Doce Amargo

16 Capítulo 1 - Livro II


CAPÍTULO I

Melinda

Christine me inspecionou uma última vez, erguendo os polegares para mim e sorrindo em aprovação.

— Me diz por que estou fazendo isso, de novo?

— Porque eu pedi. Pedi muito, fui muito insistente e, como minha melhor amiga, é seu dever me ajudar.

— Certo — concordei meio a contragosto, recebendo um beijo estalado na bochecha. — Mas eu ia visitar Eva hoje. Javier viria me buscar.

— É, claro, claro. Você pode fazer isso amanhã. Javier — ela falou, num tom desdenhoso — vai entender.

Aquilo me fez sorrir.

Christine não poderia gostar menos de Javier, e a recíproca não poderia ser mais verdadeira. Não era como se eles se odiassem de verdade, mas tinham essa mania — às vezes irritante, às vezes engraçada — de ficar disputando minha atenção.

Javier era bem mais maleável que Christine, para ser sincera. Ele até achou legal que ela e eu dividíssemos um apartamento, mesmo isso significando que nós dois fôssemos permanecer meio longe um do outro. Mas ele compensava isso aparecendo a todo momento, sem aviso prévio, às vezes tarde da noite, testando os limites de Christine.

Eu gostava da companhia dos dois, ambas me faziam bem. Não teria sobrevivido às últimas sete semanas se não fosse por eles. No começo fiquei meio reticente com Javier, com medo de ele achar que, uma vez que eu não estava com ninguém, isso pudesse significar que ele e eu teríamos uma chance. Mas então descobri que ele estava saindo com alguém, e foi um alívio saber que esses ideais românticos tinham ficado no passado.

A vida não era fácil, isso eu precisava admitir, mas ter amigos que me davam suporte tornava o fardo mais leve. Eu tinha um novo emprego, uma nova casa, um guarda-roupa novo, visual diferente e uma colega de quarto. Era um recomeço singelo, sim, mas eu estava seguindo em frente, como disse a mim mesma que faria.

***

A boate tinha um jogo de luzes que estava quase me deixando tonta. Esperava mesmo que o tal amigo do atual namorado de Christine não levasse jeito para dança, porque eu não estava nem um pouco a fim de ter que me espremer entre todas aquelas pessoas. Especialmente com aquele arco-íris piscante me ferindo os olhos.

— Ei, você está vendo Travor? — Christine gritou ao meu ouvido, para se fazer ouvir através da música alta.

— Não tenho certeza. Acho que não.

A verdade era que eu só tinha visto Travor uma única vez, em meio àquela confusão seria impossível achá-lo. Meu Deus! Eu não conseguiria me achar, se me perdesse.

— Droga! Será que a gente chegou muito cedo? Assim vai parecer que estamos ansiosas demais.

E Christine realmente estava, mas eu não lhe disse isso. Já tinha coisas demais para lidar depois de ter concordado com essa ideia absurda de encontro às cegas, só porque Travor queria arrastar um amigo junto consigo. E, claro, Christine me escalou para ser a acompanhante dele. Outra exigência de Travor. Eu já estava começando a não gostar nada desse cara.

Eu fui ao toalete enquanto Christine procurava por Travor e nós combinamos de nos encontrarmos no bar. Ela estava uma pilha de nervos, e eu, me arrependendo amargamente de ter concordado com aquele absurdo. Encontros já podiam ser ruins o bastante quando se escolhia o par, eu não queria saber quão desastroso poderia ser com os dois assim, no escuro.

***

— Eu estou mesmo impressionado. Pensei que você tivesse o dobro de peso, uns dez dentes a menos e fosse um verdadeiro horror.

Will Stewart tinha olhos gentis e sorriso acolhedor. Ele era divertido, espontâneo e conseguiu até mesmo me fazer sorrir. Um sorriso sincero, não um gesto educado para não parecer rude.

— Uau! — emiti surpresa. — Eu posso saber a que devo a gentileza?

— Travor me implorou pra sair com você. Ele está mesmo a fim de Christine, mas ela disse que não ia a lugar algum com ele se não prometesse trazer um amigo que fizesse companhia à amiga dela.

Senti meu queixo cair em estupefação. Ele não podia estar falando sério.

— Como é que é? — questionei, uma pontada de surpresa na voz. — Do que está falando? Foi Chris quem me implorou pra vir aqui hoje. Ela fez todo um drama pra me convencer.

— Espera aí — ele falou, erguendo uma mão como se o gesto realmente fosse me fazer esperar. — Então eles armaram pra gente? — testou, cético. — Isso faz todo o sentido do mundo! Eu sabia que uma mulher tão bonita feito você não precisava de encontros arranjados.

Inevitavelmente, as palavras dele me fizeram corar. Mordi o lábio tentando esconder um sorriso, mas não funcionou muito bem.

— Okay — finalmente consegui dizer, depois de um pigarro. — Isso é parte do acordo? Travor pediu pra que fosse educado e me elogiasse?

— Não, essa parte é improviso. — Ele me lançou um riso aberto. — Mas falo sério. Você tem olhos incríveis, sabia?

Will me olhou de um modo pouco discreto, perscrutador. Foi impossível desviar o olhar quando o dele estava tão fixo no meu, então, por um tempo, eu apenas o encarei de volta, sem saber ao certo o que falar.

— Você é o cara de olhos azuis aqui — apontei, tentando forçar um sorriso para ele, mas constrangida demais com aquele contato que não parecia perto de acabar.

— Eu sei — anuiu. — Esses olhos aqui — retomou, o dedo indicador apontando para seu olho direito — já me ajudaram muito na ora do flerte, mas os seus olhos... Eles são ternos, doces... gosto de olhar pra eles... — Ele hesitou por um momento, como se procurasse a palavra certa. Um vocativo, para ser mais precisa. — Seu nome, de novo? — perguntou, coçando a cabeça num gesto que demonstrava constrangimento.

— Melinda — eu o lembrei. — Mas você pode me chamar de...

— Mel. — Não foi uma pergunta, nem um pedido. Ele só se decidiu e pronto.

— Bom, na verdade, todo mundo me chama de Linda.

— Eu não sou todo mundo. — Will me lançou uma piscadela, sorvendo um gole generoso de sua bebida. — Além do mais, Mel combina com você. Pro caso de você não se lembrar, meu nome é...

— Will — eu o interrompi, e foi minha vez de provar o drinque doce que ele pediu para mim. — É, eu sei. Sou boa com nomes. Alguém aqui precisa ser, não? — Ergui minhas sobrancelhas em desafio, num gesto presunçoso e provocador.

— Eu me lembraria do seu nome facilmente se não tivesse ficado paralisado quando te vi.

As palavras dele e o modo como seus olhos nunca se afastavam do meu rosto me fizeram corar. De novo. Um riso nervoso me escapou, e eu desviei o olhar, sem coragem nenhuma de encarar Will.

Aquilo era novo para mim. Ir a uma boate, encontrar um cara legal e receber elogios despropositados. Não foi assim que as coisas aconteceram com... bem, antes. As coisas não aconteceram assim antes.

— Você está me deixando sem graça — murmurei por fim, genuinamente sem jeito.

— Eu gosto do fato de você ser capaz de corar. Não se vê muito disso hoje em dia.

Ele me encarou de modo contemplativo por um tempo, mas não era incômodo, tampouco constrangedor. Sendo sincera comigo mesma, era diferente e eu até gostava.

— Você deve achar que eu sou uma boba.

— Acho você fascinante — retorquiu. — E adoraria se aceitasse sair comigo outra vez, qualquer dia desses, porque nós dois queremos e não porque armaram pra gente.

Estaquei por um momento, sem saber ao certo o que dizer, como dizer ou mesmo se deveria dizer alguma coisa. Então eu me peguei concordando num aceno de cabeça enquanto um sorriso singelo se abria em meus lábios, porque eu tinha gostado da companhia de Will. Ele me fazia sentir bem, de um modo que só pensei ser possível ao lado de amigos de longa data, mas era um feito que ele conseguia também, e de um jeito todo especial.

Will era divertido, me fazia rir de um jeito fácil, e a premissa de me sentir assim mais vezes era simplesmente fantástica.