Doce Ana
1 E se eu não houvesse sido...
Notas iniciais
Escuro. Me sinto melhor no escuro.
O som é estrondoso, invade todo o ambiente e eu estou tremendo com o pouco de roupa que me permitem usar nesta espécie de congelador ilegal feito para aprisionar garotas tolas. Talvez eu devesse ter ouvido o meu pai, mas aquele fora somente outro traste, do que adiantaria? Creio que de nada. Não acredito que estou o comparando com o Pedro mentalmente. Pelas faces da Deusa, quanta petulância de minha parte. Ele não foi tão ruim assim, creio que não. Foi só a promessa de me tirar do que já estava me esfaqueando e amordaçando internamente. Que tempos eram aqueles nos quais eu não podia gritar ou suplicar? E é claro que ele se enjoaria de brincar comigo, pobre doente, deve estar atrás de outra ninfeta agora, novamente pelas ruas numa hora destas. Uma que jamais será tão bela quanto eu já que me projetei totalmente e unicamente para o agrado dos homens maus na frívola esperança de conseguir os meus tostões e por um segundo: o amor. Jamais este tipo de amor perfeito. Não sou tão burra quanto me pintam nestas pinceladas desonrosas que só me rebaixam, já li Platão e se as palavras do tal fossem comidas que eu houvesse engolido, bem, as teria vomitado sem pena. Seria até que bom para perder uns quilinhos, não? Se bem que minhas curvas poderiam ficar menos evidentes e no presente momento elas são meu ganha pão. Amor perfeito é aquele do qual debocho, muita utopia. Não sou tão infantil, jamais iria querer que o meu amado se candidatasse para o posto de herói do meu nebuloso viver ou morresse por mim, me bajulasse, mas quando Pedro penteava meus cabelos encaracolados a vida cinza tornava-se de repente laranja. Por qual motivo? Por eu gostar desta cor, simples. E com Pedro eu sentia que tudo era ao meu gosto. E por mais frio que foste o tal homem ele dizia que a minha opinião sobre o que faríamos tinha imensurável importância, assim eu me sentia alguém. Eu era além de minha palidez e meu ruivo desgrenhado deixava de ser a parte mais autêntica sobre mim. Melhor ainda era o calor de cada briga terminada em beijo e o corar das maças de meu rosto quase nunca aceso, geralmente sem brilho ou alegria. Hoje estou ainda mais morta, mas os caras que me visitam neste prostíbulo em forma de internato gostam disto. Minha dor já inspirou artistas loucos, mas nenhum delirou tanto quanto Pedro que devolveu a inspiração ao meu eu me arrebatando. Ele era louco, no sexo e nas palavras. Portava do dom para a poesia marginal. Dom raro este e que me levava ao orgasmo de um modo que nenhum dizer imbecil destes caras perturbados conseguiu. Por qual diabos a preferência pela escuridão se sou tão bela e sem medo de assumir minha beleza, afinal, se Vênus não temeria, bem, por qual motivo eu? Acontece que as coisas mudaram, assim como passei a transar como morta viva mesmo dependendo disto para não definhar numa maca e ficar sem abrigo — já que esta espelunca ilegal ao menos me deu onde dormir — eu perdi a vaidade. Não parece? Pode não parecer, mas esta maldita me levou ao vale da morte. Talvez se eu houvesse sido mais simples e menos ambiciosa Pedro não passaria de um bad boy dos devaneios de uma garotinha sonhadora, pena que nunca fui de sonhar, mas sim de atrair o que há de mais maligno em cada sonho para mim.
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