Notas iniciais
Boa leitura.

Inojin, Mitsuki e Shikadai, os conselheiros de maior confiança da Rainha, a convocaram para uma reunião de emergência. Ela não compreendia o porquê, mas podia imaginar.

Quando adentrou a sala do Conselho Real, com toda a pompa que lhe era permitida, Sarada sentou na poltrona reservada para si e suas damas de companhia se retiraram.

Após fazerem uma reverência, os conselheiros se sentaram também ao redor da grande mesa, perto da monarca.

– Então, por que me convocaram com tanta pressa? — Indagou a mulher — Devo informar que estou deveras ocupada com os preparativos para o meu casamento.

– É justamente sobre o casamento da Rainha que queremos falar. — Shikadai falou com certo receio, então limpou a garganta antes de prosseguir — O casamento causa a insatisfação de diversos súditos, nobres e aristocratas em sua maioria.

– Eu sabia que meu casamento não agradaria a todos, de alguma forma certamente não iria agradar. — Respondeu — Se eu me casasse com um Príncipe estrangeiro a reação seria a mesma.

– Não é só isso, Majestade. — Inojin prosseguiu, compartilhando da mesma insegurança de Shikadai — Uma revolta está prestes a acontecer, fomos informados. Os boatos são fortes.

– Revolta? — A monarca uniu as sobrancelhas.

– Mesmo que o contrato de matrimônio seja favorável à Rainha e sua total autoridade, boa parte dos nobres está relutando em aceitar uma união da regente do país com um homem cujos ancestrais jamais pertenceram à Realeza. — Mitsuki explicou com calma.

Sarada respirou fundo. Sabia que havia insatisfação por uma mulher ter herdado o trono e, se não fosse o bastante, estar perto de nomear um consorte.

Boruto, além de ser nomeado um Rei apenas no nome — sem o real poder de um -, não era filho de Reis.

De fato, as decisões de Sarada não estavam sendo bem vistas, e havia quem esperasse que ela entregasse a Coroa.

– Uma revolta... — Sarada disse com surpresa e indignação — Jamais imaginei que isso fosse acontecer.

– Fomos informados que os líderes são nobres próximos à Coroa. — Inojin informou com pesar — Precisamos agir antes que o pior aconteça. Se rebeldes atacarem, Majestade, há a possibilidade de sucesso por parte deles.

Uma revolta liderada por nobres próximos à Coroa realmente foi um duro golpe a uma Rainha que recém ascendera ao trono.

– Precisamos de provas. — Disse Sarada — Não quero acusar pessoas com base em hipóteses. Encontrem provas concretas de traição! — Ordenou — E não quero que haja tumulto.

– Majestade, por favor, me ouça. — Shikadai se pronunciou — O melhor que a Rainha pode fazer é se retirar. Permita que as forças da Coroa lidem com essa revolta.

Sarada ficou em silêncio por alguns segundos, até que não conseguiu se segurar e soltou uma sonora gargalhada.

Os conselheiros ficaram perplexos, era como se a Rainha os estivesse ridicularizando.

– Perdoem-me, senhores, mas isso não irá acontecer. — Declarou, recompondo-se — Eu vou ficar e lidar de frente com os rebeldes caso eles avancem.

Os três homens presentes ali se olharam um pouco receosos. Uma mulher iria lidar com uma revolta? Aquela resposta de Sarada foi, no mínimo, cômica.

– Majestade, como fará para que o povo a apóie? — Inojin questionou — Digo, o que se espera da senhora nessa situação é que deixe os homens cuidarem da situação. Se a situação vier a público, certamente irão apoiar que a Rainha não bata de frente com os revoltosos.

Sarada soltou um riso anasalado. Aqueles homens a subestimavam mesmo sabendo que ela havia recebido a mesma educação que receberia um herdeiro masculino. No entanto, havia a crença de que mulheres eram intelectualmente inferiores aos homens, portanto, mesmo com sua educação louvável, Sarada era vista como incapaz de governar.

– Sou filha de Sasuke, neta de Fugaku. — Declarou a Uchiha — Sei que posso usar as palavras ao meu favor, como meus ancestrais também faziam.

– Funcionará? — Mitsuki questionou não muito confiante.

– Eu sou sua Rainha. — Disse com força e autoridade — Antes de desposar qualquer homem casei-me com meu Reino! O anel que possuo em meu dedo será retirado apenas no momento de minha morte, pois jurei fidelidade ao meu país! — Sarada mostrou o anel que sempre usava desde que fora coroada, e que outrora pertenceu aos seus ancestrais monarcas — Posso falar naturalmente palavras de um Príncipe, mas, como nunca gerei uma vida, sou incapaz de falar palavras de uma mãe. Todavia, estou ciente de que um Governante é capaz de amar seu povo tal como uma mãe ama seu filho, e lutarei pelo meu povo como uma amorosa mãe lutaria e até morreria por seu filho. Eu asseguro que daremos aos rebeldes uma curta e rápida derrubada.

Sarada não negava ser filha de seu pai, mas, aqueles que conheceram Sakura com vida afirmavam sem sombra de dúvidas que a Rainha herdou mais de sua mãe do que de seu pai. Ela sabia usar as palavras a seu favor, mas deveria tomar cuidado para não ser tão impetuosa quanto sua mãe foi.

Quando Sarada ascendeu, tanto os conselheiros quanto os nobres acreditavam que ela, por ser mulher, não estaria apta a governar. Havia também a questão da idade, pois Sarada sequer era vista como adulta, portanto imaginava-se que ela daria ao Conselho a responsabilidade de reger Konoha. O que foi claramente um erro! Sarada se mostrou capaz de passar um dia inteiro em reuniões caso fosse necessário. Ela não queria que outras pessoas governassem enquanto apenas preenchia seu papel social.

A reunião foi encerrada, os conselheiros estavam confiantes após as palavras de Sarada. Ela agora queria provas para poder punir os traidores.

Embora tenha encorajado seus conselheiros, Sarada estava insegura. Não imaginou que deveria lidar com uma revolta tão rápido. Por enquanto estava tudo tranquilo, mas a qualquer momento poderia haver uma rebelião.

Mas ela não podia passar insegurança. Devia mostrar-se corajosa e forte sempre. Esse era o seu papel.

...

"Na próxima semana minha filha será mandada para sua própria casa. Oh, meu Diário, não sei expressar em palavras a dor que sinto. Quero aproveitar o máximo de tempo com ela, mas tenho meus deveres de Rainha para cumprir. Viverei sabendo que as babás presenciarão os melhores momentos da vida de Sarada, enquanto que eu serei apenas comunicada por correspondência sobre seus feitos diários.

Sinto que é um preço alto a se pagar, pois fui uma mulher deveras ambiciosa, desejando mais do que aquilo que merecia. Consegui a Coroa, sinto que perdi minha filha.

Mas tento ser otimista. Minha dor valerá a pena no final, pois Sarada será Rainha. Sonhei que ela era o sol dessa Terra, e os antigos dizem que sonhos são proféticos; Portanto, tenho a aguçada intuição materna de que minha Sarada será o sol que iluminará este mundo (...)."

Naruto adentrou a sala de audiência Real, encontrando a Rainha dos cabelos rosados sentada no lugar reservado ao Rei. Sasuke estava ausente, tinha assuntos a resolver pessoalmente no exterior por poucos dias, portanto Sakura foi nomeada Regente.

Ela estava distraída, sua pequena filha estava num pequeno berço ao seu lado. Sakura olhava para sua filha sempre que podia, julgava a pequena Sarada como a maior perfeição desse mundo. Ela era seu sol.

– Majestade. — Naruto chamou, então Sakura a olhou e sorriu.

– Naruto. — Ela esboçou um largo sorriso. Tinha um carinho imenso pelo loiro.

– Mandou me chamar?

– Sim, sim. — Assentiu — A Princesa logo será mandada para a sua própria casa e eu estou selecionado os criados que a acompanharão.

Naruto havia ficado encarregado de arrumar a casa de Sarada, uma vez que Sasuke estava fora. Sakura estava cumprindo sua função, que era de escolher os empregados de sua filha. Naruto deveria organizar a casa de modo que suportasse todos os empregados que Sakura quisesse mandar para lá, e não foram poucos.

Eram amas de leite — por causa do que aconteceu com seu primogênito, Sakura selecionou várias amas para Sarada -, cozinheiras, jardineiros, governantas, camareiras... Sarada teria damas só para lavar suas roupas, outras para dar-lhe banho, para lhe fazer dormir e também para brincar com ela.

A própria Sakura tinha mais de duzentos empregados pessoais, obviamente que não pouparia na hora de formar a casa de sua filha.

– Sim, Majestade. A Corte da Princesa será no campo e acomodará todos os empregados que a Rainha escolheu.

– Obrigada por sua eficiência. — Sakura disse satisfeita — Mas há uma outra pessoa que eu faço questão de que vá, e você ficará encarregado de dar a notícia a ela. Não quero este desprazer.

– E quem seria, Majestade?

– Shion. — Informou — Ela irá acompanhar minha filha em sua casa.

Naruto se mostrou surpreso diante da declaração de Sakura. Mas imaginou que, por Shion ser prima de Sasuke, lhe seria dado um cargo de honra. Só estranhou a escolha de Sakura, já que a Rainha não se dava bem com a prima de seu marido.

– Sim, mas em qual cargo exatamente? — Questionou o Uzumaki.

Sakura se mostrou impaciente, ficou claro em seu olhar.

– De criada, claro! — Declarou num tom um pouco mais alto.

– Majestade...

– Shion é uma garota insolente, deve receber o castigo que merece. — Disse Sakura — Sasuke está de acordo.

Sakura conseguiu persuadir seu marido. Claro que ela omitiu o fato de que seu objetivo era humilhar Shion fazendo dela uma criada de Sarada, apenas disse para o soberano que a garota precisava de um castigo por causa das palavras maldosas que proferia contra o Rei, a Rainha e a Princesa. Sasuke acabou concordando que Shion mudaria seu comportamento se recebesse um castigo.

Claro que Sakura temia que Shion fizesse algo contra Sarada, por isso ela foi colocada num cargo inferior, sequer teria contato com a Princesa. A governanta da casa de Sarada estava ciente de que não deveria deixar Shion se aproximar dela, além de Sakura também ter ordenado que Mebuki, sua mãe, acompanhasse a neta. Sakura sabia que sua preciosa menina estava segura.

Sakura também não suportava o fato de que Shion, por declarar publicamente ser contra a atual Rainha, tinha seguidores fiéis que lhe davam apoio. Portanto, o melhor a fazer naquele momento era realmente afastar a garota da Corte. Sakura inclusive havia tentado convencer Sasuke a arrumar um casamento para a prima com algum nobre estrangeiro, no intuito de mandá-la para outro país, mas Sasuke alegou que enquanto Mikoto vivesse, Shion ficaria em Konoha. Por tal motivo, a única forma de afastar a loira da Corte seria convencer Sasuke a mandá-la para outro lugar, e a mudança de Sarada foi a oportunidade perfeita para Sakura se ver livre se Shion e humilhá-la ao lhe dar numa posição de criada.

– Sim, claro. — O loiro assentiu — Eu só não esperava que ela fosse ocupar uma posição tão inferior.

Sarada resmungou em seu berço, então Karin imediatamente se mobilizou e pegou a pequenina.

– Ela deve estar com fome. — Disse Sakura — Leve-a para sua ama.

Karin assentiu e logo se retirou com Sarada nos braços.

– A Princesa cresce rápido. — Naruto comentou com um sorriso. Após ver a tristeza do casal Real com a morte do primogênito, era lindo ver um segundo bebê crescer saudável.

– Mais rápido do que eu gostaria. — Pensou alto, cabisbaixa, mas logo tratou de se recompor — Bem... Shion ficará no aposento das criadas, longe do quarto de minha filha. Ela não deve ser tratada com regalias, isso precisa ser deixado claro sempre. Vai para lá como forma de castigo.

– Majestade, isso pode matar a Rainha mãe de desgosto. — Naruto alertou — Ela é muito apegada a sobrinha. Sentirá sua falta certamente.

– Mikoto deverá se conformar. — Respondeu com indiferença e frieza — Deveria ter aconselhado sua sobrinha, não acha? Espero que Shion aprenda a temer seus Reis.

Naruto se espantou com a frieza de Sakura. A atual Rainha foi aia de Mikoto, certamente tinha alguma afeição por ela, mas agora parecia não se importar. Mas Sakura, mesmo sentindo pena de Mikoto por afastá-la de Shion, não podia perdoar a insolência da menina. Também não podia negar que, mesmo indiretamente, a presença de Shion na Corte era uma ameaça.

Naruto fez uma reverência e se retirou, deixando novamente a Rainha a sós com suas damas de companhia.

(...)

Sarada estava um pouco atordoada, guardou o diário de sua mãe logo ouviu batidas na porta do quarto. Himawari, irmã de Boruto e uma das aias de Sarada, informou que Shikadai estava convocando a Rainha.

O coração da monarca se apertou. Há três dias não dormia direito, desde que recebera a desagradável notícia. Temia que a revolta realmente estivesse acontecendo. Não tinha medo de bater de frente com os revoltosos, mas tinha medo de perder seu lugar de direito.

Ela adentrou a sala do conselho, então seus três conselheiros mais próximos se levantaram.

– Espero que tenham boas notícias. — Ela disse enquanto caminhava para a poltrona reservada para si, sentando em seguida — Como anda a movimentação?

– Majestade... — Shikadai se manifestou assim que os conselheiros se sentaram — Conseguimos conter a revolta, portanto não há necessidade de uma mobilização ou intervenção militar.

– Isso me deixa feliz. — Disse aliviada.

Desde que ficou sabendo que pessoas próximas à Coroa queriam se rebelar, Sarada passava a noite com uma espada próxima a sua cama. Não confiava em ninguém, temia que alguém a atacasse durante o sono.

– Temos provas concretas para mostrar-lhe. — Inojin colocou alguns papéis sobre a mesa — Interceptamos algumas cartas trocadas entre os líderes da revolta. Eles estavam realmente dispostos a tirá-la do poder usando a força.

– São provas mais do que suficiente para condenar os acusados. — Disse Mitsuki.

– Condenar? — Sarada estremeceu na hora. Aquela palavra lhe causava arrepios, angústia.

Os três homens se olharam meio desconfiados, um tanto quanto receosos.

– Majestade, são nobres, mas são traidores. — Observou Inojin — Pretende perdoá-los?

A garota cruzou as mãos sobre a mesa, respirou fundo e não conseguiu camuflar sua insegurança. Quem outrora proferiu em frente aos seus conselheiros um discurso encorajador estava agora fraquejando vergonhosamente.

– A Corte em peso já está ciente da traição e da revolta que por pouco não aconteceu. — Disse Mitsuki — Agora é necessário mostrar que a Rainha, igualmente investida na autoridade de um Rei, possui coragem e não tolera qualquer tipo de insurreição contra sua figura política.

Então, isso era ser uma Regente. Ter que colocar sua obrigação antes do sentimento. Executar pessoas a sangue frio. Traidores, mas pessoas... seres humanos.

– Então eu preciso executá-los... — Deduziu, com os olhos fixos nas cartas sobre a mesa.

As correspondências haviam sido trocadas entre pessoas próximas de Sarada... Pessoas que, para ela, até então eram amigas e lhe davam apoio.

– É seu dever, Majestade. — Shikadai assentiu.

Sarada se irritou com a frase dita por seu conselheiro, então vociferou:

– A palavra "dever" não deve ser usada para Príncipes!

Os homens estremeceram. Sabiam que desde a infância Sarada possuía a personalidade explosiva, claramente herdada de sua mãe, o que poderia significar certo perigo, uma vez que isso levou Sakura para a execução.

– Majestade... — Inojin ponderou por uns segundos, então logo prosseguiu — Que tipo de governante seria se perdoasse traidores? É seu dever fazer justiça.

– Dever... Dever... — Balbuciou atordoada — Era dever de meu pai matar minha mãe. Ela foi Rainha... por um tempo. Eu jamais pensei em permitir uma morte tão sanguinária.

Suas mãos tremiam, mas precisava fazer o seu dever. Ela tinha o poder absoluto, ainda assim precisava seguir as leis de seus ancestrais. Traição é punida com a morte, não havia outra saída.

Como Rainha recém ascendida, Sarada devia mostrar sua força. Devia se impor perante os súditos, inspirar tanto respeito quanto temor.

Enquanto assinava a sentença de morte dos acusados após analisar as provas contra eles, Sarada pensou em como Sasuke se sentiu no momento em que assinou a sentença de Sakura.

Ele sentiu remorso, tristeza, ou simplesmente alívio por se livrar de uma traidora?

Infelizmente, Sarada jamais teria essa resposta.

Matar alguém para cumprir o seu dever, isso parecia um fardo a se carregar. Mas Sarada precisava ser justa, não poderia perdoar traições contra sua pessoa.

Claro que para uma Rainha, assinar uma sentença de morte seria algo perfeitamente natural se sua mãe não tivesse tido o fim sangrento e cruel de um traidor.

Era como se suas mãos estivessem manchadas de sangue.

...

"A raiva corrói-me as entranhas como uma ratazana negra. Levaram Sarada para sua casa, e nada do que eu disse fez Sasuke mudar de idéia. Viverá lá, com pessoas que lhe são estranhas, e que logo se tornarão sua família.

Sou Rainha e nada posso fazer para impedir esta aberração tão contrária à natureza. Fui separada de minha filha, encurralada por uma insensível tradição criada por malditos homens, que não se importam com os sentimentos femininos.

Sinto também um ódio cada vez maior por Shion. Como uma fênix que se ergue das cinzas, a infeliz garota surge ameaçando-me com suas garras de fora. Teimosa e doce como também sou, desafia o Rei com sua língua ferina. Quando Naruto a informou que estava prestes a partir da Corte para servir a Princesa, Shion disse que não reconhecia nenhuma Princesa, pois o título de Rainha a mim concedido é inválido. Por causa do contrato firmado por tanto tempo do casamento com Izumi, primeiro Itachi e depois Sasuke, ela já era reconhecida como Rainha mesmo sem o matrimônio, e é filha de Reis ao contrário de mim, por isso muitos teimam em reconhecer a validade do meu casamento com Sasuke. Todavia, Shion rosna em voz alta e desafia o Rei com suas palavras.

A jovem, que sequer atingiu a maioridade, brinca com a traição, pois sabe que suas palavras e atitudes rebeldes inflam a população que continua a me detestar. Me julgam como a prostituta do Rei, e há quem chame minha filha de pequena prostituta. Eu arrancaria, sem pensar duas vezes, a língua de qualquer pessoa que falar mal de minha filha em minha presença.

Izumi é filha de Reis, não eu. Izumi nasceu destinada a ser Rainha, não eu. Sakura Haruno desafiou o destino... Não sou aceita como Rainha, pois uma mulher não pode ir contra a ordem natural das coisas. Ao invés de ser levada por alguém para o caminho que eu deveria trilhar, vendada e seguindo passos alheios; caminhei sozinha com minhas próprias pernas, guiada por meus próprios olhos, e ainda assim obtive sucesso.

Há quem diga que sou uma bruxa, e que usei de feitiçaria para encantar o Rei. E por que dizem isso? Porque eu era uma figura anônima, uma mulher comum e sem títulos, que ganhou uma coroa em sua cabeça.

Me sinto de mãos atadas. Eu orei, supliquei tanto para que meus súditos amassem a mim e a minha filha. São todos perversos, todos! Se faço donativos generosos aos pobres pelas localidades que passamos quando a Corte se translada, sou acusada de estar querendo comprar o amor dos súditos.

Mesmo que a maldita Shion tenha ido embora da Corte, sei que ainda há quem lhe dê sua lealdade. Seus seguidores certamente, se houvesse oportunidade, ergueriam seu estandarte em nome dela, para que todos a seguissem. Há sempre maledicência que faz alusão à minha queda, e sempre há o nome de Shion no meio.

Ainda me sinto insegura por deixar uma víbora junto à minha filha, mas Sasuke diz que ela é desobediente, não perigosa. Minha mãe se juntou à Corte de Sarada para supervisionar o trabalho das governantas, manterá Shion longe de minha preciosa filha, e me mandará correspondências diariamente.

Vejo inimigos a espreitar em cada canto, mas Sasuke não dá importância. Creio que ele imagine que seja exagero de minha parte, ou talvez seja uma espécie de vingança do Rei por eu lhe ter dado uma filha ao invés de um filho.

Sasuke colocou nossa filha oficialmente na linha de sucessão, e está tentando se reaproximar de mim. Eu o via frio e distante, talvez por conta de nossos desentendimentos constantes, mas o Rei quer se redimir. Talvez seja apenas para ter acesso ao meu leito e gerar seu tão esperado herdeiro, ou talvez ele realmente esteja arrependido das vezes que discutiu comigo. Não sei... O fato é que eu seria cega se não visse a forma como meu marido devora minhas aias com o olhar, mas infelizmente devo engolir isso por enquanto. Chega de confusões com o Rei, não quero novamente provocar sua ira, portanto devo controlar minha língua e fingir que não vejo o que acontece ao meu redor.

O amor por Sasuke que cultivei até crescer, definha agora. Não o amo com o mesmo fervor que amava, não o vejo da mesma forma que via. Ele me decepcionou demais quando me traiu, às vezes sinto nojo de tocá-lo sabendo que ele levou uma de minhas damas de companhia para sua cama.

E se não bastasse meu amor pelo Rei estar morrendo, arrebatam-me Sarada dos braços. Aqui me encontro, entre os ferozes leões da Corte, que me arrancariam a carne sem piedade caso oportunidade tivessem.

Me sinto obrigada a ter forças para recomeçar. Não posso demonstrar fraqueza, tampouco meu desgosto para com o Rei, pois meus inimigos não podem me derrubar. Lutei para conseguir esta posição e este nome, preciso honrar a ambos. Sou a Rainha Sakura! Eles que tentem me derrubar do trono... Eles que tentem!"

Sakura sabia que esse dia chegaria. Tentou se preparar de todas as formas, mas foi doloroso do mesmo jeito. Sua pequena filha já não estava mais consigo, e todos achavam uma coisa normal.

Sasuke explicou diversas vezes que era uma tradição de séculos, irritou-se com a esposa de todas as formas possíveis, pois ela sempre implorava para que Sarada morasse na Corte. A rosada reconhecia que o melhor para sua filha era realmente ir morar em sua casa, mas a saudade iria matá-la.

Sakura bordava distraída em seu quarto. Tentava a todo custo não pensar em sua filha, mas acabou decidindo que faria uma bela manta para ela.

O moreno adentrou o cômodo, então as aias de Sakura que estavam ali rapidamente fizeram uma reverência, mas a Rainha permaneceu do mesmo jeito, com os olhos fixos em seu bordado como se Sasuke não estivesse ali.

– Sakura. — Ele a chamou, mas a mulher não deu atenção — Sei que está chateada, mas com certeza irá se acostumar. — Disse ele — Estou me programando para visitar Sarada no final da semana, você irá comigo.

– Que ótimos pais, não? — Ironizou — Vendo sua filha somente uma vez por semana.

Sakura soltou um longo suspiro. Sasuke, por ser da realeza e por ter sido criado longe de seus pais, via esse costume como algo normal. Todavia, para Sakura, era monstruoso.

– Por favor, compreenda que a Corte não é lugar para crianças. Ela será melhor criada lá.

Ela finalmente olhou para o marido, seus olhos estavam tristes. O preço a pagar estava sendo alto demais.

– Quando ela nasceu, meu leite escorria dos seios e eu não podia alimentá-la. Agora, simplesmente a levam de mim. — Disse com melancolia — O Rei quer que eu lhe dê filhos, mas eu não quero que meus filhos sejam criados longe de mim e por outras pessoas.

– Você estava ciente de que isso aconteceria quando aceitou se casar comigo. — Sasuke disse seriamente — Suas palavras não serão o suficiente para mudar uma tradição de Reis!

– Desculpa. — Sakura disse de cabeça baixa.

Embora lhe doesse tal humilhação, não queria perder o amor do Rei. Sabia que sua posição ainda era delicada, pois a principal função de uma consorte é dar para a Coroa um Príncipe, coisa que Sakura ainda não havia sido capaz de fazer.

– Compreendo que esteja triste. — O Rei se aproximou da esposa e tocou-lhe levemente o rosto — Trouxe algo para animá-la.

Sakura o encarou com uma interrogação no olhar, então Sasuke se virou para a porta e ordenou que um criado entrasse. O homem carregava nos braços um pequeno cachorro que foi imediatamente colocado no colo da Rainha.

O monarca sabia como sua consorte gostava de animais, ela tinha vários cachorros, mas todos de raças grandes — muito comuns em Konoha -, então Sasuke mandou que trouxessem do país vizinho um formoso cachorro pequeno para fazer companhia para Sakura.

– Ele é lindo! — Sakura disse encantada.

– Mandei que trouxessem só para você. — Sasuke respondeu — Não há outro dessa raça aqui em Konoha. Ele se chama Pakkun.

Sakura sorriu. Embora não amasse o Rei como outrora, reconhecia seus esforços para agradá-la.

É claro que um cachorrinho não iria substituir sua filha, mas Sakura ficou feliz. Ele certamente iria diverti-la e distraí-la.

– Obrigada, Sasuke. — Ela agradeceu.

– Até amanhã alguns tecidos importados chegarão para você. — Informou o moreno — Certamente os seus vestidos estão um pouco apertados depois dessa gravidez. Encomendei vários tecidos, dará para fazer pelo menos vinte vestidos novos, e os antigos poderão ser remodelados. Se achar necessário, encomende quantos quiser.

– Obrigada, Majestade.

Sasuke lhe deu um beijo na testa, então saiu do quarto, deixando sua Rainha feliz com os presentes.

Sakura começava a pensar que confundiu o que sentia por Sasuke. Talvez fosse somente gratidão. Ou talvez ela gostasse de ser mimada por ele. Mas, seja lá o que fosse, já não era mais a mesma coisa. Ainda assim, a Rainha não iria aceitar perder seu Rei e seu título.

Notas finais
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