Dobrando A Realidade E A Expectativa
1 Foi o cão que pôs pra nóis beber!
Betado por HinnaCRF
Terra, lar dos humanos. Um planeta muito bom para se dar uma passeada e, assim como todos os pontos que são ótimos para o turismo, o atendimento é péssimo. A Terra, para aqueles que não sabem, é um pálido ponto azul na imensidão.Ela foi colonizada num momento idiota, por circunstâncias idiotas e por um idiota.Elan Branbal é o idiota. Foi responsável pela destruição de seu planeta natal, no longínquo ano de 4.242 (segundo o calendário das Células de Borracha), mas ele não gosta muito de tocar no assunto.Como alguns já devem ter pensado, ele é muito velho. Mas é um velhote com um corpinho de um homem na casa dos trinta e poucos anos. Magro, pálido, olhos, contando com suas olheiras, e cabelos negros, usando um bigode e cavanhaque.O que não é difícil de manter, quando se é considerado o ser mais inteligente do Universo e, segundo pesquisas recentes, inclusive de outros universos desconhecidos. A fonte para isso são os cálculos realizados pelo mesmo macaco que digitou uma obra completa de Shakespeare por acidente.Entretanto, é considerado o segundo mais sem noção de todo o Universo também.O primeiro colocado é um anão veterano da Grande Guerra das Calcinhas que, ao ter seu testículo esquerdo amputado por uma rendada negra e mortal, mudou-se para Marte e passou o resto de seus dias gritando:“Essa é a minha bola esquerda! É vermelha! Não tá vendo?”Este foi o motivo pelo qual, entre tantos mundos possíveis para se escolher, Elan optou logo pela Terra.Conhecer o seu inimigo e estudá-lo a fundo. Por enquanto, isso é o suficiente a se saber sobre o seu passado, afinal isto aqui não se trata de uma biografia de uma estrela de Hollywood. O resto será contado em outro momento. Um dia quem sabe. Ahh...Ocorre que Elan não é o protagonista desta história, ele é o empregador daquele que talvez possa ser chamado de protagonista. Porque o Elan Branbal, que tem muito tempo livre, é um ser imortal, vive trabalhando, estudando e inventando maneiras de passar o tempo tentando afastar o tédio, com a diferença de que ele não possui um caderno que mata pessoas.Como administrador da Terra, ele acompanhava o desenvolvimento do planeta e viajava, fazendo seus mochilões por aí, verificando as situações que apareciam e ajudando seus “filhos”. Suas interferências causaram os maiores desastres registrados na história da humanidade e ecoam até a atualidade.Da Peste Negra até uma humilde explosão num concurso de beber gasolina que, por acaso, foi organizado perto da Covenção Anual dos Cuspidores de Fogo.Como se não bastasse, certo dia ele encheu o saco ao lidar com os humanos da Terra que, na sua opinião, eram muito previsíveis. Com isso, decidiu parar de vez com as suas interferências pessoalmente.Teve a idéia de contratar pessoas, do próprio planeta, para realizarem o trabalho de campo em seu lugar. Desta forma, poderia ficar em sua base confortável acompanhando, como um stalker, em suas mais de mil telas (numa delas o canal de vendas de jóias e tapetes), analisando o progresso de suas investidas.Seu atual funcionário é um jovem de nome e sobrenome desconhecidos, alcunhado de Arc. Tinha cabelos e olhos castanhos antes de ser contratado, mas agora os cabelos são pratedos e seus olhos são de uma cor de âmbar forte, por uma questão de sugestão forçada de Elan:– Ai!! Seu *censurado*!!!Foi o que se ouviu de Arc, que não pôde controlar a língua ao receber uma pancada, no ombro, vinda de um pequeno robô esférico cor de paládio, de aparência delicada e gentil que, com muita pressa, flutuava no ar carregando pratos vazios:– Não fique no caminho, Arc! — Disse, o pequeno andróide, voando depressa para se juntar aos outros modelos parecidos com ele.– Mas que porcaria. Por que o Sr. Branbal tem que almoçar somente nos momentos errados?Arc deu os seus passos calmamente. Como que para se mostrar diferente dos robozinhos que estavam muito ocupados com a “Hora Avulsa do Almoço”. Talvez ele caminhasse devagar para reparar melhor nos tons cristalinos geométricos e predominantemente hexagonais das paredes ou para protelar e seu turno acabar mais rápido. Qualquer uma das duas razões são boas o suficiente:– O senhor me chamou, Sr. Branbal?Adentrou mais os aposentos de seu chefe, este estava a corroer uma coxa de galinha e atirá-la a esmo, para que um andróide de quase dois metros a receptasse numa lata de lixo:– E é cesta!!! A plateia vai ao delírio!Elan fazia vozes, ao fundo, enquanto Arc tentava esboçar uma cara de normalidade, mas estava quase desistindo, pois aquele magrelo continuava agitando os braços loucamente:– Pirralho! Você chegou na hora certa!Se inclinando para frente, o seu robô mordomo deixou a lata de lixo no chão, tirou um lenço e começou a limpar a gordura de sua boca. Não chegava ao grotesco, mas era, de fato, muito estranho um andróide morcego gigante limpar o rosto de um homem fazendo biquinho:
– O Capitão Flare acordou e...– Ah não! Mas aquele bola de gude psicopata já acordou?Um vulto passou entre as pernas de Arc, fazendo-o tropeçar. Era o Capitão Flare, um andróide semelhante àquele que havia esbarrado nele mais cedo. Tinha uma couraça cor de paládio e traços mais violentos e ameaçadores.O capitão se pôs flutuando ao lado de Elan. Olhava através de seus olhos verdes cheios de fúria para Arc, que ainda estava a se levantar todo sem jeito. Flare disse tenebrosamente:– Quem é o bola de gude psicopata, Arc?Aqui vai uma curiosidade: O Capitão Flare foi o primeiro Stern, estes são os robozinhos criados por Elan Branbal, para auxiliá-lo nos serviços e afazeres gerais da Base. No caso do capitão, ele é a arma final, criado como a mais perfeita e sofisticada unidade de combate. Trata o seu criador como a um senhor feudal e não hesita em destruir quem oferecer risco aos objetivos de seu mestre.Apesar do design praticamente inofensivo, ele possui poderes muito além do que se pode sequer imaginar....Certa vez, em 341 (Calendário atual), uma esquadra intergaláctica de Manchis, que voltava de mais uma de suas campanhas com status de vitoriosa, ia passando perto da Terra e resolveu aproveitar a oportunidade e saquear um pouco, aquele planeta, para conseguir uma quantidade maior das famosas barras de ouro que valem mais do que dinheiro e outros bens:“Vamos invadir seu planeta ridículo! Entreguem os seus recursos. Caso não o façam, os destruiremos lentamente e dolorosamente. ”Elan Branbal recebeu a mensagem, coçou o cocuruto e, em seguida, mandou uma mensagem de resposta:“Sabe o que é... Eu moro aqui. Eu não estou a fim não...”Logo após receberem a mensagem, os Manchis avistaram um pontinho prateado na frente suas naves. Era o capitão e ele não estava com muita paciência:“Dêem a volta ou tomarei as medidas necessárias para proteger o meu Mestre.”Todos os Manchis começaram a cair na gargalhada, do almirante até o faxineiro que limpava o chão com saliva.“Sai daí, bolinha de ferro! A gente não tem tempo para conversar com um brinquedo!”O pequeno andróide cerrou os punhos, os olhos que eram verdes tomaram uma coloração amarelada por um curto espaço de tempo.Ele voltou a se comunicar com as naves inimigas e o que se ouviu nas mesmas foi:“Vocês todos vão morrer...”Pouco tempo depois, não havia mais nenhum sinal de vida vindo daqueles monstros de metal que agora se encontravam aos frangalhos.O dono da sucataria espacial, que passou uns dias depois para recolher o restos das naves destruídas, disse:“Hmm... hoje vai ser um dia daqueles..."...– Elan-sama, eu a trouxe e ela está esperando.Ao ouvir o capitão, Arc ficou meio confuso e então se lembrou de que Elan o havia avisado que em breve ganharia uma parceira de trabalho:– Hmm... Batally, bota o Tetris aí! Estou sentindo que é hoje que vou bater o meu recorde!O mordomo-morcego gigante pôs o jogo para rodar, Elan se sentou e começou sua overdose de poligonos. Flare reproduzia sons de explosões a cada linha que era destruída. No momento em que um estágio era completado, o som reproduzido era similar ao de uma trombeta, quando Elan perdia, podia se escutar um pato grasnando:– O senhor não vai mandá-la entrar? – Perguntou, Arc, ao seu chefe que parecia estar numa outra dimensão. – Ela já deve estar se cansando de esperar.– Deixe-a esperando. Eu quero ver a reação dela.– Mas ela...– Elan-sama está ocupado, Arc...O tom retalhador do capitão fez com que Arc ficasse quieto, lamentando pela pobre alma que em breve adentraria pela porta.
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