Do outro lado da linha

110 Atendimento #110: Mil grau


Notas iniciais
Você já ficou estressado? Já tomou alguma coisa para ficar melhor? E café? Já tomou tanto que ficou mil grau? Aproveite e ria um pouco deste atendimento. PS: Atendimentos adicionados todos os dias as 14:00(ou no caso 14:05 sei lá..)

Atendimento #110: Mil grau

Todo atendente é uma pessoa ocupada, porém, a vantagem de se trabalhar apenas seis horas por dia é que o reto do dia é livre para você. Claro que se uma pessoa escolhe essa carreira pensando nisso, a pobre alma logo nota que essas são as seis horas mais sombrias que esta poderia passar por dia.

— Eu preciso de férias urgente. — Sabe aquele tipo de gente citada ali em cima? Pois é, Emily era uma dessas pessoas que resolveram atender só para ter o resto do dia tranquila.

— Por que isso menina? — Amanda questionara a garota enquanto mascava um chiclete de açaí. Aliás aquela goma foi uma conquista pois, para encontrá-la, Ezequiel teve de rodar meia cidade e quando o fez comprou logo um engradado da mesma. — Que negocio horrível. — Amanda tirou a goma da língua e a grudou no monitor.

— Eu odeio esse lugar, tudo aqui é irritante, os clientes são burros os colegas são chatos. A hora parece que passa fazendo moonwalker,

— Os colegas são chatos é? — Amanda se sentiu incomodada com a afirmação e virou-se para a tela. Sacou da caixa de chicletes umas cinco unidades da goma e colocou todas na boca. — Beêza então, se ode aí. — Estourou uma bolha grande.

Emily se continha para não rasgar o próprio braço de nervosismo, tinha acabado de fazer uma nova tatuagem e não podia perder o controle e borrar a arte do dragão chinês. Amanda a provocava com seus estalos consecutivos de chiclete em vingança à alfinetada.

— Senhor mais um instante. — A garota tatuada não queria atender o homem em sua linha por que ela o julgava “um extremista da burrice”

— Amor eu só quero. — O cliente tentara ser doce, mas a atendente não permitiu.

— Não me chama de amor não! — A garota levantou o tom. Pigarreou. — Se eu fosse o seu amor você teria de ter pelo menos um cartão de crédito sem limites e teria de me levar para comprar roupa todo fim de semana. Eu to aqui para ser sua atendente e não sua amiga então pode ficar na sua!

— Eita. — Amanda estourou outra bolha.

O que o cliente precisava era algo simples, mas a loira que o atendia não se importava com o grau de dificuldade, afinal tudo ali para ela era fácil.

— Você pode me atender por gentileza?

— Claro que eu posso, só preciso que você aprenda a usar um mouse, do contrário eu não tenho como ajudar.

— Eu não sou obrigado a saber os seus procedimentos técnicos sabia? — O cliente tinha total razão no argumento, o atendente está ali para descomplicar a vida do usuário.

— Mas eu só pedi para clicar em “desligar” — Mas o cliente tem de ser menos burro também, convenhamos. — Se não sabe clicar para que compra um produto desses?

— Eu já cliquei.

O homem não desistia, queria a todo custo que aquela pessoa o ajudasse com o problema. Na mente dele Emily era sua ultima alternativa.

— Então tá, vamos com isso e poe esse carregador nele, tira a bateria e…

— Você está ocupada? — Indagou o cliente inocente.

A pergunta súbita a pegou de surpresa, toda sua raiva se esvaiu por um instante, mas foi só por um instante mesmo.

— Oi? Que pergunta é essa? “se eu to ocupada”? Por que quer saber?

O cliente, percebendo que despertara ainda mais a fúria da atendente, tentou se justificar.

— Não é que você tá meu afobada agora e tal.

— Afobada? Tá me zoando é? Eu só pedi pra dar sequencia ao procedimento. — Emily enrrigeceu os dedos com toda a força, se as unhas fossem maiores poderia tê-las usado como arma para degolar um. — “Se eu tô ocupada” você quer saber se eu tô ocupada?

O homem não podia mais retornar, iniciara-se ali um caminho de volta regrado a muita ira e insultos.

— Eu venho para cá em um ônibus porcaria, com gente fedendo a macaco morto a tabefes, soando que nem uma porca só para me divertir. Eu não estou ocupada não tenho todo o tempo livre do mundo, aliás eu estou atendendo o senhor pelo meu amor ao headphone. Sou uma devota de nosso senhor MUTE! — A força se levou de tal maneira que a garota arrancou o teclado da CPU. — Eu to ocupada sim, to atendendo uma alpaca mongoloide.

Atrás dela Amanda se controlava para não fazer nenhum ruido. No corredor do outro lado de sua mesa, Ezequiel e Igor conversavam sobre uma monitoria do dia anterior; o superior via que seu subordinado estava um pouco estranho, olhos arregalado, respiração acelerada e profunda.

— Parceiro,você não acha que aquela garrafa do atendimento anterior foi o suficiente pra tu? — Ao perguntar o mesmo apontou para o copo de café nas mãos do operador.

Enquanto conversavam Igor notou que um teclado fora lançado pela garota em ira, em reflexo o mesmo abaixou-se para não ser acertado, Ezequiel, no entanto, foi atingido em cheio na cabeça. O estrondo fez os agentes se levantarem. Nosso herói ficou alguns segundos parado, até que sorveu outro gole da bebida quente.

— Você tá bem? — O supervisor tinha próximo de sí as duas metades do teclado quebrado.

Ezequiel, com as pálpebras tremelicando respondeu:

— Tô mil grau.

Notas finais
O legal de você ficar mil grau é que nada mais te afeta, dor, fome, sede, sono... se fica legalzão. Vou sempre repetir isso: SOU MOVIDO A COMENTÁRIOS SIM! GOSTO DE SABER SE ESTÃO GOSTANDO OU NÃO U.U Se você riu com esse amontoado de palavras eu fico feliz, esse era meu objetivo bjs e até amanhã :D