Notas iniciais
Oi pessoinhas da minha vida!! Tudo bem com vcs? Está aí mais um cap!! Talvez o próximo demore um pouco mais, pq estou pensando ainda como continuar... Eu tenho o enredo na minha cabeça, mas tem hora q é difícil fazer de um ponto ao outro, dando continuidade sem ficar enchendo linguiça XD Estão gostando das atualizações? Deixem comentários, por favor!! Tenho recebido comentários e respondido todos assim que posso! E vcs não imaginam o quão feliz eu fico quando vejo q estão acompanhando e curtindo!! Pessoinhas q acompanhavam, se ainda acompanham, deixem um "oi" pelo menos, só pra q eu saiba q ainda estão firmes aí! Agradeço mto a todos q continuam lendo e espero, do fundo do coração, q estejam gostando ^^ =** ^^v

Já tinha se passado pelo menos uns cinco minutos desde que me pai entrou na cozinha, dizendo que precisava conversar comigo. Confesso que ele chegou na hora certa. Eu já não sabia o que responder para as perguntas que Milo fazia. Eu não estava com cabeça para pensar em respostas criativas e nem para atuar melhor para que ele não desconfiasse de nada. Apesar dos sorrisos que consegui dar naquele dia, foi tão cansativo como em todos os outros anos. Eu estava bem cansado. E a noite ainda nem chegara. Isso significava que eu ainda teria muitas horas pela frente e, talvez, Milo continuaria perguntando coisas que eu não queria nem podia responder. Sabe-se lá onde eu conseguiria forças para desviar daquilo. Eu precisava de um tempo sozinho. Eu precisava de ajuda. Eu precisava de alguma desculpa para me afastar de Milo. A questão é que a cara que meu pai fazia estava me assustando tanto quanto a possibilidade de continuar conversando a sós com Milo. Afinal, o que poderia deixá-lo com aquela expressão de preocupação no rosto? Será que ele ainda estava preocupado comigo? Será que eu estava aparentando estar tão mal assim? Se bem que desde quando ainda estávamos na torre Eiffel, ele estava um pouco distante. Não que eu estivesse reclamando, eu estava tão distante quanto ele. Enquanto minha avó e Milo conversavam animadamente, eu apenas fingia estar prestando atenção e sorria de vez em quando. Mas pela preocupação que meu pai demonstrara anteriormente, parecia ter algo a mais. E ele não parecia ser do tipo que ficava ponderando sobre tomar ou não uma atitude. Pelo que minha avó me contava e pelo que percebi dele nesses poucos dias, ele sabia muito bem no que acreditava como certo e errado. Talvez por isso eu estivesse estranhando sua hesitação.

Vi meu pai levantar o olhar e direcioná-lo a mim. Ele suspirou pesado antes de começar.

— Hyoga, acho que não tem um jeito melhor ou pior de se dar uma notícia como essa. Já passei por isso diversas vezes e prefiro ir direto ao ponto. – ele suspirou novamente antes de continuar. – Quando fui ao hospital com sua avó, aproveitei para fazer alguns exames. Como eu disse antes, eu me responsabilizarei pelo caso dela a partir de agora e achei melhor ver como ela estava com exames mais recentes em mãos.

O que? Como assim ele tomava uma decisão daquelas sem nem me falar nada? Eu queria ter acompanhado isso! Eu ia protestar, mas ele levantou a mão, sinal de que esperasse ele terminar de falar.

— Eu acompanhei tudo e, apesar dos resultados ainda não terem saído por completo, eu já pude confirmar algumas coisas. Infelizmente, sua avó está com um tumor no cérebro.

Senti o chão faltar aos meu pés. Tumor? No cérebro? Quando? Como? Não era apenas um problema no coração? Por que agora tinha um tumor? Não! Não! Estava errado! Só podia estar errado!

— Tem certeza disso, Camye? – Milo perguntou.

— Sim, mon ange, infelizmente. Eu já tinha visto essa alteração na hora da tomografia e recebi os resultados das imagens quando estávamos na torre Eiffel. – meu pai respondeu e voltou-se para mim. – Eu não posso afirmar se é benigno ou maligno, só através de uma biópsia. Acontece que pela idade avançada de sua avó e pelo problema coronário, seria arriscado fazer uma biópsia apenas para confirmar isso. O ideal é já fazer a remoção completa do tumor e então confirmarmos sua natureza. Entretanto, ela está muito debilitada por causa da pneumonia. Não resistiria passar por uma cirurgia desse porte agora.

— O que pretende fazer então? – novamente Milo perguntou.

— Vamos interná-la, a partir de amanhã, para tratarmos a pneumonia de maneira mais intensa. E vou acompanhando a evolução do tumor. Apesar d’ela não apresentar nenhum sintoma relacionado ao mesmo, não podemos demorar em sua remoção. Por isso a internação será necessária. E assim que ela melhorar, vamos fazer a cirurgia e torcer para que não seja maligno.

— E se for? – eu não sabia como, mas consegui perguntar, mesmo que em um volume bem baixo. Ouvi meu pai suspirando.

— Se o tumor for maligno, sua avó não terá mais do que alguns meses de vida. – senti meu sangue congelar naquele momento. – Pelo tamanho que ele tem, se for maligno, significa que ela já está com câncer em estado avançado. Mesmo com quimioterapia e retirada do tumor, as chances de sobreviver são muito pequenas, ainda mais nas circunstâncias em que ela se encontra.

— Então vamos torcer para que seja benigno, não é? – disse Milo, tentando ser otimista.

Eu não conseguia pensar em nada. Senti minha visão se fechando e tudo ficando preto. Será que eu não teria sossego? Será que minha vida seria essa sequência de tragédias até o final? E o final? Será que eu aguentaria até lá? Estava cada vez mais difícil de continuar vivendo. Lá no fundo eu tinha esperança de que, ao encontrar meu pai, minha vida tivesse um pouco de paz. Mesmo que eu não fosse ficar com ele, só de conhecê-lo já seria o suficiente. Mas o destino não queria me dar folga. A tristeza não queria ficar longe de mim. As lágrimas não queriam me abandonar. A angústia insistia em me perseguir. Quem eu queria enganar? Eu não merecia paz. Eu matei minha mãe! Eu era um assassino! Não merecia piedade! Já não bastava ter matado minha mãe, agora minha avó também. Eu sabia que qualquer pessoa me diria que a culpa não era minha. Mas, como não? Ela poderia ter se tratado melhor se não fosse aquela maldita promessa que ela tinha feito para minha mãe! E ela não teria feito a promessa se eu não existisse! Droga! Droga! Droga! O que eu faria? O que eu faria se minha avó morresse? Eu não tinha forças para suportá-la nesse momento! Como eu ia olhar dentro de seus olhos? Como eu ia encará-la, sabendo que ela poderia estar melhor se não fosse por minha causa? Eu não queria que ela sofresse. Quanta dor ela deve ter aguentado por minha causa? Eu sequer tinha condições de ajudá-la. Eu tentei, de algum modo. Eu tentei! Eu aprendia cozinhar, a fazer as coisas de casa, eu comprava tudo, pagava tudo. Fiz coisas das quais me arrependia profundamente, coisas que ela jamais sonhara que eu seria capaz. Fiz tudo para que ela pudesse continuar vivendo! Claro, eu queria encontrar com meu pai, mas o que eu mais queria é que ela continuasse viva, do meu lado. Não queria perder minha avó! Não queria ficar sozinho!

Senti lágrimas descendo por minha face. Não estava conseguindo raciocinar. Minha cabeça latejava, meu coração estava apertado, sentia dificuldade de respirar. Eu não tinha para onde correr. Eu não sabia o que dizer. Não sabia o que fazer. Sequer sabia como reagir àquela notícia. Sentia que meu corpo reagia de maneira automática, como se já soubesse o que fazer diante da dor. Eu era um desgraçado! Eu era um desgraçado que desgraçava a vida dos que estavam ao meu redor. Aquilo só me confirmava que eu não podia ficar ao lado do meu pai. Ele construíra uma vida! Ele tinha um marido que o amava, um emprego sensacional, estabilidade financeira, amigos. Se eu estivesse ali, se eu continuasse em sua vida, o que poderia acontecer? Será que ele morreria também? Não! Eu não queria isso! Mas agora que minha avó estava doente daquele jeito, como eu sairia dali? Se eu fosse embora, ela ficaria melhor? Eu a amava tanto! Será que meu amor era tão cruel assim? Será que era amaldiçoado? Seria muito egoísmo querer continuar ao lado dela? Eu não sabia o que fazer! Estava tudo confuso! Se eu ficasse e ela não melhorasse, eu me culparia por resto da vida por não ter ido embora. Mas se eu fosse e ela morresse, mesmo assim, eu também me culparia por não ter ficado. O que eu faria? Eu estava encurralado!

Senti braços me envolverem por trás.

— Está tudo bem, Hyoga. Vai ficar tudo bem. – era Milo.

— Estaremos aqui com você, seja lá o que acontecer. – disse meu pai, enxugando minhas lágrimas. – Eu te prometo que vou cuidar de você e da sua avó. Não desistirei de nenhum dos dois. Nem eu e nem o Milo.

— Você não está mais sozinho. Não vou dizer para não se preocupar, mas nós estaremos aqui para te dar todo suporte, amor e carinho que precisar. – disse Milo, novamente.

Eu não sabia o que responder. Tudo que eu conseguia pensar naquele momento era que minha avó talvez não resistisse. E por mais que eu estivesse com meu pai, não sabia se eu suportaria perdê-la. Ela esteve comigo nos momentos mais difíceis da minha vida. Mesmo que ela não soubesse de tudo que me causava dor, ela sempre me abraçava e dizia que tudo ficaria bem. Era quase impossível acreditar naquelas palavras. Olhando para a realidade, não se via muita esperança. Ela tinha a saúde debilitada, já estava com a idade avançada, morávamos numa vila minúscula sem muito acesso à civilização, éramos pobres; não tinha nada que pudesse indicar que as coisas melhorariam. Mas o brilho nos olhos dela me davam força para seguir em frente. Sua determinação me dava coragem para encarar mais um dia. O que eu faria sem ela? Ela era meu chão. Ela era minha luz. Será que eu estava fadado a passar o resto de meus dias na escuridão?

Levantei da cadeira sem dizer nada. Eu precisava vê-la. Eu precisava abracá-la. Talvez eu pudesse ter um pouco de esperança ao sentir que ela ainda estava ali. Saí andando e ignorando os chamados de Milo e meu pai. Subi as escadas correndo e abri a porta do quarto dela. Ela estava deitada e, como abri a porta bruscamente, se levantou um pouco assustada. Senti meus olhos marejarem ao olhar para ela. Não me aguentei. Corri até a cama e a abracei, chorando muito. Eu queria sentir aquele cheiro, eu queria estar ali com ela. Eu queria dar a minha vida por ela. Ela não merecia aquilo! Ela não merecia aquilo! Por que o tumor não estava no meu cérebro? Por que essas coisas aconteciam com as melhores pessoas? Não era justo!

— O que foi, meu filho? – ela me perguntou em tom de preocupação.

— Eu contei a ele, senhora Valéria. – ouvi a voz de meu pai no fundo.

— Oh meu menino! – ela me abraçou mais forte. – Vai ficar tudo bem!

— Você sempre diz isso! E olha só o que aconteceu! – eu falei em prantos.

— Querido, sua avó já está velha. É um milagre que eu esteja viva até hoje. E, por mais que você ache que não vai ficar tudo bem, a vida me deu a chance de lutar um pouco mais. Se não fosse pelo seu pai, talvez eu teria menos tempo do que terei. E se eu partir, você não estará mais sozinho. – ela falava com a voz calma de sempre, afagando meus cabelos.

— É claro que eu estarei sozinho! Você não sabe de nada! – sim, falei mais do que devia.

— Como poderá estar sozinho? Seu pai prometeu que vai cuidar de você, não é senhor Camus?

— Vou sim, senhora Valéria. A senhora tem a minha palavra como Natássia teve a sua.

Aquela fala doeu. Eu não queria mais pessoas prometendo coisas com relação a minha pessoa. Será que ninguém percebia que nada de bom vinha por estar ao meu lado? Será que não percebiam que eu era amaldiçoado? Eu não queria aquilo! Eu não queria!

— Hyoga, não chore assim. Por favor, meu amor. – minha avó suplicava.

— Hyoga, levanta. – senti braços me puxando do abraço de minha avó. Era Milo, ele estava sentado na cama. Segurou meu rosto e olhou bem dentro dos meus olhos. – Sua avó está aqui! Ela está viva! Você chora como se já a tivesse perdido. Respira fundo. – ele parou e eu respirei fundo, meio que fungando. – Você quer deixar sua avó preocupada? Se você chora assim, não acha que vai deixá-la com medo do que está por vir? Pense um pouquinho, pequeno. Não é um momento fácil para ela. Ver você assim, deixa tudo ainda mais difícil. Sabemos que é difícil, mas sejamos otimistas, pelo bem da sua avó. Se ela ficar triste e preocupada com você, não a ajudará em nada no tratamento. Pergunte ao seu pai, os pacientes reagem melhor quando são otimistas.

— Por incrível que pareça, é verdade. Em todos esses anos como médico, vi que pacientes mais otimistas são mais resistentes e respondem melhor ao tratamento. Pode parecer superstição, mas existe embasamento científico para isso. – disse meu pai, que estava em pé na porta.

— Viu? Você quer ajudar sua avó, não quer? – ele me perguntou e eu apenas afirmei com a cabeça. – Então chega de lágrimas. Vamos estar perto dela e dar todo apoio que pudermos.

Por incrível que fosse parecer, aquilo me deixou mais calmo. Onde eu estava com a cabeça? Droga! Era aquela época do ano! A data em que minha mãe morrera sempre me deixava instável daquele jeito. E aquela notícia não era exatamente a melhor que eu poderia ter recebido.

— Venha, meu filho, você precisa descansar um pouco. – ouvi meu pai me chamando.

— Desculpa, vó. – voltei-me para ela e lhe dei um beijo na testa.

— Vai lá, meu filho. Descanse. – ela disse.

Milo levantou-se junto comigo e fomos em direção à porta. Eu realmente precisava descansar. Sinceramente, nem sabia como eu ainda estava acordado. Normalmente eu desmaiava de exaustão, como meu pai mesmo dissera. Mas as coisas aconteciam uma atrás da outra. Eu não pensei que seria assim. Eu sabia que seria difícil, mas estava se tornando impossível. Estava muito complicado controlar minhas lágrimas. Elas já caíam quase que automaticamente. Meus olhos sequer faziam esforço para contê-las. Não era isso que eu queria! Desde que eu chegara ali, eu só tinha feito coisas que eu não queria ter feito. Eu já estava quase desistindo de tudo. Talvez, se eu tivesse que lidar só com o meu pai, seria mais fácil. Ele tinha demonstrado mais carinho do que eu esperava dele, mas ainda assim não era exatamente o suficiente para me fazer perder as forças. O problema maior era Milo. Ele sempre falava o que eu precisava ouvir, além de ficar me pressionando com as perguntas certas. Eu me sentia nu diante dele, como se ele pudesse ver até o fundo da minha alma. Se eu fosse indiferente, será que ele desistiria? Se eu brigasse com ele, será que ele pararia de insistir? Eu olhava dentro daqueles olhos azuis e sabia que não. Ele estava determinado. Eu não sabia como lidar com ele.

Entramos no meu quarto e fui direto para a cama. Milo sentou-se ao meu lado, mas meu pai não estava conosco, como eu achei que estaria. Éramos só eu e Milo novamente.

— Relaxa. Não vou lhe fazer perguntas “inconvenientes” agora. – ele enfatizou o “inconvenientes”.

— Você podia parar com isso de uma vez. Sabe que não vou responder, seja lá o que você queira que eu responda. – falei um pouco impaciente, mas estava com medo de que ele pudesse ver coisas que não deveria em minhas falas.

— Hyoga, não quero que me responda nada. Quero que compartilhe sua dor comigo. Eu sei muito bem que existem certas coisas que não conseguimos carregar sozinhos.

— Pois eu conseguirei carregar tudo sozinho.

— A que custo? Olha o seu estado. É isso que você quer? Passar a vida sofrendo assim?

E o que você acha que sabe?— eu já não conseguia mais me controlar. Falei alterado e me levantando da cama. – Fica aí achando que sabe de tudo e de todas as respostas! Você não sabe merda nenhuma!

— Hyoga, eu...

Para! Para de querer me entender! Para de falar como se pudesse resolver qualquer coisa! Para de agir como o fodão! Você não sabe de merda nenhuma! Não sabe de merda nenhuma!— falei, socando a parede bem forte.

Posso saber que falta de respeito é essa?— ouvi meu pai da porta.

— Camye... – Milo tentou falar algo.

— Não Milo! Nem comece! Sei que Hyoga está triste, mas não vou tolerar falta de respeito com você! – ele falava sério. – Peça desculpas!

Suspirei pesado. Não estava muito bem pra tomar outra surra do meu pai. E eu também não queria ter me descontrolado daquela maneira. Aquilo só chamava mais atenção. Eu queria que eles parassem de se preocupar e me deixassem sozinho.

— Desculpa, Milo. – falei, me sentando novamente na cama. Segurei a mão que usei para socar a parede. Usei mais força do que pretendia e agora estava bem dolorido.

— Tudo bem, Hyoga. Também peço desculpas. – ele falava sincero, mas vi em seus olhos uma leve tristeza. Eu não queria causar problemas pra ele.

— Ótimo. E nem pense em repetir isso ou vai se ver comigo! Entendeu?— Ele continuava sério e eu afirmei com a cabeça. Meu pai veio em minha direção, me entregando uma xícara de chá. – Deu certo ontem, vamos tentar hoje de novo. – eu peguei a xícara, olhando agradecido, enquanto ele afagava meus cabelos e se sentava ao meu lado. – Deixa eu ver o estrago que fez. — ele segurou minha mão, provavelmente vendo se quebrou algo. – Parece que foi só o impacto mesmo. Se doer, me avise. Tenho algo para passar aqui. Não faça de novo, ok? Você pode se machucar.

Eu apenas assenti com a cabeça. Já que não estava conseguindo me controlar, achei melhor não falar nada. Apenas terminei de tomar o chá em silêncio. Eles continuaram ao meu lado, também sem falar nada. Entreguei a xícara ao meu pai. De alguma forma, ele pareceu entender que eu queria ficar sozinho.

— Vamos deixar que descanse. Se precisar de algo, nos chame, ok? – ele se levantou e Milo o acompanhou.

Estranhei, porque dessa vez Milo saiu sem falar nada. Será que eu o tinha magoado? Droga! Não era minha intenção, eu só não queria que ele soubesse. Eu só queria afastá-lo de problemas. Droga! Quanto tempo mais eu continuaria fazendo aquilo que não queria? Quantas pessoas mais eu teria que machucar? E por que aquilo me machucava também? Eu deveria me importar daquele jeito? Eu sabia que não conseguiria ser indiferente. Respirei fundo. Eu precisava descansar. Precisava colocar a cabeça no lugar. Deitei na cama. Senti meus olhos se enchendo de lágrimas. Será que essa era uma forma de tentar lavar todas as manchas que existiam em minha alma? Eu sentia vontade de me machucar. Sentia vontade de me cortar. Sentia vontade de me ferir. Por que? Não sabia. Talvez eu pensasse que o sofrimento psicológico não era suficiente. Eu precisava sentir dor física. Mas não era como levar as palmadas do meu pai. Eu queria me machucar de verdade. Sangrar. Sangrar muito. Até quase desfalecer. Mas eu não merecia morrer, não. Ainda precisava sofrer muito antes de morrer.

Balancei minha cabeça. O que eu estava pensando? Eu estava ficando louco! Eu era realmente patético. Milo estava certo, eu precisava de ajuda. Eu não ia conseguir carregar aquilo sozinho. Mas eu não podia pedir ajuda nem para meu pai e nem para Milo. Não queria envolvê-los ainda mais na minha escuridão. Tinha que ser alguém que já estava lá comigo. Eu sabia bem quem era. Sorri ao me lembrar. Será que conseguiria falar com ele? Eu tentaria. Era minha última esperança. Eu sabia que se ouvisse sua voz, eu me acalmaria. Só precisava descansar um pouco. Fechei meus olhos. Tentava esvaziar minha mente. Não pensar em nada. Nada. Nada. Dormi.

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Acordei meio zonzo. Ai. Dor de cabeça. Fechei meus olhos, na tentativa de recobrar a consciência por completo. Que horas eram? Rolei na cama e peguei o relógio que tinha em cima do criado, ao lado da cama. Uma da manhã? Eu dormira tanto assim? Eu realmente estava muito cansado. Nem sonhar eu tinha sonhado. Foi como se tivesse desmaiado. Levantei bem devagar, apenas para me sentar na cama. Será que tinha alguém acordado? Não parecia, estava muito silêncio. Não sabia se isso era bom ou ruim. Eu queria ficar sozinho, mas ao mesmo tempo tinha medo do que poderia acontecer. Eu ficaria a madrugada inteira chorando? Provavelmente. Eu já deveria estar acostumado com isso. Era difícil dizer se eu conseguia passar um dia sem chorar pelo menos uma vez. Depressão? Nem sei se dava mais para chamar de depressão.

Suspirei pesadamente. Antes que eu começasse a chorar, tinha algo que eu precisava muito fazer. Levantei e fui pegar minha mochila. Fiquei tateando ela toda para encontrar algo. Achei! Era um pedaço de papel com um número anotado. Fechei o número em minha mão e fui em direção à porta. Abri bem devagar, tetando não fazer muito barulho. Os corredores estavam bem escuros. Realmente todos já deviam estar dormindo. Desci as escadas até a sala. Tinha certeza que tinha visto um telefone ali, em algum lugar. Não ajudava muito estar tão escuro. Não tinha me familiarizado ainda com aquela casa. Sabia que o telefone estava perto do sofá. Sentei em um dos cantos e fui tateando até achar um criado mudo. Logo senti o telefone em minha mão. Por sorte, tinha um abajur ali, o que me possibilitaria ver o número escrito no papel, sem precisar ligar a luz da sala. Liguei o abajur e comecei a discar o número. Torcia para que ele ainda estivesse acordado. Chamando.

Alô?— ouvi a voz no telefone.

— É você? – falei.

Hyoga? Hyoga, é você?— ele respondeu, me fazendo abrir um sorriso.

— Sim, sou eu. Como você está? – eue estava falando bem baixo, não queria correr o risco de acordar ninguém.

Como eu estou?! Para com isso, né? Você sabe muito bem que não tem muito o que fazer aqui. Quero saber como você está!

— Nada bem, como de costume. – falei sorrindo de maneira triste e ouvi um suspiro do outro lado.

Eu achei que ao encontrar seu pai seria menos pior nessa época do ano. Pelo menos ajudou em alguma coisa?

— Deu pra sorrir algumas horas. – outro suspiro vindo dele.

Você também não deve estar facilitando as coisas, né? Por que é tão teimoso? Você falou pra ele?

— Sabe que não.

Hyoga, deixa de ser burro! Você tem a chance de ser feliz! Esquece esse mundo aqui! Seu pai vai te proteger, tenho certeza! Se ele for metade do que você me falava, não tem como ele não te proteger!

— Ele é tudo que falei e mais um pouco. Mas você sabe que não posso. Sabe muito bem que não é tão simples assim. Além do mais, não foi por isso que te liguei. – suspirei pesadamente, já sentindo meu olhos marejarem. – Descobri hoje que minha avó tem um tumor no cérebro.

O que? Como assim?

— Pois é. Agora não sei mais o que fazer. Eu não posso voltar sem antes ter certeza de que ela vai ficar bem.

Você sabe muito bem que não vai poder ficar longe por muito tempo. Só de você estar aí já é um milagre.

— Eu sei.

Então conta logo pro seu pai! Hyoga, deixa isso tudo pra trás! Pede ajuda! Você não merece esse sofrimento todo! Se permita ter algo bom na vida!

— Eu não consigo simplesmente abandonar tudo! Eu sei que é sofrimento, mas o que meu pai vai pensar se descobrir? Eu tenho medo do que pode acontecer! Não quero que ele se envolva e acabe sofrendo com isso. É problema meu! Eu tenho que me virar! Além do que, não posso te deixar sozinho aí!

O que pretende fazer então?

— Eu não sei. Estou te ligando, justamente, pra saber se você tem alguma ideia.

A minha ideia era você contar logo pro seu pai. Mas já que não vai fazer isso, acho que tenho outra sugestão.

— Qual?

Não posso dizer agora. Apenas confie em mim, ok? Preciso ir.

— Não! Espe...

Desligou.

Continua...