"Notícias desagradáveis chegaram aos meus ouvidos. Não creio que sejam apenas fofocas extremamente maldosas, pois se trata de uma pessoa cuja presença na Corte não me agrada: Orochimaru, a serpente peçonhenta que ronda o Rei com seu mortal veneno.

Soube, por meio de conversas, que o secretário do Rei teve a intenção de colocar Shion no trono caso Sasuke morresse. Claro, Sarada é a primeira na linha de sucessão, e Orochimaru teme me ver comandando o país, por isso devia estar procurando qualquer brecha para deixar a prima do Rei na regência. Não sei se sua intenção era fazer Shion ficar definitivamente como regente do país, ou se seria apenas até minha filha atingir a maioridade, mas aquela serpente venenosa tramava algo (...)".

Sakura, antes de partir da Corte de Sasuke para seu castelo, mandou que chamassem Orochimaru. A Rainha, com sua característica petulante, queria esclarecer algumas coisas com o secretário do Rei.

O homem dos cabelos longos e negros entrou nos aposentos da Rainha, onde a maioria dos pertences dela já não se encontrava, uma vez que a rosada estava se mudando.

Orochimaru fez uma reverência como mandava a cortesia, e encarou a Rainha que estava com o semblante sério.

– Mandou chamar, Majestade? — Ele quebrou o silêncio.

Sakura o olhava com desprezo. Pelo visto, o temor maior de Orochimaru não era uma mulher na regência, mas uma mulher específica.

– Me contaram, Orochimaru, que quando você pensou que o Rei fosse morrer, sua primeira atitude foi tentar buscar a maldita Shion. — Respondeu friamente a Rainha — Você não pensou em mim... Não pensou em minha filha, tampouco na criança que eu carregava.

– Majestade, eu não posso confiar a sucessão do trono a um bebê no berço... eu não posso confiar a sucessão do trono a uma criança que sequer havia nascido. — Orochimaru respondeu calmamente, parecia estar imperturbável.

Orochimaru realmente tinha a intenção de colocar Shion no trono caso Sasuke morresse, todavia não encontrou uma única brecha nos documentos de sucessão que permitisse isso.

– Você acha que Konoha está em suas mãos... Você acha que cresceu abundantemente e que esse país depende unicamente de suas ações, mas saiba que Sasuke pode rebaixá-lo tão rápido quanto o elevou. — Sakura respondeu arrogantemente — Acha que não passa de maldito oportunista, Orochimaru! Mas nunca se esqueça, secretário... Aqueles que foram feitos, também podem ser desfeitos.

Ambos se encararam em silêncio durante segundos que mais pareceram horas. A calma e confiança de Orochimaru irritava a Consorte, embora ela não deixasse transparecer.

– Eu concordo plenamente. — Assentiu.

Sakura sentiu seu sangue ferver. Aquele maldito a estava ameaçando?

– Tome cuidado... — Ela disse em tom de aviso — Eu ainda sou sua Rainha.

– Claro...

O tom debochado de Orochimaru se comparava fortemente ao de Sakura.

– Não brinque comigo, Orochimaru... Você pode ter certa vantagem, mas eu sei o quão corrupto é. Usa e abusa da confiança que Sasuke tem em você, mas sua sorte não durará para sempre!

Orochimaru nada respondeu, apenas fez uma reverência para Sakura e saiu de sua presença.

Sakura não tinha dúvidas de que aquele homem a odiava. Também não tinha dúvidas de que sua posição de Rainha não o agradava. Talvez Orochimaru fosse o mais perigoso dentre os inimigos de Sakura.

...

O Rei garantiu que sua esposa tivesse uma vida confortável mesmo longe de sua Corte. Sakura levou consigo cerca de quinhentas pessoas, incluindo empregados e amigos próximos.

Teria sua própria Corte para reinar como quisesse, enquanto isso Sasuke a mantinha longe dos assuntos de Estado.

Claro, notaram o quão sem vida estava o castelo de Sasuke após a Rainha ter ido embora com suas damas. Afinal, era comum dizer que uma Corte sem damas é um jardim sem flores. Os bailes foram diminuídos e, mesmo quando dados, não tinham a mesma animação de quando Sakura estava lá.

Sakura estava instalada em seu castelo há cerca de três semanas quando o Rei, juntamente com alguns membros de sua Corte, foram visitá-la.

Sasuke chegou sem avisar, mas certamente foi recebido com muita alegria. Um banquete foi servido para que todos pudessem festejar; Os cortesãos do Rei aproveitaram a animação das damas, e muitos ousavam cortejá-las.

Naquele castelo as festas não eram incomuns, pelo contrário. Sakura adorava dançar e se divertir, portanto grande parte do dinheiro disponibilizado por Sasuke para que ela mantivesse o castelo era usado para sustentar festas.

Rodeada apenas por suas aias e amigos próximos, Sakura sentia ali uma liberdade maior. Por vezes amanhecia em bailes, sem se preocupar com o horário em que o Rei iria se recolher. Ela era a soberana de sua Corte, e aqueles que estavam ali a veneravam.

Era tarde, Sasuke e Sakura estavam sentados de frente para a mesa mais alta e privilegiada do grande salão. Os cortesãos dançavam, e, por mais que Sakura quisesse fazê-lo, não ousaria naquele momento.

– O Rei não vai dançar? — Questionou sugestivamente para o marido.

– Não estou animado. — Suspirou.

Com a visita do Rei, Sakura mandou que os cozinheiros preparassem pavão, um dos alimentos que Sasuke ainda podia ingerir de acordo com os médicos.

– Você não parece feliz. — Ela segurou na mão do marido, então olhou para o prato cuja comida sobre ele mal havia sido tocada — Não sente fome?

– Estou farto de aves. — Bufou — Este molho não está do meu agrado... — Reclamou — A carne não está adocicada como deveria.

Maçãs, pêras, ameixas, morangos e cerejas eram as frutas mais comuns e populares de Konoha. A maior parte era cozida, uma vez que havia a crença de que alimentos crus podiam causar doenças, portanto frutas eram consumidas frescas somente na estação. As frutas geralmente eram trituradas num almofariz e mantidas em conserva.

Por tais motivos, era muito comum preparar carnes com frutas usadas para molho. A comida da época era bastante adocicada.

– Sabe que os médicos proibiram o consumo de frutas. — Argumentou a rosada.

Farto da situação, Sasuke jogou o prato no chão. Vendo a bagunça, logo os empregados se mobilizaram para limpar o que havia sido feito, e colocar um prato limpo diante do Rei.

Sakura suspirou pesadamente. Estava cada vez mais difícil agradar seu marido, tal como melhorar seu humor.

– Leve daqui. — Sasuke ordenou a uma criada que acabara de colocar um prato diante de si.

– Está agindo como um garoto tolo. — Sakura repreendeu o Rei diante de suas aias e alguns criados.

– E quem você pensa que é? — Respondeu friamente, dada a reação de terceiros ao presenciarem a Rainha repreender o Rei — Ponha-se no seu lugar, senhora.

– Desculpa. — Pediu com a voz mansa, tentando acalmar o humor do monarca, então segurou em sua mão e a beijou — Eu me preocupo com você, não falei por mal. Perdão.

Sasuke apenas a olhou sério, logo em seguida assentiu.

O Rei havia passado a se irritar com maior facilidade, portanto Sakura precisava manter certo jogo de cintura com ele. Sentia que seu casamento estava piorando.

– Acho que vou me recolher. — Sasuke falou, puxando sua mão.

– Isso é um convite? — A mulher sorriu com uma discreta malícia, sugerindo que Sasuke a convidava para a cama.

– Não, apenas um aviso. — Respondeu firmemente, vendo em seguida o sorriso nos lábios de Sakura se perder.

Sasuke se levantou e nesse momento a música parou de tocar. Todos, com exceção da Rainha, curvaram-se, então o Rei seguiu para o quarto.

Sakura ficou séria, pois notou claramente o desinteresse do marido mesmo após semanas sem vê-la.

– O Rei está cansado. — Disse ela — Vamos, toquem! Divirtam-se!

A música voltou a tocar, e todos voltaram a se divertir mesmo com a ausência do Rei.

"O Rei partiu ontem, após passar cinco dias na minha companhia. O que aconteceu aqui durante esse período é extremamente preocupante, pois me deixa vulnerável. Sasuke deitava-se ao meu lado e dormia, não importando o fato de que eu tentava animá-lo com carícias e brincadeiras, ou o fato de que o trono precisa de um herdeiro... Meu marido sequer me tocou.

Não posso dizer se foi a doença que o deixou assim, pois noto o Rei frequentemente irritado com sua atual restrição alimentar. Mas, quem sou eu para questionar os médicos? Como posso afirmar que Sasuke vem estando desanimado por causa de alimentos que deixou de consumir? Céus, como sou tola!

Venho notando um Sasuke abatido, já não é mais como outrora. A febre, que eu julgo ter sido causada por envenenamento, o deixou com severas sequelas. Creio que ele não tenha mais ânimo para me possuir como sua esposa, e por isso eu temo, pois como vou conseguir um filho? (...)".

Meses se passaram. Sasuke e Sakura já não tinham mais a mesma vida de casados, e as aias comentavam baixinho entre si que o fogo do casal havia se apagado; Pois, mesmo que dormissem no mesmo quarto e na mesma cama quando o Rei ia visitar a Rainha, ela sempre estava insatisfeita pela manhã.

Numa tarde monótona, Gaara e Sakura jogavam cartas, enquanto algumas aias estavam ocupadas com seus afazeres e outras apenas observavam o casal de primos jogar.

– Você parece cansada. — Gaara comentou.

– Minha Corte é animada. — Riu — Você deveria vir mais vezes, Gaara, ofereço festas constantemente. Aqui sempre há diversão.

– O Rei lhe envia muito dinheiro... — Comentou o ruivo.

– Sim. — Assentiu — Dinheiro e presentes... com frequência.

– Você fica tão presa, tão isolada aqui... — Observou.

– Viajarei na próxima semana. — Informou, jogando uma carta sobre a mesa — Sarada completará dois anos, irei vê-la certamente, e, devido a longa viagem, dormirei em sua residência.

– Sente falta de sua filha, não?

– Demais. — Suspirou — Mas, pelo menos por um tempo, terei de suportar o fato de vê-la em menor frequência.

– Dois anos... — Suspirou — Demorará muito até que você dê um filho ao Rei?

Sakura suspirou com pesar.

Se o Rei há meses não a tocava, como iria conceber?

Sakura chegou a imaginar que Sasuke possuísse amantes, e por isso seu desejo pela esposa estaria se esgotando. Mas, se Sasuke não conseguia consumar o ato com Sakura, conseguiria com outras mulheres?

– As sequelas da doença. — Ela disse penalizada — Gaara, ele não... — Abaixou o olhar, visto que tal assunto era constrangedor se tratando de um Rei, a figura mais imponente de um país — Eu não consigo excitá-lo como antes.

Sasuke jamais seria o problema, o que levava Sakura a admitir que a culpa era dela. Mesmo que os médicos tivessem dito que poderia acontecer, a esposa tinha sua parcela de culpa, direta ou indiretamente, tendo lógica ou não.

Uma mulher, Rainha ou não, em algum momento da vida seria obrigada a declarar de alguma forma a inferioridade de seu sexo. E Sakura o fez ao admitir, talvez por uma questão de proteção, que ela também era culpada... ou que a culpa era toda dela.

– Ele... ele realmente não consegue? — Gaara questionou receoso por estar falando de intimidades do soberano.

– Raramente tenta. — Relatou — E mesmo quando insisto muito, Sasuke não consegue.

Gaara suspirou pesadamente. Aquilo seria um problema.

– O reino não tem um herdeiro.

– O que eu posso fazer, Gaara? — Perguntou aflita — Sabe... algumas vezes eu penso que os médicos de Sasuke agem com certa negligência.

– Não diga isso. — O ruivo a repreendeu.

– Não estou dizendo que eles têm a intenção. — Enfatizou — Estou dizendo que talvez algumas decisões tomadas pelos médicos possam estar ajudando nesse... — Sakura ponderou por uns segundos e olhou de relance para as aias, pensando numa palavra adequada — Nessa questão delicada.

Gaara soltou um riso anasalado. Sua prima era bastante presunçosa. Quem pensava que era para questionar as decisões médicas?

– Sobre o que exatamente está falando? — O rapaz indagou ao jogar uma carta sobre a mesa.

– O Rei deixou de comer vários alimentos que apreciava. — Relatou — Os médicos crêem que não podem fazer bem.

– Isso é natural. — Gaara deu de ombros.

– Sim, claro. — Suspirou — Mas Sasuke ficou chateado com essa restrição, e isso pode estar trazendo maus humores para o seu corpo, portanto explica por que ele já não tem o mesmo ânimo.

– Você fala como se entendesse a medicina.

– Não entendo, mas deduzo. — Rebateu — Sasuke não está feliz, isso não faz bem para ele. Inclusive não é de todo mal o fato de eu não conceber por enquanto, haja vista que os recentes maus humores do Rei podem envenenar meu filho.

– Um homem não envenena seu filho, Sakura. — Corrigiu o ruivo — Apenas os maus humores da mãe podem envenenar a criança no ventre.

Sakura fitou um ponto fixo na parede, como se analisasse a cara tapeçaria que a cobria.

Era estranho pensar em como uma única mulher deveria carregar o mundo inteiro em suas costas apenas por ser mulher. Mesmo após a doença de Sasuke, era claro que Sakura, a esposa, também teria sua parcela de culpa caso o Rei não conseguisse fazê-la conceber novamente.

– Eu não posso perder outra criança, Gaara... — Disse aflita — Não posso.

– Primeiro você precisa de uma criança em seu ventre. — Avisou.

– Eu sei. — Abaixou o olhar — Se eu conseguir reacender a chama que queimava em Sasuke, e conceber um filho, não posso perdê-lo.

Gaara percebeu o quanto sua prima parecia perturbada.

O povo esperava por um herdeiro. A Rainha nunca foi popular entre os súditos, e o fato de ela não ter dado um filho homem ao Rei só piorava sua situação, fazendo com que propagandas negativas em torno de sua pessoa circulassem.

Foram quatro gestações, apenas uma menina viva. Aquilo não era animador, e havia quem dissesse com total convicção que se tratava nada mais do que um castigo divino por Sasuke não ter se casado com uma Princesa ungida, descendente de Reis.

– Fique calma, minha prima. — Gaara sorriu para animá-la.

– Acha que ele procura por amantes? — Indagou com desconfiança, e Gaara apenas negou com a cabeça — Mulheres mais jovens, mais bonitas... Certamente o sabor da novidade o faria se sentir um novo homem.

– Não diga isso... O Rei a ama.

A verdade era que Sakura não podia descartar nenhuma hipótese. Estava longe do marido, e sabia que muitos nobres da Corte poderiam oferecer suas filhas como amantes do Rei em troca de favores. É verdade que uma mulher bonita pode fazer até mesmo o tempo se curvar diante dela, e Sasuke poderia muito bem cair nos braços de uma amante.

O sentimento de Sakura por Sasuke não era mais o mesmo há tempos, desde que ele colocou outra mulher em sua cama quando a esposa esperava Sarada. Claro, quando uma mulher estava grávida e não podia manter relações pelo bem do bebê, era comum que o marido procurasse consolo em outros lugares... Para um Rei, era mais comum ainda, mas era algo que Sakura nunca conseguiu engolir.

Mesmo não amando Sasuke de todo o seu coração, a rosada sentia algo por ele. Carinho, gratidão... Mas, amor? Não. Ainda assim, Sakura queria manter seu casamento. Ela precisava manter seu casamento.

– Lidar com ele está se tornando uma luta cada vez mais árdua. — Relatou a Haruno.

– Espere um pouco. — Sorriu o ruivo — Tenha fé. Logo você terá um filho, e tudo ficará bem.

Sakura sorriu de volta.

– Obrigada, Gaara.