Do outro lado da linha
74 Atendimento #074: Analista
Notas iniciais
Atendimento #074: Analista
Você sabia que se um produto seu não for reparado em menos de trinta dias você têm o direito de pedir a troca ou dinheiro de volta? Pois é, isso está no código de defesa do consumidor, muita gente não lê, mas está lá. O grande problema nem é as pessoas serem desinformadas — tudo bem que se o povo manjasse de tudo nem precisariam de leis- o que lasca mesmo é o fato das empresas ligarem o foda-se para isso. Não acredita? olhe por sí mesmo…
— Senhora Olívia eu entendo que estão demorando, mas infelizmente eu não tenho acesso ao setor que a senhora que falar. — Se lembra da cliente Olivia do atendimento #015? Não? Aquela que queria reembolso mas não sabia que a nota estava zerada...Lembrou né?? Então...Ezequiel está falando com ela. — Eu sei que a sua câmera não tinha mais jeito.
— Ô cão chupando manga, eu não quero nem saber, já fazem mais de trinta dias que vocês disseram que iriam resolver meu problema e de acordo como o código de defesa…
— A… então vai puxar o código de defesa é? — Ezequiel estava perdendo as estribeiras com a mulher. Ela estava certa e em pleno direito, entretanto ofendê-lo era o mesmo que comprar um passe só de ida para o inferno. — Se eu for puxar os meus direitos a senhora poderia ser processada.
— Claro né? Por que eu tô errada em querer meu problema resolvido, por que eu to errada em querer que o setor de analise de reembolso entre em contato comigo.
— Não tia do kibe, o problema nem é esse…
— Você me chamou de que?
— Nada pasteleira, só tô querendo dizer que você deveria maneirar no seus palavreados com os outros. Se eu quiser eu posso correr essa empresa inteira por você, mas se ficar me insultando o máximo que vai consegui de mim é um peido quentinho dedicado a você. — Ezequiel falava sério, ele realmente poderia dedicar um peido quente para a cliente.
— E você pode correr atrás desse problema pra mim?
A mulher se tornara mansa como uma va… não, melhor mudar a alegoria pra não dar problemas… A mulher se tornara mansa como um bebe em um berço. Entretanto, Ezequiel como um bom infeliz não estava satisfeito com a cliente naquele estado, ele queria vê-la se arrepender, se ajoelhar.
— Eu não sei, talvez se eu ouvisse as palavras mágicas?
A mulher do outro lado da linha respirou profundamente, uma legião de demônios escaparam de seu corpo naquele instante tornando-a humilde.
— Você quer que eu me humilhe né? — O silêncio dominou a chamada, mas ela assumiu aquilo como um sim, o que na verdade era mesmo. — Me desculpa Ezequiel por ter te tratado mal no atendimento #015 e neste também. Agora se você puder ser gentil e me ajudar nesse caso eu vou ficar muito grata.
O atendente bateu palmas com um sorriso na face, estava orgulhoso de fato, mas não da cliente, de si mesmo por tê-la convertido ao lado atendente da força.
— Muito bom Olívia, espere que em no máximo dez minutos eu volto. — Anotou o nome da cliente e mais alguns dados em um papel rasgado.
O atendente saiu todo feliz pelos corredores do setor em direção ao encarregado, quem o visse de longe imaginaria a figura dele carregando uma cesta indo para a casa da vovó. Ao chegar na mesa de Igor deparou-se com uma cadeira vazia e um bilhete pousado sobre a mesa.
“Fui ali e já volto, se precisar de autorização para alguma coisa, qualquer coisa que seja, ela está dada”
Com o aval pré estabelecido de seu superior nosso herói se dirigiu até as mesas do setor de análise, entretanto ele não conferiu o verso do papel e este também tinha um recado.
“Só não matem ninguém...”
— Oi maninho tudo certo? — chamou atenção do rapaz de roupa social. Ezequiel odiava ir até outro setor, a razão para isso era simples veja…
— O que um suporte está fazendo aqui? — Com “suporte” o analista engomado fazia questão de diminuir a importância de nosso herói. Sim, eles são esnobes, ou ao menos a maioria deles é...
Ezequiel teria sacado uma marreta do bolso e feito do colega de empresa patê, porém, não é esse tipo de livro e também não é esse tipo de filme.
— Eu poderia te dar um soco, mas não mudaria quem você é...— cerrou os punhos. — Vamos lá seu infeliz, você vai dar a tenção a esse caso aqui ou não? — jogou o papel sobre a mesa do analista, a folha desorganizou a sequencia de lápis enfileirados milimetricamente. Rapidamente o engomado ajustou o item novamente encarando Ezequiel com fúria.
— Por que está fazendo tanto caso de uma cliente? É tua mulher por acaso? — Ezequiel revirou os olhos em negação. — Então pra que isso cara? um suporte sair do lugar e vir aqui encher o saco… —
O atendente de suporte o interrompeu quebrando a ponta de um dos lápis, sorriu mostrando o feito.
— Eu vou avisar a cliente que você vai ligar para ela jájá, — Aproximou o item da face do homem. — Se você não acertar a porcaria desse reembolso eu juro que eu vou fazer a ponta desse lápis usando sua boca… — ao dizer isso o analista cerrou os lábios. — Não era essa boca que eu estava falando amigo… — Virou-se levando o lápis consigo retornando a mesa.
Revigorado por ter ajudado uma cliente que se arrependera sentou-se a mesa, tirou do mudo.
— Tudo certo senhora Olivia, daqui a uns quinze minutos ele vai ligar para a senhora acertando tudo do seu reembolso, está bem?
— Nossa, você é um anjo Ezequiel. — A cliente ficara doce como açúcar derretido. — Eu agradeço e eu peço sinceramente desculpas está bem?
— Que é isso senhora, quando as coisas não saem como nós planejamos ficamos irritados. — Ele tinha um sorriso estampado na face, mas não era apenas alegria, era orgulho de ter vencido, de ter convertido a cliente a seu favor. — Peço desculpas se fui rude, mas no fim eu pude ajudá-la. — A chamada foi encerrada com todos os ares de felicidade e paz.
Amanda se aproximou com uma maçã inacreditavelmente vermelha e a lançou apara seu cônjuge. A garota se recordara do nome da cliente no sistema de Ezequiel.
— Essa guria não é a que ganhou a câmera de presente e queria reembolso? — Amanda se recordara que a nota da cliente tinha marcado o valor zero no produto, e como o reembolso era equivalente ao que fora pago…
Ezequiel ajustara o cabelo para abaixo, emitiu uma risada tenebrosa em baixo tom. Apertou a fruta, mordeu um pedaço, virou-se para Amanda com um sorriso entre dentes e pedaços de cascas de maçã.
— Sim, eu sei… — Falou antes de gargalhar como um vilão de quadrinhos.
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