Do amor ao oceano
8 Promessas
No dia seguinte,após ter acordado atrasada para mais um dia de serviço,Marinette refletia acerca do que Adrien havia lhe falado,enquanto corria por um atalho na ruas para chegar mais rápido. Seria mesmo possível que ela detivesse tal poder que ele dizia existir?
Se fosse assim,por que ela?
O quanto ele realmente sabia sobre o que estavam falando?
Afinal, todo seu nervosismo não passou despercebido, especialmente quando se mostrou interessado demais em certas coisas.
Parecia querer ocultar algo.
E agora que ela estava com a cabeça no lugar,percebia isso com mais clareza.
Muitas dúvidas rondavam essa história para serem, simplesmente, ignoradas.
Seus passos diminuíram de tamanho conforme se aproximava da enorme porta de vidro translúcido,que se abriu quando o sensor identificou a presença. Passou rápido pelas catracas, encostando o cartão de identificação na lateral, determinada a deixar esta história de lado até,pelo menos, chegar em casa.
O que,para o seu azar, também não viria a acontecer: Assim que marcou sua presença na máquina de ponto biométrico,ouviu vozes no corredor,notando rapidamente a presença de seus amigos na proximidade. Resolveu participar quando percebeu que estavam reunidos, num pequeno círculo, conversando energicamente. Alya e Nino,em específico, pareciam mais agitados que o normal.
— Oi gente! Qual é o assunto? — Chegou próximo,cumprimentando a todos com um aceno,devolvido pelos demais.
— Você não tá sabendo,Marinette? — Nino falava empolgado,tocando seu ombro e trazendo-a mais para perto de todos. — Parece que um dos nossos se recuperou da doença!
— Mari,aquele golfinho que você viu ontem,lembra? Osíris tá salvo! — Alya batia palminhas,comemorando. — Todos os resquícios da doença desapareceram por completo!
— Como é ? — Marinette tentava aparentar surpresa. — Mas vocês não me disseram que a doença não tinha cura?
— Até ontem não tinha mesmo! Mas fizemos uma bateria de exames e o deixamos em observação. Hoje saíram os resultados e ele tá inteirão! — Nino contava.
— Talvez até consigamos devolver ele á natureza em breve! Isso não é ótimo? — Alya passou o braço sobre o ombro da amiga,com um sorriso enorme nos lábios. Marinette acenou positiva,ainda sentindo certa tensão pela situação.
— O que eu não entendo é: Como ele se recuperou assim,da noite pro dia? Pelo último relatório da sua equipe,Alya,ele estava piorando a cada dia que passava… — Mylene falava, coçando o queixo com a ponta dos dedos. — Se for… Será que o sistema imunológico dele reagiu com algo que estava na água?
Marinette engoliu em seco. Mylene era bem mais sagaz do que ela previa. Alya tomou a frente da conversa. — Acho difícil,Mylene! Ele só deve ter um sistema imunológico forte. — Deu de ombros. — De qualquer maneira,agora a gente pode esperar algum resultado decente. Se antes estávamos fazendo um soro pra prevenir os sintomas mais fortes,agora a gente pode tratar direto o problema!
"Soubessem eles que eu causei tudo isso e não teriam a mesma esperança..." — Pensou,meneando a cabeça. Acabou se afastando do grupo depois de alguns minutos,pois aquele assunto parecia se estender por mais tempo que o devido.
Após o correr do dia,que demandou toda a sua energia,voltara para casa,na esperança de descansar um pouco. Recostou-se no sofá,observando teto até sentir o sono chegar aos poucos.
Mas as imagens do dia anterior insistiam em voltar,como um filme,em sua cabeça. Até mesmo as sensações provocadas por Adrien,no momento de sua despedida,faziam questão de refletir em seu corpo.
O calor em sua bochecha parecia dominar todas as memórias,fixando o olhar do tritão em sua mente. Um olhar doce,compreensivo e detentor de um brilho surreal. Algo bonito demais para deixar passar em branco.
Por que estava pensando dessa maneira?
Abriu os olhos novamente. O céu já estava escuro,fazendo-a levantar num salto,descendo apressada para o cais. Com certeza tinha perdido a hora e o deixando esperando.
— Droga… — Praguejou baixo,praticamente pulando lances de escadas para chegar mais rápido. Já o via apoiado em um canto,entediado,olhando para o nada. Fê-lo virar para olhar com apenas uma palavra em um tom mais alto. — Adrien!
O loiro a encarou com uma expressão cansada. — Você demorou… Veio correndo?
— Desculpa,sério... Eu cheguei exausta do trabalho. Só percebi agora o horário. — Ela coçou a nuca,envergonhada. — Preciso te perguntar sobre ontem…
— Tudo bem Marinette,pelo menos você veio. Isso é o que importa. — Ele ofereceu um sorriso agradável. — Pode perguntar!
Ela inspirou,sentando de pernas cruzadas à frente do rapaz. — Por que tudo isso está acontecendo agora? Digo… O que eu tenho a ver com essa história de magia,afinal?
Ele pareceu pensar um pouco. — É raro acontecer algo assim,especialmente com humanos...
— Do que está falando,Adrien?
— Naturalmente,o meu povo detém controle sobre diversos tipos de magia. É o que tem garantido que pudéssemos descer às regiões mais profundas do oceano e desenvolver nações longe de ameaças humanas,por exemplo. Mas,em certas épocas,desde que conheço a história do mundo,alguns nasceram com poderes ainda mais especiais,evento esse que reaparece em ciclos,visando sobreviver no mundo como conhecemos e preservar toda a vida marinha que nos cerca. — Marinette ouvia atenta,com o olhar fixo no rapaz á sua frente. — Por conta de termos uma linhagem hereditária semelhante á sua,partilhamos algumas características comuns e,com isso,possuir um poder como o nosso pode se tornar um acaso valioso.
— E que tipo de poder estamos falando? Você me disse que era algo forte e eu pude provar dele ontem mesmo…
— Marinette, você é portadora de algo maior do que isso. A energia da criação é capaz de muito além do que você pode imaginar. É o poder da vida,da luz,é a força benigna da natureza... Tudo o que você teve acesso ontem,sinto te informar,foi apenas um evento descontrolado. Você tem mais força do que podemos prever... — Ele baixou o rosto,evitando olhar para a mestiça.
O poder da vida... — Sua expressão consternada tornou-se robusta. — E por que tudo isso agora? Por que eu?… E o que você quer dizer com tudo ter sido fruto de um evento descontrolado? — Ela segurou o ombro do tritão de olhos verdes, fazendo-o olhar para si. — Adrien,o que está acontecendo?
Ele estreitou os olhos. — A verdade é que um problema muito grave vem acontecendo há tempos. Tanto no reino de onde venho,quanto aqui, esse desequilíbrio ambiental tem causado uma devastação de proporções absurdas e a natureza,sozinha,não tem dado conta de se regenerar. Também não dá para recuperar tudo com apenas um lado da dualidade Criação — Destruição. — Ele gesticulava,explicando devagar. — Imagino que,para você despertar esse poder só agora,a situação deva estar ainda mais crítica do que era a alguns meses atrás… E,com evento descontrolado,quero dizer que você ainda não sabe controlar seus próprios impulsos,dando margem para que o seu poder se manifeste quando e como bem entender.
— Então,se eu aprender a controlar isso,poderei ajudar a corrigir tudo que está errado por aqui? A doença,as correntes marítimas geladas,o desajuste químico da água… Isso está ao meu alcance?!
— Com certeza. Mas precisa dominar sua energia antes de tentar ajudar,Mari… Do contrário,vai causar um problema ainda pior! — Ela anuiu com a cabeça. — Se quiser,podemos fazer um acordo.
— Em qual tipo de acordo você pensa?
— Eu te ajudo a despertar seu controle consciente mágico e a usá-lo do jeito certo. Em troca,você me ensina algo …
Oh,isso é interessante. — Ela riu baixo. — E o que você quer aprender,Adrien?
— Quero aprender a andar… — Ele desviou o olhar da mulher,que parecia surpresa com a afirmação. — Sei que disse há algumas semanas que não podia conhecer a sua casa porque não tinha pernas,mas eu não lhe contei tudo,My Lady… A verdade é que existe um jeito de eu ficar idêntico a qualquer humano e transitar em terra,mas não consigo fazer isso sozinho… E eu gostaria de conhecer o mundo onde você vive…- Sua voz se tornou emotiva e baixa. — Você...Poderia me ajudar?
Ela sorriu,compreensiva. — É claro que posso,Adrien! E tenho certeza de que você vai gostar de conhecer pessoalmente a cidade,ainda mais daqui algumas semanas...
— O que acontece daqui algumas semanas,Marinette?
— Surpresa,você só vai descobrir quando puder caminhar… — Ela piscou marota,fazendo-o tombar a cabeça para o lado,curioso. — Mas prometo que vai ser o melhor dia da sua vida!
— Isso parece bom! Eu vou esperar ansioso! — Sorriu largamente,como uma criança feliz. — Também há um lugar que eu gostaria que você fosse conhecer. Se você quiser,claro… — Se aproximou do rosto dela. — É tão belo quanto M'lady consegue ser...
Ela corou bruscamente. Era a primeira vez que ouvia Adrien chamando-a assim. — Ahn,obrigada… Eu… Acho que gostaria de conhecer sim. Mas creio que seja algo embaixo da água,certo?… Devo trazer meu equipamento de mergulho? — Ela riu,nervosa.
— Não será necessário. Vou preparar tudo para que não fique preocupada com esses detalhes. E tenho certeza que você não vai se arrepender!
— Bem,se você diz... Fique sabendo que adoro surpresas! — Disse,causando um riso descontraído no tritão.
Ele segurou sua mão,dando um beijo nas costas da mesma. — Bom saber,My Lady! Quem sabe você não tenha uma boa surpresa algum dia ?...
Ela retraiu a mão,um pouco envergonhada. — É,acho que sim… — Ela levantou rápida,evitando contato visual direto. — Eu preciso ir,Adrien... A gente se vê amanhã!
Ele concordou rápido,vendo-a se afastar até a residência,fechando a entrada de vidro antes de desaparecer na escuridão do lugar. Repuxou os braços para dentro d'água,irritadiço. — Não devia ter sido tão direto… Que droga,Adrien,você só faz besteira… — Baixou a cabeça,as mãos apoiadas nas têmporas. Faíscas negras rodeavam o seu corpo,escurecendo o local onde estava. Pela primeira vez em semanas temia que ela não voltasse no dia seguinte. E tudo por culpa sua,já que devia tê-la assustado.
O medo da rejeição tomou sua cabeça transtornada,eletrificando a água até que,em um pulso único,uma onda de destruição irradiou pela água,matando alguns peixes no local e os fazendo boiar.
A água havia adquirido o mesmo aspecto gélido de semanas atrás. Ondas agitadas começavam a se formar sob a superfície,remexendo a calmaria de instantes atrás.
Seus olhos abdicaram da coloração verde,tornando-se inteiramente negros.
Estava saindo do controle novamente,afundando devagar,enquanto todo o ambiente marinho se transformava em um deserto de morte e escuridão.
Não,ele não podia perder mais ninguém...
"A gente se vê amanhã! "
Fechou-os com força,se concentrando na voz que repetia essa frase. Sentiu sua energia se acalmar,devagar,reduzindo a intensidade.
" Eu sempre mantenho minha palavra…"
Ela não mentiria assim. Ela confiava nele e ele devia confiar nela.
Abriu novamente os olhos,já de volta á sua cor original. Estava frustrado por perder o controle de forma tão banal.
E,pela primeira vez em tempos, sentiu-se frágil,á mercê de seu próprio controle.
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