Do outro lado da linha
159 Atendimento #159: Lágrimas de crocodilo
Notas iniciais
Atendimento #159: Lágrimas de crocodilo
Não tente brincar com os sentimentos dos atendentes, você pode não acreditar mas eles sabem exatamente quando você está fingindo. São tantas pessoas que ligam tentando isso que fica fácil saber quando realmente é tristeza e não um choro falso ou um berreiro de quem sentiu alguma coisa entrando onde não deveria. Mas não vá pensando que só chorar vai resolver seu problema, não mesmo. É preciso muito mais que isso para fazer um atendente abraçar sua causa.
— Não vou fazer essa postagem malandro, tu vai ter de pagar por essa parada e pronto! — Igor mantinha-se irredutível, sabia que o cliente era o responsável por destruir seu liquidificador ao tentar bater caranguejos com gelo e vodka.— Se eu fizer a postagem os parceiro da autorizada vão ter de reparar em garantia pra tu, por isso não vou fazer a postagem.
— Pago cem pilas pra tu parceiro.— O cliente também era carioca.
— Acha que cem conto é meu preço? — Alastor sentiu-se ofendido pelo cliente que não ofereceu um valor mais alto.
— Pago cem conto e um bolo de morango.
— Vou passar minha conta pra você agora e tu passa o dinheiro enquanto eu gero o código da postagem.
Enquanto registrava as informações do cliente para postagem Catherine entregava presentes para Ezequiel dar a sua esposa. Ele contou a ela a existência dos gêmeos e isso a deixou maluca para comprar presentes para seus afilhados.
— Espera deixa eu finalizar com essa cliente aqui que eu já abro Dona Catherine.
A mulher ajeitou a flor sob a orelha e em seguida pressionou o drop no telefone de Ezequiel. Este virou-se indignado para a mulher, sem Igor no comando qualquer ligação derrubada poderia custar caro. Entretanto, quando seus olhos se encontraram com os da madrinha de seus filhos sua ira desapareceu como fumaça de cigarro sugada pelo ventilador.
— Nunca mais me coloque abaixo de um cliente...— A expressão no rosto da mafiosa teria feito até o mais tenebroso demônio molhar as calças.— Enfim. — Voltou a normalidade.— Uma roupa de seda para a mamãe de primeira viagem.
— “Meu marido é minha vadia” — Ezequiel leu o que estava escrito na blusinha do conjunto. — Então tá ne…
Igor finalizou o contato com o cliente informando-lhe os procedimentos da postagem e o endereço onde teria de entregar o bolo, tudo isso ainda rindo. Tão logo a linha ficou muda outra pessoa surgiu em seu tortuoso caminho de atendimentos
— Alo? Alo, por favor. — A voz de uma menina jovem chamou pelo atendente que encarava pasmo o segundo presente de Catherine.
— Quem diabos dá um consolo de presente para um casal que vai ter filhos...— Divagou Igor fora do mute.
— Oi? Alô? Moço, moço, eu preciso de ajuda.— A garota chorava como se fosse encher um oceano com as lágrimas.
— Tá calma, para de chorar vai. — Igor tentava não ser rude com a mulher chorosa em linha, mas sua paciência estava se perdendo.
A cliente não conseguia falar uma frase inteira sem abrir o berreiro, parecia um bebe reclamando da sujeira que fizera na frauda.
— Eu tava, eu tava dançando no meu, no meu...— E os prantos recomeçaram.
— Chega pentelha. — Igor se estressou com a garota que acabara de fazer dezoito anos. — Fala de uma vez ou eu deligo essa porcaria agora.
— Tá...— choramingou. — Eu tava dançando para o meu namorado no pole dance, ai ele se desprendeu do teto.
“Nada de mais” Imaginou o atendente ainda inocente.
— Tá idai… por que tu ligou? Não vendemos postes de pole dance.
— Ele caiu batendo na cabeça dele. — A medida que falava a voz ganhava mais e mais pinta de quem vai despontar a chorar. — Ai ele derrubou meu celular e quebrou a tela! — Novamente o berreiro começou.
O atendente ficou a imaginar a cena, obviamente ela pediu para que seu namorado filmasse a apresentação para que posteriormente ela visse… Mas alguma coisa não se encaixava.
— Peraê fia, tu falou que o pau caiu na cabeça do malandro né?
— Foi sim...— A garota enxugava as lágrimas.
— E isso aconteceu quando? Ontem? —
— Não, faz mais ou menos uma meia hora.— Incrivelmente todo o ar triste e desesperado da garota desparecera.
Igor finalmente sacou algo sério.
— Ô menina...tu por acaso socorreu o teu namorado?
A cliente parou, olhou em volta e notou que o corpo do rapaz ainda estava lá, desacordado e com um galo tão grande que era quase do tamanho de sua cabeça.
— Eu faço isso depois, fala como eu faço pra acionar a garantia vai. — Anunciou ela normalmente já que não poderia mais manter a farsa.
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