Doce Criada

25 Capítulo: quando tudo caminha bem


Notas iniciais
Ainda não é o último capítulo, vou adiantar a primeira parte dele aqui no nyah. Postarei ele inteiro no socialspirit. Mas caso eu não consiga postar amanhã no socialspirit, ao menos já adiantei uma parte aqui no nyah.

Momentos após a partida da propriedade Hyuuga, enquanto a sege atravessava Bielog, Hinata notou o estado do vestido da menina.

Preocupada, questionou:

— Miina, por que estás suja?

— Eu caí.

A criança respondeu calmamente, aconchegada no colo de sua mãe.

Menma III, descansando o lado do rosto contra o braço da mãe, complementou a resposta da irmã entre bocejos:

— A Sra. Hanabi a deixou cair sem querer.

— Ai meu Deus! E se machucaste, minha maçã?!

Alarmada, Hinata exclamou, passando as mãos pelo corpo e rosto da pequena Uzumaki.

— Eu não fiz dodói — Miina assegurou, rindo enquanto os dedos da perolada afundavam em sua barriga. — Faz cosquinhas, mamãe.

Hinata continuou a explorar o corpinho da menina, aliviando-se ao ouvir apenas risadas, confirmando que ela estava bem.

Menma III, espantando o sono que o perseguia, revelou:

— Miina caiu de quatro e duas ovelhas foram até ela, mas o Sr. Sarutobi apareceu e a salvou.

Em seguida, ele contou como passou o resto da tarde na companhia de Konohamaru.

Hinata se surpreendeu ao saber que sua irmã se interessou pelo tal jogo de pega-vareta improvisado. De acordo com Menma, a Hyuuga se divertiu bastante.

A ventania forte e gelada persistiu até o fim da viagem, fazendo com que Sai parecesse ainda mais pálido do que o habitual.

Quando finalmente entraram na casa, Hinata, segurando a mão de cada criança, disse:

— Aqueçam-se na frente da lareira enquanto eu providencio um banho quente para vocês.

Ela avistou uma luz de chamas saindo pelo marco da entrada do cômodo mais próximo.

Ao chegar à entrada, as crianças pararam abruptamente. Hinata não precisou se esforçar para entender o motivo: era Kawaki.

O filho mais velho do Sr. Uzumaki estava agachado diante das chamas, alimentando o fogo com alguns pedaços de lenha.

Ao ouvir os passos e a voz da madrasta, ele se levantou e se virou para os recém-chegados, curvando-se em um gesto educado:

— Boa noite, sejam todos bem-vindos.

Instantaneamente, os queixos das crianças despencaram e os olhos se abriram como pratos. Ao se erguer, eles notaram a raposa adormecida entre Kawaki e a lareira.

Kawaki deu dois passos de lado, saindo completamente da frente do animal.

Surpresa, Hinata murmurou:

— Sr. Kawaki, esse animal...

O enteado mais velho passou a mão na nuca, desviando o olhar para um canto da sala e explicou:

— Eu tinha esperança de encontrá-la viva. E-eu cuidarei dela até que se recupere totalmente.

Miina sorriu, apertando as mãozinhas na frente do peito, seus olhos brilhando com a vontade de abraçar a pelagem da linda raposa.

Menma III mantinha a boca semiaberta, sem desviar o olhar do animal que dormia tranquilamente.

Repentinamente, Hinata se afastou das crianças, aproximando-se do rapaz e pegando seu punho direito, percebendo pedaços de faixa em sua palma.

— Estás machucado?

Kawaki suavemente recolheu o braço e colocou a outra mão no ombro da madrasta, acalmando-a:

— A raposa não quis que eu a carregasse, e com razão. Ela me mordeu, mas foi o preço que paguei por ter me aventurado tanto para fazer a senhora e meu pai me odiarem.

Ele sorriu, olhando a faixa que cobria a marca do tiro na raposa. Com um brilho sereno nos olhos, finalizou:

— Estamos quites agora.

Miina correu e se posicionou ao lado da perolada, puxando a saia longa do vestido:

— Mamãe, posso tocar nela? Posso, mamãe?

— É melhor não, meu amor. A raposa está descansando.

Sua preocupação era mais pela reação do animal.

As orelhas da raposa se moveram, indicando que, embora estivesse com os olhos fechados, estava atenta às presenças na sala.

— A raposa precisa de espaço; nossa casa é um ambiente novo para ela — explicou Kawaki seriamente. — Pedi que ninguém vagasse por aqui se eu não estivesse, e isso inclui vocês.

A perolada assentiu.

— Então vamos, crianças, deixemos a raposa descansar.

Hinata disse, pegando Miina no colo.

A ruivinha fez beicinho, emburrada.

Kawaki, respirando fundo, manifestou-se assim que a madrasta se virou:

— Antes que subam... — sua expressão se tornou mais séria. — Precisam saber sobre o estado de meu pai.

— Es-estado? — Hinata estranhou, sentindo o coração acelerar.

— Sim, ele está bem, mas precisa de muito repouso — respondeu Kawaki.

— Oh não, mamãe, o papai ficou dodói porque saímos de casa — Miina entendeu daquela forma. — Vamos lá, mamãe, a senhora tem que dizer que o ama!

— Não foi por causa disso — esclareceu Kawaki. — Ele passou por um procedimento médico; o Doutor Dittman esteve aqui. Ele fez companhia ao meu pai enquanto eu fui à floresta. Fui lá depois que o doutor me assegurou que o estado do meu pai era estável.

— O doutor ainda está no quarto? — perguntou Hinata, desejando ser assegurada pessoalmente pelo médico.

— Não, ele partiu assim que cheguei. O Sr. Wittenberg faz companhia ao meu pai agora. Pedi que ele me chamasse quando meu pai acordasse, mas até agora...

Naruto continuava dormindo.

As mãos de Hinata tremiam levemente, quase temendo que ela derrubasse Miina.

— O-o procedi...

— O procedimento foi para retirar o inchaço do quadril — Kawaki esfregou a nuca mais uma vez. — Ele queria fazer uma surpresa. Não tive coragem de manter segredo, pois temi como reagiriam ao vê-lo acamado. Então, por favor, quando ele acordar, digam que ficaram surpresos.

— Surpresos, certamente estamos — confirmou Hinata, atordoada.

Kawaki então desviou o olhar para o marco da porta, onde Menma III estava antes, agora não estava mais.

— O Menma III!

O rapaz se alarmou, fazendo as orelhas da raposa se empinarem e um dos olhos se abrir.

— Oh céus! — Hinata correu para fora da sala.

Kawaki hesitou em seguir, mas não queria deixar a raposa sozinha.

~

Kakashi estava sentado ao lado da cama quando ouviu um barulho na porta. Apressou-se para abri-la.

— Sr. Menma III — disse, afastando-se da porta e deixando-a meio aberta.

— O que há com meu pai? Por que ele precisa de repouso? — perguntou o menino, desviando-se do mordomo e indo até a beirada da cama.

Preocupado, o loirinho havia deixado a sala da lareira antes de ouvir a explicação do irmão. Consumido pelo temor, queria apenas confirmar com seus próprios olhos se o pai estava bem. O cheiro forte de remédio pairava no ar.

Devido ao frio lá fora, o mordomo manteve a janela fechada, e o odor se espalhava pelo cômodo, tornando-se mais intenso próximo da cama.

— Está tudo bem, Sr. Menma III — assegurou Kakashi com calma. — Durante sua ausência, meu amo passou por um procedimento médico.

— Meu pai sofreu algum acidente? — As mãozinhas do pequeno Uzumaki agarraram a mão direita do pai.

— Não, Sr. Menma III. Foi um procedimento para retirar o inchaço que o impedia de andar normalmente. Meu amo queria fazer uma surpresa para a família; é uma pena que ele não esteja acordado agora.

— O que... — O menino olhou para o rosto do mordomo e, em seguida, para o do pai. — E-ele... meu pai vai andar sem bengala?

— É o que se espera, Sr. Menma III — respondeu Kakashi, curvando-se e colocando uma mão no ombro do menino. — Meu amo só precisa de um longo tempo de descanso. Nos próximos dias, ele ficará de cama, então peço paciência.

Menma III apertou os dedos do pai e passou a outra mão pelo antebraço dele.

Hinata empurrou a porta e entrou com Miina no colo.

Pela reação controlada da pequena mulher, Kakashi deduziu que ela já havia sido avisada sobre a condição do patrão.

A explicação do jovem Uzumaki não convenceu Miina, que achava que ele ocultava a verdadeira razão pela qual o pai estava assim: a maldição. Abraçando o pescoço da perolada, a ruivinha cochichou:

— Rápido, mamãe, diga que ama o papai.

Hinata sorriu de boca trêmula, dando um beijinho na bochecha da criança antes de se sentar na beirinha da cama.

Passeou os olhos pelo rosto acamado de seu esposo.

Miina começou a fungar repetidamente, incomodada pelo cheiro que invadia suas narinas. Hinata, acostumada, não se incomodou.

Colocando a mão no ombro do marido, a perolada disse:

— Eu o amo, seu bobo.

— Mamãe, por que chamou o papai assim? — perguntou Miina, magoada, afastando as mãozinhas do pescoço da mãe. — Não é isso que tem que dizer, mamãe.

Um misto de emoções atacava Hinata: alegria por o procedimento ter sido finalizado sem graves consequências, tristeza por não ter estado ao lado do marido durante aquele momento delicado, alívio por saber que ele tivera a companhia do filho mais velho e felicidade por saber que ele queria fazer uma surpresa.

— Eu o amo, Naruto — declarou ela, para que a menina deixasse de lado o chateio.

Miina sorriu, esperando que o pai acordasse logo. Em sua mente, ela vivia um conto de fadas e tinha certeza de que ele acordaria em breve.

Como as fungadas da pequena não cessaram, Hinata decidiu sair do quarto com ela, indo providenciar um banho quente para as crianças.

Menma III quis ficar mais um momento, mas, após ouvir que o banho estava pronto, retirou-se do cômodo.

Kakashi permaneceu fazendo companhia ao seu amo.

~

Kawaki estava cobrindo a bela raposa com um manto.

O animal estava acordado, observando as chamas da lareira. Ele deixou de se preocupar com os movimentos do rapaz, percebendo que, por algum motivo, aquele humano não tinha mais interesse em maltratá-la. As orelhas do canino se ergueram, e o jovem elevou as sobrancelhas, atento.

Não demorou para que Menma III e Miina reaparecessem, ambos vestindo pijamas. A menina explicou a presença de ambos:

— Mamãe deixou a gente ver o bichinho antes de irmos deitar.

Apertando a mãozinha dela, o loirinho lembrou de algo importante:

— Mas não é para tocá-lo, já tomamos banho.

Kawaki se levantou e pegou mais dois mantos, estendendo-os no chão e convidando os pequenos a se acomodarem, mantendo uma distância segura da raposa.

Miina aceitou feliz, sentando-se sobre o manto carmim e esticando as pernas.

A raposa esticou a cabeça para frente, e seu focinho gelado alcançou o sapatinho de algodão da menina, que usava aqueles calçados para não sujar os pés.

Sentindo cócegas, ela soltou uma risadinha. Menma III sorriu e, olhando para o rosto do irmão, pediu:

— Conta como a encontrou, Kawaki.

— É, conta — Miina pediu, com os olhos brilhando de curiosidade, querendo ouvir uma boa história antes de dormir.

O jovem Uzumaki hesitou por um momento. Considerou que os menores haviam esquecido, temporariamente, o que ele fez ao pai e decidiu aproveitar aquele momento para interagir com eles. Mesmo assim, após contar a longa história de como encontrou a raposa e como a trouxe para casa, as crianças ainda estavam empolgadas.

— Crianças! — chamou Hinata, aparecendo no marco da entrada, vestindo um chemise e um roupão por cima.

Antes de ir se deitar, a Sra. Uzumaki queria ter certeza de que as crianças estavam na cama. Ela avisou:

— Está na hora.

Os pequenos se levantaram, e Miina saiu correndo em direção à perolada, avisando que a raposa cheirou seu pezinho.

A azulada a carregou, sorrindo para ela.

Menma III andava em direção à madrasta, mas, faltando dois passos para chegar ao lado dela, parou subitamente.

— O que há, Menma III? — estranhou Hinata, vendo-o abaixar a cabeça de repente.

Sem responder, o menino retrocedeu, parando sobre o manto onde se sentara momentos antes. Abriu a mão direita e cuspiu seu dentinho sobre a palma.

Os olhos de Kawaki brilharam.

— Toma, podes ficar com a moeda da fada do dente — Menma III ofereceu ao irmão.

— Obrigado — respondeu Kawaki, aceitando e observando o dente de perto. Seu irmão havia o perdoado definitivamente. Aquilo lhe trazia uma maravilhosa sensação.

Menma III acenou de despedida para a raposa e avançou para fora da sala, passando ao lado da madrasta.

Miina abraçava o pescoço da madrasta, surpresa ao ver o dente na mão do jovem Uzumaki.

O peito de Hinata se aqueceu ao pensar que, quando Naruto soubesse que os pequenos haviam se entendido com o irmão mais velho, seria uma felicidade redobrada.

~NH~

Próximo dia

~NH~

Pela manhã, a sege da propriedade Uzumaki chegou diante da cerca do campo de ovelhas da propriedade Hyuuga.

Hanabi estava pronta para partir, mesmo antes do sol nascer. Contudo, só poderia ir embora após a chegada da criada contratada.

Vestindo seu primeiro vestido verde, um presente da irmã, e com um toucado verde claro cobrindo os cabelos presos, Hanabi aguardava. Durante a espera, convidou Sai para tomar café da manhã.

Ele aceitou, mesmo já tendo feito sua refeição matinal. Os criados não podiam repetir as refeições na propriedade Uzumaki, exceto em dias de festa. A quantidade de comida distribuída era mediana, suficiente para não deixar o estômago roncando, mas também despertava a vontade de repetir.

Por volta da manhã, a criada chegou. Seu nome era Mai Fahn, uma jovem de dezenove anos, com pele clara e alguns fios castanhos claros escapando de seu toucado. Ela vestia um vestido amarelo-pastel e um avental de algodão.

Alegrada, Hanabi explicou a rotina do pai e as atividades mais importantes para Mai, que se mostrou atenta e não aparentou ter dúvidas.

Hanabi então entrou no quarto do pai, que estava acordado, mas ainda não disposto a levantar-se — uma novidade para ela. Segurou a mão dele e deu um beijo em sua testa.

— Comporte-se, filha — despediu-se ele.

— Sim, meu pai — respondeu Hanabi, soltando a mão dele e saindo do cômodo.

Com sua bolsa de pano, Hanabi saiu de casa e se dirigiu à sege, onde Sai a aguardava, já com o segundo café da manhã tomado.

Ao pisar fora da sege, Hanabi sentiu como se estivesse voltando para casa. Abraçando a bolsa com o braço esquerdo e apertando a alça com a mão direita, seus olhos brilharam ao avistar o casarão da propriedade Uzumaki. Dando algumas voltinhas, abriu os braços e parou em frente à grande morada.

Apaixonada, exclamou:

— Lar doce lar.

Sai conduzia a sege em direção ao estábulo, enquanto Hanabi avançava em direção à entrada da casa.

Seu coração palpitou de alegria ao ver sua irmã surgir com um doce sorriso para recebê-la.

Hinata, com os cabelos azulados presos em um coque e as madeixas laterais soltas, usava um vestido azul claro com minúsculas bolinhas azuis escuras, com acabamento ondulado branco.

As duas se abraçaram. Quando recuaram, sem soltarem as mãos, a mais velha informou:

— Hanabi, vou enviar uma mensagem ao nosso pai, explicando que nas primeiras semanas não poderei lhe dedicar tanta atenção, pois meu marido passou por um procedimento médico ontem e quero redobrar minha atenção a ele.

— Procedimento médico? Ele está bem? — perguntou Hanabi, preocupada.

— Ao que parece, sim. Mas preciso me manter vigilante quanto à saúde dele.

— Neste caso, conte comigo. Ajudarei no que puder, especialmente com as crianças.

— Agradeço demais — disse Hinata, procurando o mordomo. — Sr. Wittenberg, leve a bolsa de Hanabi, por favor.

— Sim, minha ama — respondeu Kakashi.

— Ui, ama, que elegante! — comentou Hanabi, sorrindo.

Segurando a mão da caçula, Hinata seguiu o mordomo. Quando chegaram ao topo das escadas, a azulada parou e disse à irmã:

— Continue seguindo, ele lhe levará ao seu quarto. — Beijou a menor na testa e se dirigiu ao quarto conjugal.

— Vejo-te no almoço? — perguntou Hanabi.

— Sim, a não ser que tenhas uma emergência. Chame-me antes — respondeu Hinata, docemente, enquanto se afastava em direção ao marido.

— Certo. — A Hyuuga apressou-se para alcançar o mordomo, que havia parado à sua espera.

— Onde estão as crianças? — perguntou.

— A esta hora, acredito que estejam fazendo companhia ao Sr. Kawaki, fora de casa.

— Fora?! Viajaram para onde? Minha irmã deixou isso acontecer?

— Não estão longe, Sra. Hyuuga. Estão nos fundos da casa, dentro dos limites do muro. O Sr. Kawaki está construindo uma casinha para uma raposa ferida que ele acolheu.

— Uma casinha? Uma raposa? — Hanabi repetiu, estranhando.

— Aqui está sua acomodação, Sra. Hyuuga — disse Kakashi, abrindo a porta e permitindo que ela entrasse primeiro.

Era o quarto onde Hinata dormia quando era babá, ao lado do quarto de Miina. Hanabi sorriu; era bem maior que seu quarto na propriedade Hyuuga, mas ainda não tão luxuoso.

— É impressão minha, ou parece um quarto de...?

— Criado? — completou Kakashi, erguendo uma sobrancelha. — A Sra. Uzumaki informou que a Sra. Hyuuga não precisaria de luxo. Quartos mais bem arranjados serão mantidos para visitas importantes.

— Claro.

Hanabi crispou os lábios. Deu de ombros; estar fora da propriedade Hyuuga já era um grande avanço. Jogou-se na cama estreita, enquanto o mordomo depositava a bolsa sobre um móvel próximo ao leito.

— Precisa de algo, Sra. Hyuuga? — questionou Kakashi, pretendendo se retirar.

Hanabi sentou-se na cama, segurando as bordas do colchão.

— Sim, poderia me conduzir até onde o Sr. Kawaki se encontra com meus sobrinhos?

Seus olhos perolados reluziam de expectativa.

~

O quarto do casal finalmente recebia um pouco de brisa, e o odor de remédio não era tão forte.

Os cabelos de Hinata estavam presos, com as madeixas que costumavam cair pelos lados da face agora ocultas atrás das orelhas. Seu corpo magro, com curvas sutis — exceto a curva do busto — estava envolto em um vestido azul claro que gradualmente se aprofundava na tonalidade oceânica.

Sentada na beira da cama, a perolada enchia uma colher com uma porção generosa do almoço. Ela tentou oferecê-la à boca do marido, mas ele segurou seu punho delicadamente.

— Por favor, Naruto — insistiu ela, preocupada ao ver a expressão cansada e a súplica silenciosa em seu rosto. — Minha irmã me espera à mesa.

— Podes ir, eu já comi o bastante, Hinata.

Ele recuou a cabeça, mantendo os lábios distantes da colher.

— Nada disso. Vou embora somente quando não sobrar uma única migalha.

Naruto fechou os olhos, cerrando os dentes e segurando com mais força o punho da esposa. Era difícil mastigar sem vontade; a comida parecia descer como uma pedra. Nem mesmo o talento culinário de Hinata o salvava naquele início de tarde.

— Por favor — a azulada insistiu, em um tom suave. — E-eu... — Seus olhos perolados lacrimejaram. — Eu estou falhando como esposa...

O som choroso de sua voz atingiu o coração do marido.

— Não, não está! — Naruto se apressou, liberando o punho dela. — Dê-me logo o resto do almoço.

Hinata mordeu os lábios, com um semblante triste, e continuou alimentando seu cônjuge. Naruto mal engoliu, e já tinha outra colherada a caminho. E outra. E mais outra. Até que, finalmente, engoliu a última porção, não conseguindo esconder uma careta.

Mudando do céu ao inferno, a expressão de Hinata iluminou-se, apagando os rastros de tristeza.

— Prontinho — disse ela, feliz.

Evitando admitir que estava ruim, Naruto comentou:

— Senti um gosto... diferente, forte.

— Ah, deve ser um dos ingredientes novos que comprei — respondeu ela, orgulhosa. — A banha de porco.

— Irgh — Naruto trincou os dentes, forçando um sorriso. — Bem... bem que achei o gosto familiar.

— Ela está meio crua para lhe engordar mais, mas eu a deixei toda picada e a enfiei no purê. Pensei até que não ias perceber.

Ela pegou um lenço e esfregou contra os lábios do marido, limpando-os completamente.

— Obrigado — ele sorriu, um pouco envergonhado, antecipando o nervosismo ao pensar que comeria banha em suas próximas refeições. Seu estômago se revirou, mas ele fez força para não deixar a náusea transparecer e não magoar a esposa satisfeita.

— Poderia me dar água? — pediu ele.

— Claro — Hinata se levantou do leito, pôs a colher e o prato sobre o móvel e pegou uma jarra e um copo que estavam ali. — Aqui.

Ela estendeu o copo cheio, e Naruto se aliviou ao molhar a garganta.

Um melancólico brilho surgiu em seus olhos azuis.

— Naruto?

Hinata encaixou a palma da mão no lado direito da face masculina. Ele acariciou a mão dela, afastando aqueles dedos macios de seu rosto. Depois de saciar a sede, devolveu o copo.

A azulada colocou o copo entre a jarra e o prato vazio sobre o móvel e voltou a sentar na beira da cama, perguntando:

— Estás pensando sobre ontem?

Ela adivinhou. Os pensamentos de Naruto estavam novamente dominados pela insatisfação com o que aconteceu no dia anterior. Ele estava chateado desde que soubera o que aconteceu após o procedimento médico.

A surpresa não saiu como ele planejara. Achou que acordaria antes que a esposa e as crianças chegassem, já que as dosagens da anestesia eram pequenas. Infelizmente, acordou apenas no dia seguinte, sem testemunhar a vinda de sua esposa e filhos.

— Não fique assim, Naruto — pediu Hinata, em sua meiguice natural. — Kawaki fez certo em me revelar antecipadamente; caso contrário, eu teria sofrido um ataque ao me deparar contigo nesta condição.

— Eu sei, agora estou considerando o lado exagerado da decisão, perdoe-me — passou a mão na testa, completamente envergonhado. — Tive tanto tempo para pensar e não considerei o impacto que eu poderia causar com esse “procedimento surpresa”.

Uma ideia tão doida quanto a de Menma II em querer arrancar o dente recém amolecido do sobrinho com uma linha, amarrando-a na porta. Perguntava-se se seu irmão criou noção sobre a maluquice da ideia.

— Não pense mais nisso. O importante é que tudo deu certo — disse Hinata, reprimindo um risinho. Passou a mão pelos cabelos loiros dele e comentou: — Talvez tenhas um pouco de Menma II dentro de ti.

O maxilar dele enrijeceu, assustado com o comentário da esposa, uma vez que estava exatamente se comparando ao irmão.

Pelo visto, a semelhança não residia apenas na aparência entre os gêmeos.

Com a mão direita, Hinata apertou os lábios do esposo, fazendo-os formarem uma boquinha de peixe. Ela ergueu o queixo dele e deu um selinho.

Antes que ele pensasse em transformar isso em um beijo profundo, ela já havia se virado para o móvel vizinho, pegando a jarra, o copo, o prato e a colher, tudo de uma vez, equilibrando com cuidado.

— Descanse bem. Eu volto depois que almoçar — disse ela, retirando-se do quarto.

Naruto pôs os dedos sobre os lábios, passando levemente a língua sobre eles e capturando o sabor de sua mulher. Uma doce alegria expandiu-se dentro dele sempre que pensava que sua esposa naturalmente lhe dava demonstrações de carinho, como aquele singelo selinho.

Nada como um suave contato afetivo para tirá-lo da sua chateação.

~

Na sala de refeição, a conversa à mesa era marcada pela diversão das crianças, que se empolgavam com a ideia da raposa estar na propriedade Uzumaki. Miina queria que, quando o irmão mais velho terminasse de construir a casinha, ele a pintasse de rosa. Menma III queria pintar de vermelho.

— Crianças, apenas lembrem-se de que a raposa não é nossa. Assim que ela se recuperar, terá que voltar à natureza — a perolada comentou em um momento.

— Mas e se ela gostar da nossa casa? — Menma III questionou.

— É, e se ela gostar? — Miina reforçou, esperançosa.

— Seu irmão terá que levá-la, mesmo assim. O lugar dela é na natureza — Hinata respondeu, precisando ser firme antes que as crianças se apegassem. — Ela pode nos visitar, se quiser.

Menma III abaixou o rosto, e Miina fez um biquinho. O coração da azulada se apertou.

Desviou o olhar dos pequenos e voltou sua atenção para Hanabi.

— Não está gostando da comida, irmã? — perguntou.

A Hyuuga mexia na comida de modo lento. Miina desfez seu bico e respondeu no lugar de Hanabi:

— Ela está triste porque é alérgica a raposa.

Hinata se inclinou sobre a mesa, observando mais de perto o rosto da irmã.

— É por isso que sua pele está um pouco vermelha?

— Eu já estou bem — assegurou Hanabi, enfiando a colher na boca.

— Tinha que ter visto mãe — Menma III, deixando a chateação de lado, relatou. — O rosto da Sra. Hanabi ficou inchado, parecia um tomate gigante. Kawaki levou um susto que quase caiu.

— GRRR!

Hanabi detestava lembrar daquilo; mal pôde conversar com o Sr. Kawaki. Avistou-o agachado, construindo a tal casinha. Quando se aproximava dele, começou a espirrar, e seu rosto inchou tão depressa que, quando Kawaki se ergueu e se virou para ela, ele cambaleou para trás, soltando um grito curto.

No fim, ele nem compareceu ao almoço, avisando à madrasta, por meio das crianças, que almoçaria fora de casa, na companhia da raposa.

Hanabi se recuperou do inchaço e parou de espirrar depois que se banhou e se livrou dos pelos que a raposa soltara.

~NH~

20 de dezembro

~NH~

O primeiro dia de neve chegou.

O frio intenso dos últimos dias indicava que a neve cairia a qualquer instante da terceira semana do último mês do ano.

As pessoas já usavam suas roupas invernais: luvas reforçadas, botas, cachecóis, casacos e, caso saíssem, capuzes.

Os sem-teto de Bielog recebiam ajuda da caridade. As irmãs do convento apareciam distribuindo vestes para que pudessem se proteger contra o inverno e serviam sopa quente de manhã e à noite.

Na propriedade Uzumaki, Naruto amanheceu ouvindo a alegria das crianças, que sonhavam em fazer bonecos de neve quando tudo ao redor da casa fosse tomado pelo gelo.

Em um momento do dia, encontrando-se sozinho, Naruto decidiu se levantar.

— Querido — Hinata chamou. Deixou a cesta de roupas limpas que trouxera despencar ao chão e apressou-se em se aproximar do marido.

O Sr. Uzumaki arrastou-se pelo colchão, sentando-se na beira da cama e colocando uma perna de cada vez para fora do leito.

A azulada pôs uma mão sobre o ombro do marido, questionando-o:

— Querido, precisas ir à latrina?

— Não, é que as crianças saíram agora há pouco do quarto. Foram brincar lá fora. — Ele estendeu um longo sorriso, completando: — Juntar-me-ei a elas, farei uma surpresa.

Receosa, a azulada sugeriu:

— Não gostaria de se manter mais um dia deitado, querido?

— Não, Hinata. — Naruto respondeu em tom agradável. — Eu sei que te preocupas comigo, mas me sinto bem melhor. Não posso permanecer mais um dia na cama.

Estivera acamado por mais de duas semanas, mais do que o tempo estabelecido pelo Dr. Dittman. Estendeu seu repouso apenas por causa do pedido da esposa, mas agora sentia que era o suficiente. Estava cem por cento recuperado.

Curtiria o primeiro dia de inverno com sua família.

Esticou o braço para alcançar sua bengala, mas sua mão parou a centímetros do objeto, recostado contra a parede, entre o móvel de apoio amadeirado e a cama. Sua pupila dilatou.

Não precisaria mais daquele instrumento.

Hinata segurou a mão estendida do marido, com o coração acelerado, percebendo a nova realidade que se desenhava para ele: a de que ele não precisaria mais da bengala para caminhar.

O Uzumaki impulsionou seu corpo para cima, sustentando-se de pé. Devagar, as mãos do casal deslizaram uma na outra até se soltarem completamente.

Emocionada, Hinata recuou, dando espaço ao esposo. Naruto sorriu levemente e, em seguida, mirou a porta. Precisava trocar de roupa antes de sair, mas primeiro queria testar sua caminhada.

Assim sendo, avançou um passo. Avançou outro. Conseguiu dar mais um, e outro, e mais outro. Cada vez se distanciava mais da bengala e da esposa.

Alcançando a porta, uma sequência de lágrimas deslizou pela face do Sr. Uzumaki. Suas mãos se fecharam contra a porta, e sua cabeça abaixou.

O choro de Naruto aumentou, emitindo soluços ininterruptos.

Hinata se aproximou, também chorando, mas seu choro era silencioso. Ela o abraçou pela cintura e descansou o rosto nas costas do marido, apreciando aquele momento inesquecível.

~

Menma III e Miina se trajavam para se manter aquecidos em meio à queda dos flocos de neve. A raposa se aproximou de cada um, apenas para farejá-los, e depois se distanciou, vagando pelos arredores, dentro do limite do muro baixo.

Quando avistou Kawaki, a raposa foi até ele. O rapaz se agachou e acariciou a cabeça do quadrúpede. Kurama, nome que as crianças deram ao animal, ainda mancava, mas sua condição já não era um estorvo.

Durante o dia, ela dormia no interior da casinha que Kawaki construíra, e durante a madrugada, descansava em um dos cômodos perto da lareira, na companhia de Kawaki.

O canino evitava andar por onde havia movimentação de criados, não se sentindo confortável entre muitas pessoas.

As crianças acreditavam que a raposa já havia decidido morar na propriedade Uzumaki. Quanto a isso, Hinata receava, acreditando que o animal demonstrava apenas interesse em explorar, mas que um dia retornaria à floresta.

Miina abria a boca, aguardando um floco de neve cair em sua língua, enquanto Menma III girava sem parar. A ruivinha fechou a boca, tendo sua vista capturada pela figura que surgia na porta de casa.

Naruto, de mãos dadas com sua esposa, andava meio curvado, por conta do costume, mas isso já não era mais necessário. Ele se lembrou de endireitar a coluna, tornando-se ainda mais alto.

A mão da perolada se soltou, e ele seguiu andando sozinho. Sem bengala.

Kawaki parou de acariciar a raposa e se ergueu, com os lábios semiabertos.

— Tio Menma? — Miina estranhou, não tendo visto o tio chegar.

— Onde? — Menma III parou de girar e mirou o portão do baixo muro.

— Ali, ele está vindo. — Miina apontou. — Ele tá usando a capa e a máscara do papai.

Quando a tontura do menino passou, Naruto chegou a quatro passos de distância dos filhos. Mantendo-se na porta de casa, Hinata formou uma conchinha com as mãos enluvadas, cobrindo o nariz e a boca, tentando reprimir a vontade de chorar.

Então, petrificado, o loirinho observou o rosto daquele homem.

— Não é o nosso tio, é o nosso pai mesmo. Ele já está andando, Miina.

— É o papai! É o papai! — Miina se jogou contra as pernas do homem.

Naruto se abaixou, envolvendo o braço esquerdo pelo corpo da ruivinha. Estendeu o braço direito, oferecendo-o ao segundo filho.

Menma III se impulsionou para se encaixar naquele abraço, agarrando-se ao pescoço de Naruto.

Ao avistar Kawaki, Naruto estendeu novamente o braço direito, convidando-o a se aproximar. Mas Kawaki se agachou novamente, abaixando a cabeça e esfregando o antebraço contra os olhos.

Kurama cheirou os cabelos do jovem.

Os pequenos Uzumakis iniciaram um choro de felicidade, e Naruto fechou as pálpebras, apreciando, como se escutasse a mais bela das canções.