Do outro lado da linha
92 Atendimento #092: Helpdesk
Notas iniciais
Atendimento #092: Helpdesk
Uma das coisas que é mais verdade entre os atendentes é a falta de estrutura adequada. Pode acreditar quando eu digo, Ezequiel já atendeu cliente sem ter nem mesmo uma cadeira para sentar-se; na ocasião ele não reclamou, até por que ficou no chão em baixo da mesa onde podia cochilar sem ser interrompido. Mas querendo ou não, prover um ambiente bem estruturado, com janelas vedadas e sem uma colmeia de abelhas zunindo bem do lado de fora é uma questão de ética.
— Que inferno, outra vez isso. — Falou nosso herói estapeando o monitor a sua frente. A tela piscava em diversas cores frenéticas, sua mesa parecia uma balada de tão luminoso que o visor era. — Esses caras não vão vir aqui mesmo é?
— Relaxa mestre você mesmo me disse no treinamento que eles só vem quando dá na telha. — Fabiana já tinha se acostumado a todos os problemas que aconteciam.
— Parem de reclamar seus ratos de esgoto. — Igor passou dando um beliscão nos dois. — Enquanto vocês puderem trabalhar e a Catherine puder entregar os produtos dela não se preocupem, eles não vão aparecer.
O supervisor encostou-se na divisória que separava a mesa de Ezequiel e Amanda, ao fazê-lo a mesma desmoronou fazendo um estrondo gigantesco. Surpreso com a fragilidade do objeto, o encarregado afastou-se de qualquer estrutura próxima.
— Parceiro isso aqui tá desmoronando. — Uma cadeira rangeu antes de desmontar-se com o peso de Ancelmo.
— Senhor? Senhor? — Catherine chamava o cliente, tentou aumentar o volume da chamada acreditando que fosse problema. O cliente não respondeu e a chamada acabou por ser finalizada. — Que ódio, essas porcarias de headsets que não funcionam. Alastor!
Igor saiu correndo ao ouvir a mafiosa o chamando.
— Sim senhora Catherine?
— Chama o moleque do helpdesk aqui.
O helpdesk para quem não sabe é o setor interno de uma empresa responsável pela gestão de equipamentos de tecnologia, tudo bem que no caso daquela empresa eles tinham de cuidar também das mesas, cadeiras e todo o resto. Mas em outras palavras, eram só os vagabundos que nada faziam para concertar os equipamentos e estruturas deixando nossos atendentes literalmente no chão.
Igor ligou para o chefe do setor que logo apareceu. A figura do encarregado pelo helpdesk e manutenção era icônica devido a seu corpo forte e musculoso, mas ao mesmo tempo outra coisa o destacava ainda mais.
— Ô hobbit. — Igor dirigiu-se ao marombado falando de cima para baixo. — A tia Catherine quer falar com você.
Igor era um cara de um metro e oitenta, já o rapaz forçudo tinha um metro e quarenta. Sim ele era um anão hiper bombado.
— Tô indo lá. — Ele tinha um sotaque baiano.
Ao se aproximar da mulher ela esticou-lhe a mão para que fosse beijada, ele, porém, teve de saltar para fazer o movimento já que a mesma tinha erguido a palma acima de sua cabeça.
— Ei formiga, explica isso aqui pra mim. — A mafiosa ajustou a flor ao cabelo enquanto entregava o aparelho ao anão. — O que eu disse sobre deixar os meus equipamentos se quebrarem?
— Mas nós não somos adivinhos, dona Catherine. Se vocês aqui não dizem o que tá errado não temos como vir e resolver.
— Ou, ou, ou. Vem com essas não aspira, eu mando todos os dias os problemas pra lá e ninguem vem.
— Isso mesmo pintor de rodapé, você me fez perder uma venda ganha com um cliente em linha. Se você não resolver esses problemas agora... — Levou a mão até a bolsa de produtos. — eu vou cortar o fornecimento desse sabonete líquido que você tanto ama.
O anão encarou o carioca com uma vontade muito louca de chutar-lhe o tornozelo, mas ao invés disso o diminuto se retirou por alguns minutos. Quando o mesmo voltou estava com seus equipamentos de reparo. Ezequiel e Amanda mesmo sem uma divisória em suas mesas, voltaram a atender normalmente.
— Vaza desgraça. — Falou o técnico empurrando o aperador de sua cadeira.
A cliente de Ezequiel escutou a voz do chefe do helpdesk.
— Oi? O que você disse Ezequiel?
— Não, não fui eu senhora. — Nosso herói presenciou todo o esforço do técnico para subir na mesa e começar a reposicionar a divisória. — Foi um anão. — Completou ele rindo.
— Um anão? Que tipo de desculpa esfarrapada é essa menino?
O telefone encontrava-se no viva voz, portanto qualquer podia ouvi-la e isso incluía o rapaz em pé na mesa de nosso herói.
— Esfarrapado não senhora, sou tipo carro tunado. Aqui têm potência, neon e ainda sou rebaixado.
Com um tubo de cola, que todos acreditavam que era especial, mas na verdade era apenas cola branca comum, ele grudou novamente a placa. Com uma série de tabefes ele pressionou até o grude aderir.
— Dá pra parar de bater ai por favor? — Quem se queixava desta vez era a cliente de Amanda.
— Fala para o anão que tá aqui do meu lado, se ele parar de bater ta tranquilo. Não posso mandar ele parar de trabalhar.
Os barulhos continuaram ainda mais altos após o funcionário se tocar que incomodava os clientes. Fita adesiva e muita cola, o reparo era completamente temporário, mas ele pouco se importava com isso.
— Como você têm a coragem de mentir desse jeito menina, porque teria um anão batendo em alguma coisa aí? — A cliente perdera as estribeiras.
— Cansei mano. — Tirou o head e entregou para o baixinho. — Fala com essa praga antes que eu mande ela ir para o inferno.
— Vocês são uns fracotes mesmo, deixa eu mostrar como se conquista um cliente. — Meneou a cabeça em negativa, colocou o head.— Oi gostosa têm alguma coisa quebrada na sua casa? Posso concertar tudo até seu coração.
— Quem é que ta falando?
— Seu próximo namorado gracinha, anota meu whatsapp e vamos trocar uns nudes...
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