Doce Insanidade

6 O Renegado e a Redentora


–Não se pode esperar muito desse tipo de gente... — resmungava o Dr. Chilton em sua sala. — Hum! Está bem! Hoje Então! — bateu o telefone.

Não, realmente, não poderia ter sido diferente; o que fazer quando não entendem que se trata de Hannibal, o Canibal e não de um ladrãozinho de jóias que sem querer disparou a arma em si onde o tiro passou de raspão e acabou atingindo a vítima no crânio acidentalmente?! Será que já haviam se esquecido do perigo que esse homem trazia á sociedade?! Pois é, o Dr. Chilton temia isso, não por temer que algo ruim pudesse acontecer com alguém durante a viagem mas sim com sua reputação afinal, Ele era o doutor do 'Dr.Canibal', pego vivo, um raríssimo exemplar que lhe dava muita dor de cabeça e profundo desgosto; mas infelizmente nada podia fazer além de torcer para que a viagem de Hannibal Lecter ocorresse 'bem' e que os poucos policiais fizessem uma escolta decente desta vez.

No porão do Hospital Psiquiátrico exatamente na última cela estava o Dr. Lecter, perdido em seus pensamentos deitado em sua cama nada confortável fitando o teto de pedra.

Era uma sexta feira tediosa e tediosa, sem livros, sem papel, não tinha nada para fazer além de ficar deitado saboreando suas memórias detalhadíssimas enquanto apertava com a mão esquerda o pingente com a inicial dela... sorriu ligeiramente, acabara de se lembrar de uma certa quinta feira onde pôde ter a adorável companhia de Ayelleen, lembrara desse dia pois fora nele em que o que sentira por ela, tomara proporções inimagináveis em poucos minutos, fora nessa mesma quinta feira em que a moça, dona daquele par de olhos azuis belíssimos, o conquistara definitivamente.

Dr. Hannibal já havia recebido ligações de seu advogado sobre a mudança que ocorreria logo, citara muitas vezes quão diferente seria sua vida nesse novo Hospital Psiquiátrico bem longe do ego do Dr.Chilton, mas nada que ele lhe dissera o fez pensar no caso, ao saber que seria transferido, automaticamente planejou sua fuga. Seria livre e dessa vez pelo resto de seus dias e pensar nisso lhe proporcionava extrema felicidade, felicidade que tinha outro nome.

Com os dias se passando, Hannibal Lecter foi descobrindo os sabores da ansiedade, saudade e o sabor incógnito do amor, algo que ele desconhecia e agora tinha a certeza de que Dante Alighieri estáva certíssimo em dizer que 'Não há maior dor do que a de nos recordarmos dos dias felizes quando estamos na miséria.'

Florença, Palazzo Vecchio, 18:23 PM

Era mais um mar de esculturas que moldavam as paredes antigas e desmoronáveis em meio á livros preciosos de literatura e conteúdos raros, ela conseguia sentir o passado residir á cada milímetro, um passado misturando-se á outro e á outro... O bom de se trabalhar num lugar assim é que quando trabalha-se com o passado dos outros quase nunca lembra-se do seu próprio, e era exatamente isso que ela queria.

Estáva ali á algumas semanas, não era de um cargo importante perante os senhores do comitê que tanto se reuniam, mas era importante o trabalho que fazia, deixar tudo mais prático para o Curador com quem nunca conversava mas que lhe jogava insinuações e olhares pervertidos.

Ayelleen era apenas um espectro visto aqui e ali, perâmbulo entre a estátua de bronze Judite e Holofernes, passeava entre as 'quase ruínas' e não tinha ninguém para conversar além das obras milenares que a deixavam em êxtase total.

Naquela tarde, Ayelleen saíra do Palazzo Vecchio um pouco mais tarde, passara pela rua dos ciganos e parara um pouco para olhá-los; ela era o tipo de pessoa que jamais teria algum tipo de preconceito, era livre de 'velcros mentais', gostava do novo, se interessava pelo diferente e tinha tesão pelo excêntrico e por tudo aquilo que fugia do padrão social. Não demorou muito por ali, voltou para seu apartamento velho e pequeno e percebeu que se desfizesse as malas e guardasse os baús, ele não seria tão pequeno.

Hospital Psiquiátrico para Doentes Alienados Mentais, Baltimore, 15:35 PM

Uma 'escolta' de três policiais armados chega, Dr. Chilton olha com desprezo para eles, cita suas recomendações para transportá-lo em segurança e avisa sobre suas diversas maneiras de atacar e devorar partes humanas distintas. Isso com certeza não fez diferença para os três que entraram no corredor frio do porão onde se encontrava o Dr. Lecter, zombando de Chilton e criando apelidos de muito mal gosto para o prisioneiro .

E vejam só, lá estava ele, de pé, olhando fixamente para os três através do vidro, idéias maquiavélicas surgiram em sua mente como asrais na água límpida, borrões distintos de seu plano de fuga.

Como o de costume, Barney estáva lá para ajudar caso fosse necessário; prenderam-no como o de sempre e levaram-no até o carro; o Dr. Chilton lhes deu novas recomendações e os três policiais entraram no carro e dirigiram com destino ao novo lar do Dr. Lecter.

Estávam na estrada á cerca de uma hora e meia, próximo ao Little Theatre of Alexandria quando o Dr. Lecter começou a se mexer frenéticamente e a virar os olhos como se estivesse tendo uma convulsão.

– Merda, agora o velhote começou a passar mal!

– Deixa eu dar uma olhada nele... Assim não dá pra fazer nada, Hanz solta ele e Marley pede uma ambulância e rápido antes que o doutor aqui morra asfixiado.

Frenéticamente e mais frenéticamente até que as amarras se soltaram sozinhas e o policial Hanz não o percebeu, Ruds tirou a máscara do Dr. Lecter e quando ia apoiar sua cabeça de lado para que toda a saliva da suposta convulsão pudesse sair, fora atacado com uma mordida no olho e depois outra no nariz tendo os mesmos arrancados em segundos, gritando desesperado fez com que o policial Marley, que dirigia o veículo, fizesse um zigue e zague na estrada causando algumas batidas e quase derrubando o veículo morro abaixo, o policial Hanz entrou em pânico, como era novato não tinha habilidade com a arma e acabou disparando um tiro contra o colega Marley que ainda estáva ao celular tentando contatar uma ambulância, eles bateram na rodovia 120, muito próximo ao Aeroporto de Washington.

Marley estáva desmaiado com a cabeça meramente aberta, o policial Ruds estáva desfalecido em um canto do veículo e o policial Hanz desmaiara automáticamente ao ver o colega com o rosto dilacerado.

Dr. Lecter prontamente se levantou, abrira as algemas utilizando o pingente de Ayelleen, limpou o rosto com a roupa já suja de sangue, bateu o crânio do policial novato, Hanz, fortemente contra a lataria do veículo e retirou suas roupas, vestiu-as, retirou dos bolsos do policial mais velho, Marley, seus documentos e as carteiras dos três e claro, sua documentação de transferência; trajado como um policial, com uma arma no cinturão, quepe e óculos escuros, ele desceu do carro na estrada vazia, empurrou-o um pouco e logo o 'camburão' rolara para dentro de uma pequena área de reserva florestal, depois disso, foi andando até o aeroporto.

Ao chegar, se dirigiu ao balcão de compra de passagens, comprou a passagem com a hora de vôo mais próxima para Florença o que ocorreria em menos de uma hora; seguira até as lojas e comprara algumas roupas, trocara-se no banheiro onde ficou picando sua papelada e eliminando descarga a baixo, percebera que o documento do policial Marley lhe serviria perfeitamente já que eram um pouco 'parecidos'.

Dera a hora do embarque, o Dr. Lecter agora utilizando o nome de Marley Onne'il, 42 anos, Oficial do 13ª Distrito Policial de Baltimore, embarcava tranquilamente no vôo com destino á Florença onde já estivera no passado e a conhecera perfeitamente bem o que proporcionou á sua memória fotográfica perfeição de detalhes, Florença onde guardara suas identidades falsas e a próxima que usaria seria muitíssimo interessante, a de Curador no Palazzo Vecchio.

Ah! Ele mal podia esperar para pisar em Florença, 'Il mio dolce, dolce Firenze!' dizia baixinho para si enquanto sorria para a janela á sua direita onde já podia ver os lençóis brancos sobre um céu azul se tornando degradê a cada piscadela... Azul como os olhos dela... Sim... Enquanto olhava através do vidro sentia-se dentro dos mares de Ayelleen, dentro dos mares desconhecidos dos olhos dela... Ele era capaz de tudo, de tudo para poder vê-los não só uma vez ou duas mas sempre e nada mudaria isso, nada.

Estáva convencido de que, apartir do momento em que pisasse em Florença, uma vida nova, uma vida que ele jamais pensou que poderia ter, que jamais cogitou querer, teria de existir e com certeza existiria afinal, haviam muitas verdades ocultas naquele 'para sempre sua' no pingente que agora segurava com força... A força, era isso que ela lhe proporcionava, uma força devastadora que faria dele não um escravo de suas ações mas um amante de suas reações.

Ayelleen estivera arrumando suas coisas horas á fio, arrumara os livros em ordem alfabética nas velhas prateleiras, desdobrara as tantas roupas e organizara seus perfumes e sapatos por ordem de uso, ao revirar uma caixa onde guardava memórias de infãncia, cartões e outras coisas, encontrou o envelope caro com a caligrafia perfeita do Dr. Lecter, aquela era a vasta carta que ele lhe dera no dia de todo o ocorrido, fitou o envelope por alguns minutos, muitos minutos, virou-o, leu-o : 'Para minha minha mais do que querida, minha eterna Ayelleen.'

Estremeceu, sentiu o coração acelerar, sentou-se na cama de casal com lençois floridos e o abriu, começou a ler:

'Olá Ayelleen,

Finalmente chegou o dia que tanto foi aguardado por nós, em silêncio, devo ressaltar. De fato, creio que não faz idéia do quanto me agradou saber que não tem um namorado e muito mais por saber que jamais tivera um.

Você, minha doce Ayelleen, é como uma Ária para violino, é indescutívelmente deliciosa de se apreciar com os ouvidos, com os olhos...

Sabe Ayelleen, durante todos os nossos encontros, deveras de pouco tempo, aprendi muito mais do que ensinei, e isso para mim ainda me soa absurdamente duvidoso, sabe quando você me interroga com aqueles olhos arregalados e depois pisca algumas vezes, vezes seguidas, e depois sorri com certa timidez? Pois é assim que me sinto. Eu que me imaginei lhe ensinando um pouco de tudo sobre tudo e acabo sendo surpreendido por uma professora muito melhor do que aluna.

Você é como aquela frase de Shakespeare 'A verdadeira substância da ambição é a sombra de um sonho'... Você é minha sombra, você é quem me devolveu motivos para desacreditar no que acreditei por defesa durante anos, você é quem fez nascer um novo eu dentro do meu Eu antigo, um Eu que só existe para você, porque você Ayelleen, é um sonho; um sonho real para minha sorte.

Já percebeu como tudo entre nós fica em sintonia perfeita na presença um do outro? Quando você chega desperta meu interesse em conhecê-la mais, enquanto fica me surpreende com suas críticas e opiniões deslumbrantes sobre o oposto e o imparcial á tudo e quando você vai... bem, quando você vai, minha cela volta a ser esse lugar úmido e penoso como sempre foi.

Ah! Mas a lembrança do seu rosto é o maior e mais forte pilar em minha mente, tem raízes tão fortes quanto meus pesares. Você, sem dúvida alguma, é a única memória sem dor que eu possuo, dor Ayelleen, não é o pior de tudo; sabe o que é pior? É ter de vê-la somente através do vidro, poder sentir seu cheiro doce por pequenos buracos em minha jaula, é tê-la em minha mente e não poder tê-la em meus braços.

Não quero que se sinta constrangida mas, na verdade, a verdade é essa. Esperava ouvir isso de mim? Acredito que não.

Apesar de tê-la com seus conceitos nus e crus á cada quinta feira, ainda receio que não haja espaço para esse tipo de cousa em sua vidinha monótona de Arquivista. Ah, não mesmo. Mas é claro que, suas evidências me mostram que há espaço para outras cousas como por exemplo, para alguém que saiba bem o conceito de Amor Romântico, que aprecie culinária exótica e que priorize o que há de melhor em você, e veja só, creio que esse alguém sou eu.

Já parou para pensar nisso Ayelleen? Pararia para pensar nisso? Se arriscaria a fazer parte disso? Acredita que, quem ama morre pelo o que ama? Por quem ama? Por ser amado?

Quer minha resposta?

Não por aqui, lhe direi em breve mas não com palavras... Acredite, será uma grande surpresa para nós dois.

'Cada vez que lhe vejo, cada vez mais lhe desejo', já ouvira essa frase? Se assustaria se lhe confessasse que é assim que me sinto quando lhe vejo carregando todos aqueles livros? Ayelleen, não me leve a mal minha querida, mas sua imagem é como uma refeição completa para mim, é insdispensável, saborosa e intrigante.

Hoje ocorrerá algo, acredite, ocorrerá sim. Ou da minha parte ou da sua, mas isso será inevitável; só quero que tenha uma certeza: jamais lhe machucarei mas machucarei quem quiser lhe machucar. Não tenha medo de mim Ayelleen, não tenha mais medo de nada, e você sabe do que estou falando... as ameaças vindas do bastardo do seu irmão.

Aconteça o que acontecer hoje não se desespere, lembre-se, me lembrarei ainda mais de você.

Seu, Hannibal Lecter M.D.

Ps:

“As primeiras três horas da noite haviam quase passado

O tempo em que cada estrela brilha sobre nós

Quando Amor me apareceu de súbito

E eu ainda estremeço com a lembrança.

Amor me pareceu alegre, enquanto segurava

Meu coração nas mãos, e nos seus braços

Minha dama dormia, envolta num véu.

Então ele acordou-a e, trêmula e obediente,

Ela comeu o coração ardente;

Chorando, eu o vi partir para longe.”

Ayelleen terminou a carta com o rosto molhado, olhos inchados e mãos trêmulas. Ela não podia mais segurar aquilo dentro dela, não conseguia, tinha que ser forte! Mas como? Se sua fortaleza estáva tão longe e tão impossível de parar suas lágrimas e acabar com sua dor naquele exato momento?! Sua fortaleza... Hannibal Lecter... Agora ela se conformava, estáva perdidamente e completamente apaixonada pelo homem, pelo doutor, não pelo Canibal. Conhecia Hannibal Lecter tão bem quanto ele mesmo, tanto era verdade que ele mesmo assumira que se surprendera com tamanha autenticidade e confiança vindos dela. Ela simplesmente o amava, o amava tanto que faria qualquer coisa para estar com ele não só uma ou duas vezes mas sempre, e nada, nada poderia mudar isso.

Ela deitou abraçando a carta, sorrindo com as lembranças daqueles olhos hipnotizantes, daquela voz que percorria todo o seu corpo, daquele beijo que se tornava mais e mais profundo, daquele toque real de um homem de verdade, daquele a quem ela amava e agora tinha a plena certeza de que também era amada por ele.