Doce Amargo

18 Livro II - Capítulo 3


Notas iniciais
Oi, gente. Desculpem por não conseguir responder aos reviews ainda. Em breve eu vou responder a todos. Prometo. Pra quem perguntou, precisei, sim, retirar o livro 1 da plataforma. Ele sai em formstl físico no dia 14 de agosto. Está chegandooooo! *------* Tem sorteio também lá na página! Vale um exemplar autografado, marcadores e brinde surpresa. Não vale perder, viu? Agora... Mais um capítulo. ♡

Robert

— Você ainda está aí?
Obriguei meus pensamentos a ficarem sob controle outra vez e encarei Lizzie por alguns segundos antes de finalmente responder.
— Estou.
Ela pareceu não acreditar muito, mas quem poderia culpá-la?
— Está pensando nela de novo, não está?
— Não. — Mas era uma grande mentira.
Pensar em Linda e em tudo o que tinha acontecido nas últimas semanas era a única coisa que vinha fazendo. Eu repassava as cenas em minha cabeça, tentando entender em que ponto foi que estraguei as coisas. Nós tínhamos uma boa chance de dar certo, nós vínhamos dando certo. Então Susan apareceu e tudo foi por água abaixo. E então veio James, esfregando o maldito testamento em Linda, como se já não tivéssemos problemas o suficiente.
Tinha sido ele, eu tive certeza antes mesmo de confrontá-lo. Porém, quando o fiz, ele me lançou aquele sorriso cínico e asqueroso que sempre me embrulhava o estômago.
James voltou a falar sobre Britney, a dizer que meu casamento tinha cumprido seu propósito, mas que aquele circo todo precisava acabar. Eu queria socar a cara dele, só que quando ele disse que eu o ajudei, mentindo para Linda desde o começo em vez de deixá-la me ajudar... bem, isso me desarmou.
“Ela teria feito qualquer coisa que você pedisse, Robert. Estava escrito na testa dela”, ele disse, e me incomodou que ele a conhecesse assim tão bem, infinitamente melhor que eu.
— Parece que está — Elizabeth insistiu, me trazendo de volta do devaneio.
— Parece que estou o quê?
— Pensando nela, oras.
Não respondi. Era desnecessário. Não queria soltar algo pirrônico ou agressivo, então achei o silêncio uma melhor opção. Elizabeth bebeu um gole de chá e eu fiz o mesmo, com uma calma deliberada, observando Sofie, entretida penteando uma boneca.
— Eu a vi — deixou escapar. Foi tão baixo que por um momento pensei que poderia estar imaginando, entretanto, o modo como ela me olhou confirmava tudo.
Meus dedos se esticaram e contraíram, as mãos percebendo-se vazias por tanto tempo que era até mesmo difícil me apegar à sensação de tê-las preenchidas com a textura suave da pele de Linda.
— Onde?
— Nós almoçamos juntas, anteontem. Quando vocês... bem, quando ela foi embora eu a pressionei um pouco pra que mantivéssemos contato.
— E ela aceitou?
Elizabeth riu. Um som breve e melodioso, com acordes familiares e tristes.
— Claro que não. Sou sua irmã. Achou o quê? Que ela viria chorar as mágoas pra mim e dizer o quanto você foi estúpido?
Engoli em seco, ignorando a ofensa e trazendo o foco para o que realmente importava: Linda.
— Mas você disse...
— Ela me procurou — esclareceu. — Eu tinha dito que não era justo que todos nós pagássemos pelos seus pecados e Linda concordou. Ninguém pode dizer que ela não é sensata.
— Ah, não? Ela foi embora sem me dizer uma única palavra. Não faço ideia de onde ela esteja agora, o número antigo está desativado e eu achei que ela tivesse simplesmente evaporado.
— Depois de descobrir que você tinha dormido com Susan e que você se casou com ela por causa do testamento do papai. — Elizabeth meneou a cabeça, como se pesasse o que acabara de dizer. — É, ninguém pode mesmo dizer que ela não foi sensata.
Abri minha boca para dizer algo inteligente. Ou não. Só não queria que as palavras de Elizabeth me dessem aquela sensação de ter sido golpeado no estômago, mas foi o que aconteceu.
— Não é uma coisa ruim ela ser sensata — Lizzie retomou quando eu não disse nada. — Isso pode significar que tem uma boa chance de vocês conversarem.
Então eu ri. Um riso cético, infeliz e ressentido.
— Claro — concordei num tom dissimulado. — Eu meio que vejo Linda e eu sentados numa mesa, conversando enquanto tomamos sorvete.
— Falo sério, Robert — ela me repreendeu.
— Pois é, eu não.
— Posso falar com ela, se você quiser. Não tive a chance ainda, mas posso insistir mesmo que ela se aborreça comigo se sentir que você quer mesmo falar com ela.
Eu me ative à parte em que ela disse não ter tido chance e que tocar no assunto poderia fazer Linda se aborrecer. Testei a ideia de Linda repelindo um assunto em que eu estivesse no centro e aquilo me incomodou.
— Você falaria comigo se estivesse no lugar dela?
Elizabeth pareceu pensar por um segundo ou dois. As mãos descansaram sobre a barriga protuberante e os polegares traçaram círculos lentos e invisíveis sobre o vestido bege que ela usava.
— Se eu te amasse... se te amasse muito, então sim. Eu iria querer te ouvir dizer que sente muito.
— Eu já disse isso.
— Tente explicar sobre o testamento. Sobre Susan.
— Fiz isso também — eu disse, mesmo que, em partes, fosse mentira. Não tive a chance de dizer a Linda que nada aconteceu realmente entre mim e Susan e que agora eu tinha certeza. Ela não gostaria de como descobri isso.
— Diga que sente saudades, que a quer de volta e que...
— Feito.
Elizabeth gesticulou, mas foi um gesto sem som, inarticulado.
— Você precisa fazer alguma coisa, Robert. Por favor — ela implorou com olhos úmidos.
— O quê, por exemplo? — perguntei num suspiro exausto.
— Não sei. Qualquer coisa. O que trouxer Linda de volta mais rápido. Você precisa dela irrevogavelmente.
— Não — eu me apressei em negar, porque a ideia de dependência me desagradava imensamente.
— Sim — refutou. — E ela precisa de você também. Eu sei.
Por um momento meu peito se aqueceu. A lembrança de Linda me dizendo palavras gentis e ternas me sacudiram por dentro e um sorriso quase imperceptível moldou o contorno dos meus lábios.
— Ela te disse isso? — quis saber.
— Não. — Ela meneou a cabeça. — Nós não falamos sobre você. Ela não quis.
Franzi o cenho.
— Não falaram nada sobre mim? Ela não perguntou? Você não disse?
— Ela não perguntou e não me deixou dizer. — Encolheu os ombros, constrangida.
Eu não sabia dizer se aquilo tinha me pegado de surpresa ou não, porque me parecia normal que Linda não quisesse falar comigo, no entanto, se recusar a falar sobre mim com Lizzie? Era normal também? Eu não fazia ideia se já esperava por algo assim, mas a sensação era incômoda.
— Acho que ninguém pode acusá-la de não ser sensata, então.
***
O dia estava em um tom estranho de cinza, me obrigando a ficar na cama por mais tempo. Dormi mal noite passada, me revirando nos lençóis enquanto repassava na mente a conversa que tive com Elizabeth.
Ela queria que eu procurasse Linda, mesmo se recusando a me dizer onde ela estava. Queria que eu me desculpasse, mesmo sabendo que eu já tinha feito isso. Ela queria, na verdade, que eu fizesse o impossível: trazer Linda de volta.
Remexi-me na cama espaçosa (espaçosa até demais para uma pessoa só), lembrando-me dos dias de ócio em que Linda e eu ficávamos deitados até mais tarde, acordados mesmo sem querer acordar, conversando baixinho para não deixar a letargia ir embora e, segundos depois, sem que nos déssemos conta, nos amando esfomeadamente, sem saber nem mesmo quem tomou a iniciativa.
Sentia falta dela e a sensação me deixava ainda pior. Como se não bastasse o sentimento de abstinência eu também me sentia impotente pela primeira vez em muitos anos. Não fazia ideia do que Linda tinha feito comigo para me deixar assim, mas sabia que não podia viver naquela agonia para sempre.
Elizabeth estava certa em um ponto: Linda e eu precisávamos conversar, mesmo que o fato de ela ter se mudado e trocado de telefone indicasse que ela não queria ser encontrada. Eu também não queria que ela tivesse ido embora e ela foi. Não queria estar sentindo falta dela e estava. Não queria dormir sem o calor do corpo dela entre meus braços e dormia.
Ela poderia não querer me ver, tinha o direito de não querer falar comigo, no entanto não iria evitar a situação para sempre. Eu já tinha esperado tempo demais.
Precisava encontrá-la, dizer que sentia muito por tudo — ainda que soasse repetitivo — e contar para ela a verdade sobre Susan. Que não dormimos juntos, como Linda — e até mesmo eu — pensou. Nada disso anulava o testamento, eu bem sabia, mas já me bastava que Linda estivesse disposta a me ouvir.

Notas finais
E é isso! Espero que tenham gostado. Comentem, participem do sorteio e façam uma autora feliz. Hahahaha Super beijos. ♡