Do outro lado da linha
46 Atendimento #046: Cárcere
Notas iniciais
Atendimento #046: Cárcere
Algumas marcas têm tanta confiança na qualidade de seus produtos que oferecem a seus cliente uma garantia global. Funciona assim: você comprou um produto lá na esquina da casa da sua avó, ai quando você chega em casa ele da problema. Sabendo que toda avó mora longe pra caceta, outro país na realidade; quando você tiver na sua cama lá e quiser arrumar aquela joça, você vai poder fazer sem ter de viajar uns dez mil quilômetros até a esquina da casa da sua avó.
Então, sabe esse tipo de marcas? Pois é, a empresa que Ezequiel trabalha não é desse tipo. Talvez se trabalhasse o coro dele ainda estivesse intacto.
— Olhos pesados, bocejos constantes, preguiça suprema. — Ezequiel repetia baixinho para si mesmo, parecia um mantra para se manter acordado. Suas palavras se romperam quando um cliente mal amado chamou. Tirou do mudo. — Ezequiel boa tarde com quem eu falo?
— Oi Ezequiel aqui é Marília funcionária da revendedora e eu preciso de uma ajuda pra uma cliente aqui. — A mulher não parecia agitada igual lombriga em frigideira, e nem alegre e serelepe como pinto no lixo, ou seja, parecia que seria um bom atendimento.
— Certo senhora e qual é o produto do cliente. — O atendente tentava acordar beliscando a própria bochecha. A dor era aguda, mas o sono era do tamanho da mobdick.
— O produto é uma fechadura eletrônica. — A revendedora soou sucinta e calma.
Ezequiel parou, olhou para céu, olhou para o mar; se perguntou se a lenda dessa paixão faz sorrir ou faz chorar e por que diabos alguém compraria uma fechadura eletrônica. Ele balançava a cabeça tentando manter tranquilo e são.
— Um dia eu descubro por que esse povo compra tanta coisa inusitada. — Lamentou ele com a chamada no mudo. Levou o dedo até o botão mas não apertou.— Não… um dia eu descubro por que têm gente que fabrica essas coisas...— Apertou o botão. — Bom, o que acontece é o seguinte senhora, esse produto é importado e portanto não prestamos suporte para ele. Eu desconheço completamente a existência de uma fechadura.
— Olha eu não posso simplesmente virar para o cliente e dizer que não tem como resolver o problema dele. A situação é complicada e o cliente precisa de uma solução.
— E por que não ? A senhora tá com medo? — Ainda preguiçoso nosso herói não se tocava que estava perdendo o formalismo na fala. — Se baterem na senhora vai na policia. Mas se for fazer isso me avisa por que eu gosto de treta, Se puder gravar e mandar pra minha via whatsapp eu-
— Não senhor, não é medo de apanhar não, até porque eu sou faixa preta de krav maga. — Naquele instante a funcionaria passou a ser bem mais ameaçadora do que antes.
— Então deveria trocar uma ideia com minha esposa… — Murmurou ele mentalmente enquanto virava-se para Amanda.
— O que acontece é que eu to com o cliente na segunda linha do meu telefone e eu precisava ajudar ele de qualquer maneira. — A vendedora tinha a aflição saindo da voz, por alguma razão que o atendente desconhecia, ela se recusava a desistir da causa.
— Senhora, vamos analizar aqui senta aqui pertinho. — Falou ele agindo como se a a mulher estivesse ao seu lado. — O cliente fez errado, comprou um produto em outro pais e agora não tem como ser ajudado, para que esquentar a cabeça. Se ele ao menos tivesse comprado na loja da senhora ai tudo bem, o que não foi o caso não é?
A funcionaria do outro lado da linha coçava a cabeça expressando seu nervosismo.
— Então você quer que eu deixe ele lá trancado na casa dele, é isso que você me sugere?
Com uma ideia vã na cabeça e querendo não acreditar que estava certo, nosso herói fez a pergunta final.
— A fechadura eletronica não tá travada com o cliente trancado em algum lugar não né?
— É eu acho melhor chamar os bombeiros mesmo não né? — A mulher fez a constatação óbvia.
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