Do que Vale a Ironia?
1 Capítulo Único
Basil Hallward já convivia com o Mr. Dorian Gray há certo tempo. Tinha certo fascínio por sua figura e até já pintara um quadro dele, era um grande pintor, um grande artista, um exímio conhecedor de várias artes. Mas nada daquilo fazia sentido sem a amizade daquele homem.
- Acalme-se, Basil – pediu Lorde Henry, revirando os olhos – O garoto está ocupado, como bem sabes... Por mais que tenha prometido vir jantar conosco, está enamorado de uma atriz.
O homem olhou-o. Como?
- Ah, acaso não sabes? – riu ele, como que para provocar o outro, que parecia cada vez mais ansioso – Temo que Dorian seja mais amigo de mim agora do que de tu.
- Uma atriz? – arqueou as sobrancelhas.
- Ele disse que ia te mandar uma carta para escrever algo sobre ela – disse Lorde Henry, inspirando a fumaça do cigarro, para ele tão prazerosa, e olhando pensativamente para a janela.
- Pois não me escreveu nada! – reclamou ele.
- Se pelo menos tu fosses um pouco mais... – Lorde Henry parou de falar. Era perigoso dizer isso para aquele artista tão conservador.
- Mais o quê, Harry¹? – olhou para as próprias mãos, tentando se reconhecer. Então olhou-se no espelho. Ah, sim, aquelas rugas que preenchiam sua cara não eram dignas de um rapaz como Dorian. Quando ele era ingênuo, quando ainda não havia conhecido Henry, eram muito amigos. Agora aquilo não mais o interessava. Do mesmo jeito que havia enamorado-se da jovem atriz. Ele provavelmente estava procurando “o novo”. E ele era antiquado demais.
- Esqueça – pediu Harry.
- Vejo que nossa amizade não vale de nada... – pensou alto Basil, olhando para o quadro que ainda não entregara ao Mr. Dorian.
Lorde Henry coçou a cabeça. O que ele estava dizendo?
- Claro que vale! – proclamou Harry, levantando-se do sofá e dando umas batidinhas amigáveis nas costas do amigo, com um grande sorriso no rosto – Nunca deixarei de ser teu amigo, Basil! Embora repetidas vezes tu sejas deveras entediante... – continuou ele, com um sorriso irônico.
- Não estava falando de você – disse o outro, semicerrando os olhos.
- Que pena, pois eu estava.
- Me admira que tu ainda não tenhas começado nenhuma de suas teorias – disse Basil.
Lorde Henry coçou a barba, como se pensasse numa frase perfeita para o momento.
- Só gosto de falar de prazer e de amor – murmurou Harry, pensativamente – Mas não com você. Dorian me interessa. Coitado, ainda tão puro.
- O tom que você afirma isso me assusta, meu amigo.
- Acaso fui sarcástico? – ele arregalou os olhos com um sorriso sacana.
- Um tanto.
- Pode ser – concordou o outro – Aliás, quando vai entregar esse quadro a Dorian?
Basil olhou automaticamente para o quadro que seu amigo apontava.
- Fiz esse sem seu consentimento, não pretendo entregar a ele – concluiu o pintor.
- E conta isso para mim, sem mais nem menos? – riu Lorde Henry – Acaso não sabes que mantenho contato direto com Dorian?
- E acaso não é meu amigo? – disse o outro. Os olhares que um lançou para o outro eram mais como se estivessem apontando armas um para o outro.
- Nunca duvide disso.
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¹Apelido de Lorde Henry
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