Do it again

1 Do it again — capítulo único


A principio, eles eram jovens demais para entender o peso de suas ações. Jovens demais para pensarem o que elas poderiam refletir no futuro, que estava logo ali, ao lado.

Crianças podem ser cruéis sem nem ao menos entenderem a gravidade de suas ações.

Shouya Ishida odiava ficar entediado.

Somente a sensação de não saber o que fazer o incomodava, corroía sua mente infantil e deteriorava seus neurônios. Todos os dias ele travava uma batalha contra o tédio. Todos os dias depois da escola primária, ele e seus amigos faziam o que ele chamava de "Os Desafios à Morte". Sem nem saber o peso de suas brincadeiras as crianças saltavam de pontes, batiam em valentões, surrupiavam objetos de interesse, tudo isso para evitar o tédio mortal que aquela altura, poderia realmente ser mortal. Sem nem ao menos se preocuparem com as possíveis consequências vindas disso.

Crianças tendem a ter uma imaginação colorida demais para o seu próprio bem.

As tardes ensolaradas, imploravam por saltos cada vez mais altos, desafios cada vez mais perigosos. A mãe de Shouya já estava cansada de ver o filho chegando em casa molhando, encharcando o piso seu salão de cabeleireiro, subindo as escadas para passar o resto do dia jogando vídeo games.

Então Shouko Nishimiya chegara sem avisar na vida do jovem Ishida e, fora sem aviso também que ela transformou seus dias de luta contra o tédio de uma forma quase que espetacular.

Na cabeça de Shouya, a aluna nova era uma alienígena vinda de outro planeta que, por não saber o dialeto da Terra, se comunicava por meio de um caderno.

Infelizmente, a verdade era que Shouko Nishimiya não era um alien. Ela apenas nascera sem sua audição. A aluna nova era surda e precisava do auxilio de um caderno para poder compreender o que seus colegas de classe diziam.

Mas crianças entendem somente aquilo que querem entender e, para Shouya, tudo o que ele queria era que ela, o ser extraterrestre, falasse. Todavia não da forma mais amigável. Todo o interesse do garoto era demonstrado através de bullying. Shouko sofria calada, sem entender o que ocorria, tudo o que ela mais queria era poder ter amigos. Amigos que a aceitassem e fossem bons com ela.

O tempo corria por entre as crianças sapecas, os dias de Shouya estavam cada vez mais interessantes, seu combustível sentava bem a sua frente e tudo o que ele tinha que fazer era mexer com ela, roubar um objeto que ficava nos ouvidos dela, gritar, segui-la. Aquilo fascinava o pequeno Ishida e a curiosidade que o movia contagiava seus colegas de sala, que seguiam sua liderança.

Entretanto o mundo não era composto apenas por crianças. Sempre haveria adultos por perto, para observar o que tanto elas aprontavam e assim, o bullying que Nishimiya sofria fora descoberto pelos seus mestres. E fora aí que Ishida teve uma ideia de que o tédio não seria mais o seu inimigo número um. Por algum motivo toda a culpa do ato caíra sobre os ombros dele e com uma carga extra, já que agora quem sofria bullying era ele, e de seus próprios amigos.

[ Eu disse que crianças podem ser cruéis.

Logo em tenra idade, serem capazes de mostrar suas outras facetas sem o mínimo de vergonha. ]

Por um tempo, Shouya ignorou a mudança brusca no jogo. Ignorou, os rabiscos em sua mesa, ignorou ser atirado no lago de carpas, ignorou ter seus sapatos furtados, ignorou o fato de ser ignorado por aqueles que, até então eram seus parceiros de brincadeira.

Ele engolira em seco tudo aquilo.

Shouko Nishimiya fora transferida de escola mas seu sofrimento não cessara. Passaram-se anos e ainda assim, aquela cicatriz permanecia aberta em seu peito, o mundo ao seu redor fazia questão de lembrá-lo que ela ainda existia todos os dias.

Do tédio, sua luta passara a ser contra as pessoas ao seu redor. Apenas em casa ele se permitia certa paz, apenas para pensar em um meio de remendar todo o caos que seu eu jovem causara a si próprio e as pessoas ao seu redor. E assim, ele começava mais uma jornada, dessa vez na intenção de reparar seus danos.

Aquilo não era fácil, mesmo depois de crescido, ter de encarar outras pessoas nos olhos o incomodava mais que o tédio. Shouya sentia uma tormenta de emoções corroendo seu ser de dentro para fora. O mundo se tornara adulto e aquilo era difícil de aceitar.

Seu plano não era simples mas acabaria desfazendo todos os nós de sofrimento que havia feito no passado. Agora ele tinha ideia do quão bobo era e que algumas coisas eram complicadas demais de serem desfeitas.

Talvez nem tanto.

Shouya Ishida estava decidido a se desculpar com Nishimiya por todo o mal que causara a ela quando novo e, mesmo que ela não aceitasse suas desculpas, ele o faria para o descargo de sua consciência. Mas sabe, as vezes o destino tem uma forma estranhamente cruel de nos mostrar certas coisas.

O plano de Ishida não saíra como planejado. Não completamente. Ao menos, agora ele conseguira um contato com a garota que não tinha quando novo.

Na determinação de fazer seu plano sair corretamente ele acabara por conseguir a amizade da garota.

E com esse novo contato ele passou a sentir emoções que não se lembrava de já ter sentido. Era irônico como, aos poucos, Nishimiya estava por mudar sua realidade mais uma vez, só que agora ele queria que tudo desse certo e que ninguém saísse ferido desse momento inteiramente novo. Fora difícil de convencer mãe e irmã mas pouco a pouco, Shouya ganhava a atenção da pequena família da garota, com uma conotação positiva dessa vez. Com a presença da rosada ele queria poder fazer mais pelos outros, queria ser prestativo no caminho que escolhera para deixar de remendar suas cicatrizes.

Shouya Ishida nunca imaginou que conseguiria amigos com essa meta em mente, logo ele que evitava a todos sem nem ao menos lhes direcionar o olhar, estava conquistando a atenção de outros alunos, alguns novos e outros velhos rostos conhecidos. Ele tentava não corresponder as tentativas dos outros, no fundo, temendo que tudo aquilo fosse evaporar da noite para o dia. Que tudo seria mentira e ele o idiota mais uma vez.

Acontece que Shouya era um idiota, mas não seus novos amigos. Ele nunca contara de seu passado a ninguém e temia que alguém soubesse de como ele já fora. Que o julgassem novamente.

Entretanto o problema dos segredos é que eles sempre querem ser descobertos, de uma forma ou de outra.

Por um tempo houveram encontros na ponte, pão para alimentar as carpas, risadas, buscas em refazer antigos laços de amizade, bolos, pedidos de desculpa e muitos rostos que Shouya estava se acostumando a ver e reconhecer como próximos. Até a caixa de Pandora ser aberta para ele ter de encarar a realidade mais uma vez, com todos os seus malefícios, mas havia algo de diferente dessa vez, a presença de Nishimiya. Agora que ele a tinha e não estava completamente sozinho.

A presença da rosada era tranquila e oferecia um pouco de paz a mente agitada do pobre rapaz, ele estava mortalmente arrependido do que dissera aquelas pessoas e queria poder se desculpar.

Até a noite de ano novo.

Sabe, as vezes você não consegue entender uma pessoa porque ela não é completamente sincera porém, no caso de Nishimiya, ela queria poder entender os outros ao seu redor mas, no fundo se via como a raiz de todos os problemas. Em sua mente era ela quem causava todos os problemas das outras pessoas. Da expressão taciturna de sua mãe, de sua irmã mais nova ter deixado de ir a escola, de Shouya ter perdido seus amigos.

Um grave acidente ocorrera a Shouya e Shouko, o garoto fora parar no hospital e a rosada acabara com um braço engessado. Ele ficara dormindo por semanas a fio, causando preocupação aqueles que lhe eram próximos, aqueles com quem ele havia se desentendido.

Se segredos querem ser revelados, os desentendidos causados por eles devem ser revistos e alguns, perdoados.

Os colegas que Shouya pensava ter magoado eram fortes e se preocupavam com ele, a sua maneira.

E mais uma vez, tudo ao seu redor mudara, melhorara com a presença de Shouko. Ela trazia esperança a ele, uma promessa de algo positivo e ainda assim, Shouya era incapaz de ver os sentimentos que causava na garota. Talvez, depois de tudo o que causara seus pensamentos se negavam a ver algo tão óbvio.

Shouya tinha Shouko presa ao seu mindinho.

A vida adulta chamava os jovens que estavam por terminar mais um ciclo estudantil, agora todos tinham que decidir que carreira seguiriam, para onde queriam chegar. Ishida não fazia ideia do que queria para o seu futuro mas, desde que ele pudesse estar com aquela garota que não conseguia ouvir as palavras que saíam de sua boca bem, ele tinha certeza de que estaria bem.

Ela decidira ir a Tóquio para fazer um curso com uma renomada cabeleira que, assim como ela, era surda e por mais que ele não houvesse gostado da ideia dela ir sozinha para um lugar tão assustador e grande, agora ele fazia uma pequena mala para ir vê-la.

Ishida podia sentir em seus ossos que algo estava mudando, mais uma vez.

Notas finais
Não sei ao certo como chamar esse tipo de texto, ele se auto escreveu e quando fui lê-lo, descobri que havia narrado a maior parte dos acontecimentos que ocorreram no anime/mangá [SHOOK] mas como ele estava prontinho, resolvi publicar logo de uma vez e não pensar muito. Eu fui completamente cativada pela relação que Shouya e Shouko construíram ao longo da história. Claro, em vários momentos me perguntei se estava mesmo ~tudo bem~ devido a tudo que o Shouya fez com a Shouko mas se vocês vissem o empenho que ele colou em cima disso, em conquistar amizade dela... Meus queridos, Koe no Katachi é lindo! Caso tenham um pouco de tempo para matar recomendo assistirem ao filme e depois, o mangá. E se gostaram desse texto, comentem, eu realmente não sei o que dizer sobre ele, lol. [insira aqui aquele meme do 'AAAAAAAA'] eu não acredito que acabei de estrear uma categoria no Nyah!!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!