Do trono ao cadafalso
14 Capítulo XIV
Notas iniciais
Sarada ordenou que fossem levados a ela todos os documentos Reais que estavam nos arquivos do antigo secretário, ou seja, secretário de Sasuke.
A monarca se encontrava sozinha em seu escritório e, assim que começou a olhar os documentos, notou que pertenciam a Orochimaru. Não se lembrava de ler que Orochimaru se tornou secretário de Sasuke, mas notou que o Rei realmente confiava muito nele.
O secretário toma conta de documentos importantes e passa informações para o Rei. Em outras palavras, é o cargo de maior poder depois do monarca. Certamente, Orochimaru tinha muito poder em suas mãos e poderia manipular Sasuke caso quisesse.
Eram muitos papéis, alguns irrelevantes para Sarada. Procurou registros sobre Sasuke Uchiha, mas só encontrou sobre seu próprio pai.
A Rainha ordenou que lhe fossem fornecidos documentos de outros membros da realeza, o que lhe foi imediatamente cedido. Pela poeira, até mesmo pelo estado de alguns papéis, notou que alguns documentos não eram mexidos há anos.
Encontrou muitos registros sobre a infância de seu tio, Itachi, mas quase nada sobre Sasuke, seu pai. Claro, Itachi era o filho mais velho, futuro Rei, portanto sua vinda ao mundo deve ter sido mais comemorada.
Nas contas do Rei Fugaku, era claro o quanto gastou com cerimônias para comemorar o nascimento de seu primogênito, mas quase nada para seu caçula. A data, local e horário exatos do nascimento de Itachi eram registrados, mas para Sasuke houve registro apenas da data.
Uma vez que Fugaku e Mikoto já contavam com um herdeiro varão cinco anos mais velho, a princípio não caberia a Sasuke o posto de Rei de Konoha. Deste modo, ao contrário de seu irmão, Sasuke nasceu sem título e demorou cerca de dois anos para que recebesse a significativa designação de Duque.
Obviamente que a vinda de Sasuke foi motivo de alegria, afinal, o Rei e a Rainha tinham não somente um herdeiro, como um sobressalente. Mas, claro, a vida de Sasuke foi claramente ofuscada pelo irmão.
Com cerca de três anos de idade, Sasuke foi agraciado com outros títulos. Ele era descrito somente como "o segundo filho nascido do Rei", e ganhou títulos como artimanha para manter cargos importantes nas mãos da Coroa, no lugar dos antigos oficiais.
Sobre Sasuke Uchiha, encontrou somente registros escassos sobre a infância de seu pai, mas nada sobre seu irmão. Resolveu então procurar nas contas de Sasuke, talvez assim encontrasse algo sobre o primogênito do Rei.
Não havia dúvidas de que Sasuke gastava muito! Pelas datas, ele não poupava na hora de agradar sua esposa... Tecidos, peles, jóias, pedras preciosas, gastos com costureiras e ourives, encomendas de retratos... Sarada ficou de queixo caído!
Sasuke esbanjou para Sakura. Ele não estava apenas preparando sua amada para o palco de Konoha, ele a preparava para o posto de Rainha!
Desde o início do relacionamento, Sasuke deu à Sakura inúmeros presentes. Muitos deles tratavam-se de de simbólicas peças de joalheria, que formaram uma importante parte dos rituais que compreendiam o amor cortês.
Suas contas do primeiro ano de Sakura como Rainha incluíam três dezenas de artigos de joalheria "para a Rainha Sakura". O maior item foi um cinto de jóias da Coroa, porém, o mais intrigante foi uma gargantilha de ouro cravada com diamantes que pertenciam a Mikoto... pelo visto, a Rainha mãe precisou se desfazer de muitas jóias quando Sakura casou com Sasuke, mas não era de se admirar; Quando uma nova Rainha ascendia, ela tinha direito às jóias que pertenceram às antigas Rainhas, podendo remodelar como quisesse.
Embora não houvesse nenhum retrato ou esboço sobrevivente alegadamente de Sakura, havia despesas com retratos dela nas contas de Sasuke. Também havia uma conta de um pingente de ouro projetado com a letra S central e a letra H entrelaçada. Também foi projetado um broche com a mesma cifra. Sasuke também havia encomendado um anel de diamantes com a cifra "SH" e um outro anel com o texto "Humilde e Leal", e também um terceiro anel de prata com o lema pessoal da Rainha "Assim será, doa a quem doer".
Sarada adotou o lema "Sempre a mesma", o que indicava inconstância, uma característica apreciada tanto nas mulheres quanto nos monarcas. Sabia sobre o lema pessoal de sua mãe, que fora interpretado em seu tempo como uma provocação, o que não ajudou em nada a melhorar a imagem da Haruno.
Olhando mais a fundo alguns documentos, Sarada encontrou algo que fez um pequeno sorriso brotar em seus lábios. Claramente eram documentos que tinham registros sobre o nascimento do filho do Rei, e, pela data, se tratava de um filho do Rei nascido antes dela.
O Rei havia realmente planejado tudo! Torneio de justas, ricos banquetes, bailes de máscaras... Sasuke pelo visto não poupava esforços para ostentar seu poder. Para o nascimento do futuro Rei, foi retirado da sala do tesouro Real uma das mais belas camas já vistas, móvel encomendado por Fugaku para Mikoto na ocasião do nascimento de Itachi. A cama seria colocada nos aposentos Reais da Rainha, junto ao berço com dossel em carmesim. Para a Corte felicitar a Rainha pelo nascimento do Príncipe, foi providenciada também uma cama na sala de audiência Real.
Encontrou felizmente um registro contendo o local, data e horário do nascimento de Sasuke Uchiha, pela data, obviamente que se tratava de seu irmão... A seguir, vinha outro documento, contendo o local, data e horário do falecimento do pequeno Príncipe descrito como raquítico, usando "A criança não estava pronta quando veio ao mundo; A barriga da Rainha era deveras pequena para o tempo de gestação" para justificar o motivo da morte do garoto que partiu desse mundo com cerca de uma semana de nascido.
Sentiu uma tristeza imensa, imaginando o sofrimento de sua mãe ao perder a criança tão desejada. O Príncipe tão aguardado não somente pelo Rei e a Rainha, mas pelo Reino.
Olhou os documentos seguintes, encontrando algo interessante... Sasuke havia encomendado, quase dois anos após a morte de seu primogênito, um berço de prata com um falcão — brasão pessoal do Rei — cravado em diamantes. Festas também haviam sido planejadas em todo o Reino, também o pedido de cartas para anunciar ao resto do mundo o nascimento do "pequeno Príncipe" de Konoha. Novamente o Rei havia planejado torneio de justas, mais banquetes, bailes, e encomendou incontáveis fogos de artifício. Todavia, apenas os fogos parecem ter sido usados e somente um banquete fora dado, uma vez que por algum motivo as justas e os bailes haviam sido cancelados pelo Rei... mas por quê?
Pela data dos registros, não havia dúvidas para Sarada de que aqueles preparativos, tal como o berço de prata, eram para o seu nascimento. Teve a clara impressão de que sua vinda ao mundo, uma menina, não foi um motivo de alegria. Pelo menos não foi comemorado como seria caso se tratasse do nascimento de um menino.
Muitos procedimentos protocolares eram elaborados para o nascimento de um bebê da Realeza, ainda mais quando o bebê em questão era um menino e herdeiro de uma Dinastia. O nascimento de uma menina não causava tanto alvoroço, sendo sempre comemorado de maneira mais discreta.
Pelo visto, Sasuke havia feito documentos com antecedência, pois Sarada via a palavra "Príncipe" um pouco rasurada para dar lugar a palavra "Princesa".
Já sabia o que havia acontecido com seu irmão, também estava mais do que ciente de que seu nascimento não havia sido um motivo de felicidade. Deixando isso de lado, Sarada, desconfiada como sempre, resolveu vasculhar os documentos que ficavam sob os cuidados de Orochimaru, alguns eram pessoais do secretário.
– Talvez eu encontre algo comprometedor... — Pensou alto, visto que não descartava a hipótese de que sua mãe era inocente e sua execução foi um grande golpe.
Encontrou algumas cartas enviadas para Orochimaru, e pela data eram da época que sua mãe foi Rainha.
Algumas dessas cartas falavam sobre assuntos de Estado, escritas por pessoas que Sarada desconhecia. Era algo sobre o destino das propriedades dos traidores executados, e uma dessas cartas citava a Rainha como "a diaba", dizendo que ela havia descoberto... descoberto o que? O papel envelhecido estava rasurado, mas Sakura claramente criticava a política de Orochimaru, era sobre o que se falava na carta.
" (...) o Rei está no exterior e a diaba ficou em Konoha como regente (...) Não cabe a uma mulher questionar a política de Estado (...) Se ela o julga um tirano, senhor Orochimaru, significa que poderá envenenar o Rei (...) Se a prostituta do Rei pretende fazê-lo perder sua cabeça, faça com que perca a dela primeiro (...)"
– Eu sabia! — Exclamou a monarca.
Não sabia por que Orochimaru não havia queimado tais correspondências, talvez ele fosse tão confiante quanto imprudente, mas aquelas correspondências provavam que Orochimaru, juntamente com um outro homem chamado Kabuto, planejou a queda de Sakura.
Havia diversas correspondências de Kabuto para Orochimaru, com trechos realmente interessantes.
"Uma mulher sem títulos que conseguiu virar a cabeça do Rei como a diaba fez, pode facilmente ser acusada de feitiçaria (...) Não há dúvidas de que a relação matrimonial do Rei está entrando em declínio terminal, talvez seja a hora de agir (...) A vida da concubina é tão luxuriante e vulgar, que as damas de sua câmara privada não poderão escondê-la (...) Falsa e traiçoeiramente, a diaba busca conversas com outros homens, certamente vários se renderam às suas vis provocações (...) O caráter orgulhoso e abrasivo de Sakura tornou-se intolerável para o Rei (...) O que outrora havia sido uma paixão devastadora, transformou-se em ódio sanguinário, por razões que nunca compreenderemos completamente."
Sarada estava realmente confusa. Não havia dúvidas de que a queda de Sakura havia sido desejada, mas parece que Orochimaru não planejou tudo desde o começo, mas se aproveitou de algo... Não foi somente armação, o Rei estava mesmo descontente com a Rainha e os inimigos de Sakura se aproveitaram de tal fragilidade.
Mas por quê? O que Sakura fez de tão grave?
Mexendo mais a fundo, encontrou uma carta selada e ficou curiosa. Pela data, foi enviada poucos dias antes da execução de sua mãe, e estava identificada com uma caligrafia desconhecia por Sarada.
"Para o Rei", era o que tinha escrito perto do selo escarlate. A carta jamais foi aberta.
O coração de Sarada bateu mais forte, sua intuição dizia que aquela carta poderia ser de Sakura.
Tirou o selo rapidamente e sorriu ao ver a mesma letra presente no diário. Sim, Sakura escreveu aquela carta enquanto estava presa e, pelo visto, a carta jamais chegou às mãos do Rei.
"Meu senhor,
O descontentamento de Sua Majestade e o meu aprisionamento são coisas que me são tão estranhas que não sei exatamente pelo que devo pedir perdão.
Jamais um Rei possuiu esposa mais fiel e devota, mais plena de afeto, do que o Rei encontrou em Sakura Haruno, cujo nome e posição eu poderia ter me contentado se o Rei não tivesse preferido ascender-me. Tampouco, em qualquer momento fui inebriada com minha posição de Rainha, pois jamais esqueci meu berço humilde. Minha satisfação sempre foi agradar a Sua Majestade, mas nunca procurei agradá-lo por temor de cair numa situação como a que me encontro agora.
O Rei ascendeu-me de uma posição inferior para sua companheira, sua Rainha consorte, o que vai muito além do meu merecimento e eu abertamente reconheço isso. Todavia, Sua Majestade considerou-me merecedora de tal honra, portanto não permita que meus inimigos lancem uma negra sombra sobre mim, nem sobre nossa pequena e indefesa filha.
Ponha-me à provação, meu caro Senhor, mas permita que eu desfrute de um julgamento justo, não tendo meus declarados inimigos como juízes. Eu suplico, Majestade, pois estes cruéis homens possuem fúteis motivos para ver-me sem vida. Por favor, permita que eu tenha um julgamento aberto, pois minha verdade não teme vergonhas expostas; Então Sua Majestade verá minha inocência provada, ou minha culpa declarada abertamente. Lembro que, num julgamento justo, qualquer que seja o julgamento de meu Rei, Sua Majestade estará isenta se uma censura aberta, e está livre diante dos homens, não somente para executar punições justas contra mim, como uma esposa infiel, mas para substituir-me caso assim desejar.
Mas se o Rei já selou meu destino, decidindo que apenas minha morte e desonra serão capazes de dar-lhe a felicidade que almeja, então desejo que seja perdoado por tamanha injustiça com quem lhe amou verdadeiramente por longos anos; E da mesma forma desejo o perdão de meus inimigos, que foram apenas instrumentos usados por Sua Majestade.
Rogo que não precise pagar um preço justo pelo cruel e desumano uso de minha pessoa nesse julgamento, no qual iremos nos encontrar novamente. Não duvido que minha inocência será provada abertamente, então todos verão a injustiça feita com a Rainha, aprisionada como uma traidora pelo próprio Rei.
Meu último pedido será que eu, apenas eu, carregue o fardo do descontentamento do Rei, e que não toque nesses gentis homens, cujas almas são tão inocentes quanto a minha, e que encontram-se também confinados por minha causa.
Se algum dia o Rei, meu amado marido, já tenha me guardado em seu coração, se algum dia meu nome tiver sido agradável aos seus ouvidos, permita-me obter estes pedidos. Agraciando-me assim, não mais importunarei Sua Majestade, e partirei deste mundo de bom grado se assim for condenada, como sempre pedindo pelo bem estar e proteção do meu amado marido e minha pequena filha.
De minha lastimosa prisão na Torre, assino com a mão trêmula e ansiosa para que meu bondoso Soberano leia esta carta, e que minhas palavras toquem seu coração como era de costume.
Sua leal e sempre fiel esposa, Sakura Haruno."
As lágrimas de Sarada caíram sobre a carta nunca antes aberta. Será que Sasuke teria dado à esposa o mesmo destino caso tivesse lido suas palavras? Ele sequer foi ao julgamento de Sakura como era esperado de se acontecer, então provavelmente não viu mais sua esposa desde o momento em que ela foi aprisionada na Torre.
Orochimaru certamente sabia que as palavras de Sakura conseguiriam mexer com Sasuke, mesmo sem saber o que estava escrito, por este motivo escondeu a carta.
Sarada não tinha mais dúvidas de que seu pai não havia sido o único culpado por Sakura ter tido sua vida encerrada sobre um cadafalso, tendo dado seu último suspiro antes que a lâmina da espada do carrasco fosse de encontro ao seu pescoço.
Não sabia se podia confiar em alguém para dizer aquilo, não queria mais controvérsias sobre sua vida ou sobre a vida de sua mãe. Ela já estava morta, de nada adiantaria reabrir uma nova investigação, sem falar que sua posição no trono ainda era frágil e ela arriscava perder seu posto de Rainha se ao menos mencionasse o nome de Sakura publicamente, portanto, dizer que a mulher que foi acusada por Sasuke e condenada à morte por alta traição era inocente poderia colocar Sarada numa situação complicada.
Suas certezas deveriam ser guardadas para si, somente.
...
"Jamais pensei que tamanho sofrimento pudesse existir, tampouco caber no coração de um ser humano. Meu Sasuke, meu pequeno Príncipe, o que deveria ser o futuro Rei desse país, está morto. O médico de confiança do Rei disse que meu filho não estava pronto quando veio ao mundo, que era muito pequeno, mas eu sei que é um equívoco... Sei que meu filho nasceu quando deveria nascer, mas era fraco e rejeitava as amas de leite; Cruelmente me foi rejeitado o pedido de amamentá-lo, pois Rainhas não amamentam... No fundo do meu coração, sei que eu poderia tê-lo salvado com meu leite, pois o pequeno Sasuke certamente saberia que eu era sua mãe e se sentiria protegido em meus braços enquanto se alimentava. Mas não... ele foi cruelmente tirado de mim para que as malditas amas tentassem alimentá-lo. Como desculpa para encobrir tal negligência, o médico simplesmente informou que meu filho não estava pronto quando nasceu.
Konoha está de luto, e sei que meus inimigos comemoram não a morte do Príncipe, mas a desgraça da Rainha. Querem persuadir o Rei, dizendo que eu não sou capaz de produzir filhos saudáveis e que o nascimento de Sasuke foi uma prova de que o meu casamento é maldito. Todavia, o Rei não dá ouvidos a eles e crê que minha próxima gestação será diferente. Meu marido deposita sua confiança em mim, em contrapartida os membros da Corte me odeiam cada vez mais e me julgam incapaz de um filho.
Os que viram meu pequeno filho em seus breves dias de vida comentaram sobre sua aparência, dizendo que ele não tinha em seu rosto traços do Rei, somente da Rainha. Sua semelhança com o pai eram os cabelos negros, mas incontáveis homens possuem tal característica, não é mesmo? Isso gerou comentários venenosos entre alguns nobres. Fofocas descabidas que não chegaram aos ouvidos do Rei, mas chegaram aos meus, que compreendi claramente as insinuações de que meu filho não havia sido concebido com o Rei simplesmente por ter seu rosto parecido com o meu.
Eu sei a verdade em meu coração, mas minha posição ainda é frágil e eu não disponho de muito apoio. Temo que fofocas e intrigas possam me derrubar de alguma forma, ou enfraquecer a confiança que meu marido tem em mim.
Dois meses se passaram desde a morte do meu filho e só agora encontrei forças para escrever. Ainda estou reclusa em meus aposentos desde que retornei para a Corte, pois não consigo olhar para as pessoas e ver em seus rostos sentimentos de pena ou desprezo. Meu marido algumas vezes me procurou, mas teve que voltar para sua cama sem ter o que desejava, visto que não sinto vontade de me deitar com ele, e ainda me sinto um pouco magoada por ter negado meu pedido para amamentar meu filho enquanto ele ainda estava com vida (...)"
– Majestade. — Karin entrou no quarto onde Sakura estava sozinha, deitada em sua espaçosa cama — Seu pai está aqui para vê-la.
Kizashi entrou no cômodo e logo Karin se retirou, deixando pai e filha sozinhos.
Sakura estava abatida, triste, seu olhar estava vazio...
– Por que esse quarto precisa parecer uma masmorra? — Kizashi brigou, abrindo as cortinas para que a luz do sol penetrasse naquele lugar tão escuro — Sua aparência está péssima!
A luz incomodou a visão da Rainha, ela logo encarou seu pai com a face séria.
– Papai, eu não quero visitas, pensei ter sido bem clara.
– Dois meses se passaram, Sakura! O Príncipe morreu, todos ficaram tristes por isso, mas a vida segue e você precisa o quanto antes conceber outra criança!
Ela travou o maxilar, furiosa encarando seu pai como se fosse matá-lo com o olhar.
– Ele não era só o Príncipe, era o meu filho e eu ainda sinto a morte dele! — Vociferou com um nó na garganta — Por favor, meu pai, respeite a minha dor!
– Sua dor já foi respeitada o suficiente, admiro a paciência do Rei! — Brigou — Mas você não é uma mulher qualquer, é a consorte deste país, e não tem tempo para ficar choramingando pelos cantos por conta da sua incompetência em gerar uma criança! — Kizashi falou grosseiramente, Sakura sentiu uma dor no coração e segurou suas lágrimas para que não se fizessem presentes — Sua função é dar um Príncipe para o Rei, o que não acontecerá se você continuar presa neste quarto! Depois que você trouxer para o mundo um menino pronto e saudável, aí você poderá chorar à vontade pelo seu filho que morreu!
– Como o senhor pode ser tão frio? — Questionou com a voz embargada — Ele cresceu em mim, eu sofri por dois dias para trazê-lo ao mundo... Eu o amava!
– Você é mesmo filha de sua mãe... — Disse secamente — Falhou com o Rei como sua mãe falhou comigo!
– A filha que o senhor tanto desprezou por ter nascido uma mulher se tornou Rainha, portanto acho que o senhor deveria rever seus conceitos quando diz que minha mãe falhou.
– E é justamente por ser uma Rainha que você tem por obrigação dar um filho para o Rei! — Bradou — Fui informado de que o Rei visitou seus aposentos recentemente e saiu insatisfeito porque você não o deixa mais tocá-la! Como pretende gerar uma criança assim, Sakura?
– Ainda não me recuperei da morte do meu filho, emocionalmente falando. E fisicamente, ainda não me recuperei por completo da gravidez. — Admitiu — Não quero abrigar outra criança em meu corpo por enquanto. Talvez seja mais prudente esperar um pouco, meu pai... — Disse com a voz calma — Meu corpo ainda não voltou ao que era antes.
Ela parecia realmente triste e ainda traumatizada... Tão jovem e com um filho já morto.
– Você... — Kizashi quebrou o silêncio que por alguns minutos havia se instalado entre ambos — Você já sangrou desde que deu à luz? — Sakura assentiu — Então já está pronta para conceber novamente.
– Eu não quero... Não agora! Sei que Sasuke me compreende.
– E por quanto tempo ele vai compreender, Sakura? — Questionou irritado — Não é só pela criança, homens têm suas necessidades e cabe às mulheres satisfazê-las. Espera que ele caia nos braços de uma amante?
– Sasuke não faria isso!
– Não? Se sua esposa mal olha em seu rosto, se não o deixa tocá-la, se está confinada num quarto com uma aparência péssima, tendo enterrada toda a sua vaidade, acha mesmo que ele não vai procurar consolo com uma amante?
Sakura deixou as lágrimas caírem. Não podia imaginar seu marido nos braços de outra mulher, mesmo que fosse nada além de uma relação carnal sem envolver sentimentos.
– Sei que minha estabilidade como Rainha depende infinitamente disso, tal como o amor dos meus súditos, mas eu não quero carregar outra criança em meu ventre por enquanto. Eu não quero...
– Você não tem que querer, Sakura! — Furioso, Kizashi se aproximou de sua filha e segurou em seu rosto apertando forte com as mãos, forçando-a a olhar em seus olhos — Escute bem o que eu vou dizer... Quando o Rei vier procurá-la você vai sorrir para ele, vai deixar que ele a beije e que a toque, vai satisfazê-lo quantas vezes ele quiser, vai fazer o que ele mandar! — Bradou, olhando furioso para uma Sakura assustada — Vai conceber um filho dele e vai trazer para o mundo um menino saudável, você entendeu? — A rosada somente assentiu conforme as mãos fortes de seu pai segurando seu rosto permitiam — Você chegou tão longe, e não deixarei que sua imprudência prejudique nossa família! — Largou violentamente o rosto da filha, então Sakura massageou suas pálidas bochechas que certamente estavam marcadas — Você vai levantar dessa cama, engolir essas lágrimas, e retomar sua função como Rainha.
– Sim, papai... — Disse amargamente.
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