Do que São Feitos os Sonhos

1 Prólogo: Braco e Preto


Notas iniciais
Oieeee, boa noite para vocês :)
Boa leitura hehehe

25 de maio de 1541

Londres, Inglaterra

Ao redor tudo era escuridão. Queimava em negro. Fumaça aqui e ali. As janelas estavam fechadas, as portas trancadas com cadeados enormes.

Bem ao centro surgia da imensidão da luz da vela amarelada a face de uma garota que não poderia ter mais de vinte e dois anos. Seus pulsos marcados de roxo, um tom quase preto, coagulado. Seu cabelo caia sobre a face suja de poeira e carvão, e suas roupas, coitadinha, estavam rasgadas em mais lugares do que poderia se contar.

Se ela não fosse uma dama da sociedade londrina seria fácil confundi-la com alguma sem teto que precisa passar a noite abaixo de diversos homens para ganhar a vida.

Com o cabelo se prendendo aos lábios umedecidos, a garota acendeu outras velas pelo interior do recinto até que o ambiente por inteiro era iluminado.

Ela, de pele pastosa como leite, esfregou as mãos suadas na roupa de lama e, numa atitude hiperativa nada comum de senhoritas como ela, se locomoveu de um canto ao outro, arrastando um banquinho de madeira até que estivesse bem abaixo de uma grande mesa de mogno escuro onde pairava um antigo e de folhas amareladas livro de capa de couro.

Folheou as folhas finas e frágeis até se deparar com as linhas que queria ler, o relato da garota que não se cansava de conhecer.

Pode parecer estranho ou muito curioso, não sei como representar, não sei que palavras utilizar para descrever tamanha magia. Talvez seja tão sublime quanto cada sentimento pútrido e doce que existe. Enfim, fui ensinada a sentir dor desde que nasci, ensinada a saber o que pode haver de tão intrigante em nosso ponto pulsante nestes momentos de insanidade. A verdade é fácil, ele bate mais rápido, adrenalina o preenche. E se fosse necessário me machucar para sentir-me viva... Eu o faria. A adrenalina percorre todo o sistema nervoso, todas as células, todos os vasos sanguíneos.

A parte mais interessante e que causa tanto êxtase são as cavidades que há no rosto, aquelas grandes esferas aparentemente vazias que guardam nossos maiores segredos e toda a dúvida de nossa existência. Olhos, orbes, órbitas, aquilo que gera nossa capacidade de ver. Mas como eu gosto de chamar: janelas da alma. Aqueles glóbulos que aprisionam tudo o que somos; que entrega nossa vida. Nossas janelas exibem um brilho tão indescritível ao notar nossa agitação, nossa inquietação por conta do hormônio. Alguns séculos atrás chamariam essa magia incomum de bruxaria, provavelmente fosse enforcada ou queimada, no entanto, estaria feliz de ter visto ao menos uma vez o que somos capazes de fazer com uma dose de medo. Afinal, não há nada de ruim em senti-lo.

Seus olhos passando pelo último trecho presenciaram o quarto se transformar numa imensidão escurecida.

Acendeu novamente as velas e, decidida, buscou pelo sino na parede oposta, carregando o banquinho onde há pouco estivera acomodada. Colocou-o abaixo do sino, lugar em que residia a corda frouxa e larga que uma de suas empregadas utilizara para tirar a própria vida há três noites. Estava presa ao sino, tão comum nos quartos de empregados daquela família.

A dama queria, mais do que tudo, chamar a atenção de uma das demais empregadas e fazê-la descer para lhe acompanhar na visita àquele quartinho mórbido.

Quando enfim colocou o primeiro pé sobre o banco frágil, as chamas que iluminavam o cômodo foram se apagando uma a uma até chegar a que estava em suas mãos.

Apressada, acendeu outro fósforo que sem demora se apagara.

Ela estava histérica, seu rosto belo não passava de um borrão de calafrios e tremedeira diante dos olhos que se acenderam bem a sua frente. Brancos. Perigosos.

Estava escuro demais para que qualquer um conseguisse ver. Qualquer um que estivesse dentro ou fora.

Embora isto não se aplicasse à sombra que pairava diante de uma das janelas. Não havia sinal claro de que aquele corpo flutuante conseguia de fato enxergar o mínimo ali dentro, onde os dois seres se encaram. A senhorita em choque, tamanho seu medo, a sombra gargarejando uma risada rouca e gélida.

E naquele segundo toda reação que pairava nela evaporou. Tomada por um motivo estranho ela terminou de se pôr em cima do banco que vibrava sob seu peso. Seus braços finos pegaram a corda e passaram sua cabeça até que estivesse totalmente presa.

Num impulso desceu do banco e com os sonidos sem foco que saíam de sua boca ela observou em seus últimos instantes de vida a janela ser escancarada e o corpo trêmulo que observava toda a cena se desenvolver em silêncio se pondo para dentro, agarrando o pescoço do asqueroso monstro de pele áspera e olhos de neve.

Tudo explodiu.

Cores voavam e ventos fundiam-se aos dois corpos até que restara somente um, que agora era totalmente clareado pelas velas que antes davam a intensidade de reconhecimento ao local.

A garota que anteriormente fazia-se presa à corda agora não existia mais. Tudo que restara foram as velas e um corpo desmaiado que imitaria perfeitamente a lady se não fossem por seus olhos que claramente espirravam luz.

Notas finais
Gostaram?