Do trono ao cadafalso
28 Capítulo XXVIII
"Minha filha visitou-me hoje, diário, e eu não poderia estar mais feliz. Todos os membros da Corte que puseram seus olhos nela a admiraram. Minha Sarada é a criança mais linda que já vi, e possui o temperamento extremamente doce... creio que não será impetuosa como eu, e certamente será uma boa Rainha caso chegue ao trono (...)."
A pequena Sarada já caminhava pelos aposentos da mãe. Sakura ria enquanto sua menina corria atrás de Pakkun para apertá-lo, e o pobre cãozinho fugia para se proteger das mãozinhas astutas.
Karin estava no quarto com Sakura e a Princesa, enquanto que as outras aias da Rainha e babás de Sarada haviam sido dispensadas durante aquela tarde. Sakura queria privacidade com sua filha, mas precisava manter sempre uma de suas damas por perto para o caso de precisar dela.
– Como ela é esperta. — Sakura disse encantada, sentada em sua poltrona. Queria brincar com a filha, mas não devia fazer esforço por causa da gravidez — Pobre Pakkun, não há onde se esconder. — Riu — Sarada sempre o encontra.
– Ela aprendeu a andar tão rápido. — Karin disse admirada — Até arrisca algumas palavras.
– Sim, minha menininha é muito inteligente! — Enfatizou orgulhosa.
– E é tão parecida com o Rei. — Observou a ruiva.
Esse era um motivo de alívio para Sakura. Sabia que há tempos fofocas circulavam sobre sua pessoa, mas o que a deixava tranquila era o fato de que, independente do que dissessem, ninguém jamais podia duvidar se Sarada era ou não uma filha legítima. Sua semelhança com Sasuke não deixava margem para dúvidas.
– O Rei... — Suspirou — Ele não apareceu hoje. — Disse com estranheza a rosada — Não veio me ver pela manhã, não veio comer comigo, tampouco apareceu para ver nossa filha. — Sakura olhou para Karin e viu, pela expressão em seu rosto, que ela sabia de algo — Karin... — Falou num tom de voz sério — Se você sabe de algo, conte-me.
Sakura estava praticamente confinada nos seus aposentos desde que a gravidez havia sido descoberta, uma vez que não queria arriscar perder outro bebê. Precisava ficar quieta, sem se preocupar com assuntos da Corte ou com fofocas venenosas em torno de si.
– Majestade, eu não sei de nada, e nem quero deixá-la nervosa. — A aflição de Karin era quase palpável, portanto havia ficado nítido o fato de que a aia queria proteger sua senhora de alguma coisa.
– Nervosa ficarei se você não me contar o que está acontecendo! — O tom de voz da Rainha se alterou um pouco.
– O Rei não foi visto hoje. — Contou — Ninguém o viu pelo castelo.
O coração de Sakura se apertou. Lembrou-se de conversas mais antigas, dos cortesãos que afirmavam com toda a certeza do mundo que o Rei frequentava bordéis na cidade e que dormia com várias prostitutas. Embora Sasuke negasse, Sakura já não confiava totalmente nele, e, portanto, considerava a hipótese.
– Em qual dos malditos prostíbulos da cidade ele deve estar? — Indagou com amargura.
– Majestade, o Rei pode estar só dando um tempo da Corte. — Karin se aproximou da Rainha e sorriu — Ele pode ter ido caçar, pode ter dormido em outro castelo.
– Ou pode manter outras mulheres escondidas. — Supôs — O Rei tem tantas propriedades, tantos castelos, tantas casas... Ele pode manter suas amantes escondidas, longe das minhas vistas e longe da Corte.
As hipóteses de Sakura não eram absurdas, mas não haveria porquê Sasuke esconder amantes, já que era visto como perfeitamente normal um Rei possuí-las. Todavia, levando em consideração o temperamento da Rainha, poderia ser que Sasuke preferisse manter seus casos extraconjugais longe dos olhos da esposa.
– O Rei não faria isso com a senhora, Majestade. — Karin tentou acalmar sua soberana, mesmo sabendo que as palavras de Sakura faziam sentido.
– As mulheres são deixadas de lado nesse mundo, Karin. — Olhou penalizada para a filha, nascida num mundo tão cruel e injusto — Por que o Rei se importaria com meus sentimentos? Ele está mais preocupado com o filho dele... — Acariciou a barriga.
Sasuke a tratava bem na maioria das vezes, embora o casal discutisse bastante. Era carinhoso do jeito dele, dava atenção para a esposa — principalmente quando ela se encontrava em estado de gravidez -, e uma amante titular na Corte era inexistente. Mas Sakura começava a pensar que aquilo tudo pudesse ser apenas para manter as aparências enquanto ele se divertia com outras mulheres por suas costas.
– Majestade, não diga isso...
– Sente-se, Karin. — Sakura ordenou, então Karin se sentou na poltrona ao lado de sua soberana — Ultimamente penso que não sou amada como um dia fui. O Rei me via como um desafio a ser conquistado, e agora ele já me possui... Temo que ele vá atrás de outro desafio, compreende?
– O Rei jamais a substituiria, Majestade. Ele a ama, ele a mima, ele aparece com a senhora em púbico.
– Eu sou a Rainha, minha função é dar para o trono um futuro Rei. — Disse angustiada — Sasuke certamente me vê como uma égua reprodutora, e deve procurar prostitutas para se divertir.
Sakura suspirou pesadamente. Não podia deixar aquilo lhe abalar.
– Se o Rei está atrás de amantes, Majestade, é só pela aventura. — Karin disse francamente, e Sakura estava ciente de que aquilo era verdade — Veja bem, a senhora está grávida.
Imaginar quantas mulheres dividiam a cama com seu marido era uma preocupação frequente para Sakura sempre que ela estava grávida.
– Claro... — Disse friamente — Homens têm suas necessidades, não é mesmo? Enquanto nós, mulheres, devemos apenas obedecer e servir.
– A senhora acha mesmo que o Rei dormiu com outras mulheres? — Karin indagou.
Sakura tinha a ruiva como uma amiga, portanto ela podia ter a liberdade de fazer tal pergunta tão pessoal para sua soberana.
Karin estava impressionada com a frieza de Sakura diante daquilo. Imaginou que a rosada fosse surtar, gritar, ofender o Rei e quebrar objetos do quarto. Mas não. Ela manteve-se bastante indiferente diante da hipótese de que Sasuke estava dormindo com outras mulheres.
– É quase certo que sim. — Suspirou — Quando eu contei que estava grávida, perguntei se ele me substituiria em sua cama durante esse período. — Riu sem humor — Mas ele não respondeu. Não afirmou, mas também não negou. O silêncio dele soou claramente como uma resposta fria de que ele é o Rei e não me deve explicações de nada.
– A senhora precisa se manter calma, Majestade. — Aconselhou a ruiva — Pelo bem do bebê.
– Depois que meu filho nascer, serei intocável nessa Corte. Quando eu der ao Rei seu herdeiro, meus inimigos não poderão fazer mais nada contra mim, e a situação ficará deveras mais difícil para quem quer me derrubar. — Disse esperançosa — Terei cumprido com louvor meu papel de Consorte, e não precisarei mais me deitar com o Rei.
– Como? — Karin uniu as sobrancelhas, incrédula diante da declaração de Sakura.
– Desconfio de Sasuke, e me enoja saber que ele pode ter amantes... deitar-se com elas, e depois comigo... tocá-las, beijá-las. É repugnante. — A expressão no rosto de Sakura era de nojo — Quando eu der para Sasuke seu futuro Rei, então já não mais haverá motivos para eu me deitar com ele. Poderá ter suas amantes, poderá levar para seu quarto quantas prostitutas nojentas couberem em sua cama, pois eu não me importarei. — Disse pausadamente — O fogo cessou, Karin. Aquela paixão ardente apagou mais rápido do que eu imaginava. Eu nunca o amei de fato.
– Majestade, não diga isso! — Karin disse em tom baixo, temendo que algum guarda escutasse.
– Eu estava deslumbrada. — Sorriu — Eu queria essa vida... Eu queria ser Rainha. — Algumas lágrimas discretas brotaram nos olhos de Sakura — Eu ficava encantada com o que Sasuke fazia por mim... com os presentes que ele me dava... mas eu queria mais. Eu queria estar no topo. — Confessou — Eu estava cega, Karin. A ambição da minha família, a paixão insana de Sasuke, as promessas de uma vida perfeita; Era o que eu queria, consegui, e não abro mão. — Afirmou com convicção — Quando meu filho nascer, deixarei que Sasuke tenha suas amantes, que tenha quantos filhos bastardos conseguir fazer... nunca mais me deitarei com ele, mas continuarei como Rainha, e meus filhos serão herdeiros de Konoha.
[...]
Sarada fechou o diário, estava abismada. Karin já havia comentado sobre isso com Sarada, sobre Sakura acreditar cegamente que Sasuke mantinha casos fora do casamento.
Mandou que Himawari chamasse Karin, e não demorou muito até que a ruiva estivesse em seu quarto.
– Karin. — A morena se levantou da cama, com o diário nas mãos, e caminhou até a antiga aia de sua mãe.
– Majestade. — Karin fez uma reverência, então olhou para o diário envelhecido que estava com a monarca — Creio que o assunto seja Sakura.
– Karin, eu preciso que seja sincera comigo... — Suspirou — Meu pai realmente manteve casos fora do casamento?
Sarada queria muito essa resposta, mas nesse quesito não podia confiar totalmente nas palavras de sua mãe. Sakura escrevia que estava certa de que Sasuke mantinha casos com prostitutas e também com damas da Corte, mas ela não tinha provas, tudo não passava de desconfiança e paranóias da antiga consorte.
– O único caso confirmado foi quando sua mãe esteve grávida pela primeira vez. — Disse Karin — Sakura discutiu com Sasuke quando descobriu que uma de suas damas era amante dele.
– Eu li isso. — Sarada respondeu — Ela humilhou a dama de companhia, e a expulsou da Corte.
– Sim.
– E depois disso, ele teve outros casos?
– Não há como dizer. — Respondeu — Se tinha, o que eu acho bem provável, ele era discreto. Mas sua mãe era bastante desconfiada, inclusive já agrediu algumas supostas amantes dele.
– Eu não compreendo o porquê desse ciúme todo. — Sarada disse confusa — Ela escreveu no diário que já não o amava mais... Escreveu que desabafou com você sobre isso, disse inclusive que não se deitaria mais com meu pai. — Relatou — Então por quê?
– Porque ela não deu ao Sasuke o que ele queria. — Afirmou a ruiva — Enquanto Sakura não conseguia dar um herdeiro para o Rei, ela temia que alguma amante virasse a cabeça dele. Tinha medo de que ele passasse a crer que ela não era capaz de um filho, e que, por isso, a substituísse por outra.
– Faz sentido. — Sarada soltou um longo suspiro, então sentou sobre sua cama e fitou o diário que segurava — Karin, você acha que há possibilidade de meu pai ter tido algum filho fora do casamento? — Indagou apreensiva.
– Se ele mantinha amantes, então é provável que sim. — Assentiu — Mas por que isso lhe aflige, Majestade?
– Se houver provas e testemunhas de que meu pai tem um filho homem, mesmo que bastardo, podem querer colocá-lo no trono.
Sarada sentiu seu coração apertar. Não sabia se de fato seu pai mantinha casos com diferentes mulheres, tanto antes quanto após a morte de Sakura, mas se fosse verdade, então havia uma grande possibilidade de haver algum filho bastardo de Sasuke, inclusive dentro da Corte.
– Mesmo que haja algum filho de Sasuke, não representa ameaça alguma para a Rainha. — Karin afirmou — Ele seria ilegítimo... Nada mais que um bastardo. Então, mesmo possuindo o sangue de Sasuke, ninguém jamais o reconheceria como seu filho.
– Quem você acha que iriam preferir no trono, um homem que é um filho bastardo ou uma mulher que é filha de uma traidora?
– Não há como outra pessoa assumir seu lugar no trono porque o casamento de Sasuke e Sakura nunca foi anulado.
Sarada arregalou os olhos, encarando espantada a ruiva.
– Como?
– Quando Sakura estava presa, esperando sua execução, Naruto foi visitá-la. — Relatou — Ele tentou persuadir sua mãe a assinar o documento que tornaria inválido o casamento, mas ela, inteligente como era, encontrou uma forma de inocentar-se diante daquela proposta e usá-la a seu favor... Naruto disse que o Rei estava enfurecido, que de qualquer forma a queria morta, e exigia que Sakura assinasse a anulação.
– Então ela não assinou o documento?
– A resposta dela foi: "Ele quer a anulação do nosso casamento? Pois que arranque de mim de forma que puder". — Contou, mesmo sem tentar imitar o tom arrogante com que Sakura proferiu tais palavras naquele dia — Então Naruto foi embora, levando consigo o documento que tornaria nulo o casamento de Sakura com o Rei.
– Ela morreu como Rainha... — Sarada suspirou.
– Sim. — Assentiu — Ela realmente não perdeu o posto, foi Rainha até seu último suspiro de vida.
[...]
"Céus, não posso crer no que está acontecendo. O Rei, meu marido, contraiu uma febre e está piorando. Este fato foi abafado pelos médicos, mas acreditaram que ele fosse melhorar logo, o que não aconteceu; A ausência do Rei na Corte foi notada, isso somado ao fato de que seu estado de saúde está piorando fez com que a notícia viesse a tona pelos membros do Conselho.
Não sou uma pessoa ruim, diário. Mesmo que meu amor pelo Rei tenha sido uma ilusão, não quero que ele morra. Rezo todos os dias por sua melhora, mas sequer posso vê-lo, uma vez que os médicos o afastaram da Corte para que a febre não se espalhasse.
Ninguém sabe a causa, mas os médicos estão fazendo o possível para tratá-lo. Já faz uma semana desde que o levaram para um de seus castelos, na companhia apenas dos médicos e alguns empregados. Espero que cuidem bem do Rei, e que ele recupere sua saúde.
Não sabem dizer se essa maldita febre ainda está rondando a Corte, e por causa disso estou reclusa em meus aposentos. Sarada não pode vir aqui, tampouco posso visitá-la, e isso durará pelo menos durante a quarentena (...)."
Sakura bordava um pano de linho branco enquanto suas damas de companhia estavam ocupadas com seus afazeres.
Sasuke estava doente, poderia ser algo contagioso, e os médicos recomendaram que a Rainha não saísse de seus aposentos, tal como a Princesa deveria permanecer em sua casa até o Rei estar curado.
Kizashi fora anunciado, logo estava na presença da Rainha, mas não fez nenhum tipo de reverência ou demonstração de respeito para com sua soberana.
– Saiam. — Sakura ordenou para suas damas assim que viu seu pai presente ali — O que quer, papai? — Voltou novamente seu olhar para o pano que bordava, indiferente com relação a presença daquele homem ali.
– Gaara me passou algumas informações confiáveis de dentro do Conselho. — Disse ele.
– Não cabe a mim interferir em assuntos de Estado. — Disse arrogantemente, recordando-se dos conflitos que aconteceram quando Sasuke a nomeou regente numa de suas viagens para o exterior — Se me der licença, tenho um bordado para terminar.
– É sobre o Rei.
Sakura levantou o olhar, claramente interessada no assunto.
– O que aconteceu com o Rei? — Seu tom de voz deixava nítida sua preocupação — Ele estava bem, não é? Me disseram ontem que ele estava suando bastante, e que junto com o suor a febre também saía de seu corpo, expulsando o que quer que esteja fazendo mal a ele.
– Sim, de fato. — Suspirou — Contudo, a febre voltou a assolar o corpo do Rei hoje pela manhã.
– Os médicos disseram que fariam o possível e o impossível para salvá-lo, papai, eu estou confiante. O Rei vai viver.
– Não há garantia.
A resposta de Kizashi fez o sangue de Sakura gelar em suas veias.
– Ele... Sasuke é um homem forte.
– Até o homem mais forte pode padecer diante de uma doença grave.
– Alguém deve tê-lo envenenado. — Disse com lágrimas nos olhos.
– Sakura... — Kizashi revirou os olhos, uma vez que tal hipótese era completamente ridícula — Por favor, não seja tola.
– Papai, não há uma epidemia. — Afirmou com a voz embargada — Como o Rei pode aparecer tão doente assim, de repente? Só há ele com essa febre, mais ninguém! — Bradou — Tem que haver uma explicação!
– Nem os médicos encontraram uma explicação, ele simplesmente adoeceu.
– Alguém o envenenou, essa é a única explicação que eu tenho para isso!
– Não fale tais palavras, Sakura, pois se uma pessoa precisasse ser acusada de envenenar o Rei, essa pessoa certamente seria você! — Falou em tom baixo, para o espanto da Rainha.
– Eu jamais faria algo assim. — Respondeu entre dentes.
– Escute-me com atenção, Sakura... — Disse calmamente — Gaara disse que o Rei passa grande parte do tempo inconsciente, tem febre alta, fortes vômitos e dores de cabeça... ele mal consegue ficar de pé.
– Pare, papai, pare. — Pediu em prantos — Não quero ouvir.
Lhe doía imaginar que tamanho sofrimento assolava o Rei.
– Escute-me com atenção. — Disse firmemente — Sakura, se o Rei morrer, Sarada será Rainha. E caso o filho que você espera seja um menino, e nasça saudável, ele será Rei.
– Mas, eles... — Sakura disse num fio de voz, então o sorriso no rosto de seu pai começou a fazer sentido — eles ficariam sob a minha tutela.
– Se o Rei morrer, você será a regente desse país até um de seus filhos atingir a maioridade. — Afirmou — Segundo os relatos de Gaara, não há muitas esperanças para o Rei.
Por um segundo, Sakura realmente desejou que Sasuke morresse, mas logo sentiu-se culpada por isso.
– Não diga absurdos! — Retrucou — O Rei vai viver.
– É bom que você se prepare para o pior. — Kizashi disse friamente — E para não causar ainda mais antipatia, sugiro que não use amarelo no funeral de seu marido.
Dito isso, Kizashi virou as costas e saiu, deixando sua filha aos prantos.
De fato, o Conselho se preparava para o pior, uma vez que não havia muita esperança para o Rei. Ele ainda não tinha um sucessor pronto para governar, Sarada estava com pouco mais de um ano de idade, e não poderia reger o país.
O que mais assombrava o Conselho era saber que, como Sarada ficaria sob a tutela da mãe caso seu pai viesse a falecer, então Sakura seria regente do país até a filha atingir a maioridade.
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