Doce Criada

1 Capítulo: a nova criada


Contornada por elevações gramadas, a pacata cidade de Bielog fornecia um belo fundo de outono para as casas coloridas, pequenas e com telhados triangulares.

No caminho a céu aberto, uma carruagem do tipo sege rumava para Bielog.

O transporte consistia em quatro rodas, sendo o par dianteiro menor que o par traseiro.

O cocheiro, por meio das rédeas, controlava a parelha de cavalos, composta por um marrom com crinas negras e outro totalmente negro.

Na cabine, havia apenas dois assentos para passageiros, e as janelas eram cobertas por cortinas.

O cocheiro se acomodava em um assento elevado, entre os cavalos e a cabine.

Antes mesmo de o transporte chegar à cidade, os cochichos se espalhavam entre os habitantes de Bielog, iniciados por aqueles que avistaram a sege de longe.

Antes do meio-dia, todos sabiam quem estava dentro da sege!

Pertencia à grande propriedade Uzumaki!

A mais rica de Bielog. A propriedade não se situava entre as habitações da cidade, embora, em um passado não tão distante, membros da família já tivessem vivido próximos aos outros moradores.

Apressadamente, moças e crianças estavam sendo arrumadas por suas famílias.

— Entregue a cesta de maçãs diretamente para a Sra. Hollingshead, e não se esqueça de elogiá-la antes — pontuava uma mãe ao seu filho de cinco anos. Como ele era loirinho, de cabelos lisos e olhos azuis, dono de grandes bochechas rosadas, ela confiava que ele cativaria Shizune Hollingshead, a mulher que estava dentro da sege.

O menino assentiu e educadamente andou em direção à carruagem, que parava em frente a um estabelecimento.

Outras crianças e jovens também pretendiam se aproximar da Sra. Hollingshead.

Entretanto, ela afastou uma das cortinas, espiando a situação fora da sege.

Percebendo a aproximação das moças e crianças, Shizune ordenou que o cocheiro seguisse até certo lugar, e que fosse rápido.

Sendo assim, o transporte arrancou.

As crianças e jovens se desanimaram, assistindo a sege dobrar na próxima esquina.

Shizune desceu assim que a sege parou no próximo ponto.

Apresentava-se com seu visual costumeiro, inteiramente preto, desde o toucado que cobria todos os seus cabelos curtos e negros, até os sapatos sob a saia comprida e ampla.

Encarando a entrada do estabelecimento, ela se comunicou com o cocheiro:

— Rápido, Sr. Diskin. Contorne a carruagem, eu sairei pela porta dos fundos da alfaiataria.

— Está bem — ele respondeu, dando a partida. Apesar de ser chamado de senhor, era muito mais jovem que a Sra. Hollingshead.

Ele tinha a pele muito branca, e o cabelo muito negro; liso e curto. Tão negro quanto suas íris.

— Fugindo como sempre, Shizune? — O dono da alfaiataria sorriu ao recebê-la.

— Agora é Sra. Hollingshead para o senhor.

— Ora, deixe disso — ele andou até uma extremidade do balcão e abriu a meia porta. — É assim que agradeces quem lhe indicou para ocupar o papel de governanta na família Uzumaki?

— Sr. Thornton, agradeço-lhe todo final do ano, entregando-lhe vinte libras.

— Arf, preferia que voltasses a me abraçar e a me chamar de "vovô Tazuna" — ele se afastou da meia porta aberta e retornou ao ponto médio do balcão, cruzando os braços sobre ele. — O que deseja?

— O senhor acertou — Shizune admitiu, corando um pouco. — Eu estava fugindo. As moças e crianças de Bielog estavam prontas para me presentearem, então resolvi parar aqui e sair pela porta dos fundos.

— À vontade — Tazuna permitiu, expressando sua perda de interesse em conversar com ela.

Shizune Hollingshead, por um momento, se penalizou pela chateação do homem de cabelos arrepiados e grisalhos.

Ela respirou fundo e, segurando as laterais de sua saia comprida, com mãos próximas aos quadris, passou pela porta. Alcançaria a porta dos fundos quando sentiu dois braços em torno de sua cintura.

— AAAA

Ela se voltou, acertando um tapa na cara de Tazuna Thornton.

— Ai que força! Não mudaste nada, HaHAHaHAHa

Ele constatou entre risos, chegando a bater as costas contra o balcão após cambalear com o golpe que levou.

— Estás louco? Quer que os outros interpretem algo de errado? — ela controlou o tom de voz.

E se apressou em sair, temendo que alguém ali aparecesse.

Tazuna massageou a cara e sorriu, feliz que sua neta de criação continuava bem de vida.

A semana foi agitada na cidade. Soubera-se que se procurava uma nova criada para a propriedade dos Uzumaki.

Os habitantes todos os dias miravam na direção de onde a sege surgiria.

Alguns até vigiaram o caminho.

Apesar de a regra ser que a governanta é responsável por escolher as novas criadas, e o mordomo os novos criados, as famílias não deixariam de apresentar seus filhinhos mais novos, com o intuito de encantar a Sra. Hollingshead com a fofura.

Pobres famílias, Shizune já havia escolhido alguém. Tazuna lhe passou nomes de candidatos à criadagem e, na lista de moças, a próxima seria Hinata Hyuuga.

Tazuna Thornton podia não levar a sério a própria postura, mas Shizune ainda confiava na escolha dele.

~

A Sra. Hollingshead cruzou uma cerca baixa e caminhou pelo campo verdejante, avistando algumas ovelhas.

O Sr. Diskin estacionava a sege ao lado da entrada da cerca.

Shizune bateu palmas ao ver a porta aberta da casa de um único andar.

No momento seguinte, ela recebeu a permissão de uma voz masculina que imprimia um pouco de fraqueza no timbre.

A voz pertencia ao Sr. Hiashi Hyuuga, que se acomodava em uma cadeira de balanço, e enfiava os pés inchados dentro de uma bacia de água misturada com algum remédio.

Seu rosto envelhecido continha olhos quase totalmente brancos, íris peroladas pouco distinguíveis.

Seus cabelos compridos possuíam poucas madeixas negras; as madeixas grisalhas predominavam.

Seu visual era composto de calça cinza que terminava quatro dedos abaixo dos joelhos e camisa branca abotoada na frente.

Fitando a recém-chegada, Hiashi teve seu momento de surpresa, e depois disse:

— Perdoe-me a minha situação, Sra. Hollingshead. Gostaria de recebê-la de uma melhor forma. Eu não esperava que aparecesse, pelo menos, não hoje.

— É compreensível, Sr. Hyuuga. Deve ter escutado que estou procurando uma nova criada. E como estamos quase no fim de setembro, suponho que pensou que eu já havia escolhido alguém.

A seleção de novos criados começava no início de maio e setembro, sendo que dentro de duas semanas, no máximo, a seleção se concluía.

— Foi exatamente o que supus — Hiashi confirmou. E em seguida chamou: — Hinata!

Tão logo o chamado do homem terminou, escutaram-se passos vindos de outro cômodo da casa.

Uma jovem surgiu na sala, e a governanta observou a imensa semelhança entre os dois.

A moça de orbes peroladas apareceu com os cabelos azulados e compridos presos, com uma mecha caindo de cada lado das delicadas feições.

Ela enxugava as mãos em um pano e se curvou ao ver a presença da Sra. Hollingshead. E escutou do pai:

— Vá pegar suas coisas, servirás à família Uzumaki.

Surpresa com a situação, Hinata fitou a mulher que realizou o cumprimento formal.

— Meu pai, não oferecerás Hanabi?

— Não, tu tens mais experiência, enquanto sua irmã ainda está aprendendo. Não quero que ela cometa algum erro com os Uzumaki. Sendo nova, ainda surgirão muitas oportunidades para ela. Já tu, estás velha. Agarre logo essa oportunidade.

Em um rápido momento, os lábios da jovem se espremeram.

Ela tinha muito tempo de vida pela frente, porém era velha para fazer um monte de coisas que a sociedade ditava. Shizune verbalizou à jovem:

— Estou sabendo que não és casada, mesmo tendo vinte e quatro anos. Não pretendo arranjar-lhe casamento. A família Uzumaki precisa de uma criada que não tenha filhos para cuidar, afinal, a função é de babá da filha do Sr. Uzumaki. Ainda posso lhe dar um momento para pensar, mas preciso de uma resposta hoje mesmo.

Hinata compreendia a situação. Aceitar a função de babá seria assumir o compromisso de permanecer solteira. E quanto mais tempo passasse, menor seria a chance de arranjar um marido.

Hiashi interveio:

— Desnecessário, ela aceitará ou não dormirá aqui. Vá se arrumar, Hinata.

Bem, ela não podia ir contra o pai, e apesar de ter inúmeros pretendentes, nenhum deles agradava ao pai, nem a ela.

Pedindo licença, a moça se retirou do cômodo.

A família Hyuuga já fora rica um dia, mas atualmente se encontrava em falência. Ainda assim, Hiashi tinha esperança de que sua filha arranjasse um pretendente que não fosse tão pobre. Ela podia estar "velha", mas a aparência ainda era boa o suficiente para arranjar um partido melhor que os pobretões que já pediram a mão dela.

Hinata não se interessou por nenhum. Nada em comum encontrou entre ela e qualquer um dos interessados. Fora que eles eram péssimos em esconder o que tanto nela os atraía: o tamanho do busto.

Sentia-se aliviada por nenhum deles ter atraído o interesse do pai, porque no fim, seria a palavra de Hiashi que decidiria seu destino.

~

Hinata usava um toucado branco com um laço azul-claro. Nenhuma madeixa azulada se tornava visível. Seu vestido também era branco, tal como suas luvas. Ela beijou a testa do pai, que não mudou a face séria, todavia, interiormente, apreciou aquele caloroso contato.

Hinata também abraçou a irmã mais nova, Hanabi, que a apertou bem. As bochechas da mais nova possuíam um tom naturalmente corado. Hanabi também tinha uma tonalidade de pele mais escura comparada à da irmã, e os cabelos negros eram mais um detalhe que provava que puxara mais ao pai. A menina ficou na porta, assistindo a irmã andar um pouco atrás da governanta.

Hinata levou apenas uma bolsa de palha e deu um último tchau à irmã.

— Esse é o Sr. Sai Diskin, ele lhe trará aos domingos para visitar sua família.

O cocheiro retirou seu chapéu, em uma reverência. A jovem dama sorriu, correspondendo ao cumprimento. E no momento seguinte, as duas adentraram na sege. Shizune manteve as cortinas fechadas. Mas Hinata, em um momento, afastou um pouquinho a cortina e deu uma espiadinha só para ver se sua irmã ainda estava na porta de casa. Infelizmente, Hanabi já havia se retirado, provavelmente para cuidar do pai.

~

Hinata não se incomodou com o tempo, uma vez que, depois que a carruagem deixou Bielog, a Sra. Hollingshead retirou a cortina das janelas, e assim a perolada vislumbrou o cenário pelo qual atravessavam. Em um momento, Shizune considerou que deveria conversar seriamente com a nova criada.

— Sra. Hyuuga, o que sabes sobre a família Uzumaki?

Hinata deixou de observar pela janela e abraçou sua bolsa, respondendo:

— Ela faz parte de uma das famílias mais antigas de Bielog. Inclusive, os antecedentes dos Uzumaki participaram da fundação da cidade. — Encolheu os ombros. — E claro, todos de Bielog sabem que, quando o Sr. Uzumaki morava na cidade, ele sofreu um acidente, um incêndio. Infelizmente, ele perdeu a esposa e ainda ficou com parte do rosto e corpo deformado. Foi depois disso que ele resolveu habitar os campos.

— Que ótimo, entendes que ele leva uma vida reclusa desde então, e deve permanecer assim, entendido?

— Sim, Sra. Hollingshead.

— Por ele ser recluso, ele não tem uma convivência próxima com os filhos. Então, não estranhe se ele não aparecer em nenhum momento para você. Em relação à maior autoridade da casa, quem conversará contigo será Kawaki Uzumaki, o filho mais velho.

A perolada assentiu. Achou triste saber que o Sr. Uzumaki se mantinha distante dos filhos. O que ela mais queria era se tornar mãe, ter uma família grande, e aproveitaria muito se tivesse uma propriedade tão grande. Uma pena que a família Hyuuga começou a declinar financeiramente quando ela era criança.

Completadas duas horas desde a partida de Bielog, finalmente, a sege cessou. Assim que as duas desceram do transporte, Sai Diskin se retirou com a sege, abeirando o meio-muro que circundava a casa de pedra. Hinata vislumbrou o casarão, dividido em dois compartimentos. No maior, apresentava frontalmente ao portão oito imensas janelas. No compartimento menor, dois janelões. No teto, percebiam-se três chaminés, uma bem afastada da outra: duas no telhado que correspondia ao compartimento maior, e uma no telhado correspondente ao compartimento menor. O que se enxergava ao redor do meio-muro da propriedade eram os campos ocupados pelas plantações de batata.

Apesar das elevações gramadas nos horizontes e da floresta ao sul da casa comporem uma bela vista, a Hyuuga considerou o quão solitário era viver distante de tudo.

— Venha.

Shizune chamou, aumentando a voz. E só então Hinata percebeu que era a segunda vez que fora chamada.

— Espero não ter que chamá-la novamente, pois se for frequentemente distraída, irei despachá-la.

— Não acontecerá de novo, eu prometo.

Hinata se concentrou. Se fosse despachada, não teria mais casa pra morar.

— A levarei ao seu quarto. Assim que se banhar, por favor, vá à sala de entrada. Apresentar-lhe-ei as crianças.

— Sim, senhora.

~

Hinata usava um vestido azul-claro, combinando com o laço de seu segundo toucado. Ao final da escada, a Sra. Hollingshead a aguardava, e antes de a Hyuuga pisar no último degrau, Shizune virou as costas, andando à frente, indo para a sala. A Hyuuga a seguiu. Chegando ao cômodo, apresentou um sorrisinho ao avistar uma menina pequenininha, parecendo uma boneca. Possuía cabelos curtinhos e lisos, com orbes avermelhados. As bochechas coradas lembravam as de Hanabi. E ela usava um vestido branco, cheio de babados em torno do pescoço e dos punhos. Ao lado da poltrona onde se sentava a criança, um rapaz sério se vestia com uma camisa branca de mangas compridas e um colete preto. Uma calça curta preta, meias e botas marrons de canela longa. O tom de pele dele se aproximava do pardo, bem diferente da branquidão da pele da pequenina ruiva. Os cabelos dele eram castanhos escuros, arrepiados. Cheios na parte de cima e curtos pelos lados e na parte de trás da cabeça. Shizune iniciou o diálogo:

— Sr. Kawaki, essa será a nova babá da Sra. Miina.

— Ela gostou de ti — ele falou à recém-chegada, após avaliar o comportamento da irmã. — Hinata Hyuuga... é isso?

— Sim.

— Hoje cedo, mais uma criada foi despachada. Assumirás alguns serviços do Sr. Uzumaki, quando não estiver tomando conta de Miina, claro. Cuidará da limpeza das roupas dele, da comida e da limpeza dos aposentos. Não se preocupe, o pagamento aumentará; receberás vinte libras.

Os perolados brilharam em admiração. Vinte libras era normalmente o que se oferecia aos empregados homens.

— Sr. Kawaki, sinto muito. Se eu soubesse, teria arranjado mais uma.

— Não será necessário, Sra. Hollingshead. Quanto menos pessoas novas entrarem nesta casa, melhor. Se a Sra. Hyuuga não quiser assumir mais de uma função, a senhora a levará de volta e buscará por outra que queira.

— Eu aceito o serviço — Hinata falou motivada. — Estou acostumada a assumir mais de uma função.

— Excelente. Se qui...

Surgiu na sala um menino de cabelos loiros que chegavam aos ombros. Ele usava uma camisa cinza de mangas compridas e com babados em torno dos punhos. A calça verde-folha chegava até os joelhos, e suas meias adentravam os sapatos pretos. Se não fossem as vestes, Hinata acharia que fosse uma menina.

— Esse é meu irmão, Menma III. Tem seis anos. Eu cuido pessoalmente da educação dele. Quando ele não está sob minha orientação, ele costuma ficar fora de casa — Kawaki fixou um severo olhar sobre o menino, que encolheu os ombros.

Menma III se esquecera de que a nova babá chegaria naquele dia. Seu irmão queria que conhecesse a mulher que cuidaria da irmã. Curvou-se à nova criada e ela correspondeu ao gesto.

— Se quiser passear com minha irmã, faça isso apenas nos limites das plantações de batata — Kawaki avisou à babá, prosseguindo de onde fora interrompido pela chegada do irmão. — Miina tem três anos, mas não anda desenvolvendo seu hábito de fala, praticamente ficou muda, mas ela entende o que dizemos.

— Oh, sinto muito. É alguma doença, Sr. Uzumaki?

— Pode-se dizer que sim, mas não se preocupe com isso. Sua função não será de fazê-la retomar a voz. Temos um médico de confiança, ele vem a cada três meses. E me chame de Sr. Kawaki.

— Entendido, Sr. Kawaki.

— Estou me retirando. Venha, Menma III.

O irmão mais novo seguiu o mais velho.

— Vou passear com a Sra. Miina — Hinata decidiu.

— Quando escutares o sino, regresses, pois será o horário de almoço.

Foi o que Shizune avisou, antes de se retirar do cômodo. Alegrada, a Hyuuga se aproximou da poltrona e carregou a pequena. Miina arregalou os olhinhos, vendo de perto as íris peroladas da bela moça. A pequenina achava que estava vendo uma de suas bonecas, só que em tamanho de gente.

~

— Não se preocupe, Sr. Uzumaki. Ela foi recomendada pela mesma pessoa que me recomendou como governanta.

Shizune avisou ao seu patrão, que estava de pé, de costas para ela. Ele espiava por uma pequena abertura no acortinado de uma das janelas.

— Por que não a escolheste antes?

— Ela estava indisponível, pois trabalhava em outra propriedade, cuidando de uma idosa. Retornou para casa depois que a idosa morreu.

— Entendi. Mesmo que tenha sido recomendada por alguém de confiança, certifique-se de que ela não seja bisbilhoteira como a outra.

— Sim, senhor.

Ele se retirou daquela sala, apoiando-se em sua bengala.

Estando sozinha, Shizune suspirou e se aproximou da janela, assistindo Hinata com Miina nos braços. A ruivinha sorria um pouco, enquanto a perolada cheirava os cabelos da pequenina.

Notas finais
Bons sonhos, meu querido e respeitável público.