Doce Fruto de um Passado Amargo
11 POV Camus/ POV Milo
Notas iniciais
Eu sabia que Milo ia acabar se precipitando. Eu não devia tê-lo deixado junto com Hyoga naquela hora. Eu entendia que ele queria entender meu filho. Eu entendia que ele queria evitar confusão, já que Hyoga estava agindo de maneira estranha. Eu entendi o lado de Milo. Mas também entendia o lado de Hyoga. Meu filho nunca vira o pai antes, apenas ouvira falar. Pelo visto, ele cresceu em condições bem precárias, apenas com a avó, que estava doente. E isso após ter perdido a mãe. Mesmo que ele não me culpe de nada e que não me odeie, com certeza tem várias coisas se passando naquela cabecinha loira, vários questionamentos, feridas, coisas pessoais. Eu, como um estranho, não poderia pedir para que ele se abrisse para mim imediatamente. Isso apenas o afastaria ainda mais de mim. Eu queria conquistar sua confiança, seu amor, para que ele me contasse por conta própria. E para isso eu iria me aproximar aos poucos, tentando demonstrar o quanto eu já era seu pai, mas também que eu estava disposto a ouvi-lo como filho. E como não nos conhecíamos muito bem ainda, eu teria que ser cauteloso para não magoá-lo ainda mais. Eu ainda não tinha certeza de nada, apenas de que ele não era aquele garoto problemático que ele estava tentando transparecer. Mas isso não mudava o fato de que eu não conhecia seus reais sentimentos. Logo, não poderia ficar jogando verde para colher maduro.
Por outro lado eu estava feliz de ver que Milo estava tão disposto a ajudar meu filho. Meu marido era excepcional! Muitos outros não aceitariam aquela situação ou não se importariam com Hyoga. Mas Milo não só se afeiçoou ao meu filho, como queria se envolver com ele e o ajudar a resolver seus problemas. E eu não duvidava que ele fosse crucial para que tudo terminasse bem. Como campo neutro, ele poderia se aproximar de Hyoga muito mais fácil do que eu. Eu ficava extremamente orgulhoso ao ver meu marido fazendo aquele esforço, não só por mim, mas também por meu filho. Por nós, na verdade, afinal agora éramos uma família. E eu tinha certeza que seríamos muito felizes.
Após conversarmos em nosso quarto, descemos para a cozinha. Estava quase na hora do almoço e eu precisava arrumar a comida. Estava cedo ainda, mas queria preparar algumas coisas antes, afinal o número de pessoas aumentou. Ao chegarmos na cozinha, senhora Valéria estava sentada à mesa, olhando para uma pequena foto que segurava em sua mão. Eu não quis me intrometer, mas Milo, curioso como ele só, já foi perguntando.
— De quem é a foto, Valéria? – ele disse se sentando ao lado dela.
— Ah! Esse era meu marido. – ela olhava com certa nostalgia.
— Entendo. Sinto muito por sua perda.
— Obrigada, mas já faz muito anos que ele me deixou. Eu pensei que não viveria tanto tempo assim após a morte dele, mas parece que estou durando até demais. – ela riu tímida.
— Não diga isso! Hyoga precisa muito de você. – ele disse, tentando mudar o rumo daquela conversa.
— Ah, meu filho. Hyoga está em boas mãos agora. Acho que já está chegando a hora de me encontrar com meu marido e minha filha, Natássia. – ela tinha um ar triste, porém satisfeito.
— Você ainda tem muito que fazer por aqui, senhora Valéria. – eu disse, mesmo que me ocupando com outras coisas.
— Será, senhor Camus?
Ela me olhou de maneira significativa e eu apenas fiquei cabisbaixo. Ela estava sendo pessimista. Eu apenas queria ignorar aquilo. Voltei a me ocupar, enquanto Milo e senhora Valéria conversavam. Na tentativa de mudar de assunto, Milo a perguntou sobre onde morava e outras coisas casuais. Eu apenas me ocupei de preparar o almoço. Era tanta coisa na minha cabeça que eu precisava de algo para ocupá-la por alguns minutos. Eu estava preocupado com o que Milo descobrira de Hyoga. Ele não quis me contar, o que eu respeitei. Conhecendo Milo como conhecia, provavelmente ele veio com uma de suas hipóteses para cima de Hyoga e deve ter acertado. Milo era muito bom com aquele tipo de coisa, ele era esperto. Às vezes ele percebia detalhes que ninguém mais via, o que o ajudou muito em sua carreira. Isso era apenas uma de suas habilidades. Com certeza, Hyoga teria algum trabalho para enganar Milo ou esconder coisas dele. Mas o que me intrigava era o que Hyoga poderia estar escondendo. Eu ficava me perguntando se mais alguma coisa de ruim teria acontecido em sua vida e por que ele queria esconder aquilo. Será que tinha feito algo de grave? Acredito que se a senhora Valéria soubesse de algo, provavelmente já teria dito. Então, o que poderia ser para que ele escondesse até mesmo da mulher que ele considerava avó? Será que era algo do qual ele se envergonhava? Será que tinha algo a ver com o fato de Hyoga já fumar na idade dele? Eu não conseguia imaginar. E também não queria tentar. Ficar confabulando hipóteses na minha cabeça só me deixaria mais ansioso. De qualquer forma, eu estava bastante preocupado. Aquele segredo poderia ser um obstáculo para que Hyoga se aproximasse de mim. Tudo que eu poderia fazer era conquistar sua confiança. Eu apenas não sabia como.
Já tinha preparado tudo que queria cozinhar e estava na hora de começar. Milo e senhora Valéria continuavam conversando animadamente. Eu ficava impressionado com a facilidade que Milo tinha em se dar bem com os outros. Ele conseguira deixar senhora Valéria completamente confortável naquele lugar. Definitivamente, ter Milo ao meu lado foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Eu já havia tido muitos momentos felizes em minha vida, mas nada se comparava ao que eu vivia com Milo. Logo eu que pensava que ninguém jamais poderia me fazer mais feliz que Natássia, via-me completamente apaixonado por Milo. Eu só esperava que nada nos atrapalhasse, pois se com Natássia já tinha sido doloroso, com Milo eu não queria nem imaginar. Mas eu também sabia que aquela possibilidade era muito remota, desde que Milo também era apaixonado por mim. Claro que ele fazia suas presepadas, mas nada que pudesse de fato nos separar. E eu sentia que Milo me completava de uma maneira muito especial. Até mesmo nessa nova fase de minha vida, com Hyoga. Milo sabia muito bem que tipo de pai eu seria. Eu não gostava de desobediência, de indisciplina, de rebeldia, de desrespeito. Eu era extremamente rígido com esse tipo de coisa. Já Milo era mais flexível e compreensivo. Dessa forma, as coisas ficariam muito bem dosadas. Além do que, Milo era bem mais sensível que eu. Ele seria crucial na educação de Hyoga, principalmente nessa fase inicial, onde tudo ainda era muito novo. Eu tinha esperanças de que as coisas caminhariam para algo estável e minha vida se tornaria cada vez mais completa e feliz.
— Camus, você precisa de ajuda? – Milo perguntou, tirando-me de meus devaneios.
— Ah! Se quiser eu posso ajudar também. Sem querer me gabar, mas tenho anos de experiência na cozinha. – disse senhora Valéria, animada.
— Eu agradeço a disposição de vocês, mas estou bem aqui. Qualquer coisa eu aviso. – respondi aos dois.
— E Hyoga? Não vai sair do quarto? – senhora Valéria comentou.
— Hyoga está de castigo. – disse.
— Castigo? – ela fez uma pequena pausa, como se estivesse refletindo sobre o que ocorrera. – Entendo. Justo pelo que ele fez. É bom para que ele crie alguns limites, pois a vida toda eu sempre fui muito liberal com ele, apesar de que ele sempre foi um garoto obediente e gentil. A questão é que nem sempre eu sabia por onde ele andava.
— Como assim? – Milo perguntou.
— Algumas vezes, Hyoga saía de casa com a desculpa de ir ao mercado comprar comida ou na farmácia para comprar meus remédios. Acontece que ele demorava mais do que deveria. Eu suspeitava de alguma coisa, mas nunca tive coragem de perguntar, porque ele sempre voltava com o que prometera comprar.
Eu e Milo nos entreolhamos, preocupados. Não era culpa da senhora Valéria, afinal, no estado em que ela se encontrava, não poderia ficar seguindo Hyoga o dia inteiro. E como ela não conseguiria andar longas distâncias, Hyoga tinha que ficar responsável por coisas daquele tipo. Porém, liberar um garoto tão novo para fazer coisas daquele tipo sozinho também não era adequado. Será que aquilo poderia estar relacionado ao que Hyoga estava escondendo? Provavelmente, já que a senhora Valéria parecia não ter consciência de que poderia ter acontecido algo a mais. Por mais que ela desconfiasse do neto, Hyoga a tratava muito bem para que ela suspeitasse de que ele estaria fazendo algo grave. Provavelmente ela devia pensar que ele ia passear em algum lugar para espairecer ou parava para conversar com algum coleguinha. Da maneira como ele agia com ela, realmente seria difícil desconfiar que ele pudesse estar fazendo algo errado.
Milo continuou conversando, perguntando mais sobre como era a rotina de Hyoga antes de vir para cá. Eu continuava cozinhando, apenas ouvindo o que ela dizia. Pelo que eu entendi, Hyoga não ia para a escola, estudava em casa. Ela disse que ensinou a ele tudo que sabia. Por sorte, senhora Valéria tinha sido professora quando era mais nova, além de saber mais de uma língua. Por isso Hyoga sabia falar francês perfeitamente. Além de Natássia ter conversado muito com ele em francês quando era pequeno, senhora Valéria também o ensinara a falar e escrever. Além do francês, também ensinara o russo, língua de onde moravam, inglês e alemão. Fiquei um tanto impressionado. Isso era bom para o futuro dele e saber que ele não ficou sem estudar também me deixava mais aliviado. Assim ele não teria tanta dificuldade de acompanhar os estudos em uma escola, pelo menos era o que eu esperava. De qualquer forma, a senhora Valéria continuou contando. Ela disse que até os sete anos de Hyoga, ela conseguia cuidar da casa e de tudo. Mas a partir daí, sua condição de saúde e física começaram a piorar muito e, apesar de ter tentado manter tudo como era, já não conseguia fazer muitas coisas. E então Hyoga passara a ajudá-la. De acordo com o que ela disse, Hyoga passou a arrumar a casa, aprendeu a cozinhar e saía para comprar o que fosse necessário. Em seu tempo livre, ele estudava e lia alguns livros que ela tinha e que também pegava na biblioteca velha que havia na cidade. Ela dizia que Hyoga adorava aprender coisas novas e que gostava muito de ler. Idêntico a Natássia. Isso já me dava ideias de passeios que poderia fazer com ela. Tínhamos vários museus na cidade e uma imensa biblioteca onde ele poderia escolher os livros que quisesse. Eu mesmo tinha um acervo pessoal, desde literatura clássica a livros de medicina.
A cada nova descoberta que eu fazia sobre Hyoga, meu coração se enchia de orgulho. Aquele Hyoga que a senhora Valéria nos descrevia era exatamente como eu imaginava que seria um filho meu e de Natássia. Quando Natássia começava a falar sobre como queria nossa família, eu também imaginava certas coisas. Eu queria que nosso filho fosse, em grande parte, parecido com minha ex-esposa. Fosse alguém gentil, determinado, educado, inteligente, esforçado e amigável. E gostaria que ele tivesse a minha disciplina e foco. Seria o filho perfeito! E o que a senhora Valéria descrevia era exatamente isso. O filho que sempre sonhei. Mas aconteceram tantas coisas com ele, que eu me perguntava o quanto daquele filho perfeito ainda existia. Aquilo me partia o coração. Pensar que meu filho tinha passado por tantas coisas ruins e eu não estivera lá com ele. Um garoto que tinha tudo para ser brilhante, porém com todas essas cicatrizes e feridas criadas pela vida, agora ele tinha um enorme obstáculo para vencer. E mesmo assim ficaria marcado para o resto da vida. Agora o máximo que eu poderia fazer era tentar fechar as feridas que ainda sangravam e, quem sabe, ele se tornasse próximo de ser o Hyoga que sempre fora.
Eu já estava terminando o almoço. Ia sair um pouco mais cedo que o normal, mas não tinha problema. Milo, ao ver que eu já estava terminando, resolveu me ajudar com a mesa. Eu terminei e servi um prato de comida que levaria para Hyoga antes de almoçar.
— Por favor, senhora Valéria, sinta-se à vontade para se servir. Eu vou levar esse prato de comida para Hyoga e já retorno.
— Eu vou com você. Quero ver como ele está. – disse Milo.
— Obrigada pela gentileza, senhor Camus. – respondeu senhora Valéria.
— Não há de que. E, por favor, não se sinta acanhada. Coma o quanto você quiser.
— Pode deixar.
Eu e meu marido deixamos a cozinha e seguimos para o quarto do meu filho. Dei algumas batidas na porta e entrei. Meu filho estava deitado na cama, praticamente encolhido no canto e virado para a parede. Seja lá o que Milo tenha dito, com certeza mexeu muito com ele.
— Hyoga, levanta. Eu trouxe seu almoço. – falei.
Ele nem sequer se mexeu. Aquela teimosia dele já estava me cansando.
— Hyoga, você escutou o que eu disse? Levante-se e venha comer. – falei um pouco mais firme.
— Estou sem fome. – ele respondeu, ainda deitado.
— Não perguntei se está com fome. Você vai comer.
Dessa vez ele se virou para mim e pude ver que seus olhos estavam bem vermelhos. Provavelmente estava chorando. Eu queria muito perguntar o que estava acontecendo, mas eu sabia que ele não me responderia. E minha maior preocupação no momento era fazê-lo comer. A senhora Valéria também contou que Hyoga adorava cozinhar, mas não comia muito bem. De fato, ele estava mais magro do que deveria e isso era preocupante, pois ele estava em fase de crescimento. Precisava se alimentar bem.
Ele continuava parado e eu estava começando a perder a paciência.
— Anda logo, Hyoga. Eu não tenho o dia todo. – falei, já demonstrando sinais de impaciência.
— Você não acha que é muito hipócrita? – ele disse em um tom completamente desrespeitoso.
— O que disse?
— Primeiro você diz que não quer invadir minha privacidade e não quer me forçar a falar nada. Mas quer me forçar a comer. Qual o seu problema?
Aquele moleque estava pedindo por um corretivo.
POV Milo
Hyoga tinha que ser desrespeitoso daquela forma, mesmo depois de Camus ter avisado que não toleraria mais aquilo?! Aquele garoto estava pedindo pra arrumar confusão e ele ia acabar conseguindo. Vi Camus andando até ele, perigosamente. Naquele momento eu sabia que ele acabaria dando umas palmadas nele. Eu entendia Camus, mas não concordava. Achava muito cedo para impor esse tipo de disciplina em Hyoga. Antes que acontecesse algo, eu segurei o braço de meu marido, que me olhou significativamente. Seu olhar me dizia “não me impeça”. Eu apenas me aproximei dele para sussurrar.
— Amor, eu sei que ele está empurrando sua paciência, mas ainda é cedo para esse tipo de coisa. Ele já está de castigo, apenas dê uma advertência.
Camus me olhou, como que discordando. Eu mantive meu olhar firme e ele acabou cedendo através de um longo suspiro. Ele me entregou o prato de comida e foi até Hyoga. Ele o pegou pela orelha e o fez sentar-se na cama.
— Escuta aqui, rapazinho. Esse vai ser a última vez que vou lhe avisar para parar com esse desrespeito para comigo. Dá próxima vez que o fizer, te garanto que você vai se arrepender profundamente. Fui claro?
Hyoga fazia cara de dor, mas não soltou um gemido sequer. Apenas balançou a cabeça em afirmativa e Camus soltou sua orelha.
— E trate de comer todo o almoço que trouxe. Vou voltar daqui dez minutos e quero esse prato limpo!
Hyoga novamente acenou com a cabeça.
— Pode deixar, Camus. Eu vou me certificar de que ele vai comer tudo. – disse.
Camus me olhou desconfiado. Provavelmente pensando que eu iria forçar Hyoga a me dizer qualquer coisa.
— Não se preocupe. Não vou forçá-lo a dizer nada. – eu disse e Camus suspirou.
— Ok. Daqui a pouco eu volto, então.
Camus deixou o quarto e eu me virei para Hyoga, entregando o prato de comida. Ele olhou para aquilo desanimado. Ele realmente parecia completamente sem fome.
— Quer que eu te dê na boca? – perguntei, apenas brincando.
Ele me olhou com aquela sobrancelha levantada, imitação de Camus, e eu não consegui me segurar, tive que rir.
— Hyoga, você precisa para de provocar seu pai ou as coisas vão ficar feias pro seu lado. Camus já está tendo muita paciência com você.
— Você chama aquilo de paciência? – ele me perguntou assustado.
— Vai por mim, em outras ocasiões você já estaria com esse belo traseiro queimando de dor.
— Como? – ele me olhou ainda mais assustado.
— O que? Não me diga que você achou que não levaria umas palmadas?
— Palmadas? Em que século vocês vivem? – ele parecia um pouco revoltado.
— Camus é bem tradicional e conservador. Ele não está preocupado se é antiquado ou se você pensa que já é muito velho para essas coisas. De acordo com ele, o método funciona e é bem eficaz. – eu tive que rir de leve após dizer aquilo. Achava bonitinho o jeito que Camus pensava e se justificava.
— Então, você quer dizer que se eu continuar desse jeito, ele provavelmente vai me bater? – ele ainda parecia assustado com aquilo.
— Isso mesmo. Você percebeu como Ikki muda de postura quando Camus está por perto, sem que os pais dele estejam?
— O Ikki já apanhou do Camus? – agora sim ele ficou surpreso.
— Apanhar é apelido. – comecei a rir ao me lembrar do ocorrido.
Flash Back
Eu estava começando a ficar louco. Eu não sabia o que fazer. Eu não podia ligar para a polícia, pois ainda não tinha nem duas horas. Também não podia ligar para Camus, pois ele estava de plantão e detestava ser incomodado no serviço. O que eu faria? Se alguma coisa acontecesse, Shaka e Mu me matariam. Já havia rodado todo o bairro e nada. Droga! Ikki tinha que ser tão irresponsável? Eu falei com ele que não era para sair de casa de jeito nenhum. Um instante em me distraí e ele não estava mais lá. Shaka e Mu o haviam deixado sob minha tutela e de Camus no fim de semana. Shun participaria de um concurso de violino fora da cidade, mas Ikki não pôde ir porque tinha aula naquele fim de semana. Eu amava ficar com meus afilhados, mas Ikki não me obedecia. Camus até conseguia controlá-lo mais, mas eu sempre dava muito mole e ele não me respeitava de jeito nenhum.
Ouvi um barulho do lado de fora da casa. Camus? Mas ele não estava de plantão? Pouco tempo depois o vi entrando.
— Boa noite, mon ange. – ele veio em minha direção e me beijou de leve.
— Camus? Você não tinha plantão hoje? – perguntei.
— Tinha, mas achei melhor voltar para casa e ficar com você e o Ikki. Sei bem como ele pode ser rebelde e quis vir para ajudar você.
— Bom, infelizmente Ikki não está em casa. – disse, praticamente me jogando no sofá.
— Como assim não está em casa?
— Ele simplesmente saiu sem minha autorização e sem avisar nada. Procurei no bairro todo e nem sinal dele.
— E quanto tempo isso faz?
— Umas duas horas, mais ou menos. Pelo que eu sei, não é a primeira vez que isso acontecesse. Mu já me contou outras vezes que ele fez a mesma coisa.
— Entendo. Bom, essa será a última vez que ele fará isso.
Aquela fala de Camus até me arrepiou. Camus não era exatamente do tipo que facilitava as coisas. Achava bom que Ikki estivesse preparado para quando voltasse.
— Vou tomar um banho. Se Ikki chegar, o quero no quarto.
Afirmei com a cabeça e vi meu marido subindo as escadas. E se Ikki não voltasse? E se ele voltasse apenas no dia seguinte pela manhã? Só esperava que Ikki tivesse o mínimo de bom senso. Ele já estava encrencado o suficiente.
Liguei a televisão na tentativa de me distrair. Eu estava preocupado. Já estava tarde da noite e Ikki tinha apenas 15 anos. Sabe-se lá o que poderia acontecer com ele. Para que contatássemos a polícia, ele precisaria estar desaparecido a, pelo menos, 24 horas. Ficar esperando até que Ikki voltasse seria angustiante. Pelo menos meu marido tinha voltado para casa. Eu me sentia mais aliviado com ele por perto. Nessas situações ele sabia como manter o controle e me acalmava. E não demorou muito para que ele descesse e ficasse ao meu lado. Ele pegou algo para comer e se sentou comigo para assistir televisão.
Esperamos por mais três horas e nada do Ikki aparecer. Camus parecia tranquilo, mas eu sabia que ele também estava preocupado.
— Camus, não é melhor chamarmos a polícia? – perguntei.
— Ele vai voltar, mon ange. Além disso, a polícia não moveria um músculo sequer antes de dar 24 horas de desaparecimento.
Camus tinha razão, mas eu ainda estava muito preocupado. Ikki deixara o celular em casa de propósito. Não sabíamos para onde ele poderia ter ido e sequer conhecíamos alguns amigos de Ikki para ligar e perguntar se sabiam de alguma coisa. Ligar para Shaka e Mu também não era uma boa ideia, pois eles ficariam extremamente preocupados sem poder fazer muita coisa. O jeito era esperar e torcer para que ele voltasse para casa e voltasse bem.
Mais uma hora se passou e Ikki ainda não tinha chegado. Camus levantou-se do sofá e pegou a chave do carro.
—Aonde vai? – perguntei.
— Vou dar uma volta para ver se consigo encontrá-lo.
Nesse momento, Ikki entrou pela porta. Eu corri até ele e o abracei. Camus apenas ficou observando a cena de longe.
— Ikki! Onde você estava, moleque? Tem noção do quanto estávamos preocupados?
— Preocupados com o que? O que acharam que eu faria? Fugir? Até parece!
Ele não demonstrava nenhum sinal de arrependimento ou de que reconhecia o erro. Vi, então, Camus se aproximando de nós e o pegando pela orelha. Ele reclamava e Camus o jogou no sofá.
— Ikki, quem te deu autorização para sair?— Camus falava sério.
— Autorização? Estão me achando com cara de criança? Como se eu precisasse disso. – ele falava, dando de ombros.
— Precisa sim! Você tem apenas 15 anos de idade e está sob nossa guarda. O que te faz pensar que pode sair sem nos avisar e quando bem entender?
— Corta essa, Camus! Não estou a fim de ficar escutando sermão.
— Ah é mesmo? Então talvez você escute outra coisa!
Camus foi em direção a Ikki. Antes que nosso afilhado pudesse fazer qualquer movimento, Camus já havia o jogado por cima de seu colo, segurando o braço dele para trás. Ele se debateu um pouco, revoltado.
— O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?
— Ensinando que você me deve respeito.
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**
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Camus parou por um momento. Ikki estava calado, segurando para não gemer nem nada. Se eu bem conhecia meu marido, ele quebraria aquela resistência. Camus abaixou a calça e cueca de Ikki, sob os protestos do mesmo.
— Calado! Não quero ouvir um pio seu a não ser que seja para me responder.
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**
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PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… aaaiiii
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… p-paaraaa
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… cheegaaa
Finalmente Ikki começava a reclamar. Porém, Camus não parou. Apenas começou o sermão que daria desde o início.
— Vou perguntar de novo. Quem te deu autorização para sair?
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… aaaiii
— Responda!
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… n-ninguém
— E por que você saiu sem autorização?
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… p-paraaa
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**... isso dóóóiii
— Estou esperando a resposta!
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… p-porque eu quiisss
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… aaaaiii
— E porque você acha que pode fazer o que quer?
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… p-porque siiim
— Pois eu te digo que não pode!
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… aaaaahhh
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… t-tá doeeendooo
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… p-paraaa
— Eu só vou parar quando achar que devo! Vou te fazer entender que você não pode fazer o que quiser. Sabe por quê?
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**... aahhiiiii
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… aaahhh
— Porque você é menor de idade!
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… aaahhh
— Tem que prestar contas a quem cuida de você!
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… p-paraaa
— Porque nós te amamos e ficamos preocupados com você!
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… huuuumm
— Queremos que esteja bem e que nada lhe aconteça!
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… ch-cheeegaaa
— Por isso existem regras! Quer você goste delas ou não!
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… aaaaaiii
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… nããooo
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**… t-tá doeeendooo
PAFT** PAFT** PAFT** PAFT**... aaaaahhh
PAFT** PAFT** PAFT**... aaahhaaa
PAFT** PAFT**... p-padrinhooo
PAFT******... aaaaaiiiiiii
Camus parou naquele momento. Ikki continuava firme, sem escândalo e sem derramar uma lágrima. Meu afilhado era mesmo muito orgulhoso. Porém, Camus o sentou no sofá, se levantou e desafivelou o cinto. Ikki, nesse momento, arregalou os olhos.
— O-o que p-pensa q-que vai fa-fazer? – Ikki falou claramente assustado.
— Eu vou te ensinar a não desobedecer nossas regras e te fazer entender, de uma vez por todas, que nos deve respeito. Quando você entender isso, nunca mais vai fazer o que quiser, pensando só em você mesmo.
Ikki ainda tentou escapar, mas Camus foi mais rápido. O pegou e o jogou no braço do sofá, fazendo com que seu traseiro ficasse empinado. Segurando o braço de Ikki nas costas, Camus começou a bater com o cinto.
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**... aaaaaiiii
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… aaaaahhhhaaa
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… p-paaadrinhooo
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… ch-che-cheeegaaa
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… pa-paraaaa
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… nã-nãooo aguentooo
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SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… aaaaaahhhh
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** … aaaiiiiii
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… aaahhhaaaaiiiii
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… paraaaa
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… chegaaaa
— Está entendendo, Ikki?
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… n-nãããooo
— Pois vai entender!
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… AAAAAHHH
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… TÁ DOEEEENDOOO
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… PADRINHOOOO
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… CHEEEGAAA
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… AAAAAIIII
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… NÃÃÃOOOO
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… POR FAAVOOOR
Finalmente Ikki começou a demonstrar que não estava aguentando mais e começou a chorar. Mas Camus não parou.
— E então Ikki? Já entendeu?
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… S-SIIIIIMMM
— E o que você precisa fazer então?
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… AAAAHHHH
— Responda!
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… N-NÃÃOOO SEEEIII
— Pois acho bom que pense!
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… AAAAAHHHH
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… NÃÃÃOOO SEEIII
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… PAAAADRIIINHOOO
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… AAAAHHIIII
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… D-DESCUULLPAAA
— O que disse?
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… DESCUUULLPAAAA
— Vai fazer isso de novo?
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… NÃÃOOO
— Vai nos desobedecer de novo?
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… NÃÃOOO
— Vai nos desrespeitar de novo?
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… NÃÃOOO
— Não o que?
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… NÃÃOOO SEEENHOOR
— Ótimo.
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… POOOR FAAVOOORR
SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP** SHLAP**… CHEEEGAAAA
SHLAP** SHLAP** SHLAP**... CHEEGAAA
SHLAP** SHLAP**... JÁÁ EENTENDIIII
SHLAP****... AAAAAHHHHHH
A última cintada foi para deixar o recado dado. Camus soltou Ikki, que já chorava muito. Meu marido colocou o cinto na calça novamente e levantou a cueca e a calça de Ikki. Meu afilhado sequer levantara do braço do sofá. Camus o fez se levantar e sentar no sofá, fazendo gemer ainda mais.
— Olha pra mim. – Camus segurou o rosto de Ikki para que ele olhasse diretamente em seus olhos. – Você é muito importante para nós. Ficamos extremamente preocupados com você e com o que poderia acontecer. Não é seguro ficar andando sozinho pelas ruas a essa hora da noite. Se acontecesse algo com você, consegue imaginar como ficaríamos? Consegue imaginar como seus pais ficariam? Como seu irmão ficaria? Você não pode simplesmente sair fazendo o que quiser sem pensar nas consequências. Existem muitas pessoas que se importam com você e sofreriam muito caso algo de ruim lhe acontecesse. Por isso, espero que tenha aprendido a lição e não faça mais isso.
— P-perdão padrinho. – Ikki disse bem baixo. Era a primeira vez que ele chamava Camus de padrinho.
— Está perdoado. Agora peça perdão para o Milo também.
— P-perdão p-padrinho.
— Tudo bem, meu filho. – eu disse.
Camus abraçou Ikki e lhe deu um beijo no topo da cabeça.
—Não se esqueça nunca de que a gente te ama e só queremos o seu bem. Agora suba para o quarto. Você está de castigo.
Ikki subiu para o quarto, calado.
Fim do Flash Back
Hyoga estava chocado com o que eu acabara de dizer. Enquanto eu contava, ele comia cada vez mais apreensivo, como se estivesse ouvindo uma história de terror.
— E-ele vai fazer isso comigo? – ele perguntou.
— Se você continuar testando a paciência dele, pode ter certeza que sim. – falei.
Hyoga parou por um instante, como se analisasse a situação. Talvez isso aliviasse um pouco as coisas. Provavelmente Hyoga nunca tinha apanhado na vida. Com certeza aquilo seria muito chocante para ele, mas ele devia saber que não era nada agradável.
Ouvimos alguém bater na porta. Logo, Camus entrou.
— Já terminou de comer, Hyoga? – ele perguntou.
— Sim. – Hyoga respondeu.
— Ótimo. Traga o prato dele, Milo, e venha almoçar.
Eu peguei o prato de Hyoga e afaguei a cabeça do loirinho, que, por incrível que fosse parecer, me sorriu. Saí do quarto um pouco mais despreocupado. Apesar de ter exagerado um pouco antes, sentia que estava conseguindo me aproximar de Hyoga aos poucos.
Continua...
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