Doce Amnésia

1 1 de 3: Estopim


Selina Kyle definitivamente detestava dias ensolarados.

Era um sábado de verão, árduo e quente como o próprio Saara. Selina acordou ao meio-dia, como de costume, com as roupas empapadas de suor. Logo deduziu que seria um dia escaldante em Gotham City. Sonolenta, levantou-se da cama e apoiou os braços definidos na janela, serrando os olhos ao fixar sua visão à paisagem abafada. O sol salpicava no asfalto como a própria tormenta.

Encheu sua velha banheira vitoriana com água morna. Retirou rapidamente suas roupas úmidas e adentrou na água, enchendo os pulmões de ar e em seguida, mergulhando. Seus olhos amarelados, abertos dentro da banheira cheia, ardiam ao enxergar um borrão de cores. Era apenas mais um dia para Selina Kyle. Mas algo ainda a incomodava.

Ainda encharcada em decorrência ao banho relâmpago, secou-se com uma empoeirada toalha de rosto que pendia no canto do banheiro. Percebeu que as memórias da noite anterior embaralhavam-se em um quebra-cabeça insolúvel. A sensação de esquecimento sempre evaporava após alguns bons goles de café, mas, naquele dia em especial, Selina sentia-se frustrada com sua total amnésia. Nem mesmo dois comprimidos de Dipirona – dissolvidos em água tônica – conseguiam fazer a Mulher-Gato lembrar-se do anoitecer de sexta-feira.

Sapateou por seu velho apartamento, ainda sem as vestimentas, tentando encontrar algum resquício de memória. Perneta, seu gato caolho de pelagem escura, permanecia sentado acima da geladeira amarronzada. O animal fixou seus olhos na dona, inclinando a cabeça para o lado esquerdo e soltando um miado longo e estridente. O bichano apontava para um grande quadro de avisos, um mural de metal que permanecia pendurado na parede da cozinha, repleto de Post Its e horários a serem compridos no trabalho de Selina.

A mulher se aproximou do quadro, passando o polegar no cartão de entregas do "Délicieux": Um buffet de comida internacional —, no qual fazia turnos como garçonete. Anotado com canetinha vermelha estava a data da noite de ontem: “10 de setembro, 20h”.

Délicieux...

Sexta-Feira, 10 de setembro de 2012.

Selina lembra-se de ter acordado cedinho com o repetitivo toque de seu telefone fixo. Uma leve pontada de curiosidade acertou Kyle, já que não era comum o aparelho manifestar-se com frequência. Ainda sonolenta e com uma forte dor de cabeça, arrancou violentamente o telefone do gancho, praguejando um grave “Alô” em direção ao individuo do outro lado da linha.

Rapidamente, a mulher reconheceu a voz rouca de Bob Délicieux, um sexagenário desleixado e seu atual chefe em um Buffet de luxo. O mesmo arremessava palavras ríspidas de velocidade considerável no ouvido de Selina, a qual não conseguia entender ao menos uma frase. Talvez fosse seu sono, ou mesmo sua testa latejando de dor, ou um compilado dos dois. A mesma só conseguiu entender as palavras finais do velho, o qual perguntava se a mesma não poderia trabalhar como garçonete na casa de um milionário reconhecido. Ou talvez fosse isso. A única coisa que se lembra é de sua resposta: “Não”.

Desligou o telefone da mesma forma que o atendeu, de forma violenta e barulhenta, batendo o mesmo de forma indelicada no gancho. Engoliu a seco alguns comprimidos que pendiam á dias acima da bancada da cozinha. Pensou em voltar a deitar, mas o calor inquestionável que penetrava seu apartamento a fez mudar de ideia. Seu prédio é uma alta construção em meio ao bairro na zona baixa da cidade, um local á marginal, cercado de tráfico, prostituição, violência e exploração. O prédio em si era descascado e pichado exteriormente com os mais variados palavrões e vocabulário de baixo calão. O único local em que Selina poderia esconder seu alter ego sem chamar atenção da polícia. Quem iria supor que a majestosa “Mulher-Gato”, com toda sua experiência em crimes internacionais, moraria dentro de um humilde cubículo?

Mesmo que tivesse um passado cheio de indulgencias, Selina largara o mundo criminal á mais ou menos seis meses. Fixara em um emprego honesto, o qual vendia discos de vinil no Chelshea, e fazia bicos como garçonete em um buffet para a classe superior. Mas, mesmo achando que se sentiria preenchida com uma vida normal, Kyle não pode negar as constantes saudades de uma adrenalina a mais.

Abriu uma das gavetas da cozinha, agarrando uma escova de cabelo que estava jogava dentro do recipiente. Escovou seus longos cabelos negros diante ao espelho, enquanto cantarolava uma melodia simples. Lembrou-se o porquê de ter sido contratada para trabalhar no Délicieux: sua beleza era extremamente espetacular.

Passou os dedos pelos traços delicados do rosto. A boca definida, o nariz arrebitado, os olhos brilhantes e puxados. Sua pele pálida tinha contraste com o cabelo negro como ébano. Sua beleza e sua sensualidade natural á faziam da Mulher-Gato perfeita: sedutora, manipuladora, irresistível. Seria uma pêsame se o velho Bob Délicieux não á contratasse para um trabalho tão banal.

Perguntou a si mesma se seria apenas mais um dia comum, pacato e sem novidades. Decidiu que sim e ligou o noticiário que passava em sua pequena televisão portátil. Acomodou-se na cadeira estofada, acariciando seu novo animal de estimação – Perneta, um gato caolho de pelagem escura e fome insaciável.

Selina fixou seus olhos no jornal da tarde, esperando ouvir alguma notícia pasma da ancora Marylee Steel. Violência, sangue e desespero eram os passatempos favoritos da Mulher-Gato. Infelizmente, as únicas noticias que eram retratadas se limitavam ao aumento considerável da economia de Gotham, e, obviamente, Batman. Repentinamente, Selina soltou a escova de cabelo e cerrou os punhos, sentindo uma imensa raiva subindo pela espinha.

Seu relacionamento com o homem-morcego nunca fora dos bons. De longe, Batman era o único obstáculo que a separava de uma vida luxuosa de crime. Quando a espetacular Mulher-Gato resolvia seguir rumo á um assalto milionário, o homem-morcego a esperava já com braços abertos, e mesmo que Selina tivesse alto conhecimento de artes marciais, sempre acabava abandonando o confronto.

Já estava praticamente desligando a televisão, quando Marylee Steel, em seu apertado terno cor-de-rosa, praguejou um aviso de alerta á toda a cidade.

“Nesse exato momento, ao vivo, um estrondoso assalto á uma joalheria no Centro Financeiro de Gotham”.

Dois assaltantes apareciam dentro da loja, fazendo os vendedores e os clientes de refém. Á mão armada, o primeiro homem ameaçou matar todos se os policiais adentrassem no local. Com uma certa ansiedade, a ancora do jornal da tarde perguntava aos telespectadores onde estaria Batman. Até o mesmo finalmente aparecer. O corpo de Selina Kyle entrou em colapso. Seus nervos estavam explodindo de raiva. Novamente, a Mulher-Gato é deixada de lado por bandidinhos da ralé, os quais não tem senso algum de crime. Em uma cidade como Gotham City, nunca se pode fazer muito alarde á assaltos, coisa que os dois ladrões da vez ignoraram completamente.

Selina assistiu á batalha de Batman com os forasteiros, sem dúvida de quem iria ganhar e Salvar o dia. Após prender os bandidos, o herói desaparece em um fleche de luz, como de costume. A população fica agradecida por ter alguém para protegê-los.

Como esperado – Pensou a Mulher-Gato, revirando os olhos.

“E como sempre, o Homem-Morcego salva a população sem deixar feridos. Os cidadãos de Gotham agradecem!”

Algo naquela última frase despertou um sentimento repugnante dentro de Selina. Era como se um bando de gatos raivosos estivessem aprisionados dentro do corpo da mesma, querendo libertar-se desesperadamente.

Em um ato inesperado, Kyle chuta a televisão janela a baixo, vendo-a espatifar-se no asfalto, satisfeita. Cacos de vidro esparramados pela rua. Por uma fração de segundo, Selina pegou-se deliciando com uma imagem de desgraça: Batman caído nos destroços da televisão, o corpo musculoso cortado e ensanguentado, deitado apenas esperando a cruel morte.

Focou o olhar dentro do guarda-roupa. Sua vestimenta de trabalho permanecia passada e limpa, pendurada por um cabide. Ao seu lado, a roupa de látex negra de Mulher-Gato, brilhando e convidando Selina á vesti-la. Era algo que Kyle não iria resistir.

Novamente, apertou o telefone nas mãos. Discou o número de Bob Délicieux, e sem muito pestanejar, aceitou o turno complementar. Hoje, para Selina Kyle, não seria apenas mais um dia normal, pacato e sem novidades.

Hoje, seria o dia em que Selina Kyle se transformaria novamente na Mulher-Gato. E ela voltaria mais forte como nunca.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.