Do outro lado da linha
25 Atendimento #025: Pó Pó Pó
Notas iniciais
Atendimento #025: Pó Pó Pó
Para quem mora nas grandes capitais fica difícil imaginar a vida de quem está no interior. O complicado para essas pessoas geralmente é a distância de serviços. Água e luz nem sempre são coisas em abundância para essas pessoas.
Agora imagine que você está no interior de um estado do nordeste, imaginou? Deu um calor aí que eu sei! Não mente! Pois é, agora calcule um cliente que acabou de comprar um receptor de canais digitais e este teve problemas. consegue pensar na raiva que ele deve ter sentido?
— Olha eu to muito decepcionado com o produto de vocês, esperei por quase um mês aqui para ser instalado e você me entregam um troço que nem consegue funcionar uma semana.
Ezequiel ouvia atentamente enquanto seus olhos liam o que o cliente tinha relatado em atendimentos. Amanda sem estar em atendimento se encostava em sua cadeira, mascando o chiclete ela o encarava.
— Quer chilete?
Ele, ainda muito concentrado, apenas afirmou positivamente com a cabeça. Ela retirou agoma da boca e a segurou nos dedos.
— Abre. — A garota segurou o riso. Ezequiel sem pensar abriu a boca e começou a mastigar. Sua colega começou a rir. — Como você é otário.
— Oi? — Sua atenção foi perdida dos registros. Entendeu o que ela fez. — A...normal. Agora deixa eu ver isso aqui.
— Deixa esse caipira pra lá meu, manda ele comprar um novo produto.
O telefone do atendente tinha o volume reduzido, entretanto com a função de viva voz ativa ele e a garota conseguiam ouvir com clareza o ambiente ao redor do cliente.
— Pó, pó, pó, pó, pó, pó, pó, PÓ — soou o cacarejar pelo telefone de Ezequiel.
A operação parou por um momento, todos os demais colegas se levantaram de suas respectivas mesas e passaram a ver a face encabulada de Ezequiel. Amanda Afastou-se um metro, apontou-lhe o indicador como se fosse uma criança dedurando um amigo.
— O galinha é ele. — Anunciou Amanda se isentando da culpa.
— Pó, pó, pó, pó, pó, pó, pó, PÓ — o cacarejar novamente retumbou em meio ao silêncio.
O atendente retornou a saída do som para seu headphone. Alguns seguraram a risada outros voltaram as suas respectivas chamadas.
— Senhor, me explique o que aconteceu por gentileza, como seu produto parou de funcionar?
— Essa bagaceira aqui não aguentou nem uma semana, eu pensei que ele fosse resistente a bosta das galinhas e…
— Espera ai senhor...— Ezequiel interferiu. — A bosta é um substantivo ou um adjetivo as galinhas?
O cliente pensou por alguns segundos.
— Sei lá! Só sei que esse receptor aqui tá todo cagado de bosta de galinha, se eu pudesse mexer nele eu já teria resolvido, mas se eu tentar fazer alguma coisa posso quebrar.
O atendente montava o cenário em sua mente. Visualizou a fazenda do cliente com vários animais e poucos fios que adentravam na casa, tentou conceber que o sintonizador ficava fora da casa e por isso a sujeira o fez parar de funcionar.
— Onde o senhor mandou que instalassem o receptor senhor?
— No galinheiro uai! — O cliente anunciou com uma propriedade indiscutível.
Ligação no mudo. Ezequiel deixou a cabeça cair sobre o teclado, a tecla “7” foi pressionada repetidas vezes. Mais ou menos assim: “77777777777777777777777777777777”
— Não, isso têm que ser brincadeira. — Continuou batendo a cabeça no teclado de maneira mais leve. — Eu não to acreditando que você colocou um sintonizador em um galinheiro. Burrice tem limites mas eu acho que você é uma singularidade meu amigo!. — Tirou o telefone do mundo. Ficou quieto mais uns segundos. — Senhor se me permite perguntar, por que o senhor deixou um sintonizador de canais em um galinheiro.
— Eu acho que é para colocar em uma televisão né? — O cliente manteve sua forma natural de falar como se isso fosse algo corriqueiro.
— Senhor...têm uma televisão no galinheiro?
A ligação caiu...
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