Do trono ao cadafalso
23 Capítulo XXIII
Os navios de Konoha retornaram, Sarada trazia consigo o gosto da vitória para compartilhar com seus súditos, que agora a amavam como nunca antes.
Ela, de fato, provou que tinha tanta capacidade quanto um Rei, e protegeu seu reino com bravura.
Ter derrotado a frota de Utakata foi certamente um grande feito, minuciosamente registrado com a finalidade de que jamais fosse esquecido pelas gerações futuras; Seria um dos maiores feitos da história de Konoha.
O reinado de Sarada seria com certeza marcado fortemente por tal vitória. A Rainha tomaria ainda mais força e reconhecimento. Naquele momento, derrotando uma das maiores potências mundiais, Konoha se tornou intocável; Sarada se tornou a deusa da guerra, uma mulher que levou seu povo ao triunfo e a glória.
Sarada Uchiha, a primeira Rainha Regente de seu país, havia sido imortalizada.
A frota de Utakata, antes conhecida como invencível, provou ser uma carta falha no jogo do poder.
Até então Suna controlava alguns países menores, dentre eles estava Kumogakure que queria sua independência. Por questões religiosas, estes países tinham maior afinidade com Konoha do que com Suna, mas se afirmassem suas crenças poderiam se colocar em perigo, portanto havia a ajuda por parte de Konoha, o que certamente irritava Utakata.
Se Utakata tivesse se casado com Sarada, o que deveria ter acontecido de acordo com os planos dos pais do casal, Utakata também teria Konoha sob controle. Certamente Utakata já estava ciente de que Sarada tinha outro pretendente, mas estava ainda mais ciente dos seus laços sanguíneos com os Uchiha, então também se julgava no direito de ter a coroa.
Além disso, os piratas de Konoha vinham trazendo diversos prejuízos para Suna no comércio de minérios. Alguns homens atacavam os navios de Suna, fazendo com que o país perdesse grandes quantidades de dinheiro. Claro que Utakata compreendia que tais saques eram feitos com autorização da Rainha de Konoha, o que era claramente inaceitável.
Utakata tinha motivos de sobra para atacar Konoha, mas o principal era conseguir a coroa de Sarada.
A viagem da frota de Utakata foi longa, alguns problemas aconteceram no trajeto. Algumas peças de madeira à bordo apodreceram, assim como os barris que continham comida e água, fora outros incidentes.
Com problemas ocorrendo, tornou complicado para os navios de Suna manterem em segredo sua viagem até Konoha. Mas, na realidade, eles estavam dispostos a fazer com que Konoha soubesse da frota que navegava até suas terras, pois acreditavam que eles estariam extremamente apavorados com a idéia de um ataque.
A organização foi enorme. Canhões, armas, pólvora, espadas e outras incontáveis armas de guerra. Até mesmo navios mercantes foram convertidos para navios de guerra, que simplesmente carregavam suprimentos ao invés de travarem batalhas no mar.
Era como uma verdadeira cidade flutuante. Contendo quase 200 navios e 30 galeões de batalha, os navios avançaram em formação de lua crescente. Tal formação garantia a proteção dos navios, portanto não era algo incomum e difícil de prever. Os galeões ficavam no meio da crescente, cercados por barcos menores que os abasteciam.
Quando os navios se aproximaram da costa de Iwagakure, foi o que possibilitou que Konoha fosse avisada. Já sabendo das intenções de Utakata, e conhecendo os pobres meios de comunicação de sua época, Sarada havia desenvolvido uma maneira de informar a Konoha quando os navios de Utakata fossem vistos pela primeira vez. Faróis foram acesos ao longo da costa, e quando um farol era visto o seguinte mais próximo era aceso. Isso permitiria Sarada saber quando partir para enfrentá-los.
Como os navios de Suna navegaram pelo canal de Konoha, eles foram atacados por uma força de liderança masculina de um dos homens de confiança da Rainha, uma vez que o navio onde Sarada estava era maior e mais lento. Os primeiros navios de Konoha, juntamente com os homens, causaram pouquíssimos danos a frota de Utakata. A única coisa que fizeram foi gastar muita munição ao disparar contra os navios de Suna, uma vez que os cascos dos mesmos eram extremamente sólidos.
Os primeiros ataques, não liderados por Sarada, foram realmente ineficazes. Com exceção de um galeão, o resto se manteve intacto.
De qualquer forma Utakata enfrentava seus próprios problemas, visto que já estavam com pouca munição. Por enquanto sua única vantagem era o clima. Dias depois houve um forte vento que tornou o canal mais agitado, e quem sofreu com essa adversidade foram os navios de Sarada, pois eram menores e mais leves. Enquanto isso, os navios de Suna, mais estáveis e pesados, aproveitaram e se moveram para o litoral, onde pegariam mais tropas que estavam prontas para a invasão em Konoha.
É claro que durante sua jornada de Suna até o leste do canal de Konoha, os navios de Utakata sofreram alguns problema vindos da Marinha de Sarada. Todavia, enquanto Utakata mantivesse sua formação em crescente, Sarada nada podia fazer.
Problemas reais só foram enfrentados quando Sarada, cautelosa como sempre, decidiu que era a hora de colocar seu plano em prática.
A frota de Suna parou para pegar tropas, e a partir daí era Sarada quem iria liderar o ataque.
Enquanto a formação continuasse em lua crescente, Sarada estava ciente de que nada poderia ser feito. Todavia, a partir do momento em que os navios parassem, eles perderiam sua formação. Aquela era a última parada da frota de Utakata antes de chegarem em Konoha, o que significava dizer que era a única chance da Rainha.
Se Sarada falhasse, seria o fim de Konoha.
Parados no porto, os navios estavam abertos para um ataque.
Dez navios antigos foram carregados com tudo o que pudessem suportar e que facilmente pudesse entrar em combustão. As bombas flutuantes, a mando de Sarada, foram criadas à deriva durante a noite em que os navios de Utakata estavam ancorados em Kumogakure.
Sarada sabia que os navios de Suna eram carregados com pólvora, também eram feitos de madeira e suas velas de lona. Caso pegassem fogo, nenhum dos navios teria chance, pois uma explosão aconteceria imediatamente.
Claro que os navios de Utakata tinham vigias, mas eles nada puderam fazer no momento em que avistaram as bombas flutuantes se aproximando. Cada navio tentou sair para se salvar, mas no escuro foi inútil.
Pouquíssimos navios da frota de Suna foram perdidos, menos de dez. Mesmo que o ataque de Sarada não tenha tido grande impacto, ela conseguiu o que queria: Desfazer a formação em lua crescente. A partir do momento que os navios se dissiparam, eles ficaram vulneráveis a ataques.
Konoha atacou, sendo destemidamente combatida por Suna. Quatro galeões de Utakata se mantiveram firmes, lutando contra o navio liderado por Sarada. Todavia, as tropas de Kumogakure não haviam embarcado, consequentemente Utakata tinha menos homens para lutar por si. Dos quatro galeões, três foram afundados, resultando na morte de mais de setecentos homens. Ainda assim, conseguiram impedir que Sarada atacasse o resto da frota, e o clima apenas piorava.
No entanto, seguindo as ordens da Rainha, a frota de Konoha conseguiu bloquear qualquer chance dos navios de Suna, que tiveram que recuar pelo sul do canal. Quando Utakata conseguiu reagrupar seus navios, eles conseguiram ir apenas até o leste de Konoha e depois até o norte de Ishigakure. A partir daí puderam navegar, passando pela costa ocidental de Kumogakure e por fim retornando para Suna.
Mesmo assim, os suprimentos a bordo não foram o suficiente, fazendo com que muitos soldados de Suna passassem fome. A água doce desapareceu rapidamente e a tripulação não poderia tomar água do mar.
Os problemas de Utakata apenas aumentaram. Sua frota navegou pelo norte de Ishigakure numa época do ano em que o mar ficava agitado, o que acabou lhes atingindo com uma das piores tempestades da história, o que danificou vários navios e provocou alguns naufrágios.
Os navios sobreviventes a tempestade se dirigiram para Kusagakure, convencidos de que iriam obter ajuda. Estavam enganados. Os marinheiros que desembarcaram foram atacados e mortos. Os homens de Suna foram vistos como invasores.
Aqueles que conseguiram sobreviver aos ataques de Konoha, as tempestades, o ataque em Kusagakure, e também a falta de alimento, tiveram que lidar com doenças que consequentemente se espalharam entre os homens que já estavam enfraquecidos.
Apenas trinta navios conseguiram retornar para Suna. A frota de Utakata, antes conhecida como a maior do mundo, agora havia se perdido. Mais de vinte mil marinheiros e soldados foram mortos.
Enquanto isso, Konoha não perdeu um único navio, e apenas cem homens em batalha. No entanto, o que era inevitável, mais de mil homens morreram devido a doenças durante o tempo que a frota de Suna permaneceu nas águas de Konoha.
Utakata culpava o clima pela derrota de seus homens, mas a estratégia de Sarada para acabar com sua formação em lua crescente foi essencial para fazê-los recuar, embora a maior parte dos estragos tivessem sido fruto das tempestades.
Sarada teve diversas vantagens, que foram usadas da melhor forma possível.
Os navios de Konoha estavam perto de seus portos navais, ou seja, não precisaram viajar muito para encontrar os navios de Suna. Sarada também contava com poderosos canhões, que foram o suficiente para causar danos irreversíveis aos galeões de Utakata.
As táticas de Sarada também ajudaram a garantir a vitória. Seus conselheiros achavam que seria ainda mais glorioso se os navios de Suna fossem invadidos, o que também seria uma grande vantagem, já que eram consideravelmente maiores e mais fortes. Todavia, Sarada decidiu que atacaria para afundar a frota de Suna, enquanto que Utakata queria invadir seus navios.
Os navios de Utakata precisavam ficar lado a lado com os navios de Sarada, na intenção de invadi-los e capturá-los. Como Sarada não tinha interesse em capturar os navios de Suna, os tendo lado a lado com os seus, ela podia atacá-los de perto e de forma mais precisa com sua fileira de canhões.
A população comemorava enquanto Sarada cavalgava pela cidade, rumo ao castelo.
Boruto esperava ansioso por sua noiva, foi recebê-la assim que ela passou pelos grandes portões.
Os conselheiros estavam espantados, visto que uma mulher conseguiu liderar brilhantemente um ataque em desvantagem, mas Boruto jamais duvidou do potencial de Sarada.
Era incrível como Sasuke a havia preparado. Realmente o antigo Rei estava certo, sua única filha estava mesmo apta para governar.
Ela desceu do cavalo, levantou as saias do vestido lilás até a altura dos joelhos e correu pelo grande jardim até encontrar com Boruto e pular em seus braços.
Eles estavam a salvo. Konoha estava a salvo.
– Boruto! — Falou com todo o saudosismo guardado em si, abraçando o loiro que tanto amava — Vencemos!
– Não... — Ele lhe deu um rápido selinho nos lábios — Você venceu. Você nos deu a vitória.
Ela sorriu. Estava feliz.
– Vamos entrar.
Um banquete havia sido planejado pelos conselheiros, em homenagem à Rainha que garantiu a vitória de Konoha.
Utakata não iria atacá-los novamente.
Sarada se recolheu, precisava descansar.
Passou dias longe do diário de sua mãe. Aquele objeto envelhecido era como uma lembrança de Sakura... uma lembrança que Sarada não tinha.
Trancou-se no quarto e pegou o diário que havia escondido, deitou em sua cama e abriu na página onde havia parado...
"Gaara veio me trazer mais notícias hoje. Notícias que aumentaram minha tristeza.
Oh, diário, Sasuke ainda vai conseguir me matar de desgosto! Levaram Sarada de volta para sua casa, e fui informada de que o Rei tratá novamente Shion para a Corte. Fico aliviada de saber que aquela venenosa serpente estará longe de minha inocente filha, mas com isso os rumores contra mim aumentarão.
Sasuke, mesmo um pouco desconfiado, confia em sua Rainha. Ele sabe que Shion não gosta de mim, assim como sabe que Sasori pode ter suas mágoas, portanto optou por fechar seus ouvidos e não crer nos absurdos inventados contra mim. Todavia, acho que no fundo ele está desconfiado.
Tenho que ser cuidadosa, pois o Rei pode ter mandado espiões para perto de mim, ou pode ter comprado minhas aias. Mesmo que Sasuke me jure amor, já não confio totalmente em ninguém (...)."
Gaara fazia companhia para a prima naquela tarde fria e chuvosa. As aias da Rainha estavam ocupadas com seus afazeres, enquanto isso a mulher se encontrava a sós com o primo dentro de seu quarto.
Os olhos verdes revezavam entre as cartas em suas mãos e as damas de companhia que vez ou outra passavam pela porta do quarto aberta. Sasuke havia ordenado que Sakura não ficasse sozinha, tampouco em local fechado, tanto pelo incidente com o fogo quanto pela gravidez.
– Quando o Rei vai trazê-la de volta? — Sakura questionou em tom de voz baixo.
– Hoje ainda. — Gaara respondeu, jogando uma carta na mesa após a prima — Ele chamou seu médico de confiança para tratar de Shion.
– Ela está mesmo muito mal? — Ela olhou de relance para a porta.
– Sim. — Assentiu o ruivo — Está vomitando bastante, com fortes dores e febre alta.
Sakura sorriu vitoriosa.
– Seria um grande alívio se...
– Sakura. — Gaara disse em tom de aviso.
Sakura olhou para a porta e viu Ino passar de um lado para o outro.
– Seria melhor para todos. — Sakura revirou os olhos.
– Parece que o Rei está comentando sobre o acordo de casamento entre Sarada e o Príncipe de Suna. — Comentou o rapaz — Não compreendo por que ele faz isso justo agora.
– Por quê? — Indagou confusa a rosada.
– Você está grávida, minha prima, mas uma criança segura no ventre não é como uma criança segura no berço. — Ao ver a expressão insatisfeita de Sakura, Gaara abaixou o olhar — Desculpe.
– Meu filho vai viver. — Disse seriamente a mulher — E vai ser Rei.
– E sua filha será Rainha.
– De Suna. — Completou com desgosto.
– É uma honra, Sakura.
– Não para mim. — Por um instante ela aumentou o tom de voz, mas em seguida se acalmou — Minha filha está sendo vendida como gado!
– Prima, é fato que Sarada pagará por suas escolhas. — Garra disse calmamente — Nobreza e Realeza são diferentes... São realidades diferentes das que você estava acostumada.
– Ver minha filha ser diminuída por ser mulher me dói. — Falou angustiada — Sasuke não quer uma filha, quer um peão para jogos políticos. Sarada não é boa o bastante. — Riu sem humor — Se eu trouxer outra garota ao mundo, temo por ela.
– Sasuke não faria nada de mal contra uma filha. Mesmo que o Rei prefira um menino, certamente que uma menina também seria bem vinda.
– Não igualmente bem vinda. — Respondeu em tom mais baixo ao notar a movimentação do lado de fora do quarto — Sasuke vai continuar me cobrando um sucessor, e depois um sobressalente.
– Você não imaginou que a tarefa fosse ser tão difícil, não é?
– Não. — Suspirou — O Rei não me faz cobranças diretas, mas sei que anseia por um Príncipe... contudo, meu pai. — Abaixou o olhar — Kizashi teme que o amor do Rei por mim esfrie se eu não lhe der o que ele quer, e com isso me substitua. E não estou falando de amantes!
– O Rei não pode te substituir, Sakura. — Rebateu — Não pode. A não ser que...
– A não ser que eu morra. — Completou amargamente — Acha que eu nunca pensei nisso?
– Ele te ama. Jamais faria isso.
– Não confio totalmente, Gaara.
O ruivo soltou um longo suspiro e encarou sua prima seriamente.
– Você nunca o amou. — Afirmou o ruivo — Se iludiu, encantada pelo que a realeza lhe proporcionava, mas nunca amou o Rei.
– Como pode...
– Você é ambiciosa. — Gaara a cortou — Sempre foi. Caminhou até onde seus pés não alcançavam, e agora está colhendo o que plantou. Você não ama o Sasuke, Sakura, você ama a coroa.
Ela realmente amava a coroa?
Podia ter as jóias que quisesse, as roupas que quisesse, tinha vários privilégios e era a mulher mais importante de Konoha. Era tudo que Sakura sempre quis, mas também era uma ilusão. Foi afastada de sua filha, não podia criá-la diretamente, precisava conviver com a reprovação de vários súditos e ainda por cima deveria aceitar calada qualquer caso extraconjugal que seu marido viesse a ter.
Essa era a vida que Sakura sempre sonhou? Talvez ela tivesse voado alto demais.
– Eu sou sua Rainha, com quem pensa que está falando? — Sakura se exaltou, levantou-se de uma vez e jogou as cartas no chão — Saia daqui, Gaara, agora!
As aias da Rainha logo entraram no quarto, sendo atraídas pelo escândalo que ela fez.
Sakura era orgulhosa demais para admitir que escolheu um caminho sem volta, e que Gaara tinha razão, então o expulsou do quarto.
As damas se olharam desconfiadas, com diferentes interrogações no olhar. Afinal, Sakura e Gaara eram primos queridos e se amavam muito, portanto não havia motivos para que a rosada o expulsasse daquela forma.
– Majestade, fique calma. — Karin se aproximou da furiosa Rainha e lhe levou até a cama, onde ela sentou e respirou fundo — Sei que seus humores estão exaltados pela gravidez, mas se acalme.
– Os homens... São todos traidores que não merecem nossa confiança! — Declarou a Rainha.
Por que ela chamaria o próprio primo de traidor? Suas aias não sabiam e não podiam questionar, mas, as que não simpatizavam com Sakura, só conseguiam imaginar que ambos pudessem estar envolvidos em algo maior.
– A Rainha está nervosa. — Karin disse para as aias presentes no quarto — Por favor, façam algo de útil e tragam água para ela.
Sakura sentia raiva, estava ainda mais explosiva do que o normal. Sabia que o nervosismo podia atrapalhar sua gravidez, mas simplesmente não podia se controlar.
– Karin... — Sakura olhou para a ruiva quando elas estavam a sós no quarto com uma outra aia cuja presença passou despercebida pela Rainha — Aprenda com os meus erros, minha dama. O amor de um homem não vale de nada, e nenhum deles merece nossa confiança.
A outra dama arregalou os olhos diante da declaração de Sakura, e imediatamente saiu do quarto. Ela falava de amor e confiança, isso logo após uma discussão com Gaara. Mesmo sem saber de maiores detalhes, a conversa foi suspeita demais.
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