Do outro lado da linha
168 Atendimento #168:Resistência
Notas iniciais
Atendimento #168:Resistência
Uma pancada, outra pancada.
Claro que existem maneiras melhores de se demonstrar que um aparelho é bem resistente. Mas o novo técnico da autorizada de Andressa achava melhor dar um tratamento de choque aos clientes da empresa.
— A culpa dessa porcaria estar quebrada é sua tá entendendo? — O técnico só faltava mandar a cliente retirar a roupa preta que usava por que ela não merecia. — Quer reclamar liga na central denovo, aposto que eles vão dizer que a culpa é sua.
A cliente tremia chocada enquanto ligava para a central de atendimento, não demorou e um atendente respondeu ao seu chamado.
— Alô? Alô?
— Hora da batalha rangers! — Ancelmo fazia poses enquanto tirava do mute. — Bom dia senhora, como eu posso ser util?
— O seu técnico é um bruto idiota!
Sempre que um atendente começa uma chamada escutando alguma reclamação, pode ter certeza, isso vai voltar para você… Para quem está do outro lado da linha qualquer demonstração de ódio inicial é como um boomerang, só é preciso que o atendente se abaixe pra que ele volte a acerte no meio da fuça do próprio cliente que o lançou.
— Calma senhora, vamos por partes que quero primeiro entender o porque a senhora está tão ofegante assim. Tava correndo? Gritando? Brincando com azeite?
— Como assim azeite?
— Ah… é uma longa história senhora, recomendo que veja os atendimentos com o antigo supervisor.
Mas Ancelmo era diferente. Ao contrário dos atendentes comuns ele não simplesmente deixava o ódio passar e voltar. O atendente adestrador pegava o boomerang no ar e o lançava de volta com tanto amor que esse ganhava uma força absurda e arrancava a cabeça do cliente.
— Tá... a senhora tá me dizendo que um técnico pegou seu produto com a tela quebrada e disse que a culpa é sua? — Ancelmo girava o relógio verde tentando escolher qual monstro imaginário viraria.
— Exatamente, eu não vou pagar o que me pedem, não importa o que digam.— A cliente tremelicava a língua bifurcada tal qual um dragão descendente dos répteis.
— Calma senhora, aqui é tudo é na base da conversa, vou ligar na autorizada e ver o que eu descubro está bem?
A cliente, olhando na cara de Regis, respondeu:
— Mas eu tô na autorizada quer falar com o técnico não?
— Sai, sai piranha. — Regis tomou o celular da cliente com tudo. — Alô, oi. Todos os clientes que vocês vão mandar pra cá são assim mesmo?
A mulher queria o celular de volta, mas dada a situação onde o técnico tinha nas mãos um taco de baseball ela resolveu esperar.
— Você é o técnico novo? Pode me passar o seu R.F só para eu conferir?
— O que é essa porcaria, aliás quem é que ta falando é o Ezequiel? — Regis tinha trauma de nosso herói. Mas era compreensível já que sua vida toda tinha mudado depois que falou com ele.
— Não senhor, só um momento enquanto eu busco uma informação com meu supervisor.
O adestrador de clientes colocou a chamada na espera, quando ia puxar a segunda linha para ligar na mesa de Kauã nosso guerreiro da estrada dos atendimentos o impediu.
— Sai amoeba deixa eu trabalhar… — Parou de falar assim que viu o indicador de Ezequiel apontando para a sala do gestor com os vidros turvos da temperatura interna. — Esse povo é muito descarado.
— Pra manter no cargo se faz de tudo hoje em dia, criança. — Ezequiel deu de ombros. — Só dizendo, o Régis tá certo
— Mas eu tô com uma cliente aqui, que ta falando.
— Eu sei, ela disse que o tablet dela tá quebrado e que o técnico disse que a culpa é dela. Mas cá entre nós.— Aproximou-se do colega e começou a explicar a situação toda. Ancelmo arregalou os olhos surpreso com a estupidez alheia. Naquele momento ele viu que não adiantaria nada tentar domar a cliente. — Entendeu?
— Regis passa para a cliente, mas deixa no viva voz pra você escutar.— Ancelmo falou tirando do mudo. O técnico passou para a mulher à sua frente.— Senhora, acho que a na sua frente têm um tablet que não é o seu certo?
Realmente no balcão de madeira da autorizada tinha um produto ligado que não era da cliente. Era nele, inclusive que tinha sido desferido os golpes do atendimento anterior.
A cliente ficou em silêncio.
— Então continue olhando para a tela.
Regis deu uma batida forte com o taco de baseball no aparelho, porém esse ficou intacto.
— Reparou que a tela ficou inteira? — Continuou sem esperar por respostas. — Então senhora o meu colega falou com a responsável pela autorizada e de acordo com ela seu filho ligou aí antes da senhora chegar. — A mulher ainda continuou em silêncio. — A senhora reparou que o tablet aguenta uma paulada de bastão, mas a senhora á de convir que uma queda de cinco andares não é a mesma coisa que uma paulada…
— Mas eu não tenho culpa!
— Senhora. — Ancelmo falava doce, mas o boomerang ja estava quase na cara da cliente. — Seu filho disse que pediu para a senhora lançar o tablet pra ele, mas quando ele disse isso era pra senhora levar o tablet até ele e não jogar pela janela… A senhora achou que por ele ter modo avião ele sabia voar?
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