar. Através de algumas máquinas, nós conseguimos manter as nossas memórias quando o mundo acaba.
–Isso quer dizer que...essa não é a primeira vez que nos encontramos? -Perguntei eu.
–Não...quarenta ciclos atrás, eu fui enviado aqui para te vigiar porque notaram alguma anomalia.
–Anomalia? O que você quer dizer?
–Como as pessoas perdem as memórias toda vez que um ciclo acaba, elas irão fazer as mesmas coisas que fizeram no ciclo passado. Mas você não. -Disse ele ficando mais sério. -Nos primeiros ciclos foram apenas algumas pequenas mudanças, mas após dez ciclos você começou a mudar drasticamente. Em todos os ciclos partir dai foi a mesma coisa "Você já pensou que está realidade pode ser um sonho?" Sempre começava assim...a sua paranoia sobre essa realidade...
Eu tremi, afinal de contas, nem mesmo eu podia entender o que era aquele sentimento de desconfiança em relação a este mundo:
–Mas isso significa que eu estive certo o tempo todo, né? -Perguntei.
–Não necessariamente, esse mundo pode ser a realidade tanto como pode não ser...
Nós ficamos em silêncio até que perguntei:
–Mas...porque você está me contando isso?
–Não sei...quem sabe assim você irá agir diferente nos próximos ciclos. -Respondeu ele. -Sinceramente, eu estou cansado de fazer as mesmas coisas todos os dias da minha vida...e eu tenho outro objetivo.
Eu resolvi me intrometer:
–E qual seria esse objetivo?
–Eu tenho que achar a pessoa que criou tudo isso, muitos me disseram que ela está morta mas eu não acredito nisso. Eu vou acha-la e vou força-la a me explicar a situação. Mas antes disso...eu tenho algumas coisas para fazer...
Eu continuei olhando para frente quando senti algo gelado tocar meu rosto, era uma arma:
–Ei, o que você está fazendo Daniel?
–Eu vou te matar, essa é a única forma de eu me redimir por ter morto alguns companheiros meus lá trás, eles vão estar de voltar quando o ciclo acabar mas te matar irá provar novamente minha lealdade...
–Ei, você não tem que fazer... -Implorei eu por minha vida...
–Desculpa...sem remorsos? -Sorriu ele.
–NÃO, NÃO E NÃO!!! Me recuso a morrer aqui...não depois de tudo o que eu já sei! -Gritei eu dando um soco em seu rosto.
Ele rapidamente perdeu o controle do carro:
–Retardado! Está tentando matar nós dois? -Retrucou ele.
–Talvez! -Gritei chutando o volante e fazendo o carro bater contra uma das paredes do túnel onde estávamos. Após o carro ficar totalmente sem controle, eu abri a porta e saltei o mais rápido que pude. Ignorei minhas feridas e corri com todas as minhas forças:
–Não irei morrer hoje...não mesmo...
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